"Porque é que quatro aviões comerciais andaram a passear nos céus americanos, tempos infinitos, sem qualquer intervenção da Força Aérea?"-pergunta retoricamente um dos, mais estúpidos teóricos da conspiração,passe a redundância.Com esta pergunta o teórico da conspiração não pretende de facto uma resposta, mas apenas sublinhar que acha a situação estranhíssima e que de resto dispensa todas as respostas que não incluam a mão maligna dos "poderosos", da CIA, dos judeus, enfim, dos mafarricos habittuais.
O teórico da conspiração, convencido que a CIA têm poderes divinos, acha totalmente incompreensível que as Forças Armadas americanas não tenham sido capazes de abater em tempo útil uns meros aviões civis, pelo que só pode haver uma explicação: receberam ordens para não o fazer.
Um “argumento” muitas vezes utilizado, e que o nosso Diogo tem certamente no manual das citações, é uma declaração do Major Martin, porta-voz do NORAD, citada num livro do teólogo David Griffin (
um dos mais notórios gurus do movimento dos maluquinhos e, não por acaso, professor de religião) sobre o carácter rotineiro das intercepções de aviões civis, referindo que só entre Junho de 2000 e Setembro de 2001, “
o NORAD tinha executado 67 scrambles”.
O teórico da conspiração tem de truncar e descontextualizar frases, para alimentar os seus delírios e na sua estranha cabeça interceptar aviões é como carregar no botão da Playstation.
Na verdade, um
scramble não é uma intercepção, mas sim todo a cadeia de movimentos que leva uma tripulação até ao avião, depois de receber uma ordem preparatória.
Alguns
scrambles conduzem a intercepções, a maioria não, há mesmo intercepções sem
scramble, feitas pelo desvio de aviões em patrulha.
O que o tal Major Martin disse realmente, é que “o
NORAD tinha executado 67 scrambles mas não relativos ao espaço continental dos EUA”, o que é bastante diferente.
Na verdade, nos 10 anos anteriores ao 9/11, o NORAD interceptou apenas um avião civil sobre o espaço aéreo americano (
o avião particular do golfista Payne Stewart) e demorou 79 minutos, desde o alerta. Além desta intercepção, todas as outras (
quase todas relacionadas com trafico de droga) aconteceram em
offshore, nas
Air Defense Identification Zones (ADIZ), as quais requeriam planos de voo,
transponders activos e comunicações rádio. Nenhum avião foi abatido.
Um outro “argumento” é um
vídeo truncado das declarações do Secretário dos Transportes, Norman Mineta à Comissão do 11 de Setembro. O vídeo termina abruptamente aos 3’ 59’’, “provando”, segundo os tolinhos, que havia uma ordem de Dick Cheney para não abater o avião que se dirigia ao Pentágono. (
é curioso que neste “argumento” os mesmos teóricos da conspiração que acham que no Pentágono acertou um "míssil", referem-se na maior das calmas ao "avião". O nosso Diogo é um exemplo. Farta-se de falar do "míssil" nos seus devaneios, mas de repente muda para 4 aviões, sem o menor pudor intelectual)Todavia, quem vá ler as
declarações completas de N. Mineta, verificará que ele diz precisamente o contrário.
Mas de factoo avião não foi abatido, havendo ordens para o abater. Como foi isto possível?
Conspiração!-berra imediatamente o tolinho.
A resposta é algo mais complexa e por isso não interessa ao cérebro simplista do teórico da conspiração.
Para começar, o sistema de intercepção que não estava virado para ameaças internas, não havendo sequer ADIZ sobre terra.
Á época, em cada momento havia quase 5000 aviões civis no espaço aéreo americano. Segundo os protocolos então em vigor, a partir do momento em que um controlador chegava à conclusão de que um dos seus aviões tinha sido desviado (
e isso não era imediato a não ser que os terroristas comunicassem), informava os seus superiores e o caso percorria os sucessivos patamares até ao
Air Trafic Control (ATC) HQ que notificava a
Federal Aviation Administration (FAA) HQ.Este organismo digeria a informação e telefonava para o Pentágono para solicitar uma escolta militar do
National Military Command Center (NMCC). O NMCC obtinha autorização do Secretário de Estado da Defesa e a ordem seguia depois para o NORAD que por sua vez dava a ordem, pelo canal descendente, à conveniente base aérea que fazia então descolar os aviões com a missão que fosse oportuna, na maioria das vezes para as zonas de espera sobre o mar, onde aguardavam os pormenores específicos da missão.
No mundo real, tudo isto leva o seu tempo e até se entendia que assim fosse, porque nos casos de desvio de aviões, o expectável era que houvesse uma aterragem em algum sítio seguida de uma negociação.
NUNCA tinha havido um desvio de aviões para serem usados como bombas guiadas.
