sexta-feira, 15 de julho de 2011

19.436 mortos

Tranquilizem-se.

Não se trata do número de vítimas provocadas pelas incursões sionistas na martirizada e heróica Palestina.

Nem do de cidadãos assassinados no humilhado e ofendido Iraque ou no violentado, mas orgulhoso, Afeganistão pelas forças brutais que pretendem impor a suja democracia parlamentar.

Nem do da pobre gente prematuramente excluída da vida pelos desastres ocorridos nas centrais nucleares com que o desenfreado mundo capitalista tem semeado o planeta.

Nem do daqueles que se suicidaram em todo o mundo devido à pobreza para que foram atirados pela criminosa especulação financeira geradora da actual crise.

Nem sequer do de quantos, em consequência dessa febre do lucro fácil e ruinoso, soçobraram pela diminuição da quantidade e qualidade de cuidados médicos, decorrente da diminuição das verbas destinadas aos cuidados públicos de saúde.

Nem, até (repito: não entrem em pânico!), do que resultou dos acidentes de viação ocorridos no nosso país, no ano passado, devido à incúria do Estado não-popular na conservação das estradas.

Nem (o que seria a vergonha nacional e o opróbio de qualquer país civilizado do século XXI) do número de crianças raptadas para fins pedófilos.

Sosseguem.

É um número progressista.

Um número que significa Liberdade.

O número de abortos legais realizados em Portugal em 2010.

8 comentários:

Carmo da Rosa disse...

Esta dos 19 mil mortos lembra-me um aforismo que o meu pai costumava dizer: ‘há para aí tanta gente a morrer que nunca dantes tinha morrido’…

É que realmente só morre quem está vivo, DEPOIS DE PARIDO, e não antes!!! Por este andar a Igreja Católica, além dos abortos, vai passar também a contar o número de camisas de vénus utilizadas…

José Gonsalo disse...

Carmo da Rosa:
A Igreja Católica não tem nada a ver com isto. E um feto é, desde o início, vivo. Quanto à determinação de quando é que alguém é alguém, porque é que se determina as 10 semanas como o limite diferenciador? Ou mesmo o momento antes parto? E porque não os 4 anos, quando o desenvolvimento cerebral atinge o seu ponto definitivo? Ou os 7 anos, quando surge o que é propriamente humano, a noção de tempo? Ou os 11, quando nos damos conta de um outro semelhante a nós mesmos? Ou os 15, quando se encontra finalmente desenvolvida essa capacidade superior da inteligência que é a abstracção? Porque só aí é que o ser humano está de posse de todas as suas potencialidades. Até lá, não passa de um feto que termina o seu desenvolvimento no exterior.
A lógica da conveniência do nascimento é a lógica do criador de gado aplicado ao humano. Com os perigos que todos sabemos. Aplicaram-na todas as tiranias do século XX, da Alemanha nazi ao ontens cantantes da URSS.

Carmo da Rosa disse...

José Gonsalo: “A lógica da conveniência do nascimento é a lógica do criador de gado aplicado ao humano.”

O aborto é realmente uma conveniência, que vem aliviar um terrível dilema para a mulher que foi violada, ou que não tem meios para sustentar o filho. Mas não será o outro lado da moeda - para responder a tantas perguntas com uma pergunta - a fome em África?

José Gonsalo disse...

Carmo da Rosa:
A meu ver, para além do ser resultante da violação não ter culpa alguma das circunstâncias em que foi concebido e, portanto, não haver razões para que seja ele a pagar por isso, a maior vingança que a mulher violada pode ter é amar a criança que passou a estar dentro de si e responsabilizar o violador como pai. É nesse contexto que eu vejo o Estado como um dos intervenientes, justificando a sua existência na medida em que tal se prende com a segurança dos cidadãos, mesmo que em tempo de guerra.
É, aliás, que eu entendo a frase de João Paulo II, dirigindo-se às mulheres violadas nos conflitos dos Balcãs: "Amem-nos." (àqueles que estavam no seus ventres).
Quanto ao problema da fome em África na sua relação com o direito ao aborto, isso já é algo mais vasto, que não cabe na caixa de comentários e um dia destes procurarei tratar com maior desenvolvimento em relação com os sofismas da esquerda.
Abraço.

