quinta-feira, 31 de julho de 2008

Eleições Norte-Americanas X


Seis boas notícias para John McCain: recuperação em Montana, no Mississippi e no Ohio, permanência das distâncias no Kentucky, no Texas e no Nebraska.

Golpe?

É impressão minha, ou a Assembleia da República está a tentar limitar os poderes do Presidente da República por outra via que não pela Constituição propriamente dita?

Segundo percebi, a Assembleia pretende obrigar o Presidente a ouvir mais um batatal de gente antes de dissolver a Assembleia Regional dos Açores.

Aberto o precedente, imagine-se que a Assembleia da República decide, pela mesma via legislativa, que o Presidente da República só poderá dissolver a Assembleia da República após audição de todos os Presidentes de Junta de Freguesia ...

É o que está em jogo, ou é impressão minha?

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Altamente inflamável



N
o Telejornal de hoje da RTP1, as luminárias de serviço "informaram" que, um dos camiões acidentados em Vilar Formoso "transportava nitrogénio, uma substância altamente inflamável".

O (ou a) "jornalista" que debitou a prosa deve pensar que nitrogénio e nitroglicerina são a mesma coisa ou coisas parecidas.

E não se lhes poderá despejar azoto líquido pelos cornos abaixo?

Viragem à direita - mais tarde ou mais cedo


Ehud Olmert anunciou que não se vai candidatar à presidência do Kadima, deixando o caminho livre para Tzipi Livni (actual Ministra dos Negócios Estrangeiros, entre outros cargos) e para Shaul Mofaz (actual Ministro dos Transportes). Um deles será, se existir normalidade, o próximo Primeiro-Ministro de Israel.

Porém é Benjamin Netanyahu, líder do Likud, que comanda nas sondagens, com sólida vantagem sobre o Labour e sobre o Kadima. Não se avizinha uma passagem de testemunho sem tumultos, como certamente desejará Ehud Olmert. Não por causa de interesses pessoais (relembrar as críticas da direita e da extrema-direita, a alegada corrupção e a doença, que contribuíram, e muito, para a má imagem de Olmert) mas porque convém, ao Kadima, que a passagem seja tranquila.

As eleições estão originalmente marcadas para 2010, mas já são muitas as vozes que exigem eleições antecipadas. À direita e à esquerda. Benjamin Netanyahu já puxou a brasa à sua sardinha, exigindo eleições antecipadas porque o governo de Olmert "já não tem credibilidade junto dos Israelitas". Se a normalidade imperar, é normal que a transmissão de poderes ocorra sem qualquer tipo de problemas. Mas se esta não imperar, por força da pressão da opinião pública e de praticamente todos os partidos políticos, poderão ocorrer eleições antecipadas.

A maioria dos Israelitas tem estado de costas voltadas para o executivo de Olmert. Não só pelo escândalo de corrupção que afectou Ehud, mas essencialmente pelo rumo tomado na resolução do conflito Israelo-Palestiniano, pela "derrota" na Guerra do Líbano, pelas negociações que poderão levar a "penosas concessões" aos Sírios e pela cada vez maior ameaça Iraniana. Olmert é, já de algum tempo para trás, um líder sem apoio. E, especialmente em Israel, é preciso um líder com carisma, com entusiasmo e que reúna os apoios e as paixões da população. Israel é e sempre será um país com necessidade de liderança.

O curioso, nestas eleições para o Kadima, é o ministro dos Transportes. Mofaz nasceu em Teerão, já foi 16º chefe do estado-maior e ministro da Defesa de 2002 a 2006. É um ministro considerado pela AFP como sendo "da ala dura". Mofaz foi contra o processo de Oslo, defende um ataque ao Irão caso estes prossigam com o plano nuclear e é um militar bastante respeitado em Israel, tendo combatido nas mais importantes guerras do Estado Hebraico.

A viragem na política Israelita parece estar ali tão perto, curiosamente junto de um Israelita nascido no Irão. A favorita é claramente Livni, sem sombra para dúvidas. Mas a viragem à direita ocorrerá mais dia menos dia: seja com Mofaz seja com Netanyahu.

É tudo uma questão de tempo. Veremos o que fará o sucessor de Olmert, que não poderá desprezar o sentimento Israelita vigente de menos concessões e mais garantias. Os Montes Golan, os colonatos, as fronteiras e, essencialmente, a questão de Jerusalém, são temas fulcrais mas que têm a tendência de se tornar cada vez mais difíceis de resolver. Ir contra o sentimento dos Israelitas é dar a vitória a Netanyahu. E, quando isso acontecer, o Médio Oriente voltará a aquecer.

Eça e a pesca à linha

A propósito deste poste sobre "Um violino no telhado", um dos mais fanatizados teóricos da conspiração da blogosfera nacional, aterrou aqui , com o mais recente produto da pesca à linha que usa para justificar e racionalizar a sua doentia paranóia: um excerto de um texto de Eça de Queirós em que, acredita o escriba, o famoso escritor carimba a tese da conspiração judaica.

A falácia é conhecida: acredita-se em algo e, para justificar a "racionalidade" da crença, o crente esfalfa-se numa contínua busca por frases e textos que, a seu ver, "demonstram" que tem razão e que não é doido.
Aproveita apenas o que lhe interessa, e ignora olimpicamente tudo o que desmente a sua "tese". Daí a falácia.

Um exemplo:
Na frase, "Nossa Senhora apareceu numa azinheira, garante um louco que andava no local", o crente usará apenas a 1ª parte da frase para justificar que "é verdade".
A parte do louco, não lhe interessa e por isso corta-a cerce.

O texto de Eça, de que o nosso comentador paranóico transcreveu uma pequena parte, além de conter inúmeros conceitos que nos revelam o que o autor efectivamente pensa do asssunto, e pelos quais o escriba Diogo, curiosamente passou como por vinha vindimada, não acaba ali.

Prossegue com este trecho que resume tudo e explica porque razão houve, há e sempre haverá tantos diogos neste mundo, turbas completamente imbecilizadas, que necessitam de narrativas simplificadoras e acreditam saber o que mais ninguém sabe.

"Na Meia Idade, todas as vezes que o excesso dos males públicos, a peste ou a fome desesperava as populações; todas as vezes que o homem escravizado, esmagado e explorado mostrava sinais de revolta, a Igreja e o príncipe apressavam-se a dizer-lhe: «Bem vemos, tu sofres! Mas a culpa é tua. E que o judeu matou Nosso Senhor e tu ainda não castigaste suficientemente o judeu.»

A populaça então atirava-se aos judeus: degolava, assava, esquartejava, fazia-se uma grande orgia de suplícios; depois, saciada, a turba reentrava na treva da sua miséria a esperar a recompensa do Senhor.
Isto nunca falhava. Sempre que a Igreja, que a feudalidade, se sentia ameaçada por uma plebe desesperada de canga dolorosa – desviava o golpe de si e dirigia-o contra o judeu.
Quando a besta popular mostrava sede de sangue –servia-se à canalha sangue israelita.[...]
Portanto, à falta de uma guerra, o príncipe de Bismarck distrai a atenção do alemão esfomeado – apontando-lhe para o judeu enriquecido. Não alude naturalmente à morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas fala nos milhões do judeu e no poder da sinagoga. "

terça-feira, 29 de julho de 2008

Um violino no telhado

Tinha visto o filme , na década de 70 e dele apenas me tinham ficado flashes, como o leiteiro barbudo que cantava "If I were a richman", as filhas bonitas e a maldade do Czar. O contexto e a história já se tinham perdido nas brumas da memória.
De passagem pelo Porto, fui ao Rivoli ver o musical de Filipe La Féria.
Falar da qualidade do espectáculo, da magnífica performance dos actores, é uma redundância, quando antes já se falou de La Féria.
É a norma dos espectáculos que encena, pelo que à perfeição nada há a acrescentar. Bem andou Rui Rio ao correr com os gangues de esquerdistas analfabrutos que se masturbavam intelectualmente naquele espaço, à conta do erário público.

Mas ao rever a história, percebi a razão pela qual ela não me tinha saído da memória.
Está lá tudo!
Uma comunidade de judeus que vivem do seu trabalho, numa aldeia russa sobre a qual pende sempre a sombra do poder do Czar.
É gente que, sustentada pela tradição milenar da cultura judaica, vive e sobrevive encarando o "estado" como um poder que nada de agradável lhe poderá trazer e que é bom que se mantenha o mais longe possível.
Está organizada de acordo com os princípios da divisão do trabalho... um produz e vende leite, outro é alfaiate, outro é talhante, enfim, todos dependem de todos e trocam bens e serviços entre eles e com o exterior.
O dinheiro (ou a falta dele), é uma obsessão constante. A outra é o futuro dos filhos.
Está lá o medo do pogrom e o desejo milenar de encontrar uma terra segura, Jerusalém ou a América.
Estão lá também os ecos de revoluções longínquas cujos estilhaços chegarão à aldeia de Anatevka, sob a forma de um pogrom que desfaz a comunidade, e a dispersa por um mundo hostil, metáfora crua da diáspora judaica.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Então Sr. Primeiro Ministro, e os direitos dos gatos?

Acuda-nos, Sr. Primeiro Ministro. Acuda-nos.

Que um homem mate a esposa por causa de um filho, tem pouca gravidade. É coisa apenas pré-moderna.

Que um homem mate a esposa porque (ele) apanhou uma bezana, é de pouca monta, coisa bastante pré-moderna.

Que um homem de "raça" preta, ou muçulmano, mate a esposa porque lhe apetece, enfim, é coisa de mau gosto apenas para nós brancos racistas, assunto de faca e alguidar para culturas alternativas.

Que um homem mate uma qualquer gaja casada, mãe de 3 filhos menores, só pode ser uma vã tentativa de afirmação daquilo que qualquer homem pós-moderno sabe: os filhos são, no matrimónio, coisa insignificante.

Que um homem mate uma mãe solteira, já é caso de bradar. Ao fim e ao cabo, trata-se-á de de um vil ataque à instituição monoparental e ao pós-modernismo em geral.

Que um homem mate um homosexual, é absolutamente imperdoável porque abate um militante que bem poderia vir a dinamizar a discussão à volta da adopção por homosexuais. É um gravíssimo ataque ao pós-modernismo.

