sábado, 12 de maio de 2012

O papel da APM na hegemonia do uso das calculadoras na sala de aula

Ramiro Marques no ProfBlog:

Acompanhei com ceticismo a catequização feita nas duas últimas décadas a favor do uso das máquinas de calcular no ensino. A catequese foi feita sobretudo pela Associação de Professores de Matemática: uma associação com um poder imenso entre os professores de matemática e entre os professores do 1º CEB. Os segundos foram os que mais facilmente se deixarem endoutrinar por uma pedagogia construtivista do ensino da matemática que teve nas calculadoras o seu principal instrumento.


A hegemonia que a APM teve no ensino da matemática foi assegurada com a cumplicidade do ministério da educação. Os seus dirigentes foram chamados a integrar grupos de trabalho e comissões e foram os responsáveis pelas sucessivas revisões dos programas de ensino. A pouco e pouco, a APM controlou quase toda a formação contínua de professores na área da didática da matemática (educação matemática como eles dizem).

Antes da chegada ao Governo de Nuno Crato, a APM tinha um poder imenso nas estruturas centrais do ministério da educação. Continua a ter imenso poder nos departamentos e escolas de educação.

Durante duas décadas, quase ninguém foi capaz de questionar esse poder. Apenas a Sociedade Portuguesa de Matemática se opôs à retórica de instrumentalização dos professores. Na época de ouro das políticas socialistas educativas - durante os governos de Guterres e José Sócrates - ninguém ouviu os avisos da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM). Toda a atenção estava virada para as recomendações pedagógicas da Associação de Professores de Matemática (APM). Recomendações que foram aceites e seguidas com acriticismo. No final da década de 90 e na primeira metade da primeira década do século XXI, a APM conseguiu reunir nos seus congressos anuais mais de 2000 participantes vindos de todo o país, movimentando verbas astronómicas em inscrições, subsídios e patrocínios.

O poder da APM era imenso e fazia-se expressar através de uma revista de grande circulação, dezenas de livros sobre educação matemática, muitos de apologia ao uso das calculadoras, ações de formação creditadas por todo o país e congressos anuais que movimentavam milhares de docentes.

Os dirigentes da APM ocuparam toda a estrutura do poder ligado ao ensino da matemática. Milhares de professores do 1º CEB e professores de matemática do ensino secundário e do 2º e 3º CEB foram formados na ideologia pedagógica da APM. Centenas de teses de mestrado e de doutoramento em educação matemática foram orientadas por líderes educacionais próximos da APM.

Os professores de matemática e os professores dos 1º CEB deixaram-se seduzir pelo discurso da APM e dos seus líderes.

O resultado da hegemonia da retórica a favor da generalização do uso das calculadoras na sala de aula é conhecido: os alunos foram perdendo as capacidade de cálculo mental de tal forma que as operações matemáticas simples se tornaram impossíveis sem o uso de calculadora.


O resultado da hegemonia da APM no ensino da matemática impede a suspensão imediata do uso das calculadoras na sala de aula. No post anterior, eu perguntei: "Há algum problema em pô-la em vigor de imediato?". O Rio D`Oiro deu esta explicação que me parece acertada:


Tal faria com que, de um momento para o outro, ninguém soubesse quanto é 4x3 ou 2x6.

O que a mim me faz confusão é por que não começa a medida a ser implementada na primária, acompanhando os alunos. Este ano proibição até à 4ª para o ano até ao 6º, depois 9º.

A maioria dos alunos não têm a mínima noção se 50000 ervilhas ocupam apenas um MP3 ou enchem um camião.