Carmo da Rosa disse...

José Gonsalo disse: ”… não haver razões para que seja ele a pagar por isso…”

ELE nem dá por nada, acredite em mim! As razões para abortar são várias – uma mais dramática do que outra. No caso de violação, a razão é de ordem traumático-feminina-maternal, assunto complexo em que os homens têm o monopólio mas não têm experiência – quanto mais um homem-de-saias que passa por santo…

José Gonsalo disse: ”Quanto ao problema da fome em África na sua relação com o direito ao aborto”

Vejo apenas uma relação no que diz respeito à demografia: parece-me lógico não ter muitos filhos num espaço geográfico em que os alimentos escasseiam… Você dirá, e com toda a razão, que há outros meios, menos expeditos, para um planeamento familiar. Certo, mas para isso é preciso que o homem-de-saias se deixe de merdas e dê uma ajudinha, distribuindo pessoalmente camisas de vénus em vez de hóstias… Bem, sejamos liberais, e porque não as duas coisas ao mesmo tempo?

O-Lidador disse...

Viva CdR. Polémico como sempre, mas só não entendo o que tem a Igreja Católica e o Papa a ver com o assunto.

Que não concordam com o aborto? Sim,é verdade, mas eu não sou católico, nem papa e tb não concordo com a liberalização e , pior, o facto de ter de pagar para que a Vanessa se livre do problema que resultou da queca com o Quim.

Todas as religiões são, de um modo geral, avessas ao aborto por dá cá aquela palha e tb as pessoas com alguma consciência ética.

O direito das mulheres a dispôr do seu corpo aplica-se aos rins, ao fígado, a uma verruga, etc. Um feto não é só isso, desculpe lá. E mesmo que fosse, eu tb tenho direito de dispor da minha pata esquerda e se me deslocar a um hospital para me ver livre dela, fazem-me um manguito.
Porque será?

Mas porra, que tem o papa a ver com o assunto? Não pode ter opinião? A sua opinião é promulgada no Diário da República? Faz lei?

José Gonsalo disse...

Carmo da Rosa:
Saias por saias, também pode pôr o médio oriente a distribuí-los (se toda essa gente não chegar para as encomendas, ainda pode pedir auxílio aos escoceses). Mas, como calculará, por motivos semelhantes aos do Papa mas do lado oposto, nenhuma dessa gente o fará e, quanto aos africanos, dir-lhe-ão que se você gosta de comer rebuçados com papel e tudo é lá consigo, que eles não vão nessa. Portanto, continuo a não perceber porque é que é que o vigário de Roma tem mais responsabilidades no assunto do que os restantes; pelo contrário, se fizermos as contas, uma vez que o que ele diz é quase exclusivamente ouvido nas sociedades ocidentais (se me disser que ele é real e largamente ouvido em África, dou-lhe os parabéns antecipados pela anedota do século), julgo que ele é mesmo o menos responsável.
Como já disse, logo que me seja possível, tenciono escrever um pequeno artigo sobre o aborto e a sofística da esquerda. Mas o que eu publiquei aqui, no Fiel Inimigo,

http://fiel-inimigo.blogspot.com/2010/03/dos-18000.html

um texto do filósofo espanhol Julián Marías, é, por si só, a meu ver, muito interessante. Quanto mais nas suas implicações com as ideologias leninistas.

José Gonsalo disse...

Carmo da Rosa:
Entretanto, esqueci-me disto:

"ELE nem dá por nada, acredite em mim"

Quanto a mim, para quem a ciência não tem (nem o grande cientista se arroga) esse grau de certeza quanto aos seus conhecimentos, isso é duvidoso por variadíssimas razões.
Mas, mesmo que assim fosse, em que é que tal alteraria a qualidade do acto?