quarta-feira, 11 de maio de 2011

Cinismo, ignorância ou dissonância

José Socrates, o grande líder a que temos direito, é uma personagem invulgar, aquilo a que , em linguagem mais cursiva, designamos por “cromo” ou, em fraseologia erudita e académica, um “tipo ideal”, weberiano.

Goste-se ou não dele (e eu confesso que sempre que o vejo e ouço a bravejar inanidades com o ar pesporrente de quem pensa que os outros são todos burros, sinto um calor de puro ódio a subir-me pelos gorgomilos), há que reconhecer que há ali qualquer coisa estranha e anormal.

Não é, por exemplo, normal que um típico exemplar do homo sapiens aguente, com total impassibilidade, as sucessivas revelações que lhe descobriram várias carecas, desde os projectos manhosos de casas numa autarquia em que trabalhou, até ao Freeport, passando pela Universiade Independente, Face Oculta, manipulação de jornais e televisões, etc, culminando nos devastadores resultados da sua governação.

Trata-se de um verdadeiro “sempre-em-pé”, como aqueles bonecos de fundo pesado, que voltam sempre à posição inicial, após um valente piparote.

A realidade, tal como os comuns mortais a olham, parece não afectar mínimamente o que José Sócrates faz e diz.


Ora sendo, até prova em contrário, um ser humano, tamanha invulnerabilidade aos factos, tem de ter uma explicação.

Objectivamente, Sócrates tomou péssimas decisões e profere constantemente afirmações falsas, facilmente documentáveis (isto para além de uns péssimos fígados que, em reflexo pavloviano, o levam a morder imediatamente as canelas a qualquer pessoa que se atreva a questionar as suas certezas, profecias e decisões)

Não podendo fazer testes ao espécime, adianto 3 hipóteses explicativas


Incompetência:

José Sócrates não sabia o que ia acontecer em função das suas decisões, isto é, além de ser ignorante, ou por isso mesmo, não compreendeu o que diziam todos aqueles que, ao longo dos anos, na imprensa, nas televisões, nas rádios, no Parlamento, nos blogues e na praça pública, explicavam, com toda a minúcia, o que aí vinha.

Esta hipótese explica bem os erros, disparates e omissões e explica muitíssimo bem a arrogância de José Sócrates quando fala à Nação. A ignorância é muito convencida, como se sabe, e nada como um ignorante para, de uma penada, “resolver” problemas, desde os mais simples aos mais complexos. Basta entrar num táxi, num barbeiro ou numa tasca, para encontrar dúzias destes seres geniais a debitarem soluções imediatas e instantâneas para tudo o que nos aflige, incluindo a táctica do Benfica e a salvação do planeta.

Há, contudo, um senão. Custa-me a acreditar que José Sócrates seja assim tão ignaro. Se até eu, que não sou nenhum águia, ouvi, li e compreedi o que diziam pessoas como João Salgueiro, Campos e Cunha, Daniel Bessa, António Barreto, Medina Carreira, etc, como é possível que José Sócrates, Engenheiro Civil por uma prestigiosa universidade, misteriosamente extinta, Ministro, 1º Ministro, Secretário-Geral do PS, etc, não tenha visto o comboio a chegar?

E os numerosos assessores que o rodeiam, incluindo o famoso Luís que lhe diz se fica bem na fotografia, e uma pleiâde de ministros, qual deles o mais brilhante? São todos imbecis? Mais imbecis que eu?

Não pode ser. A ignorância, se bem que explique alguma coisa, não explica tudo. Há algo de mais sinistro.


Será apenas cinismo, ou uma leitura atamancada de “O Príncipe”?

Será que José Sócrates sabia e comprendia, mas estava mais interessado no poder em si mesmo e em tudo aquilo que de agradável lhe está associado?

Será que, quando mente com toda a convicção que se lhe reconhece, está apenas a cumprir um papel, a representar, a fazer o que tem de ser feito para manter os fundilhos de Armani bem assentes na cadeira do poder?