Que um homem mate por engano, uma mulher, falhando o alvo pretendido, um homosexual, é de bradar aos céus por se ter dado a hipótese de ter atingido um insigne símbolo do pós-modernismo.

Agora, que um homem mate um homosexual por tentar sodomizar um gato (uma gata seria coisa menos rebarbativa), é de gravidade extrema. É tanto mais grave se se perceber que o gato não apresentou queixa e poderia até estar empenhadíssimo na relação. É tão grave que é capaz de abalar todo o edifício do pós-modernismo segundo o Nosso Insigne Primeiro Ministro (por quem soizes) e atirar a toda nossa civilização à época em que se queimavam gatos apenas por desenvolveram electricidade estática na pelagem.

Acuda-nos Sr Primeiro Ministro. Acuda-nos.

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domingo, 27 de julho de 2008

A esquerda Portuguesa e o capitalismo


A esquerda tonteante nacional bate, com frequência, no capitalismo. Os Estados Unidos para aqui e para ali, os Ingleses que vão atrás, a União Europeia que cede a olhos vistos. Em matéria económica, o estado do país só se deve a uma coisa: ao capitalismo. Não se deve à má gestão orçamental que abalou o país durante anos, às mãos do estado praticamente presentes em tudo quanto é economia, à corrupção existente e implantada na sociedade Portuguesa, à falta de empreendorismo dos empresários, à falta de mão-de-obra capacitada e qualificada ou à falta de competitividade entre empresas.

É verdade, meus amigos, que a "crise" que atravessamos, que nos toca a nós especialmente, contribui para o problema económico que atravessamos. Mas não vale a pena atiçar pragas ao neoliberalismo: ele veio para ficar e isso é uma consequência directa das evoluções políticas que têm existido nos últimos anos. Não é unica e exclusivamente porque as transnacionais, os Estados Unidos da América ou, mais recentemente, como dizem, a União Europeia, querem e ditam.

Os estados têm cada vez menos poder e apenas têm tendência a perdê-lo. Remar contra a maré, exigindo que o Estado seja mais interventivo, é de quem não sabe do que está a falar. Que se exija que o estado seja mais interventivo a nível social, ainda vá lá que não vá, agora a nível económico? Para quê? Para as empresas fugirem a sete pés e montarem estaminé na Bulgária?

É descabido propor-se isto. É descabido não se aceitar o neoliberalismo. É descabido a extrema-esquerda continuar agarrada aos livros do velho das barbas. Mas não é descabido dizer-se que algumas coisas estão mal. Que algumas coisas estão erradas. Que algumas coisas precisam de ser mudadas. Isso não é descabido: é uma opinião absolutamente válida embora eu não concorde, na generalidade, com ela.

Um dos mais importantes pilares do capitalismo (ou neoliberalismo, whatever) é a concorrência. Este é, talvez, um dos mais importantes problemas de Portugal: porque nós sofremos de falta de concorrência em vários sectores. Especialmente em sectores-chave como o das telecomunicações, o das águas, o das electricidades. As coisas têm vindo a atenuar-se, com as apostas de algumas empresas privadas em território nacional mas, infelizmente, não cobrem todo o país. Já para não falar do problema que enfrentam em conseguir ultrapassar as empresas que, durante anos, se estabeleceram e se habituaram a mamar porque não existia quem servisse de alternativa.

Sem nunca esquecer, também, que para se aderir a outro serviço, para se querer outra coisa, obstáculos burocráticos não faltam, despesas de adesão idem, investimento necessita-se. E o médio Português não está, nesta altura, para investimentos.

Mas os monopólios Portugueses (nalguns deles o Estado ainda tem forte influência) não surgiram, como muitas vezes a esquerda tenta fazer parecer, do capitalismo e da luta de pequenos contra grandes. Eles já vêm de há muitos anos atrás, ainda o capitalismo estava arrumado na gaveta.

O problema que afecta Portugal é, para mim, muito mais interno do que externo. Sempre o foi. Não vale a pena venderem-nos carne por peixe, ou vice-versa.

Mas a culpa não é só do Primeiro-Ministro. Aliás, grande culpa não é dele. O problema que atravessamos, e que já se fez sentir noutros pontos fulcrais da nossa História, é um problema de mentalidades.

Não exijo que Portugal se torne numa potência, como o foi no passado. Mas certamente poderíamos estar bem melhor.

Por força da já adiantada hora e do meu conhecimento limitado na área da economia, este sim, cara ml, justificado pela idade, continuaremos mais tarde, se quiserem.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Aceitam-se apostas


Em Janeiro deste ano a Bulgária reformou o seu sistema fiscal e adoptou uma “flat tax”, como vem sendo prática corrente nos antigos países comunistas da Europa de leste. Tanto o IRS como o IRC passaram a ser 10%, sem escalões ou progressividade de qualquer espécie. Os ricos pagam o mesmo que os pobres. “As desigualdades vão aumentar”, assegura o deputado socialista Georgi Bliznashki, e será seguramente verdade.

Não compreendo estes búlgaros. Como eles muito bem sabem, muito mais justa, avançada e progressista é a receita socialista de manter toda a gente igualmente pobre (menos os que são mais iguais que os outros, já se sabe).

Enquanto o mundo muda e avança, por cá tudo na mesma. Para quando Portugal na cauda dos 27? Aceitam-se apostas. Eu digo 10 anos.

Quinta da Fonte na Noruega?

Depois da Quinta da Fonte, mais um episódio da luta de classes, ou do racismo, ou da injustiça do capitalismo, ou o que quiserem chamar-lhe, desta vez na Noruega.

23 wounded in Norway refugee centre attack

Parece que os equivalentes do SOS Racismo lá da Noruega, também não sabem que hão-de dizer, porque a vulgata não tem instruções específicas.
É que aquilo foi entre chechenos e curdos, ou seja, islamismos e essas coisas da religião da paz.
A vulgata só tem slogans para situações em que tipos brancos e com botas Doc Martens, resolvem mostrar a careca.
Fora desse "contexto", ficam os "activistas" sem actividade cerebral e gestual digna de relevo.
De qualquer modo estamos em condições de ensinar aos noruegueses como se resolve o problema: basta mandar para lá como assessora a inefável governadora civil de Lisboa, para promover procissões inter-religiosas, pintar murais "pela paz" e fazer marchas "pela paz" com roupas brancas, lírios nas mãos e cânticos celestiais.
O resultado é garantido e até pode ser melhorado, pelo menos na cabeça da senhora, com umas largadas de balões brancos e, se for necessária a artilharia, umas revoadas de pombas brancas "da paz", com o Padre Melícias como brinde.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Eleições Norte-Americanas IX


Não nos desviemos, caro Sérgio, do assunto principal. E esse assunto é, para mim, debater quem é o melhor candidato para a Presidência dos Estados Unidos da América. Gostaria, aliás, de lançar um desafio a todos os leitores do blog, contribuintes incluídos. O que acham que está em jogo nesta eleição (especialmente para a Europa mas também para o Mundo)? Em quem votariam? Quem acham que vai ganhar?

Neste meu artigo, escrito depois desta discussão (creio que ainda a decorrer), irei tentar responder a estas mesmas perguntas.

Já todos se aperceberam que votaria em McCain. Votaria em McCain porque, em primeiro lugar, este me oferece mais credenciais, mais experiência, menos surpresa.

Sydney, como anseia o Sérgio que lhe chame, já tem largas décadas de experiência no senado, pelo Estado do Arizona. Ao invés, Hussein é um amador por aquelas bandas. Para além disso, tem larga experiência em palcos de Guerra, tendo sido, inclusive, Prisioneiro de Guerra durante a Guerra do Vietname. Visita regularmente os interesses dos Estados Unidos um pouco por todo o Mundo, ultimamente com especial foco no Iraque e no Afeganistão. Sabe o que lá se passa, o que pretende fazer e como pretende fazer (não só no Médio Oriente, mas também no Mundo). Como ele próprio diz: "I know who i am, and what i want to do".

Eu também sei o que ele tenciona fazer e como o vai fazer se for eleito: porque ele o diz. Sydney não tem medo de dizer o que pensa, não se esconde atrás dos "hopes" e dos "changes" de Obama. Explica e explicou o que quer em termos de economia, segurança, relações bilaterais, energia, ambiente. Tudo preto no branco: sem "hopes", sem "changes".

Em segundo lugar, votaria em McCain por causa do seu oponente. Barack Obama defende a retirada do Iraque (agora em 18 meses), defende o aumento das taxas alfandegárias, defende o aumento da carga fiscal, defende a reestruturação da NAFTA, defende uma política de combate à imigração ilegal fraca, defende a não exploração do petróleo Americano. Ao invés, McCain defende uma retirada do Iraque de acordo com aquilo que se passa no país (se for preciso, daqui a 100 anos), defende a manutenção das taxas alfandegárias no valor actual, defende a redução (se possível) da carga fiscal, defende a NAFTA, defende um combate à imigração ilegal combinado com a legalização de imigrantes ilegais já presentes no país, defende a exploração do petróleo Americano, para tornar o país menos dependente do exterior.

Barack Obama é, como os Norte-Americanos dizem, um flip-flopper. Mudou de opinião várias vezes durante esta campanha, de acordo com a força que soprava o vento. Primariamente defendeu a retirada integral do Iraque - Agora defende o diálogo com os oficiais e a retirada possível em 18 meses; Defendeu Jerusalém como capital indivisível de Israel - Agora diz que serão os Israelitas e os Palestinianos a decidir; Afirmou que iria aceitar o financiamento público para a campanha - Agora rejeitou-o;.

Barack Obama defende o diálogo "agressivo" com o Irão, com o Hezbollah, com os terroristas. Eu sou contra. Para mim, não há negociação possível: ou eles fazem o que queremos, ou arriscam-se a ter problemas. Esta é, também, a visão de McCain.

Barack Obama não apresenta políticas concretas para a América, para o Mundo, para o combate ao terrorismo, para a energia. John McCain quer uma América forte, um Ocidente forte e unido no combate aos seus maiores inimigos que são, para quem não sabe, o terrorismo, a opressão e o proteccionismo. Não descarta operações militares, não mente, não é oportunista, não nos vende ilusões.

John McCain é contra a tortura. John McCain tem um verdadeiro plano a favor do ambiente que, surpreendentemente, não tem publicidade nenhuma entre os ambientalistas. McCain defende a redução na emissão de CO2 e a aposta no etanol.

