terça-feira, 8 de novembro de 2011

Roma, Germanos e Árabes


Há dias, numa tertúlia com amigos, o tema da ameaça islâmica suscitou acesa discussão. Um dos argumentos brandidos por um dos intervenientes é o de que, como aconteceu com outros invasores e outras migrações, os valores do Ocidente acabam por ser aceites e impôr-se.
E referia, a propósito, o período das invasões e migrações germânicas sobre o Império Romano que levaram, não à germanização da Romania, mas à romanização dos bárbaros.

O argumento é poderoso mas derrota-se a si mesmo, como iremos ver.

Os germanos, apesar de terem sido os maiores responsáveis pela destruição do governo imperial, não queriam substituir o Império por algo novo e, de facto, o direito, a moral, a economia, a moeda, o equilíbrio social, a língua, as artes, etc, mantiveram as referências romanas. Até a religião cristã, a religião do Império, acabou por desalojar o arianismo.

Os reis bárbaros eram geralmente vistos pelas populações como generais de mercenários, ao serviço de Roma. E mesmo quando vitoriosos, iam ao encontro dos vencidos, adquiriam os seus hábitos e os seus valores, governavam à romana, ou tentavam. As suas cortes estavam cheias de poetas e retóricos,
Recesvinto, Rei dos Visogodos, proclamou em 634 um Liber Judiciorum, completamente tributário do direito romano. Sigismundo, Rei dos Burgúndios, dizia-se um soldado do Império.
O Norte de Africa estava completamente romanizado e até os Vândalos, que ali se instalaram, aceitaram a vida tal como ela era, ao estilo romano.
A imagem que melhor descreve a situação é a de um belo solar, cujo dono está ausente, e que foi dividido interiormente em vários apartamentos. Apesar dos sinais de decadência, apesar de já não existir um único proprietário, o edifício mantém-se de pé, com a sua original traça exterior.

Isto numa altura em que os árabes começavam a sua grande jihad.
Mas com os árabes, nada disto se passou.
Em 632, quando Maomé morreu, ninguém estava preocupado com os árabes. Eram umas tribos de selvagens, para lá da Síria.
Os grandes poderes da época eram o Império Bizantino, o Império Persa e, na Europa, os reis germânicos mantinham mais ou menos viva a ideia do Império Romano.
Trinta anos depois já os árabes, galvanizados por uma nova religião, carregavam sobre o Norte de Africa, e conquistavam Creta, Chipre e Sicília. O Mediterrâneo era deles e os Impérios Persa e Bizantino batiam em retirada.

A questão que se coloca é: porque razão não foram os árabes absorvidos pelos valores de populações e regiões, muitas das quais com civilização superior, como tinha acontecido com os germanos?

A razão é, claramente, religiosa. Os germanos nada tinham a opor ao cristianismo do Império, queriam apenas poder e o brilho que o Império projectava, eram como traças atraídas por uma lâmpada, mas os árabes combatiam por uma nova fé e foi a natureza dessa fé que impossibilitou a assimilação.
Na verdade os árabes nada tinham a opor à civilização superior dos povos que conquistam, e assimilaram-na com grande rapidez, indo beber directamente ao legado helénico.
Nem sequer pretendiam converter os conquistados, apenas que eles obedecessem a Alá. Ou seja, exigiam a simples e, para eles, natural, submissão de seres inferiores, degradados, desprezíveis, e abjectos.
Onde chegaram, instalaram-se como dominadores. Os vencidos eram seus súbditos, pagavam impostos especiais (jyzia) e não faziam parte da umma, da comunidade dos crentes. Nenhuma fusão podia acontecer entre conquistados e conquistadores, nenhum esforço os vencedores faziam para agradar aos vencidos. Eram estes que tinham de ir ao encontro dos seus novos senhores e não podiam ir de outro modo que não fosse como servidores de Alá.
A fé dos vencidos não era atacada, não merecia sequer a dignidade de ser rebatida. Era simplesmente ignorada, já que um predador não argumenta com a presa. E esta era a melhor maneira de afastar o vencido do seu estado de jahiliyyah e conduzi-lo a Alá e à dignidade da comunidade dos crentes.
Tudo isto implica que onde o muçulmano se instalou como vencedor, a antiga civilização desapareceu. O germano romanizou-se ao entrar no Império. Os povos onde entrou o muçulmano, islamizaram-se, porque a rotura com o passado foi total. Uma nova língua, novos costumes, um novo direito (sharia), novos valores, instituições e, acima de tudo, uma nova religião, dominadora e intratável.
A sociedade civil desapareceu, sendo substituída por uma sociedade religiosa e totalitária.
Foi isto que aconteceu em todas as regiões onde o Islão chegou, desde a Pérsia a Marrocos. E esteve prestes a acontecer na Península Ibérica, não tivesse havido algumas circunstâncias fortuitas que impediram esse desfecho.

É por isso que o argumento daquele meu amigo é falacioso. Mas é a mesma falácia em que assenta a doutrina multiculturalista dominante no pensamento politicamente correcto ocidental. A ideia que, de algum modo, as comunidades muçulmanas são como as outras, serão assimiladas, e acabarão por se converter aos nossos valores, às nossas leis, ao nosso modo de vida.
Nada na História corrobora tal esperança, bem pelo contrário, pelo que a sua prevalência se deve apenas à profunda ignorância ocidental, relativamente aos fundamentos doutrinários do Islão.
E, como dizia Sun Tzu, quem não conhece o seu inimigo, nem se conhece a si mesmo, perderá todas as batalhas.

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