quinta-feira, 1 de março de 2012

Da transcendência da esquerda



Um amigo meu, falecido poucos dias após o 25 de Abril, elemento activo na agitação estudantil universitária que o precedeu e com ligações ao PCP, sempre me manifestou a maior desconfiança em relação à honestidade revolucionária de Fidel Castro e dos seus companheiros bem como à incorruptibilidade do seu carácter.
Durante e após o PREC, também alguns elementos do PC, de alguma notoriedade e importância, com quem eu me relacionava a nível profissional, me manifestavam a mesma desconfiança. Aos militantes, porém, tal como agora, iam dizendo exactamente o oposto, encarecendo o paraíso e a coragem de Cuba.
O caso da Síria, não sendo igual, é semelhante ao da Coreia. Embora de socialismo atenuado, é uma "monarquia vermelha".
A esquerda não dirá nada contra as atrocidades do regime durante a sua queda, mas também não dirá seja o que for a favor dele. Depois da queda, logo verá o que aproveitar dela, em termos de manutenção, reforço e disseminação da sua propaganda ideológica.
Porque a esquerda julga que a sua força reside em afirmar-se acima da materialidade dos seus erros.
A esquerda transporta-se para a transcendência histórica, como é próprio (utilizando o vocabulário de Nietzsche) dos fracos e dos ressentidos com a vida e, para isso, inventa monstros míticos, contra cujos filhos temporais luta. No caso, os Estados Unidos da América e Israel.
Dentro da mais pura tradição da banda desenhada. Incipiente, sim, mas que, não exigindo grandes despesas de pensamento, se mantém muito popular.

4 comentários:

O-Lidador disse...

"a esquerda julga que a sua força reside em afirmar-se acima da materialidade dos seus erros."

Exactamente. É por isso que os erros e os desastres a que a esquerda conduziu várias sociedades, são como a igreja que cai sobre os fiéis...em nenhum momento, face ao facto inescapável, eles questionam a bondade da sua divindade. Há sempre uma explicação, um demónio, os próprios "desvios". Tudo menos a essência da crença que, por essa via, se torna imune aos factos.

Carmo da Rosa disse...

José Gonsalo disse: ”…. a esquerda julga que a sua força reside em afirmar-se acima da materialidade dos seus erros.”

Isso é assim até se darem conta dos erros: um processo longo e penoso.

O-Lidador disse...

"até se darem conta dos erros"

Raramente o erro é assumido. Normalmente encontra-se sempre uma justificação.
Por exemplo, o falhanço da URSS não se deveu ao sistema em si, mas aos "desvios", aos "sabotadores", aos "ataques do capitalismo".

A fé,essa mantém-s intacta. Aquilo afinal não era o "verdadeiro comunismo"...

Carmo da Rosa disse...

O-Lidador disse: ”A fé, essa mantém-se intacta. Aquilo afinal não era o "verdadeiro comunismo"”

Ó primo, está a confundir com os homossexuais, esses é que ficam intactos, assim como nasceram. Os esquerdistas podem mudar de opinião a qualquer momento - e muitos já o fizeram.

Os que ainda não mudaram e andam à procura do comunismo verdadeiro são homossexuais coitadinhos e não há nada a fazer...