O que defende Obama? Alguém sabe? Alguém ouviu?

Estas eleições têm uma importância muito grande no futuro do Globo e na evolução ou não dos Direitos Humanos, da democracia, da Globalização, da Liberdade e de todos os outros valores ocidentais. A escolha é entre um candidato que se diz apostado em mudar, sem se saber bem o quê, e outro candidato que se diz apostado em valorizar o Ocidente, e os Estados Unidos em particular, para transformar o Mundo num Mundo melhor. Um quer negociar com os maus da fita, outro quer fazer os maus verem que estão errados e que nós é que estamos certos.

Precisamos de um Presidente dos Estados Unidos que tenha força para tomar decisões difíceis mesmo que nós, mais uma vez, nos decidamos acobardar e esconder na nossa toca, bem defendida pela NATO. Precisamos de um Presidente dos Estados Unidos que se consiga impor e que seja competente. Precisamos de uns Estados Unidos economicamente fortes, face à ameaça Chinesa. Precisamos de uns Estados Unidos apostados no mercado com a Europa, nas relações com a Europa, no entendimento com a Europa. Se esta quiser, claro.

Não sei quem vai ganhar. Reconheço que as coisas estão do lado de Obama e este é quem tem toda a responsabilidade de ganhar, depois de dois mandatos Republicanos tão mal-amados pelos Norte-Americanos. As coisas estão, a meu ver, muito empatadas, com vantagem, no entanto, para Obama.

Os indecisos desempenharão um factor chave nestas eleições. Eles vão decidir qual vai ser o próximo Presidente dos Estados Unidos. Convém frisar que eles ainda representam 15% dos eleitores.

Viriato e o vácuo.

ACTUALIZADO

Acabei de ver Viriato Soromelho Marques, na RTP2, a falar sobre Obama na perspectiva dos desafios do futuro e aquecimento global "alterações" climáticas.

Viriato é o máximo: acha que conseguiu encher um balão de vácuo em apenas 15 minutos.
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Eleições Norte-Americanas VIII

O Messias anda hoje por terras de Otto von Bismarck. Porém, nem tudo correu como planeado para o candidato Democrata: foi-lhe recusado o discurso no portão de Brandemburgo, um dos mais conhecidos símbolos da Guerra-Fria e onde já discursou, entre outros, Ronald Reagan. No entanto, Barack Obama encontrou, desde logo, uma alternativa: a Coluna da Vitória, no parque Tiergarten.

Não por isso se retirou o ânimo aos muitos admiradores de Obama na Europa que esperam, para hoje, um grande discurso de Barack Obama sobre as relações transatlânticas. A própria imprensa já especula que o discurso irá ser "fantástico" e que irão estar no parque Tiergarten milhares de pessoas. Para aqueles que não conseguíram deslocar-se ao parque, o discurso passará em directo em algumas estações de televisão Alemãs.

Uma sondagem, revelada há dias, diz que 76% dos Alemães votariam em Obama caso fossem Norte-Americanos. Apenas 10% dos inquiridos afirmou que votaria em John McCain.

A Europa anda profundamente iludida, seduzida e afectada pela febre Obama e pelo anti-Americanismo convulso. Os amores por Obama estão, entre outras coisas, relacionados com o sentimento fortemente anti-Americano na Europa, pela descrença nos valores que hoje nos guiam, pela retórica populisto-demagoga do candidato, pelo facto de pertencer a uma minoria, pelo facto de não ser Republicano, porque Bush o é.

A deficitária (em qualidade, diga-se) cobertura às eleições Norte-Americanas, nomeadamente às políticas defendidas pelos dois principais candidatos, canalizou a popularidade de Obama para níveis estratosféricos um pouco por todo o Mundo. No entanto, basta uma análise razoável para se descobrir que o Barack Obama que nos aparece todos os dias nas televisões nacionais é substancialmente diferente do verdadeiro.

Barack Obama já passou à acção. Mas as televisões ainda continuam nas primárias, onde o candidato Democrata apenas falava de "Hope", "Change" entre outras coisas do género. Agora que as coisas começam a ficar mais sérias, Barack Obama revelou-se tudo menos aquilo que a comunicação social estava à espera: já afirmou que Jerusalém deve permanecer capital indivisível de Israel, já afirmou que afinal é para continuar no Iraque por mais 18 meses, já afirmou que é preciso endurecer a Guerra contra os Talibans, no Afeganistão, reforçando o contingente Norte-Americano.

A mudança parece estar afinal mais díficil. Obama continua a alimentar a propaganda da mudança mas, ao mesmo tempo, começa a jogar no campo do razoável. Inflectiu substancialmente ao centro, tentando ir buscar os votos de Hillary. Mas Obama corre muitos riscos nesta sua jogada: pode perder os eleitores da mudança, os liberais mais convictos, pode desiludir o Mundo.

Pode, também, perder o apoio da comunicação social (algo muito difícil, porque McCain é um monstro). E é esta que, segundo os próprios Norte-Americanos, tem levado o fenómeno Obama um pouco por toda a parte: 60% dos Norte-Americanos diz que a imprensa está a beneficiar claramente Obama em detrimento de McCain. Apenas 10% diz o contrário.

Passando a sondagens, as coisas continuam muito na mesma: corrida muito renhida, com empates técnicos em estados muito importantes. Ohio deu um salto significativo para o lado de McCain mas, ao mesmo tempo, Obama aproximou-se de McCain na Flórida. A nível nacional, McCain é visto cada vez mais de forma apreciativa (cerca de 60%) e Obama tido cada vez mais com candidato inexperiente para ser Presidente (45-50%).

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Boas Intenções II

Não podia concordar mais consigo. Mas parece me que para lá das boas intenções há o velhíssimo espírito cristão. E o apelo de um crente para prostrar a sociedade a um ideário escasso de substancia. Os vencidos e os vencedores, os cumpridores e os criminosos, os felizes e os miseráveis todos com a fronteira traçada ali pelo meridiano materialista. De todos os ideais, o de fazer o povo feliz é talvez o mais perigoso. Está aberto a todas as abstracções. Leva ao utopismo e ao romantismo – e no fim da linha entra nos pela casa adentro para nos confiscar a liberdade e a vida. Sentem-se certos de que ninguém deixaria de ser feliz na bela e perfeita comunidade dos seus sonhos. Sejam quais forem os critérios. Seja a que preço. Qualquer leitura reduzida e subjectiva que ambiciona a arena politica confere ao bom senso, à moralidade publica, ao bom e ao mau, um valor táctico quando não a rejeita sem qualquer hesitação para dar lugar a outra. Acolhe mal algo humanamente inesgotável: o erro, a dúvida, a falibilidade, o infortúnio – enfim, as limitações e contingências de uma determinada sociedade política. Não há perfeição humana e não há receitas à priori. No fundo eles crêem que vêem a sociedade a partir do Olimpo.

Boas intenções

Acho que não restam quaisquer dúvidas que o Rui Tavares tem boas intenções. Ele vê um problema e acredita sinceramente que políticas bem-intencionadas e (muito importante) postas em execução por gente igualmente bem-intencionada, gente que, obviamente, terá de ser seleccionada também por outra gente bem-intencionada, and so on, são a solução para o problema da habitação em Lisboa. Na verdade para todos os outros problemas, mas este é agora o que está na berlinda.

A fé é uma dádiva divina e eu lamento não ter a visão rousseauniana do homem que o Rui Tavares parece ter (mas só relativamente a certos homens, porque há outros que, para o RT, são demónios hobbesianos...basicamente os que andam à procura dos seus interesses e esses interessse passam por obter lucros).
Eu sou um desses homens maus, um tipo malévolo que assume de caras que procura maximimizar o prazer e minimizar a dor. Enfim, um kirkgaardiano habitante do mundo estético, a milhas do mundo ético onde acreditam viver os RT deste mundo, depois de terem satisfeito as suas mais prosaicas necessidades básicas

Mas, e porque a conversa é sobre boas intenções, nada como deixar aqui uma frase de Milton Friedman, o tenebroso Chicago Boy, cujas conselhos económicos transformaram o Chile no país mais miserável da América Latina:

As repetidas falhas sofridas pelos programas bem-intencinonados não são acidentais. Não se trata, pura e simplesmente de resultados de erros de execução. Essas falhas encontram-se profundamente enraizadas na utilização de meios errados para se alcançarem objectivos certos” (Free to choose).

Complementada por outra de J. F. Revel :

O socialismo real distinguiu-se do fascismo e do nacional-socialismo, porque fez o mal em nome do bem” (A Grande Parada).

Ou, simplificando, esta outra de autor anónimo:

"De boas intenções está o Inferno cheio"

O benemérito



Chavez pede à Rússia para instalar na Venezuela mísseis que permitam defender as FARC da nefasta influência dos reféns.


Ah, grande moço forcado.


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Entretanto, a esquerda continua embasbacada face aos desenvolvimentos Quinta da Fonte.

Parece que o amanhã vai cantando ao arrepio das suas tiradas pós-modernas.

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terça-feira, 22 de julho de 2008

A "Europa", as melgas e a parvoice total

Alguém me é capaz de explicar porque estará Durão Barroso contente com a captura de Karadžić que, segundo ele, seria o obstáculo final à entrada da Sérvia na comunidade europeia?

Não seria suposto estar o inefável presidente da comissão preocupado pelo desinteresse do povo sérvio nessa captura?

Mais um "gigantesco" passo em frente?

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Na PJ continua larvar a história dos "vestígios" de sangue no malfadado apartamento do Algarve. Será que nunca um inspector, em acto de pura vingança, esborrachou, à palmada, uma melga de papo cheio de sangue fresco?

Por mim é quase todos os dias. Ainda a lostra não acabou de ecoar e já oiço: vai buscar um trapo e limpa já essa traaampa.

Pois. Os ingleses devem andar à nora.

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Chavez y sus amigos

Chavez vem à Europa, numa visita triunfal, depois de mais umas ameaças histriónicas à União Europeia.
Apenas 4 países irão estender a passadeira vermelha ao cretino do "socialismo do séc XXI".

A Rússia do inenarrável Putin e dos métodos radioactivos para calar adversários, a Bielorússia, o último bastião do estalinismo no velho continente, a Espanha zapateiral que é hoje vista como uma anedota na Europa e ...Portugal.