Esta hipótese é tentadora e racional. Pode não ser muito apresentável, sob o ponto de vista ético, mas é assim que as coisas são e está de acordo com a natureza humana. Sócrates, tal como eu e o leitor, trata da sua vidinha, e quer mais: mais poder, mais dinheiro, mais prestígio, mais reconhecimento, etc. Não sou eu que o digo, é o velho Maslow, do alto da sua pirâmide.

Consigo perfeitamente conviver com esta maneira de agir, até porque é também a minha, embora provavelmente os meus incentivos sejam algo diferentes dos do Sr Engenheiro. Socorrendo-me do bom do Kirkgaard, diria que José Sócrates vive permanente e definitivamente no “plano estético”, isto é, tem umas motivações pessoais que andam ali pelo andar de baixo da pirâmide do Maslow.

Esta hipótese agrada-me também porque faz do Sr Sócrates uma belo sacaninha a quem dá gosto odiar.

Mas há um problema: é que, segundo esta hipotese, José Sócrates seria levado a fazer tudo, mas mesmo tudo, incluindo governar menos mal, para alcançar os seus objectivos.

Não o fez, infelizmente para nós e, por outro lado, a sua pose de pregador iracundo não pode ser completamente fingida, Não, quando ele olha directamente para a câmara, e se dirige a nós, nota-se a paixão, o congestionmento, o frémito de quem está a sentir aquilo que diz.

Augusto de Santos Silva, Pedro da Silva Pereira e Rui Pereira, esses sim, são cínicos e não o conseguem esconder. Trata-se de eminências pardas e a sua linguaem gestual não engana. Mas Sócrates é outra louça, e falta-lhe o refinamento do autêntico cínico, claramente estampado, por exemplo, no permanente esgar do nosso Ministro da Defesa.


Assim sendo, resta uma hipótese psicológica. Psicologia de cordel, talvez, mas a única que me ocorre. Não se trata de psicose, embora por vezes a impassibilidade com que Sócrates encara as suas vítimas, não seja muito diferente da de um psicopata.

Bem, aqui vai: Sócrates sofre de dissonância cognitiva. Sofre de outras coisas, obviamente, incluindo um problema estético no apêndice nasal, abatatado demais para um Primeiro-Ministro e de menos para um palhaço.

A dissonância cognitiva, palavrão que pode facilmente ser “googlado”, significa basicamente que Sócrates tem um problema com realidades que não se coadunam com aquilo que ele espera.

Ou seja, Sócrates tem um plano para o país, tem boas intenções (embora Pinheiro da Cruz esteja cheia delas) e acredita ser capaz de fazer com que as coisas aconteçam da maneira como as pensa.

Toma decisões, na sua opinião iluminadas e sábias, e senta-se a aguardar que o mundo se transforme naquilo que pretende.

Quando acontece algo que não estava no plano, e isso tem acontecido com notável frequência, ele recusa pura e simplesmente tomar conhecimento desses factos. Nega-os (estamos bem, estamos a recuperar, não precisamos de ajuda externa), racionaliza-os (a minha decisão estava correcta, a crise internacional, ou a crise política é que estragaram tudo), e segue em frente, em direcção ao desastre, mas com a sua sanidade mental devidamente salvaguardada.


Concluindo, nós, portugueses, (o voto é secreto mas eu garanto que não votei no senhor) escolhemos para nos governar um louco furioso.

E, a acreditar nas sondagens, somos também doidos varridos, porque nos preparamos para voltar a eleger o mesmo alienado.


Fazemos a cama onde nos deitamos, essa é que é essa.

2 comentários:

RioD'oiro disse...

Boa.

De facto,
http://fiel-inimigo.blogspot.com/2010/11/improbabilidade.html

.

Joaquim Simões disse...

Faço minhas as palavras do orador antecedente: boa!
E é de ler também a crónica do Vasco Pulido Valente no Público de ontem.

http://aperoladanet.blogspot.com/2011/05/socrates-e-os-portugueses.html