quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os homenzinhos que gostavam do vermelho

No Blasfémias, por Helena Matos.

Os homenzinhos que gostavam do vermelho *

O início do julgamento de quatro líderes dos Khmers Vermelhos no Cambodja gerou várias notícias. Quem as lê fica com a convicção de que aquele país foi governado durante um breve período por um grupo de gente que além de gostar do vermelho é agora acusada da morte de dois milhões de pessoas. O que unia esse grupo designado como Khmers Vermelhos? As notícias são quase sempre omissas sobre a pertença ideológica destes homens e da fundamentação política para o genocídio que levaram a cabo.
Sintomaticamente Denise Affonço, uma cidadã cambojana em cuja ascendência ainda existem portugueses e que em 1975, tal como milhares de cambojanos teve de abandonar a capital, Phnom Penh, acabada de conquistar pelos Khmers Vermelhos, na entrevista que em 2009 deu à Antena 1, começa precisamente por interrogar o entrevistador sobre a forma como os khmers são designados entre nós: “Eu não sei como é que dizem aqui, se Khmers Vermelhos ou Khmers Comunistas mas de facto os Khmers Vermelhos são os Khmers Comunistas.” (Aliás vale a pena ouvir a entrevista no siteda Antena 1 porque quando Denise Affonço expressa a sua condenação do comunismo o entrevistador não arranja nada mais adequado para lhe perguntar do que isto: “Tendo em conta tudo aquilo por que passou, nunca mais foi possível para si acreditar em sociedades perfeitas?” Ou seja, segundo esta pergunta, o comunismo continua a ser uma sociedade perfeita na qual Denise Affonço, por razões pessoais, não consegue acreditar. Imagina-se esta pergunta a ser feita a alguém saído dos campos nazis ou fascistas?)
Não só os Khmers Vermelhos eram comunistas como a experiência cambojana era enaltecida nos anos 70 do século passado nos meios intelectuais europeus como a versão mais pura do comunismo: a moeda fora abolida, toda a propriedade tinha sido nacionalizada e até as diferenças entre a cidade e os campos tinham sido extintas, pois os habitantes das cidades foram obrigados a partir para os campos para serem reeducados. Um número indeterminado acabou a morrer de fome e esgotamento como sucedeu a uma das filhas de Denise Affonço. Outros foram levados pelas autoridades sem que mais se soubesse do seu paradeiro, como aconteceu com o seu marido. E outros como ela mesma sobreviveram para contar e para se confrontar com a estranha condescendência da opinião pública ocidental perante os crimes do comunismo.

Quando se tornou impossível continuar a escamotear os dois milhões de mortos em consequência da fome e da violência a que o comunismo conduzira o Camboja, no Ocidente o regime deste país foi sendo cada vez menos identificado pela sua filiação no universo das ideologias para se tornar numa espécie de quadradinho no catálogo das cores: os Khmers deixaram de ser socialistas e comunistas para se tornarem exclusivamente Vermelhos, como se os seus crimes não fossem o resultado da sua ideologia mas sim do acaso ou quiçá por terem um problema de sarampo mal resolvido.
*PÚBLICO

1 comentário:

EJSantos disse...

Hmm, um destes dias ainda nos sai na rifa uns "khmers" verdes...
A loucura está sempre à procura de novos disfarces.