Pela mão senil e caquética de Mário Soares, a quem os contribuintes financiam as inacreditáveis "entrevistas" a alguns dinossauros latino-americanos e que a RTP-1 usa vergonhsamente para poluir algumas das noites televisivas.

Nos últimos tempos, damo-nos sobretudo com o lixo, desde o Mugabe ao Bashir a quem prodigalizamos atenções e sabujices. Chegámos até ao cúmulo de instalar uma caravana de cameleiros no Forte de São Julião da Barra.
Sócrates viaja para a China, corre junto ao Kremlin, abraça José Eduardo dos Santos, abana o rabo frente a Chavez , etc.
Tudo menos o Dalai Lama, esse perigoso torcionário.
Na mesma linha, melhor só o Zapatero que convive descontraidamente com toda a escumalha do mundo, mas se recusou a apertar a mão a outro monstruoso ser: o Papa.

Vamos bien, como diria Fidel, em cujos braços, todas estas luminárias estão prontas a cair.

Hezbolah e Israel

Na década de 80, quando o poder da URSS parecia formidável, eu, então jovem tenente, frequentei no Regimento de Comandos um curso de Patrulhas de Reconhecimento de Longo Raio de Acção.
Tratava-se de um curso alemão, cujo conceito era simples:
-Na eventualidade de uma cavalgada blindada do Pacto de Varsóvia em direcção a ocidente, assumia-se que não era possível, face ao potencial relativo de combate, conduzir com sucesso uma defesa avançada, optando-se então por ceder terreno e defender em profundidade, numa malha de pontos fortes (povoações e zonas defensáveis) que canalizassem e abrandassem as colunas blindadas, desgastando-as e obrigando-as a desenvolver de forma a possibilitar contra-ataques pela manobra e pelos fogos.
Para trás das linhas inimigas, escondidas em shelters subterrâneos, ficariam numerosas equipas de 4 ou 5 homens, cuja missão principal era observar e reportar os movimentos soviéticos, podendo também conduzir acções directas, à ordem ou em alvos de oportunidade que não pusessem em causa a missão principal.
O curso era ministrado a tropas especiais alemãs e da NATO, e incidia essencialmente na capacidade de sobrevivência (as equipas estavam entregues a si mesmas, fora do alcance da cadeia logística), na camuflagem, no apurado reconhecimento visual de todo o equipamento do Pacto de Varsóvia e, acima de tudo, na capacidade de agir sem ordens específicas, face a situações inopinadas, mas dentro do conceito geral de operação.

A doutrina militar soviética (e de todos os exércitos que a copiavam) assentava no princípio da massa, e o calcanhar de Aquiles da sua máquina militar era a rígida organização vertical, que retirava toda a iniciativa aos baixos escalões e exigia a constante injecção de ordens vindas dos centros de decisão.
Este sistema assegurava a obediência total das tropas e o cumprimento rígido dos planos de operações, mas impedia a flexibilidade necessária para reagir imediatamente a quaisquer alterações no campo de batalha, porque a maioria dos combatentes não tinha uma ideia do conceito da manobra, e nem sequer saberia onde estava a combater
Não era um assunto de somenos, embora parecesse. Na realidade, era ele que marcava a diferença entre ganhar ou perder.

Na Guerra do Yon Kippur foi a capacidade de comandar à frente e tomar iniciativas mais depressa que o adversário, que salvou Israel de uma derrota que parecia certa e iminente. Nos Montes Golan os sírios, organizados segundo o sistema soviético, atacaram massivamente em Outubro de 1973 com 1400 carros de combate, apoiados por fogos de aviação e de mais de 1000 peças de artilharia, ao longo de uma frente de menos de 50 Km. À sua frente apenas duas brigadas com 170 carros de combate apoiadas por menos de 100 peças de artilharia. Ao fim de 3 dias de combates, as forças israelitas estavam reduzidas a cacos e a derrota parecia inevitável mas, enquanto os sírios paravam para reagrupar e reorganizar, remanescentes de unidades israelitas lançavam, por iniciativa própria, contra-ataques localizados e montavam letais emboscadas anticarro que destruíram dezenas de carros sírios. Eram manobras tácticas de pequeno alcance, mas as forças sírias no terreno não percebiam o que se estava a passar, não tinham ordens adequadas à situação e não tinham iniciativa para reagir de forma adequada. Quando as informações, tardias e filtradas pelo canal hierárquico, chegavam ao Estado-Maior sírio, eram interpretadas como alteração dos pressupostos do plano o que obrigava à emissão de ordens cujo efeito foi um progressivo abrandamento da ofensiva que acabou por deter-se e converter-se em retirada geral, face à chegada de reforços acabados de mobilizar.

Na frente sul, a Divisão comandada por Ariel Sharon, agindo muitas vezes por iniciativa própria, logrou atravessar o Canal do Suez, cercar o 3º Exército egípcio, e só não entrou na cidade de Ismaília porque o cessar-fogo o impediu.
Sharon acabou por ser destituído do cargo, mas a verdade é que a iniciativa local, se bem que tenda a ser sempre contrariada no seio de organizações rigidamente hierarquizadas, demonstrou virtualidades que foram cabalmente compreendidas pelo Exército americano, cuja doutrina evoluiu no sentido de a incluir em todas as operações. As próprias ordens de operações passaram a incluir o conceito de operação do comandante e a intenção da operação, e a ser menos pormenorizadas nas missões específicas e nas instruções de coordenação. Diz-se o que fazer e nunca como se deve fazer.
Na verdade, a flexibilidade táctica foi sempre a melhor arma dos israelitas face à obesidade burocrática dos exércitos árabes.
Porém em 2006, no Líbano, este paradigma parece ter mudado e o Hezbolah combateu Israel utilizando conceitos que raramente haviam sido vistos em organizações militares árabes.

A guerra começou com um ataque cuidadosamente planeado a uma patrulha israelita, com o objectivo de capturar soldados para os utilizar como moeda de troca.
A reacção israelita não foi a que o Hezbolah esperava, mas os 33 dias que se seguiram mostraram um Hezbolah muito bem preparado, agarrado a pontos fortes estabelecidos nas povoações, com unidades actuando sem ordens especificas, e com shelters profundos, dissimulados e disseminados no terreno, de onde emergiam pequenos grupos de homens e de onde eram lançados foguetes sobre Israel, mesmo depois da infantaria israelita os ter ultrapassado. Um tipo de guerra que remete irresistivelmente para o plano alemão dos anos 80.

O terreno não é obviamente igual às grandes planícies alemãs. Na zona a sul do Rio Litani , é enrugado, rochoso, cortado por numerosas linhas de água e com abundante vegetação arbustiva, uma espécie de maquis que dificulta a progressão e facilita a ocultação. Um terreno parecido ao que podemos ver em largas partes do nosso território. A maioria da população é shiita e vive numa densa malha de pequenas povoações encavalitadas nas colinas. Este tipo de terreno permite as progressões apeadas, mas dificulta as grandes manobras blindadas e mecanizadas, canalizando as viaturas para óbvios e estreitos eixos de aproximação, que o Hezbolah minou intensivamente. Um bom terreno para defender, um bom terreno para infantaria , que o Hezbolah, entre 2000 e 2006, preparou minuciosamente, construindo posições de combate fortificadas e complexas, aptas a aguentar-se durante semanas. Israel sabia que havia bunkers espalhados pelo terreno, mas não tinha uma ideia precisa da sua localização, sofisticação e dimensão. Um deles tinha sido construído em completo segredo a apenas 20 metros de uma posição da UNIFIL, que de nada se apercebeu.
O facto de o Hezbolah ter usado as povoações como pontos fortes, motivou os israelitas a abandonar a manobra blindada, e a desmontar para atacar, perdendo as vantagens do movimento, do choque, da protecção e diminuindo a décalage tecnológica.
Prevendo a impossibilidade de reabastecimentos devido à supremacia aérea israelita, o Hezbolah disseminou pelo terreno, centenas de paióis e paiolins e estabeleceu sistemas telefónicos fechados e seguros.
Numa guerra com uma vertente psicológica muito apurada, o Hezbolah não poderia apenas defender, até porque os israelitas talvez nem sequer se dessem ao trabalho de atacar directamente as posições defensivas. Tinha de ter capacidade ofensiva que obrigasse os israelitas a ir ao terreno. Preparou por isso centenas de abrigos para os seus mísseis que, ao longo do conflito, foi disparando a uma taxa regular, procurando passar a ideia de que a acção israelita não estava a obter qualquer resultado.
Os lançadores e as respectivas guarnições estavam protegidos em abrigos de betão armado, debaixo do solo e subiam e desciam com a ajuda de elevadores pneumáticos.

Para além de milhares de milicianos, o Hezbolah tem um núcleo duro de soldados profissionais, bastante bem treinados e aptos a manusear armas avançadas. Organizam-se geralmente em pequenas unidades de 5 a 10 elementos, capazes de operar de forma independente por razoáveis períodos de tempo, mas em contacto com os decisores, através de um elaborado sistema de comunicações filares e TSF. O sistema filar está agora ser estendido à escala nacional, e é tão importante para o Hezbolah, que foi justamente uma das causas das confrontações que varreram o Líbano em 2008, quando o 1º ministro o quis controlar.
Os aspectos mais significativos desta organização são a elevada autonomia dos comandantes nos baixos escalões e a inexistência de uma pesada cadeia logística durante as operações.
Ou seja, exactamente o contrário daquilo que sempre caracterizou os exércitos árabes, e a demonstração cabal de que o Hezbolah estudou as doutrinas tácticas ocidentais e de Israel.
Foram estas características novas que surpreenderam os israelitas em 2006.

