terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Da estrutura da fome




Poderia ser um título comum a estas três crónicas de Alberto Gonçalves:


A fome e a vontade de comer


O universo dos blogues recuperou um extraordinário texto do ordinário (no sentido não pejorativo do termo) Paulo Pedroso, antigo ministro da Solidariedade. O texto, velho de um ano na prática e de décadas na teoria, é um excelente exemplo dos argumentos por detrás do ódio ao Banco Alimentar (BA) em geral e à sua presidente, Isabel Jonet, em particular.

A tese, se tamanha infantilidade merece o nome, é a de que o BA não passa de um sistema de escoamento dos excedentes dos supermercados, o qual alivia "as consciências sem resolver nenhum problema estrutural". Através de evidências, meias-verdades e cabeludas mentiras (os que doam os serviços ao BA não se reduzem a "escuteiros e toda a rede de voluntários ligada à Igreja Católica"), só falta ao dr. Pedroso reproduzir a linda rábula do peixe, da cana e do pescador para concluir, cito, que prefere dedicar a sua "energia" a "perguntar-se" o que pode "fazer para que diminua este tipo de procura de bens alimentares enquanto a senhora Jonet escoa a oferta".

Talvez seja altura de questionar o dr. Pedroso sobre se a energia que dedica e as perguntas que se faz já deram frutos e respostas. Aposto que não deram: pensar "estruturalmente" a pobreza é tarefa de uma vida e, à semelhança de matutar acerca do destino desta, não leva a lado nenhum. Ou leva a cargos em governos, universidades, fundações, observatórios e empresas "públicas" empenhadas em não suprir as necessidades de nenhum desgraçado até que se possa satisfazer todos os desgraçados da Terra em simultâneo. A "caridade" que tanto repugna o dr. Pedroso compõe a barriga de mil, dez mil ou cem mil famintos, mas isso de nada serve quando não se resolve os problemas que tornam a fome possível, ainda que o processo demore séculos. E se, no entretanto, o pessoal continua à míngua, trata-se de um pormenor que não afecta a cósmica generosidade do dr. Pedroso, corajosamente indiferente a casos individuais e apenas interessado no "conceito". Em tempos, os ricos tinham, e alimentavam, o "seu" pobrezinho. Gente como o dr. Pedroso chama a si os pobrezinhos em peso - desde que não precise de alimentar nenhum.

Não acredito na bondade "pura". Não me custa aceitar que Isabel Jonet também se mova por ambições íntimas, incluindo desejos de notoriedade ou outros. A questão é que, no processo, há pessoas que infelizmente precisam do trabalho da senhora e dele aproveitam. Em contrapartida, abro uma excepção para o dr. Pedroso e similares, que possivelmente são guiados pelas melhores intenções e pelo mais cristalino altruísmo sem que daí resulte qualquer benefício para alguém - excepto, vejam lá a ironia, os benfeitores.

Agora a sério, mesmo que o dr. Pedroso dificulte a tarefa: não me esqueci do autor da maior acção de caridade da história do regime. Falo, evidentemente, do "rendimento mínimo", proeza de propaganda que incluía a "superficialidade" inconsequente que o dr. Pedro critica no Banco Alimentar sem incluir o voluntariado que, em prol da coerência, o dr. Pedroso continua a detestar: no RSI (eufemismo actual), os donativos são arrancados à força.


O reino dos céus


Perante as críticas do Papa Francisco ao capitalismo e aos "mercados", as pessoas que gostam do Vaticano recordam que isso não é mais do que a costumeira doutrina social da Igreja. As pessoas que abominam o Vaticano acham que a retórica é novidade e não só vai arrasar o capitalismo e os "mercados" como, se a coisa correr pelo melhor, arrasará a Igreja. Eu, neutro na matéria, prefiro notar que, apesar do aparente embaraço de uns e do evidente entusiasmo dos outros, o próprio Papa talvez fizesse melhor em começar por comentar o desemprego, a pobreza e a fome nos felizardos países sem inclinações capitalistas e nos quais os mercados se limitam aos lugares onde o povo compra, quando consegue comprar, hortaliças e galinhas. Se a devoção materialista tem muitos defeitos, uma virtude ninguém lhe nega: não se confunde com nenhuma das maravilhosas alternativas disponíveis.


