sexta-feira, 25 de maio de 2012

Liberdade de expressão, insultos e a prova dos nove.

Tudo começou quando resolvi apagar uns comentários insultuosos e chocarreiros que, num poste do Carmo da Rosa, me eram dirigidos.
Na vida real a injúria é crime e o ofendido pode processar o agressor. Todos os ordenamentos jurídicos dos estados de direito, punem tal crime com penas que vão de multa a prisão.
O que é lógico. Os seres humanos indignam-se, tanto mais quanto mais dignos são, e a história e as histórias, demonstram que das agressões verbais às físicas, vai um passinho, que muitas vezes é dado em questões de segundos. 
Muita gente morreu e morre, em questiúnculas que começam por um simples remoque verbal. Guerras foram já desencadeadas por insinuações injuriosas.
Duelos, à espada, à pistola e à bengalada, se livraram e livram por coisas tão comezinhas como suscitar dúvidas sobre a menor ou maior promiscuidade da mãe de alguém.
Na verdade, esta susceptibilidade à injúria é uma medida da nossa humanidade. Os cães, os bodes, os frangos, os asnos,  não se indignam se os injuriamos. Os seres humanos reduzidos à escravidão ou com as suas faculdades diminuidas, também não se indignam.
Só os dignos se indignam e, como diz o povo, quem não se sente não é filho de boa gente.


No mundo dos blogues, o insulto surge frequentemente.  As pessoas sentem-se protegidas pelo interface virtual e fazem  como nos estádios de futebol, a coberto do anonimato da multidão: exorcizam as suas frustrações, chamando nomes ao árbitro.
No mundo dos blogues, não existe Código Penal, não existe juiz, e não se pode bengalar o agressor, que está longe e é desconhecido.
As respostas possíveis à agressão verbal são, responder à letra, ignorar, apagar (se tiver poder), ou mudar de sítio.


Responder na mesma moeda parece ser, aos olhos de alguns, a melhor coisa a fazer. Discordo completamente.
Por formação profissional tenho algumas luzes teóricas sobre gestão da violência e por prática e feitio,  alguns saberes de experiência feitos.
Responder a um ataque com um ataque semelhante só é efectivo se o adversário ficar absolutamente convencido que tenho a capacidade e a vontade para o esmagar. É, mutatis mutandis, um tiro de aviso. O adversário sabe que eu o posso atingir a sério.
Mas se ele pensar que se trata de mera bravata, segue-se uma escalada, eu insulto, tu insultas, eu empurro, tu empurras, eu dou-te um soco, tu dás-me um soco  e acaba-se por subir aos extremos, com maiores prejuizos mútuos.


Num blogue, responder à violência verbal com violência verbal, é um jogo inútil, cujo único resultado é fazer perder tempo e matar a credibilidade do blogue.
Ignorar, é dar palco a quem não está interessado em debater, mas tão só em ajavardar.
Na situação em apreço, usei uma arma definitiva: apaguei as  injúrias,  desarmando o troll e mantendo, segundo o meu ponto de vista, a credibilidade do espaço de discussão. O Carmo da Rosa insurgiu-se e disse que, para ele, aquilo era apenas liberdade de expressão e que não aceitava censura.
A sua opinião era que tudo se podia dizer.
Procurei fazer-lhe ver que:


1- Não se tratava de censura, porque as pessoas tinha liberdade de se expressar.
2-Apagar  os comentários com insulto é, por um lado responsabilizar quem insulta, aplicar-lhes uma pena, digamos e, por outro lado, uma medida profilática que visa manter um ambiente civilizado e cordato, no qual seja possível trocar e confrontar ideias.


A minha argumentação esbarrou com  a inflexibilidade do Carmo da Rosa que continuou a garantir que sancionar linguagem insultuosa era atacar a  liberdade de expressão. E de caminho, misturou coisas  como ofensas a pessoas, e ofensas a ideias, conceitos, ou crenças.
Tentei fazer-lhe ver que as pessoas têm personalidade jurídica, são sujeitos de direitos e deveres, ao passo que as  ideias, crenças e ideologias, não, em principio.
Se bem que em alguns países ocidentais se esteja a fazer um caminho perigoso de criminalizar a crítica a sistemas de ideias (em Portugal é crime exprimir ideias fascistas, na Holanda pode-se ser preso por criticar religiões, etc), prevalece a distinção fundamental: pode-se dizer o que se quiser sobre crenças, ideologias, etc, é-se responsabilizado por agressões verbais a pessoas concretas.