Em termos de armamento, um dos tradicionais handicaps das milícias ou de exércitos improvisados é a incapacidade para obter o rendimento óptimo de sistemas de armas mais avançados. Qualquer pessoa pode aprender a disparar uma espingarda em poucos minutos, (embora para a usar com eficácia sejam necessárias algumas horas), mas o mesmo não acontece com artilharia, morteiros e mísseis anticarro por exemplo. Os dois primeiros necessitam de guarnições treinadas e aptas a fazer cálculos de trajectórias e os mísseis guiados exigem uma prática aturada, uma vez que não basta carregar no gatilho. Para além disso, municiar estas armas é uma tarefa logística complexa dada a dimensão, o peso e a periculosidade dos projécteis
O Hezbolah mostrou possuir e saber usar com eficácia um abundante e sofisticado arsenal, desde a clássica Kalashnikov ao míssil anticarro russo AT-14 Kornet, passando por vários tipos de mísseis e foguetes balísticos, SS e SM com alcances entre os 20 e os 200 km.
A descrição que um oficial israelita fez do Hezbolah como “uma Divisão de Comandos iraniana”, não peca por exagero

Face à inesperada reacção israelita, cujos objectivos foram claramente expostos (destruir o Hezbolah, impedir o lançamento de foguetes e libertar os soldados capturados), o Hezbolah reajustou a sua missão com bastante rapidez, definido os pressupostos de “vitória” : negar aos israelitas os seus objectivos. Para isso era necessário sobreviver, causar o maior número possível de baixas pela usura, e manter o lançamento de mísseis sobre Israel.

O ataque israelita partiu de um conceito claro que recusa a lógica dos proxies, isto é, um ataque a partir de um Estado soberano, por grupos que nele têm guarida, é um acto de guerra. Assim sendo, a reacção israelita alcançou todo o Líbano, o que terá chocado o próprio Nasralah que admitiu que se soubesse que Israel iria reagir assim, teria pensado duas vezes.
Em termos estratégicos, a reacção israelita foi bem urdida porque logrou surpreender o Hezbolah. Mas em termos tácticos, a história foi outra e as unidades israelitas agiram com a lentidão que convinha ao Hezbolah.
O comando israelita, ignorando ainda o grau de fortificação do inimigo, acreditava que a força aérea seria suficiente para destruir o Hezbolah, mas os cinco dias que passaram até os soldados meterem as botas no chão, permitiram, ao Hezbolah recuperar da surpresa, adaptar os seus próprios planos e organizar a defesa a partir dos pontos fortes nas povoações.
Israel, em vez de avançar impetuosamente para o Rio Litani, ultrapassando as defesas ainda mal estabelecidas e deixando-as para trás, agiu como um meticuloso burocrata, tratando de conquistar laboriosamente cada uma das posições fortificadas. Exactamente o contrário do que os panzers alemães fizeram na França, Sharon no Sinai e os americanos no Iraque. Mesmo no fim da guerra, uma unidade blindada israelita perdeu vários carros de combate, porque recebeu ordens para voltar para trás e, quando algumas horas depois a mandaram avançar novamente, já o Hezbolah tinha montado no percurso uma gigantesca emboscada anticarro com dezenas de Kornets.
Prender o exército israelita a miríades de pequenas batalhas por vilórios sem importância, era exactamente o que convinha ao Hezbolah
Tanto os israelitas como os soldados do Hezbolah combaterem bem, mas isto foi uma novidade para os israelitas, cuja infantaria, nos últimos anos, não tinha efectuado treinos para este tipo de inimigo e neste tipo de terreno.
Claro que a organização descentralizada não tem só vantagens. O apoio mútuo é precário, a defesa tende a tornar-se estática, e um adversário bem treinado pode explorar isto em seu benefício. A força combate de forma óptima durante um determinado período de tempo, mas é incapaz de sustentar o esforço para além de um limite, o que ajuda a explicar a ansiedade com que o Hezbolah e os seus patronos exigiram o cessar-fogo.

O uso intensivo de foguetes contra áreas edificadas, foi um sucesso psicológico, mas um fracasso estratégico, porque não logrou o objectivo de quebrar a moral da população israelita. Isto, acrescido ao facto de o Hezbolah não ter conseguido que um único míssil de alcance intermédio atingisse Israel (dezenas de lançadores de Fajr e Zelzal foram destruídos em apenas meia hora pela força aérea israelita) terá sido devidamente anotado pelo Irão e pela Síria, que dependem exclusivamente destes sistemas para confrontarem Israel.

Em suma, o Hezbolah sobreviveu e tem toda a legitimidade para se ufanar do desfecho da guerra.

Os israelitas tiraram ilações muito importantes e certamente que, conhecida a forma como são capazes de estar um passo à frente, estão já a preparar as tácticas e as estratégias que lhe permitirão derrotar e vencer um inimigo que é agora minuciosamente conhecido e tende a ser imitado pelo Hamas.

O Hezbolah consolidou tácticas. Nos últimos meses há notícias de intensos trabalhos de organização das povoações (zonas que a ONU não tem mandato para inspeccionar) e é facto assente que novas linhas de bunkers estarão a ser escavadas, e apetrechadas com abrigos profundos para homens e armas.
Não é difícil prever que o Hezbolah irá enterrar também os lançadores de mísseis de alcance intermédio, apostar na massificação dos mísseis anticarro e tudo fará para limitar a supremacia aérea israelita, com a aquisição e distribuição de mísseis antiaéreos de fabrico russo.
Será um adversário temível, se Israel lhe der combate nos termos que ele pretende.
A solução está, como sempre desde os tempos de Belisário, na velocidade, na iniciativa, nas manobras indirectas, sem esquecer a inovação tecnológica, as protecções activas anticarro e um sistema que neutralize o impacto psicológico da chuva de foguetes (Sistema Iron Dome).

segunda-feira, 21 de julho de 2008

I am the rocket scientist ... no hot spot whatsoever

I am the rocket scientist who wrote the carbon accounting model (FullCAM) that measures Australia's compliance with the Kyoto Protocol, in the land use change and forestry sector.
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Each possible cause of global warming has a different pattern of where in the planet the warming occurs first and the most. The signature of an increased greenhouse effect is a hot spot about 10 km up in the atmosphere over the tropics. We have been measuring the atmosphere for decades using radiosondes: weather balloons with thermometers that radio back the temperature as the balloon ascends through the atmosphere. They show no hot spot. Whatsoever.
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domingo, 20 de julho de 2008

Maldita Realpolitik


A única política unilateral que chateia verdadeiramente a Europa, ao ponto de motivar manifestações de rua, indignação sem precedentes e ódio profundo, é a política unilateral dos Estados Unidos da América. Não que a Europa, e a União Europeia em concreto, não actuem também, muitas vezes, de forma unilateral, embora que em parâmetros substancialmente diferentes mas, na maior parte das vezes, para defender o mesmo tipo de interesses.

Eu sei que custa muito a alguns Europeístas convictos ouvirem estas palavras. O unilateralismo é para os Norte-Americanos, não para os Europeus. Nós somos superiores, procuramos consensos, o nosso interesse é o interesse da Humanidade e apoiamos a ONU em tudo o que for necessário...

Esta Europa faz-me rir. Será que não tem espelhos em casa? Será que, para se projectar mundialmente como um bloco forte, a União Europeia precisa, muitas vezes, de defender uma política não construtiva, de constante crítica aos Estados Unidos? Será que está isenta de interesses quando mama o petróleo e o gás Russo, mesmo que a Rússia tenha regredido vinte anos e voltado ao tempo dos Secretários-Gerais? Será que a China sente as mesmas críticas da UE, comparando com os Estados Unidos?

Quem é que viola afinal os Direitos mais básicos do ser Humano? Países como a Rússia e a China ou países como Israel e os Estados Unidos da América?

A política unilateral dos Estados Unidos, as eleições dos Estados Unidos, os acontecimentos dos Estados Unidos, os assassinatos em série dos Estados Unidos, as perseguições policiais nos Estados Unidos, as prisões dos Estados Unidos e o estilo de vida Norte-Americano aparecem constantemente nos meios de comunicação social da Europa, geralmente para em tom crítico e "intelectualmente superior" trazer a inteira verdade sobre Estados Unidos da América (do Norte). Na sociedade já se reflecte bem o poder de fogo das palavras destes intelectuais, com pessoas a gritarem "Os Americanos são gordos", "Na América as pessoas vivem mal e porcamente, enquanto que outros Americanos têm mansões", "Somos todos Palestina", "O Iraque merece ser livre", "Fechem Guantánamo" e "Precisamos de esperança e mudança, votem Obama!".

Ainda há dias, a China e a Rússia utilizaram o seu poder de veto na Organização das Nações Unidas para vetar a imposição de medidas contra o Presidente Robert Mugabe que, como sabemos, tratou de limpar o sebo a muitos dos oposicionistas do regime, para, de maneira mais que justa, vencer as eleições Presidenciais. Dois dos nossos maiores parceiros comerciais fizeram valer os seus interesses e votaram contra. O que lhes aconteceu aqui na UE? Serviu de alguma coisa o Soft Power?

Maldita Realpolitik.

Já a Líbia também fez uso do seu assento no Conselho de Segurança da ONU e votou contra a imposição das sanções propostas pelos Estados Unidos. Ainda ontem, durante a visita ao mesmo país, José Sócrates confraternizava com o seu grande amigo Khadafi, afirmando que era necessário aumentar as relações de Portugal com a Líbia.

Maldita Realpolitik.

A justa defensora do Soft Power à escala Mundial está cheia de incoerências típicas de uma política utopista e manipulada pela esquerda. A União Europeia é, olhando com olhos de ver, igual aos Estados Unidos no que toca a defender os seus interesses. Porque é que só se fala em "unilateralismo" para os Norte-Americanos? Porque não se fala em "unilateralismo" para a Rússia de Medvedev, para a China de Hu Jintao e para a UE de Barroso?

Vestem todos a mesma pele, são tudo a mesma coisa: Estados. Estados soberanos (não no caso Europeu) que fazem tudo para defender os seus "valores", os seus interesses, os seus cidadãos, o seu património. União Europeia, Estados Unidos, Rússia, China: tudo no mesmo barco.

Dentro disto, os que jogam na melhor equipa são os Estados Unidos e a União Europeia. Uns incontestavelmente superiores em diversas matérias. Outros profundamente chateados e revoltados, julgando-se superiores ao outro jogador da mesma equipa. A inveja leva muitas vezes ao voltar costas.

A cooperação entre os Estados Unidos da América e a União Europeia tem que existir forçosamente. E esta não existe porque, na maior parte das vezes, a União Europeia não quer. São ambos muito parecidos, defendem praticamente os mesmos valores, têm a mesma cultura e, mesmo assim, a União Europeia briga pelo lugar mais alto.

Conformem-se.