Um caso



O Governo prepara o agravamento do IRC para as empresas com lucros superiores a 50 milhões. O PS defendia a subida da taxa para 7%, o Governo ficou-se pelos 6%, mesmo assim prova suficiente de que, entre nós, o crescimento económico é severamente castigado por lei. As empresas exemplares, dignas de comendas e carinhos fiscais, são as muito pequeninas ou as muito inviáveis. O resto, que felizmente já é pouco, é corrido a toque de impostos, às vezes literalmente e para lá da fronteira. Dado que nos contribuintes particulares a dimensão do saque é ainda maior, a mensagem de quem manda é claríssima: não prosperem. O "neoliberalismo" de sabor português é de facto um caso, não sei se de estudo se de polícia.

Essa ordem em que a UE é tratada sobraceiramete como irrelevante.

O funeral de Nelson Mandela parece o funeral da esperança na África, incluindo a do Sul.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Já nada é certo

O MRPP tardio continua a 'espernear' em jeito de mula grega.

Pensa que o coice é antídoto à burrice própria ...

De cada vez que leva nas orelhas, a criatura 'escoicinha' abundantemente e é dada a tiques que lembra um qualquer híbrido oscilante entre Boaventura Sousa Santos e o major Mário Tomé.Tem ainda umas quantas taras relativamente a Ramiro Marques, pressentindo-o a cada esquina.

Quanto mais lhe põem a verdade à frente dos queixos mais convoca as tripas ao exercício do "pensamento" levando-as sobreaquecimento. O resultado ... ffffff ....

Extreme Railways : Congos Jungle Railway


Jogo das pedrinhas


Cripto-esquerdalhada multiculturalista

A Guerra aqui vai brava, Rio de Prata (não sou eu) vai muito bem.

Neste caso, o espécimen em causa não é um idiota-útil. O idiota útil tem habitualmente problemas de consciência mas evita-os acreditando dogmaticamente. O espécimen em causa pode bem ser classificado como vigarista. Sabe que mente mas não tem qualquer problema de consciência.

Como cereja em bolo, pretende assumir-se como independente.

R.O'Sullivan vs. M.Campbell - UK Championship 2013

From the "I can not believe" department ...



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Quanto mais armas menos assassinatos

Evidentemente:
According to the report, the "firearm-related murder and non-negligent homicide" rate was 6.6 per 100,000 Americans in 1993. Following the exponential growth in the number of guns, that rate fell to 3.6 per 100,000 in 2000.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Furiosos furacões?

A época de furacões de 2013 foi a mais calma desde 1960.
The 2013 hurricane season just ended as one of the five quietest years since 1960. But don’t expect anyone who pointed to last year’s hurricanes as “proof” of the need to act against global warming to apologize; the warmists don’t work that way.

E mais um cerco ...

... de professores à Assembleia da República acaba em flop total.

Isto tem vantagens. Parece que são cada vez menos os professores que não têm a noção do ridículo.

Burros e sindicalistas (ou vice-versa)




Eis do que se fala em duas crónicas de Alberto Gonçalves:



E o burro somos nós


Já quase toda a gente foi informada de que a edição europeia do New York Times cedeu boa parte da primeira página ao burro mirandês, um animal doce cuja preservação depende de subsídios e que o autor do artigo usou como metáfora para a situação portuguesa, ou pelo menos do interior português. Em vez de nos resignarmos à galhofa e a outras, e evidentes, metáforas, convinha ler o artigo com atenção e notar as palavras de Orlando Vaqueiro, ex-presidente da Junta de Freguesia de Ifanes (160 habitantes), que declarou ao NYT: "Os subsídios são necessários para manter os burros, mas sucede que todos se tornam completamente dependentes deles, logo não existe espírito de inovação nem vontade de modernizar ou produzir mais." Aqui, já nada é metafórico, mas a pura verdade, e é curioso que tenha sido um político a resumi-la. É natural tratar-se um político obscuríssimo e sem sombra de carreira. Para os hábitos caseiros e as vulgares perspectivas de ascensão, o homem é (preencham o resto com o nome de um animal da vossa, ou nossa, predilecção).