O Carmo da Rosa, compenetrado da sua razão, não parece ter atentado nestas subtis diferenças e todos os meus argumentos foram inúteis para vencer a muralha que construiu, do alto da qual tudo lhe parece claro: ou há liberdade de expressão, ou não há, e liberdade de expressão implica (para ele)  a liberdade de insultar outrem.
De caminho, outros parceiros de blogue juntaram-se no apoio a este conceito. O RB e o Tarzan intervieram basicamente para subscrever o ponto de vista do CdR.


Uma vez que não posso estar constantemente a repetir argumentos que não são digeridos pelos interlocutores, resolvi experimentar uma velha táctica.


Há tempos discutia com um amigo a questão da pena de morte. Esse meu amigo mostrava-se inflexível. Era contra, era contra e era contra, por questões de progresso, civilização, ética, enfim, era contra. E criticava acerbamente os americanos, por terem a pena de morte.
Uns tempos mais tarde, estávamos em pleno Verão, a zona onde ele tem a sua casa, foi ameaçada por um gigantesco incêndio. Os bombeiros falaram de mão criminosa e, no calor da luta, o meu amigo, em fúria e assustado, não se coibia de dizer, com toda a convicção, que estes criminosos deviam ser amarrados às arvores  a que deitavam fogo.
Ou seja, uma clássica variação do velho tema de São Tomás, ouve o que ele diz, não faças o que ele faz e que os nossos irmãos brasileiros gostosamente traduzem por "picante no rabo do outro, para mim é refresco".


Adiante!
Já que os meus comparsas de blogue eram da opinião que insulto (aos outros) e liberdade de expressão eram indistinguíveis  e basicamente fruto de interpretações subjectivas,  resolvi levar o argumento ao extremo e fazê-lo recair sobre eles mesmo, porque nisto, como no poker, as coisas só funcionam quando são a sério.
Informei o RD do que ia fazer, para a malta não ficar a pensar que ensandeci, e passei a incluir remoques, dichotes e injúrias avulsas, nas minhas respostas aos três bloguistas em questão, exactamente a situação de que  eu era alvo nos postes do Carmo da Rosa.
O resultado fala por si:


O RB nem respondeu e saíu, o Carmo da Rosa não tardou também a sentir-se e a responder de forma azeda, e o Tarzan idem. Instalou-se um ambiente letal, hostil e impróprio para debater o que quer que seja.


As reacções não podiam ser mais demonstrativas da razão que me assiste e provam que as justificações construídas pelo Carmo da Rosa, não se sustentam quando passa a ser ele o alvo do insulto.
Como é boa gente sente-se e responde. 
E prova o meu argumento de que insulto é uma coisa, liberdade de expressão é outra e nada como senti-lo na pele, para perceber o suco da barbatana da questão.


Dito isto, encerro a minha argumentação com três  conclusões e um pedido de desculpa:
A 1ª conclusão é que aceitar insultos pessoais num blogue conduz à sua implosão. Logo, não devem ser aceites e devem ser imediatamente apagados.
A 2ª conclusão é que temos de ser capaz de  agir com empatia e colocarmo-nos no lugar do outro, quando o picante que o faz bufar, nos parece refresco.
A 3ª é que sem regras mínimas de cortesia, boa educação e respeito pelos outros, não é possível qualquer interacção social.


E um pedido de desculpas, enorme e sentido,  pela linguagem baixa e insultuosa que me vi obrigado a usar para colocar à prova o meu argumento.
São coisas que obviamente não penso e não uso, exactamente pelas razões que ficam patentes neste poste.

2 comentários:

EJSantos disse...

Hmm...
Sigo este blogue já desde o seu inicio.
Confesso que fiquei surpreendido com a azeda polémica que se instalou entre os autores.
Espero que o bom senso prevaleça.
Um abraço
EJSantos

Streetwarrior disse...

Boas J.Carmo.
também deve ter reparado que o fenomeno não é transversal.
Existem por aqui autores que apesar da discordancia de ideias, aceitam a diferença, enquanto que há outros, que por vezes, até é a primeira vez que o comentador entra no Blog...e vai de estupido para cima dele.
Depois...é a natural Ordem o Cosmos.
Acção-reacção.
Ao contrário do EJSantos, não fiquei muito surpreendido, pois por norma, quando se entra num sistema de enxovalhar os outros, é só esperar até que alguém lhe faça o mesmo e não goste.
Ora, existem pelo menos 2 autores neste Blog que não admitem que alguém tenha uma opinião diferente da sua...inclusivé, até se sentem legitimados para falar de outras ideologias como não pudessem ser questionados.
Ora...era só esperar!
Abraço
Street