segunda-feira, 23 de abril de 2012

Da surdez no clítoris - 2




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O mais antigo encontra-se na afirmação de Aristóteles de que “todo o ser humano deseja, por natureza, conhecer”. O que é inegavelmente verdadeiro por simples constatação das características comuns aos indivíduos de uma espécie que, através de um salto qualitativo na evolução do cérebro e em algumas particularidades físicas, foi investido nas funções de assistente de gestão do planeta. 

O que Aristóteles passa por alto, porém (de boa-fé ou convenientemente para o que pretendia com essa afirmação), é algo que se inclui na mesma experiência em que se baseou para formular o princípio referido: que nem todos os seres humanos se empenham de igual modo em obter conhecimentos tanto em extensão como em profundidade, tal como nem sempre se encontrem preocupados por aí além quanto a eventuais erros e injustiças que venham a cometer.

Descartes, já no século XVII, formulou o segundo desses princípios, tentando, ao mesmo tempo, colmatar em parte as falhas de Aristóteles. Define ele a razão, ou bom- senso, como a capacidade de distinguir o verdadeiro do falso, capacidade que se encontra por igual em todos os seres humanos. Se todos erramos, uns mais que outros, nos nossos raciocínios é porque não utilizamos o método correcto, coisa que Descartes procura evitar propondo um, de sua autoria, com base nos procedimentos lógico-matemáticos, do qual já retirara muitos bons resultados. Se aplicarmos rigorosamente esse método, chegaremos à verdade, tal a evidência com que as conclusões a que nos leva se impõem ao nosso espírito. Mas não deixa de fazer notar que ele próprio, apesar de tentar proceder desse modo, também se engana. Porquê? Porque a mesma vontade que nos impele para o conhecimento leva também, pela sua intensidade, a que nos precipitemos e, assim, não observemos os necessários passos a percorrer. Uma questão de excesso de impetuosidade, portanto.

O tempero final veio de Jean-Jacques Rousseau. Para o suíço que escreveu, poucos anos antes da Revolução Francesa, o primeiro tratado da pedagogia humanista na forma de romance, Emílio, o ser humano é igual e originalmente curioso e bom, é um “bom selvagem”. O seu desenvolvimento exige a socialização; mas, se a sociedade em que se desenvolver estiver corrompida pelos vícios e pela imoralidade, ele tornar-se-á tão estúpido, mau e corrupto como essa sociedade. É a sociedade, portanto, que é necessário reformar, educar.

Não havendo maneira de demonstrar a teoria, uma vez que não existe uma experiência social anterior conhecida correspondente a uma “sociedade boa” que lhe sirva de referência e a realidade se apresenta num jogo constituído por uma enormíssima multiplicidade de situações e factores, o que Rousseau diz não ultrapassa uma afirmação sem outro fundamento maior do que a convicção pessoal. É, por assim dizer, uma fé, uma fé claramente mais inserida em horizontes políticos decorrentes dos tempos de mudança que se vivia. Está definitivamente aberto o caminho aos Grandes Reformadores Sociais e aos Grandes Educadores do Povo.

Já agora, a propósito do carácter dessa convicção do “bom selvagem filosofante” é interessante relembrar alguns pormenores da sua vida. Rousseau foi abandonado pelos pais e passou a sua infância com um tio, a quem ficou a dever não apenas a vida mas também uma educação cuidada. O exemplo do tio, contudo, não foi seguido pelo fundador da pedagogia moderna, que abandonou todos os seus filhos na roda. Rousseau, aliás, tinha um carácter tão intratável e sofria de tais distúrbios de personalidade que David Hume, seu grande admirador e amigo, foi obrigado a afastar-se dele. Pelos vistos, a corrupção e a imoralidade sociais fizeram-se sentir mais fortemente sobre o seu carácter do que a acção do pobre tio.

As teorias socialistas, enunciadas num contexto cultural que absorveu até hoje acriticamente a vulgata desses princípios e em meio de um movimento de transformação social em que predominava a ideia de igualitarismo político, justificaram-se, implicitamente, com eles e a partir deles. Com efeito, na ideologia e na propaganda socialistas estão omnipresentes, implícita ou explicitamente, estes pressupostos, sem qualquer necessidade de prova: os seres humanos são igual e naturalmente dinâmicos quanto à disposição para obter conhecimento; todos são capazes de aceder ao topo do saber se forem devidamente incitados ao estudo devidamente planeado, tornando-se assim iguais em capacidades e merecimento; o que impede o paraíso terrestre é, afinal, a sociedade gerada pelo sistema de produção em que assenta o capitalismo, e a sua máquina repressora do povo trabalhador, o Estado. Uma sociedade que só a Revolução Socialista poderia gerar, apoderando-se do Estado (isto, na perspectiva marxista) para, proletarizando-o, o destruir. O pensamento de Hegel, a quem ambas, esquerda e direita, devem os fundamentos filosóficos de raiz e as posteriores derivações com que se ornamentaram, conferiu estrutura final ao ramalhete.

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