Humilhados e ofendidos

(imagem recolhida aqui)

Na falta de um povo que execute arruaças por eles, os próprios sindicalistas resolveram entreter o ócio e passar um dia a forçar a entrada em ministérios. Na falta de um Governo com vestígios de coragem, os sindicalistas não foram recebidos por uma ordem de detenção, conforme seria razoável, mas pelos governantes ou seus representantes, cheios de compreensão e agendas para marcar reuniões com os arruaceiros. Percebo a ideia. Se meia dúzia de larápios me invadirem a casa, a minha reacção natural é aprazar uma almoçarada com os ditos. E se, numa perspectiva diferente, o chefe da repartição de Finanças não me desempatar uma chatice qualquer com a brevidade desejada, furo-lhe dois pneus do carro e tudo terminará entre abraços. Ou não?

Se calhar, não. Num país em que as desigualdades são pasto da demagogia mas raramente preocupam mesmo alguém, é possível que o cidadão comum contemple este espectáculo e sinta que alguma coisa lhe escapa. Porque é que alguns são livres de violar a lei e outros não? Porque é que alguns são julgados instantaneamente após dirigirem uns remoques ao Presidente da República e outros incitam à violência popular sem que lhes aconteça nada? Porque é alguns vêem a vida a andar para trás a pretexto de uma mísera prestação à Segurança Social e outros vêem dívidas de 17 milhões "assumidas" pelos contribuintes em peso? Porque é que eu, você e o meu vizinho do lado devemos obediência à autoridade e um conhecido treinador da bola consegue tratar a autoridade ao tabefe sem consequências dignas do nome? Porque é que delinquentes sem posto são impedidos de trepar a escadaria do Parlamento e centenas de polícias em fúria não? Porque é que deputados recorrem à nostalgia revolucionária para montar "piquetes" e aos benefícios do cargo para evitar represálias?

A impunidade de que tanto se fala e que tanto se condena não se esgota no estereótipo do banqueiro anafado, de preferência com cartola e monóculo. Há imensos privilégios à solta, e cada um implica a humilhação dos que não os gozam. E um gozo a cada menção do lendário Estado de direito.

A guerra a todos e cada um

O ilusionista precisa de uma licença para ter um coelho ...


Os melancias amuaram!

Não tendo sido eleitos não precisam prestar contas:
For the first time ever, environmental groups have staged a mass walkout of a U.N. climate summit. Citing immense frustration…hundreds of people from dozens of environmental groups and movements from all corners of the Earth have voluntarily withdrawn from the talks. According to a spokesperson for Oxfam, around 800 civil society members (which is the label applied to all advocate and activist types at these meetings) have walked out.

Apesar de jamais terem sido eleitos, pretendiam mandar no mundo todo. Podem ter a certeza que vão rastejar para debaixo de um qualquer calhau e aparecer, algures, para tentar repetir a receita.

Afogou-se no próprio disparate

Charles Monnett, o cientista que "estudou" o afogamento dos ursos polares decorrente do "aquecimento global" acabou por se reformar depois de ter andado pelos tribunais a "debater" o caso ...

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

E viva o "combate" ao desemprego

Esta ideia genial do marxista Maduro de criar um ministério para aprovação dos preços e da margem de lucro de todos os produtos e de todos os comerciantes venezuelanos é "genial". Vai certamente ser uma medida de forte combate ao desemprego. Para desempenhar tal tarefa é provável que 50 milhões de funcionários públicos seja suficiente.

... nem quero imaginar o grau de corrupção que se vai instalar.

E muito bem ...

... por Helena Matos.

Decálogo do português mediático

1. A Igreja é boa se for progressista. O Tribunal Constitucional é bom se for progressista. O Papa é bom se for progressista. Cavaco Silva nunca é progressista mas às vezes tem umas intermitências em que apoia os progressistas e nesses fugazes momentos deixa de ser "Cavaco" para ser senhor Presidente da República. Mas só nesses!

2. A ‘troika' até às eleições de 2011 era boa porque ia ajudar o País a entrar numa nova etapa de desenvolvimento que graças a um choque reformista colocaria Portugal na primeira linha das nações mais avançadas.


3. A ‘troika' a partir das eleições de 2011 é má porque nos impõe uma austeridade que impede o desenvolvimento económico e social que o País aliás registava até à sua chegada. Assim o fim da intervenção da ‘troika' em Portugal deve ser referido como libertação e todo o progressista acredita que após esse dia o Estado português não só pode como deve voltar a gastar como fez até 2011.