O unilateralismo existe e existirá sempre enquanto existirem Estados no Mundo. E ele é muitas vezes a melhor maneira de resolver alguns dos problemas que nos assolam, um pouco por todo o Mundo. É certo que o melhor é haver um concertação de várias frentes mas, e visto que isto é, nos dias de hoje, muito difícil, a falta de concertação não deve levar à inexistência de operações de tipo unilateral.

A ONU é a solução para umas coisas mas não é para outras. Larguemos as tretas, as mentiras e as condenações sem razão, quando actuamos muitas vezes da mesma forma. Tenhamos coragem e frontalidade para encarar os problemas, para nos reunirmos com quem está certo e para darmos o braço a torcer.

Fácil não Dr. Barroso?

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Abaixo as brocas mas viva os buracos.



Lembra-me o politicamente correcto lobi anti-nuclear (energia) em Portugal: não podemos ter centrais nucleares mas podemos gastar a energia produzida pelas centrais nucleares de outros países.

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quinta-feira, 17 de julho de 2008

A astucia da razão


Enquanto o país resvala no crime, o racismo resvala no preconceito interétnico. Doce ironia. Um racismo de segunda linha e de extracção multiculturalista – enquanto não se elimina o primeiro na humanidade ao menos mitiga-se o segundo na gramática. Ideologia oblige, A silly season ameaça com war season, e entre o zunir de balas e o estertor étnico convém cavar mais fundas as trincheiras e exibir sofisticação no verbo. Mas o verbo como nas melhores tragédias não acerta no alvo e ainda faz ricochete. Que as brigadas, com o ódio a escorrer-lhe pelos lábios, apelem ao racismo quando o adversário incomoda é o que a casa gasta, que o neguem quando o enfrentam demonstra o ardil do delírio.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Um gajo com piada


Ofensiva e de mau gosto. Foi assim que tanto a campanha de Obama como a de McCain classificaram a capa do último número da New Yorker, onde Barack é desenhado como um muçulmano amante de Bin Laden e a mulher como uma activista Black Power de metralhadora ao pescoço. A intenção da revista era parodiar o modo como o eleitorado conservador tem retratado o casal Obama (e talvez vender uns números extra à custa da controvérsia, quem sabe?), mas parece que a coisa não caiu muito bem, principalmente junto do seu público alvo, a intelligentsia democrata. Fica a confirmação de que qualquer que seja o próximo presidente dos EUA, uma coisa é desde já certa: o sentido de humor não vai abundar na sala oval. Até Bush vai parecer um génio cómico em comparação.

Hammer and Tickle é um documentário que pretende reflectir sobre a história do comunismo através do anedotário que foi sendo acumulado ao longo desta experiência totalitária. O filme ainda não está disponível em DVD, mas há já alguns clips no YouTube. É sabido que Ronald Reagan coleccionava estas anedotas originárias do bloco de leste e as considerava uma boa maneira de tomar o pulso do sentimento popular nessa parte do mundo. Também as contava regularmente nos seus discursos, com uma delivery notável e um efeito devastador de muitos mega-fartotes.

Aqui fica, the man himself, um grande estadista, e um gajo com muita piada.

Pena de morte

Israel cumpre hoje uma jornada dolorosa, recebendo dois cadáveres de soldados do seu Exército e entregando em troca 5 terroristas condenados a prisão perpétua, acrescidos dos cadáveres de umas centenas de outros. Para além da desproproção que se revê na simples contabilidade, importa sobretudo o princípio de que não se trata de uma convencional troca de prisioneiros de guerra entre Exércitos que se regulam pelas regras da Convenção de Genebra, mas sim da cedência a uma organização terrorista.
O Hezbolah, bem como outras organizações do mesmo tipo, age deliberadamente à margem da Convenção e esta troca acaba por ser uma derrota para Israel, porque premeia um comportamento que Israel sempre considerou inaceitável.

Na base disto tudo está o facto de Israel não ter pena de morte. Se terroristas como Kuntar, condenados a prisão perpétua, tivessem sido executados há muito tempo, não haveria incentivo para que o Hezbolah e o Hamas procurassem tão esforçadamente capturar soldados israelitas em operações que são sempre extremamente difíceis e implicam a perda de muitos dos seus operacionais.
Porque o que motiva estas organizações terroristas não é a vida dos seus homens , mas sim as vitórias da propaganda.
Enquanto Israel não restaurar a pena de morte para crimes terroristas e mantiver os criminosos na cadeia, haverá sempre motivação para casos como este.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Eleições Norte-Americanas VII


Em Portugal, para não se fugir à regra daquilo que se faz um pouco por toda a Europa, a cobertura às eleições Norte-Americanas tem sido, no mínimo, hilariante. Apesar de termos uma comunicação social que se diz defensora da liberdade de expressão e dos iguais direitos de todos e para todos, não é isso que realmente acontece: notícias sobre Obama são às centenas; notícias sobre McCain às unidades e, quando aparecem, aparecem a reportar alguns "escândalos" da corrida Republicana.

Nada a que eu, e a demais malta aqui do Fiel, não estivesse à espera. Barack Obama fez mexer com a esquerda Europeia que, como sabemos, detém um enorme poder de influência (e de facto..) sobre os órgãos de comunicação social do velho continente.

A febre Obama chegou à Europa ainda bem cedo nestas eleições, por força dos já badalados "Hopes" e "Changes". Nada mais motivou seriamente a Europa para dar um apoio tão forte a Obama: foi somente a retórica demagogo-populista do candidato Democrata. Há até quem diga, como justificação de apoio a Obama, que o Mundo precisa de carisma e não de seriedade e, por isso, Obama é o candidato certo.

Nem mesmo o recuo ao centro (ou à direita?) por parte de Obama, que já lhe está a valer tanto puxões de orelhas dos Democratas mais liberais como ataques de John McCain, demoveu a Europa do seu endorsment. Um desses conhecidos recuos é a posição do novato Senador do Illinois no que concerne à questão do Iraque, que se alterou radicalmente desde que atingiu o número de delegados suficientes para a nomeação Democrata. Achando-se esperto que nem um alho, Barack Obama afirma-se sem dogmas, sempre pronto a mudar de opinião quando for para melhor, nem que isso vá contra as razões pelas quais milhões de pessoas votaram nele nas Primárias.

Hoje, a televisão do Estado Português passou mais uma notícia sobre o candidato Democrata. Confesso que não me recordo bem do teor da notícia talvez porque, no final desta mesma notícia, o jornalista surpreendeu-me. Disse, na sua última frase, em tom apressado, qualquer coisa do género: "Numa altura em que Barack Obama começa a perder terreno nas sondagens".

Pois é meus amigos: existem coisas realmente do diabo. Como exemplo desta perda de terreno de Obama, tomemos em consideração duas sondagens da Newsweek: uma de Junho, outra de Julho. Na primeira, Barack Obama detém uns fantásticos 15% de vantagem sobre John McCain; Na segunda, a vantagem desceu para uns míseros 3%. A primeira mereceu o alarido do costume um pouco por toda a Europa. A segunda nem sequer foi pronunciada. Já a sondagem da Gallup Daily também dá 3% de vantagem a Obama. Já a sondagem do site Rasmussen Reports de hoje dá 2% de vantagem a Obama, sendo que nas sondagens da última semana as coisas tinham andado empatadas.

Convém frisar, para que se saiba, que estas sondagens globais não detêm muita importância: o que importa são as sondagens dos diferentes estados sendo que, como aqui já disse anteriormente, estas andam mesmo empatadas (em número de delegados já atribuídos). Em 2004 e em 2000 George W. Bush partia em muito pior condição do que os seus oponentes, John Kerry e Al Gore, respectivamente, e ganhou as eleições.

Os muitos indecisos
que ainda se verificam em diferentes estados, deverão, pela lógica, votar maioritariamente em John McCain. Os Republicanos que se dizem indecisos nas sondagens irão votar em John McCain no momento da decisão.

John McCain e os Republicanos partiram de uma condição de derrotados à partida para estas eleições. Rapidamente inverteram esta situação e tornaram esta eleição numa das mais alucinantes eleições Norte-Americanas de sempre. Mesmo que perca, toda a gente irá achar normal a derrota de John McCain.

As eleições podem cair para qualquer um dos lados, mas de certeza que McCain, apesar de acérrimo defensor do Ambiente, não acabará a dar palestras sobre o Aquecimento Global e a afirmar que "I suppose to be the next President of the United States".

Mea Culpa?

Relativamente à pancadaria em Loures, a Fernanda Câncio fez bem em fazer mea culpa, mas não tinha de o fazer de forma sarcástica.
Porque o facto de o 5 dias (e , de um modo geral, os blogues e autores da nossa esquerda "moderna") ter passado pelo assunto a assobiar mais ou menos para o ar, em postura salomónica, tem um significado preciso:
É que este é um assunto dificil de analisar pela perspectiva maniqueísta e moralista que esta "esquerda" costuma adoptar para debitar condenações profundas e indignadas.
Neste caso não está presente o clássico vilão, o “explorador branco , racista, capitalista, neoliberal e essas coisas”, tão necessário aos enredos à Fanon.
Não…aqui só se pode condenar a “sociedade” e a “injustiça social”, coisas vagas a que não é fácil dar um rosto suficientemente odioso, quando infelizes “minorias” desatam aos tiros umas nas outras, declarando de viva voz que o fazem por serem racistas e não gostarem de pretos e ciganos, respectivamente.
Se um grupo de skinheads varresse o bairro à mocada, outro galo cantaria, e não faltariam indignações, postes, declarações, manifestações e até o SOS Racismo, que tem andado desaparecido nos últimos dias, apareceria de megafone na mão, em apoplexias de justa fúria.
Assim, como são “africanos”, “etnias diferentes”, “jovens diferentes”, e outras preciosidades da linguagem politicamente correcta, assobia-se para o ar, faz-se de conta que não ocorreu uma limpeza étnica, e berra-se por desfastio contra as “políticas de integração”.
Na TV até apareceu um cromo, especialista em generalidades e culatras, a perorar sobre a necessidade de apertar o controle legislativo sobre a posse legal de armas, como se toda aquela malta tivesse andado em Beirute, perdão, em Loures, aos tiros com armas legais.

domingo, 13 de julho de 2008

A "crise" não é só económica


No Afeganistão, os guerrilheiros Talibans têm vindo a exercer penosas baixas nas estruturas da NATO que se encontram naquele país. Chegou-se ao ponto de, no último mês, o número de mortes no Afeganistão ter superado o número de mortes no Iraque (que escândalo pá!).