No 9/11, tudo começou pelo inédito facto de os terroristas não terem comunicado. Estes piratas eram suicidas, não queriam negociar o que quer que fosse, mas sim atingir os seus alvos o mais depressa possível. O controlador aéreo responsável só acharia estranho quando o avião não respondesse a alguma comunicação, quando começasse a desviar-se da rota, ou quando desligasse o
transponder. E começaria por tentar perceber se haveria algum problema técnico, porque há quase 20 anos que não havia desvios de aviões nos EUA.
No caso do voo 77, quando o
transponder foi desligado e as comunicações rádio interrompidas, o FAA de Indianopolis pensou que o avião tinha caído, porque o seu controlador nem sequer sabia que tinha havido já dois desvios, minutos antes. O controlador tentou fazer o
tracking do avião na sua trajectória planeada, sem perceber que ele tinha já virado para Este e voou indetectado para Washington durante 36 minutos.
Mas como é isto possível?- pergunta o teórico da conspiração.
Cabe na cabeça de alguém que um avião comercial consiga passear-se impunemente sobre o espaço aéreo americano?
Os teóricos da conspiração e outros representantes de uma certa fauna urbana, pensam que a realidade é como os filmes de ficção científica, que as agências de segurança americanas são omnipotentes e omnipresentes, e que têm câmaras no espaço, controladas por botões, capazes de filmar em tempo real tudo o que está a acontecer lá para baixo. A realidade é muito mais prosaica e a verdade é que todo o sistema de defesa aérea americano estava virado para ameaças vindas de fora, não havendo nenhum sistema de vigilância que assegurasse a cobertura completa e integrada do
mainland.1- “
when you looked at NORAD on September 11, we had a ring of radar all around Canadá and the United States. It was like a donut. There was no coverage in the middle. That was not the threat” (Maj Martin, NORAD)2-“
We're pretty good if the threat is coming from outside; we're not so good if it's coming from the inside."(Gen Myers)3-“
This country is not on a wartime footing,…We don't have capable fighter aircraft loaded with missiles sitting on runways in this country. We just don't do that anymore. We did back during the '70s, the '60s, along the coast, being concerned about Russian intrusion, but to expect American fighter aircraft to intercept commercial airliners, who knows where, is totally unrealistic and makes no sense at all." (Senador Warren Rudman)No caso do voo 77 ( o que se despenhou sobre o Pentágono) às
9:30, levantaram 2 F-16 de Langley, com missão
Standard Operation Procedure(SOP), pelo que se dirigiram para uma ADIZ em
offshore.Às
9:32 o ATC de Dulles apanhou um
blip não identificado que vinha na sua direcção e fez seguir a informação. Quando o ATC de Boston tomou conhecimento do caso fez seguir a informação e os F-16, receberam ordens para voarem para Washington a velocidade supersónica, contrariando as normas em vigor em tempo de paz, a fim de interceptarem o voo 77.
Estavam ainda a mais de 200 km a Leste, quando o avião embateu no Pentágono às
9:37. Mesmo que por milagre, todos os intervenientes tivessem percebido instantaneamente a
big picture do que se estava a passar e tivessem actuado à velocidade da luz, as regras de empenhamento em vigor na altura não permitiam abater aviões comerciais civis sem ordens expressas e autenticadas do máximo responsável político. No mundo real, os aviões não têm velocidade “
warp”.E no fim da cadeia está o piloto no seu caça, que recebe uma missão específica (
o que fazer, quando, onde e como). O “onde” é sempre algo vago num caso destes porque o alvo se desloca. O caça tem de procurar o seu alvo numa zona saturada de aviões e adquiri-lo no seu radar.
E abatê-lo, o que também não era uma decisão que pudesse ser tomada pelo piloto ou pelos responsáveis militares, uma vez que segundo a lei americana da altura, o desvio de aviões era
crime e não
acto de guerra.Os conspiradores referem que não se compreende que havendo uma base (
Andrews) a 15 km do Pentágono, não tenha sido essa a receber a ordem de intercepção. Não compreendem porque se recusam a tomar conhecimento que nessa e noutras bases não havia interceptores em alerta (
em todo o país só havia 20) porque se entendia que não havia razão para tal.
Em resumo, o sistema falhou porque, como refere o
relatório do 9/11. “
the protocols in place on 9/11 for the FAA and NORAD to respond to a hijacking presumed that the hijacked aircraft would be readily identifiable and would not attempt to disappear, there would be time to address the problem through the appropriate FAA and NORAD chains of command, and the hijacking would take the traditional form: that is, it would not be a suicide hijacking designed to convert the aircraft into a guided missile.”
Entretanto muita coisa mudou.
Não há nada de inexplicável nisto, mas infelizmente os tolinhos preferem teorias paranóicas e sobrenaturais relativamente às quais não apresentam qualquer prova positiva.
Porque no fundo, não têm qualquer dúvida sobre o que aconteceu. Eles sabem tudo
à priori, a montante e à revelia dos factos. Provavelmente por Revelação ou por leitura de búzios e nunca nenhum facto foi susceptível de pôr em causa qualquer Fé.