4. No passado as reformas não foram feitas porque os líderes políticos preferiram ganhar votos a salvar o País e o Estado social. No presente as reformas não podem ser feitas porque são feitas à bruta, com cortes cegos e sem tempo de adaptação. No futuro já não vamos a tempo de fazer as reformas porque no passado - que por sinal é o nosso presente - não houve homens que tivessem coragem de as fazer. Em resumo, o presente nunca é o tempo certo para fazer reformas (ou o que quer que seja) mas quando o presente se torna passado é óbvio que as reformas deviam ter sido feitas. Se houvesse homens, claro! (Confesso que esta conversa sobre a falta de homens me parece um pouco reacionária para não dizer mais!)
5. Quem pensa como os progressistas são pessoas muito inteligentes, muito amigas dos pobres e naturalmente com certificado de anti-fascismo e de lídimos defensores do Estado Social. Em certos graus de progressismo até se chega ao estatuto de pai da Constituição, do Estado Social ou da democracia. Quem não concorda com os progressistas são pessoas atrasadas, reacionárias e analfabetas porque mesmo que saibam ler não retiram a devida mensagem do que lêem e naturalmente são estéreis em matéria de paternidades honoris causa.


6. A desigualdade é um espinho cravado no coração dos progressistas. Se formos todos igualmente pobres não há problema algum. Mas haver pobres e ricos isso é uma afronta. Para alguns progressistas mais progressistas a pobreza resolve-se confiscando os bens dos ricos que uma vez espoliados ficavam igualmente pobres (ou, mais provavelmente ainda, iam ser ricos para outro lado). Outros progressistas mais pragmáticos propõem um regime alternado: às segundas, quartas e sextas diz-se mal dos ricos, às terças, quintas e sábados exige-se-lhes que invistam no País para criarem emprego. Aos domingos descansam, que o progressismo agora anda beato.


7.Todos os dias o progressista tem de falar de fome, acompanhando a palavra "fome" de uma espécie de movimento dos músculos faciais como se estivesse a pronunciar a palavra Guantanamo nos tempos de Bush (fazer esgar). Depois veio Obama, o homem que ia fechar Guantanamo (pausa para fazer ar sofredor) que por acaso não fechou mas isso não interessa nada. Até à eleição de um presidente republicano, claro.


8. Se o povo não faz aquilo que os progressistas mandam tal deve-se ao facto de o povo estar cheio de fome e já não conseguir mover-se ou de estar aterrorizado e não vir para a rua por medo. Mas nunca, jamais, em tempo algum por discordar dos progressistas, pois a essência do progressismo radica na transmigração das almas: a alma do povo comunica com as mentes progressistas (e apenas com estas) e diz-lhes o que quer, sente e deseja. Quanto às outras almas, a sua natureza não progressista condena-as à partida ao inferno da bruteza, embora algumas consigam redimir-se, particularmente se tiverem sido salazaristas pois nesse caso basta-lhes repetir o que na década de 50 do século passado diziam sobre os partidos e ficam automaticamente progressistas.


9. Estão momentaneamente autorizados a celebração do 1º de Dezembro e o uso da expressão protectorado que noutros tempos seriam coisa de gente muito reacionária mas agora ficam assim a meio caminho entre a direita pita shoarma e a esquerda patriótica que trocou o caviar pelo pão com chouriço.


10. Discordar dos princípios atrás enunciados é sinal inequívoco de anti-progressismo, atitude que em Portugal equivale a pecado mediaticamente mortal. Amen.

domingo, 1 de dezembro de 2013

UE: bolchevismo requentado

Aos 12:30 [tradução minha]

"Ainda há pouco tempo tive a possibilidade de confirmar que os pro-europeus na UE pensam ser civilizacionalmente superiores e mais avançados relativamente a toda a gente. Na semana passada estive com um grupo de especialistas e diplomatas falando sobre como a integração europeia é a mais sofisticada estrutura política na história da humanidade.

Esta gente é como os bolcheviques iniciais. Acreditam genuinamente que estão na vanguarda da história, e que quem quer que seja que esteja contra eles, ou não esteja com eles, é, de alguma forma, um bárbaro, ou reaccionário ou o que quer que seja. A presunção está bem vida e cultivada nas chancelarias da UE."