Convém recuar no tempo para perceber aquilo que acontece actualmente por terras Afegãs: em 2001, na sequência dos ataques do 11 de Setembro em Nova Iorque e em Washington DC, o Presidente George W. Bush ordenou a invasão do Afeganistão (com o importante apoio da Grã-Bretanha), para tentar capturar o Saudita Osama Bin Laden, destruir as bases da Al Qaeda espalhadas um pouco por todo o território, por força do apoio dos Taliban à organização e, de caminho, para retirar os Taliban do poder.

O sucesso da operação foi imediato: em pouco tempo as forças ocidentais controlaram a maior parte do território. Para o final do ano, já depois das mais importantes batalhas, a Comunidade Internacional começou a reunir-se para em conjunto com os Estados Unidos da América e a Grã-Bretanha resolver o problema do Afeganistão. A 20 de Dezembro de 2001 surgiu a ISAF (International Security Assistance Forces) que conta, inclusive, com forças Portuguesas.

O grosso dos militares estrangeiros que se encontra no Afeganistão são Norte-Americanos, sendo que os Estados Unidos têm forças não dependentes da ISAF e forças dependentes da ISAF. Os soldados Norte-Americanos são 10000 (já foram 18000), os soldados da ISAF cerca de 53000. 24000 destes soldados da ISAF são Norte-Americanos.

Convém recordar que a ISAF é, actualmente, comandada pela NATO e tem, como principal objectivo, manter a segurança em todo o território Afegão e neutralizar o ainda grande poder dos Talibans.

Ora o problema é mesmo este: o poder dos Talibans, que ainda reúnem apoios de muitos países muçulmanos da região. Vivem do tráfico de droga, especialmente do ópio, sendo que o Afeganistão é a origem de cerca de 95% do ópio ilegal do Mundo. Com o dinheiro da venda deste e de outros produtos, com o apoio de alguma população (forçado ou não forçado) e com o apoio de alguns países, os Talibans têm conseguído recuperar algumas zonas do país, criar sobressaltos noutras e fazer atentados terroristas em cidades importantes.

As coisas andam apertadas há já alguns meses (anos) e têm tido tendência para ficar pior. Não por acaso o Presidente Bush tem vindo a público pedir mais apoio de alguns Estados da NATO, sendo a Alemanha de Merkel um dos visados. Parece que, aqui na Europa, é mais importante a condenação da cada vez mais brilhante operação no Iraque do que o empenho numa Guerra prestes a ser perdida, por força de falta de liderança e empenho. Este é, a meu ver, um dos pontos fracos das operações não-unilaterais: falta de liderança. E, quando existe alguém pronto para a assumir, corre riscos de ser acusado de tudo e mais alguma coisa.

Os teatros de Guerra são diferentes e não existe comparação possível entre o que se passa no Afeganistão e o que se passa no Iraque. Abordagens diferentes, armamento diferente, forças diferentes, empenho diferente, união diferente. Objectivos, na generalidade, iguais. Causas, na generalidade, semelhantes.

É muito importante a ajuda que o povo Afegão quer e necessita. Sim, eles precisam de comida, de água, de electricidade e de outros bens básicos. Mas, sem a segurança que se exige, de que vale a um pobre Afegão ter o que comer se pode ser morto a qualquer instante, se pode ver o trabalho de muitos anos destruído em pouco tempo?

A Guerra do Afeganistão é, na Europa, muito mais consensual do que a Guerra do Iraque. Porque a Europa participa nela. Porque a Europa não se opôs a ela. Porque o Conselho de Segurança das Nações Unidas a legitimou.

Nós, Europeus, enfrentamos hoje em dia um dever que nunca soubemos cumprir verdadeiramente, porque foi sempre deixado, ao longo do século XX, para os Estados Unidos da América.

O próprio João Marques de Almeida, que trabalha com o Dr. Durão Barroso na Comissão Europeia, reconheceu num Encontro Internacional, que as coisas no Afeganistão estão muitos mais negras do que as coisas no Iraque. Gostei especialmente do seu discurso, pois foi muito ao encontro do que aqui vos exponho: de uma Europa não unida, a olhar demasiado para o seu umbigo e a criticar demasiado os outros.

A "crise" não é só económica.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Interactividade e multiculturalismo

Discípulos de George Bush, os interactivos bombardeiam casamentos, baptizados e aniversários.

A escola deve ser um espelho da sociedade, portanto, cara e bem amada Ministra da Educação (por quem soizes), algo de particularmente importante deve ser urgentemente implementado na escola. Face às boas novas vindas de uma multiculturalista sociedade de que a escola deve ser parte integrante (estou a falar bem?), há um tremendo défice em confraternização pós-moderna.



O Primeiro Ministro, numa destemida arremetida robiniana, esclareceu as nebulosas e cavernais mentes mundanas repondo nos carris o zenital conceito, segundo o qual, nada haverá a opor por se ter tratado apenas de movimentos conducentes à eliminação de festejos de aniversário, sulfurosa actividade pré-moderna.

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O totalitarismo de pantufas

A tendência totalitária é intemporal.
No séc. XX o Ocidente experimentou a versão hardcore, geralmente baseada em diferentes interpretações do marxismo, impostas com brutalidade qb, tendo em vista Amanhãs Cantantes, Reichs de Mil Anos,etc.
A derrocada generalizada do marxismo (se exceptuarmos os poucos zombies que ainda vagueiam em alguns recantos do mundo subdesenvolvido), tornou inaplicáveis os métodos sangrentos, e abriu espaço a uma variante mais subtil do totalitarismo, expressa na tirania do politicamente correcto, a que alguns chamam marxismo cultural.
Esta versão soft do totalitarismo, não tem gulags nem campos da morte, mas ataca insidiosamente a liberdade individual, não só na livre expressão de ideias, mas também no exacerbar de uma “pressão social” que leva muita gente ao silêncio por temor das consequências materiais (ostracismo, perda de emprego, processos judiciais, ameaças, etc.).
Nada que não se soubesse já. Orwell, num já longínquo prólogo ao “Triunfo dos Porcos”, escreveu que “Não é que se proíba concretamente dizer isto ou aquilo, simplesmente “não fica bem” dizer certas coisas […] e quem ouse desafiar a ortodoxia é silenciado. […]. “
Sendo um fenómeno ocidental, o politicamente correcto é na prática utilizado como arma de eleição por todos aqueles grupos e movimentos que se espojam no ódio à civilização ocidental.
As antecipações de Orwell são de uma acutilância impressionante. Quem hoje se acredita na vanguarda da fiscalização da linguagem politicamente correcta, sente-se estribado numa espécie de “Ministério da Verdade” que sustenta a sua acção em dois pilares:

Por um lado, os poderes públicos vão legislando no sentido de coagir aqueles que praticam a dissidência intelectual. Casos como os de Oriana Fallaci, Robert Redeker, o director do Jyllands-Posten, Charles Murray, etc, são apenas algumas amostras das abundantes consequências de um fenómeno totalitário que conduz ao condicionamento dos comportamentos.
Um outro pilar, mais subtil, é exercido por alguns partidos políticos, meios de comunicação e opinion makers que, muitas vezes sem terem sequer consciência do fenómeno, formulam um catecismo oficial daquilo que “está bem”, tendendo a marginalizar todos aqueles que dele não comungam.
Os pecadores são automaticamente condenados e apontadas ao desprezo social e intelectual.
Casos como este, Theo Van Gogh, Hirsi Ali, ou Gert Wilders, são perfeitamente ilustrativos. Quando o desalinhado é um desertor da esquerda, a pressão é especialmente brutal, como aconteceu com David Mamet e Zita Seabra, por exemplo.
O resultado desta dupla pressão é a paulatina instalação de um clima de medo que conduz à autocensura.
Desemboca-se assim numa sociedade em que há uma linha “correcta” de pensamento, toda ela congeminada à esquerda, que atravessa assuntos tão variados como o meio ambiente, a mudança climática, a imigração, a globalização, o mercado livre, o modelo de família, o diálogo com os terroristas, os EUA, o islamismo, a igualdade, a raça, etc.
O resultado perverso é que muitos cidadãos vão abdicando da sua liberdade individual por medo de ficarem “mal vistos” e isto é especialmente verdade nos meios intelectuais e universitários.

Paguem, seus malandros

É hilariante ouvir um primeiro-ministro anunciar que vai aplicar às petrolíferas um imposto que não é suposto vir a incidir, a 100%, sobre a população.

É hilariante ouvir um primeiro-ministro anunciar que vai reduzir a carga fiscal de imposto automóvel a veículos que, de momento, estão isentos do pagamento desse mesmo imposto.*

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* Não explicando se esta "redução" de impostos incidirá "apenas" sobre os construtores ou cadeia de distribuição, se sobre a população

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Interessante..

A ver:

Jimmy Carter e os Judeus

O que realmente aconteceu

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A palhaçada

Sempre que ocorrem reuniões do G8, sejam elas em Tóquio, em Berlim ou em Londres, acabam sempre por aparecer grupos de indivíduos (maioritariamente como os da imagem) pronto a gritar "morte ao Bush", "morte à Globalização", "morte aos transgénicos" e a darem vivas ao Ambiente.

Não é por acaso que eles escolhem as reuniões do G8: esta malta detesta o mundo desenvolvido, civilizado, capitalista e próspero. Porquê? Porque a maior parte deles detesta, por uma razão que ninguém consegue explicar, a civilização ocidental e tudo o que ela acarreta.


Refira-se, em abono da verdade, que eles detestam todas as civilizações: porque eles são anti-civilizacionais. Pensam que a civilização ofusca completamente a liberdade do indivíduo, que a civilização tirou o homem da esfera da natureza e da beleza natural, que a civilização tornou o homem, um ser por natureza bom, num ser mau e que o Estado nunca devia existir.

Gostaria de parafrasear uma palavra do nosso Primeiro-Ministro, aqui utilizada noutro contexto: "Ridículo".

É esta gente que coloca os maiores entraves ao avanço do ser humano enquanto ser intelectual, à ciência como forma do ser humano resolver muitos dos seus problemas, à tecnologia, ao desenvolvimento, ao crescimento. Tudo está mal, tudo deve ser concertado, a mãe natureza vingar-se-á.