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Dos iluminados encandeados






Só mais esta de Alberto Gonçalves:


A fava

Enquanto a polícia procurava o psicopata que andou aos tiros por Paris (e pelo jornal de esquerda Libération), inúmeros jornalistas preparavam os teclados para uma história-tipo do solitário de extrema-direita que abomina imigrantes em geral e árabes em particular, além de manter conversas no Facebook com organizações protonazis. Acrescentavam-se dois parágrafos acerca do perigo dos nacionalismos e o artigo estaria pronto. Azar. Saiu-lhes Abdelhakim Dekhar, com um interessante dinamismo em grupos de extrema-esquerda e participação em acções de "okupas", aliás já envolvido em diversos homicídios nos anos 1990. Para cúmulo, é árabe. E, surpresa das surpresas, muçulmano. Não se faz.

Alguém duvida de que isto seja inaceitável e escandaloso?




Alguém duvida de que isto seja inaceitável e escandaloso para os pedagogos "igualitários" que sufocam o ensino em Portugal desde os tempos de Roberto Carneiro?

Dois a dizerem o óbvio




Por um lado, Helena Cristina Coelho:


A má memória de Soares

"O principal para que o Governo tenha êxito é saber persistir. Ter a coragem de não mudar de rumo, independentemente dos acidentes de percurso. Recomeçar, pacientemente, quantas vezes forem necessárias. Tomar decisões. Não se deixar perturbar por agressões verbais, por incompreensões ou por injustiças. Aguentar de pé. Para os homens de convicção e de recta consciência, o que conta é sempre - e só - o futuro". O texto foi-me recordado por uma amiga de boa memória, que se lembra de quem o escreveu há 29 anos. 

E foi igualmente repescado por outras figuras, como José Manuel Fernandes, que o replicaram para recordar as palavras e, sobretudo, o seu autor: Mário Soares, em Maio de 1984, quando era primeiro-ministro. O país não estava como agora, estava bem pior. Havia empresas a fechar portas e os salários em atraso tornaram-se uma chaga social, havia bolsas de fome e protestos irados nas ruas, os preços dispararam, a moeda desvalorizou, o crédito acabou.E o que fez o governo de bloco central? Acabou a estender a mão para assinar um memorando de entendimento e receber dinheiro do FMI. Foi então o tempo de ouvir pequenas pérolas de austeridade como a de que "Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos" ou que "a única coisa a fazer é apertar o cinto" ou ainda que "não se fazem omoletas sem ovos, evidentemente teremos de partir alguns". O autor? Acertou: Mário Soares.

Não há notícia de que alguém na altura tenha partido as pernas ao primeiro-ministro como represália por estas declarações ou pela dureza das medidas - nem mesmo quando teve de enfrentar manifestantes violentos na Marinha Grande, na campanha de 1986. Aliás, foi premiado por essa valentia e acabou por ganhar as eleições.

A política não tem a virtude (nem sequer a presunção) de ser coerente. E, se faltarem provas, Mário Soares está a encarregar-se disso. Aquilo que usou como sua defesa enquanto governante, é exactamente aquilo que hoje ataca sem pudor. Não pode ser apenas um problema de memória e a idade não pode ser desculpa para algo que não é só irresponsável:é inflamável. Com o país ainda de garrote apertado, polícias a escalaram o Parlamento para darem sinais do que são capazes, sindicalistas a invadirem ministérios para expressar indignação, uma simples palavra pode ser incendiária e deitar tudo a perder.

Independentemente de se gostar ou não da figura ou do seu passado, Mário Soares teve um papel relevante na história do país. Só por isso, e porque pelos vistos continua a reclamar a paternidade da democracia (que ninguém quer aniquilar) e de uma ideologia de esquerda (com óbvias crises de identidade), devia ser o primeiro a preservá-la. Mas não é isso que está a acontecer: ao atacar o presente (leia-se, quem hoje governa o país) de uma forma tão agressiva e estéril, Soares está a destruir um passado que passou por si e a hipotecar um futuro que devia ajudar a construir. E um país sem memória não pode ter grande futuro. Soares devia ser o primeiro a lembrar-se disso.