São, por consequência, um movimento Antiglobalização. No entanto, eles consideram-se, em geral, um movimento Alterglobalização. Esta auto-qualificação é, para mim, incorrecta: ou se é contra a Globalização ou se é a favor.

Nas palavras de José Saramago, a Globalização é equivalente a um fascismo. Deve ser isto o que esta malta pensa: procissões à Ilha de Lanzarote esperam-se nos próximos meses.

É importante frisar que existem, porém, alguns estados do Mundo com menos culpas no cartório. Isto porque, além de serem menos civilizados, são fraternos, amigos do ambiente, bons e felizes: destacam-se, numa já muito restrita lista (maldito Reagan!), Cuba, Coreia do Norte e Laos. Autênticos paraísos não acham?

No entanto, abate-se um problema com a inclusão de Cuba na lista: depois da passagem de poder de irmão para irmão, Raúl Castro autorizou que os Cubanos recorressem aos luxos do capitalismo! Maldito sejas Raúl, seu vendido!

No The Great Global Warming Swidle vemos um dos fundadores da Greenpeace a acusar a organização de partidarização e de posições que em nada têm a ver com o ambiente. Estas posições e esta partidarização são em parte influenciadas por esta gente de quem vos falo neste post, que se apropriou indevidamente do dossier Alterações Climáticas para proveito próprio e o utiliza como arma de arremesso contra a civilização Ocidental.

Enquanto a maior parte dos jovens gostar de ir ao McDonalds, de ver filmes Norte-Americanos e de mandar mensagens pelo telemóvel, esta malta limitar-se-á às tentativas frustradas de boicote de reuniões internacionais, de boicote de interesses Norte-Americanos e às manifestações de meia dúzia de alucinados. Porque, apesar de tudo, é difícil recolher-se apoio quando se é incoerente.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Dont hope for a better life: vote for one!


FUTEBOL DEVIA SER O NOSSO IDEAL...


Sei muito bem que este texto está fora de horas. O Cristiano Ronaldo já foi operado, Wimbledon já terminou (e de que maneira!) e o Tour está a decorrer. Mas como já o tinha traduzido achei uma pena deitar fora e não publicar.

É da autoria de Ashin Ellian, um intelectual persa e professor de filosofia na universidade de Leiden. Quão diferente é esta sua visão sobre futebol da do nosso ex-seleccionador nacional, com as suas súplicas debalde à Virgem e orações em conjunto no balneário…

Que raio de jogo é este? Porque razão tanta gente, em todas as partes do mundo, se deixa emocionar pelo futebol? Que emoções provoca? Que condições cria nas relações entre pessoas?

Sou um amante de futebol. Antes mesmo de saber onde se situava a Holanda já eu gostava de futebol. Nesse tempo eu sabia quem era o Cruijff, mas não sabia precisamente onde ficava a Holanda. O eu no Irão torcer pela Argentina era a coisa mais natural deste mundo. Pessoalmente vejo nisto uma forma de cosmopolitismo sem o factor língua. Não precisava de saber espanhol ou neerlandês para entender os sentimentos do capitão argentino Mário Kempes ou do jogador holandês Johnny Rep. Porque razão ainda não me esqueci deste facto? Porque, para mim, este campeonato do mundo de 1978 foi o último que vi em paz, antes de rebentar a revolução de Khomeini.

Mas futebol vai além do simples cosmopolitismo. Futebol não é uma nova religião. Na realidade futebol tem uma forma de coesão e de fraternidade que a religião já não é capaz de despertar. Isto é pelo menos válido no que diz respeito à cristandade. O jogo une as pessoas e, apesar de futebol ser algo técnico, continua a ser um mistério. A sorte e a fatalidade têm um papel preponderante. Futebol enaltece e humilha. É fraternidade sem Deus.

Tão pouco é o ser humano o paradigma. Não podemos esquecer a bola. Não é a vontade mas sim uma combinação de acontecimentos o ponto fulcral. Visto que todas as nações que jogam futebol querem alguma vez obter a vitória - ser campeãs. Mas a bola, essa coisa misteriosa, não a concede a toda a gente. Ninguém, até mesmo o grande Cruijff, é capaz de nos dizer quando e como um país se pode tornar campeão. Tudo isto me lembra uma tragédia grega, mas numa versão moderna: uma tragédia sem derrame de sangue. O vencedor de hoje pode ser o derrotado de amanhã.

Futebol une as pessoas. Por exemplo, a selecção holandesa é, como a própria sociedade, uma comunidade multirracial e pluriforme. Hengelaar é originário do Suriname, Afellay e Boulahrouz são de origem marroquina. Será que eles falam sobre este assunto? Não. Têm actividades relacionadas com as suas origens religiosas ou culturais? Não. São positivamente discriminados? Não. São vistos como exemplos oriundos de bairros problemáticos? Não. São subsidiados pelo Estado Providência? Não, não e não. Pura e simplesmente jogam bem à bola e conhecem as regras do jogo.

As regras do futebol não são baseadas na Sharia nem na cultura marroquina, nem tão pouco numa ou outra tradição do Suriname. As regras são universais e culturalmente e religiosamente neutrais. Os árbitros têm um uniforme e falam a linguagem futebolística. Não usam um lenço na cabeça, um solidéu na nuca, ou uma cruz ao peito. Apenas fazem cumprir as regras. Alguma vez Boulahrouz pediu ao seleccionador Van Basten se pode rezar por volta das 12 horas? Ou alguma vez exigiu um local de oração? Não, nunca o fez.

É holandês e um excelente jogador. Luta como um herói pela sua cor: Laranja. Religião é um assunto privado. A neutralidade do treinador, das regras e do equipamento faz com que pessoas de origens diferentes formem um grupo, um grupo capaz de suportar mesmo a tragédia. E por último, mas não o factor menos importante, temos o espectador. Também ele é neutral. O espectador vibra e chora com a equipa e não vê cores, origens ou religiões. Isto devia ser o nosso ideal. Um estado neutral com regras neutrais que faculta oportunidades a toda a gente.

Alucinações


Alucinações para todos os gostos:

1 - Mais antigas
2 - Mais recentes

Mas, atenção: o aquecimento global anda mesmo aí. Búúúúúú.

A escavadeira


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segunda-feira, 7 de julho de 2008

Unilateralismo ou acomodação?


Aprecio muito a sensatez e o conhecimento do Dr. Adriano Moreira. Homem sério, político às direitas. Porém, há coisas que me deixam a pensar.

Vejamos: no dia 7/3/2005, o Dr. Adriano Moreira deu uma entrevista ao Publico e à Rádio Renascença, que só agora encontrei na Internet. Nessa entrevista, Adriano Moreira pronuncia-se, embora que de forma indirecta, sobre a Guerra no Iraque.

O antigo líder do CDS/PP afirma o seguinte: "(...) Eles estão todos os dias a pagar um preço de sangue muito severo. Portanto, isso não vai libertar o território da presença Norte-Americana a curto prazo. É preciso assumir que não foram encontradas armas de destruição maciça, ou seja, esse perigo não estava lá mas acabou por ser lá instalado com uma reacção de uma parte da população contra os ocidentais (...)"

"A atitude do Presidente Bush, como se viu nas eleições, tem resposta na América profunda e temos que aceitar isso. Mas a América profunda, por grande que seja o poderio dos EUA, está no mundo como qualquer outro país".

O melhor veio no fim: "(...) A experiência do Iraque deve ser a vacina definitiva contra os unilateralismos (...)".

Agora vejamos o que afirma o mesmo Adriano Moreira, no seu livro Teoria das Relações Internacionais, da Al-Medina: "Quando, em 1991, o Iraque foi confrontado com uma coligação de trinta e dois Estados, liderada pelos EUA, para retirar do Koweit que invadiu e anexou em 2 de Agosto de 1990, operação conhecida como Tempestade no Deserto, o Presidente Saddam Hussein, responsável por vários graves atentados contra a Ordem Internacional, sobreviveu apoiado num consenso internacional, que não pediu, em favor do statu quo. Continuou IMPLACÁVEL no ESMAGAMENTO da oposição, na DESTRUIÇÃO dos chiitas do Sul e, de caminho, de bairros de Bassorah, de Kerbala e Nadjat, MATANDO cinquenta mil pessoas e fazendo EXILAR sessenta mil, ao mesmo tempo que continuava com a REPRESSÃO BRUTAL dos curdos e mantinha o projecto de conseguir fabricar armas atómicas. Outros exemplos documentam essa situação de impotência da comunidade internacional para submeter o desenvolvimento político ao modelo ocidental recolhido pela lei internacional".

Afinal de contas, o que defende em troca do "unilateralismo"?

A liberdade dos outros

Percorro despreocupado a caixa de comentários do Portugal Contemporâneo e acabo ainda menos preocupado no grande inquisidor de Dostoevsky. Este brandia que o que os homens mais temiam era a liberdade de escolha. Entregues a si tresmalham-se e o único remédio, avisa, era entregarem-se obedientes e dóceis aos poucos capazes de suportar os ardores da liberdade. Não existe aqui qualquer conspiração dos poucos para dominar os muitos. É apreço pela humanidade. Espírito de missão. E foi em espírito de missão – deles – e de sacrifício – dos outros – em passo de dança com uma mão na anca e outra na ideologia, que canhotos e dextros aplicaram-se para levar a palma aos liberticidas de todos os tempos e locais. O partido, a igreja, o estado, a nação levantava dos ombros do homem comum – esse miserável sem préstimo – a responsabilidade, e tornava-os em escravos ordeiros e agradecidos. Sem obediência desinteressada estaríamos todos condenados aos padecimentos e sevicias da lucidez dos solitários – duplamente solitários – às portas do niilismo. Não são os ferros a ilusão, é a desilusão que nos põe a ferros. A sociedade ordeira e ordenada do sonho dos fanáticos pede sempre a liberdade das jaulas. Mais expeditos para coreografias da turba, do homem-multidão. E nem sempre é preciso os rigores do fanatismo para pedir-se o pior. Restaurar velhos trapos hegelianos – velharias do sótão colectivista – é apenas um dos passos.


“Semelhante elevação de toda espécie de egoísmo até ao infinito, até ao desaforo, não pode ser estigmatizada com suficiente desprezo.”