Por outro, Alberto Gonçalves:

Cabeças perdidas

Manuel Alegre (poeta). Vítor Ramalho (soarista). Carlos do Carmo (fadista). Boaventura Sousa Santos (latinista). Vasco Lourenço (abrilista). Marisa Matias (bloquista). Ruben de Carvalho (comunista). Pedro Silva Pereira (socrático). Jorge Sampaio (sampaísta). António Capucho e Pacheco Pereira (embaixadores do "centro-direita"). Pinto Ramalho (general). Helena Roseta. Maria de Belém. Carlos Zorrinho. Alberto Martins. Ferro Rodrigues. Jorge Lacão. João Semedo. António Costa. Manuel Tiago. Domingos Abrantes. Almeida Santos.

Estas são algumas das personalidades que, através de mensagem de apoio ou presença corpórea, disseram "sim" à convocatória de Mário Soares e iluminaram a Aula Magna a fim de alegadamente defender a Constituição e o Estado "social". Na verdade, o exercício versou mais o ataque ao Governo e ao presidente da República, a quem se exige imediata demissão a bem ou posterior remoção a mal. As sugestões de violência, os apelos à violência e as ameaças de violências foram tantos e tão explícitos que apenas a transmissão televisiva do evento nos lembrou não se tratar de uma reunião da Carbonária a conspirar o regicídio. O Dr. Soares "aconselhou" os governantes (e Cavaco) a regressar a casa pelos próprios pés enquanto podem. Vasco Lourenço incitou que os corressem, cito, "à paulada". Helena Roseta defendeu que "a violência é legítima para pôr cobro à violência". E, visto que as camisas de força nunca chegaram, um longo etc.

Talvez não valha a pena notar que, em 2013, a "família real" em causa foi eleita pela maioria dos cidadãos. Vale a pena notar que ninguém elegeu os revolucionários em questão. Sobretudo ninguém lhes passou procuração. Os amiguinhos do Dr. Soares falam em nome de um "povo" que, abençoadamente, não existe. O "povo" que existe pode não gostar do Governo e lamentar o Prof. Cavaco, mas boa parte da população é capaz de abominar com maior empenho o bando de privilegiados da Aula Magna, que no entender de muitos devia estar na cadeia pelo que outrora fez ao país ou pelas desmioladas soluções que agora propõe.

Sou avesso a excessos. É claro que umas centenas de malucos fechados numa sala (de que infelizmente não se perdeu a chave) não definem o espírito do tempo. O que o define é a importância que se dá à coisa. Assim de repente, os augúrios não são simpáticos: sem discernível ironia, os media dedicaram ao encontro a seriedade que se dispensaria a um encontro de gente séria, e quando se vê comentadores solenes interpretarem as palavras do Dr. Soares como interpretariam as de alguém digno de atenção, é lícito constatar que a democracia não atravessa um período radioso. Não discuto que o Governo não seja um paradigma de incompetência. Digo que enquanto a alternativa reconhecida implicar múltiplas exibições de demência, aliás em nítido desrespeito pelo Código Penal, isto não vai longe.

De resto, não imagino se o "povo" um dia pegará em armas e varrerá a tiro ou à paulada os poderosos. Porém, tenho a certeza de que o "povo" não berra a uma só voz e sem dúvida não pensa pelos cerebelos do Dr. Soares e respectivo séquito de parasitas: o trágico caos que se seguiria à hipotética sublevação varreria também a estirpe de poderosos que inflama as massas por diletantismo ou preservação de regalias. Os Robespierres de trazer por casa já perderam a cabeça no sentido figurado. Vê-los perdê-la no sentido literal seria, para os menos piedosos, o único alívio cómico do caos.

Do Estado com carácter...



... e do jornalismo da ignorância e do veneno.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

"Europa" fascista

A "europa" fascista, a "europa" dos cronies, a "europa" que inferniza a vida às pequenas empresas, flexíveis e ágeis.

A "europa" que prefere empresas grandes por conseguir entrelaçar-se nelas para prosseguir os seus desígnios de controlo da economia.

Apenas conseguirá pobreza, miséria e fome.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Professores-okupa

Os professores "indignados" (indignácaros) estão a cavar a sepultura à escola estatal. Ficarão lá sozinhos, sem alunos, indignando-se mutuamente.

Pense-se apenas no que dirá um pai ou mãe de um aluno que frequente uma escola publico-privada a outro que frequente a escola estatal, face às  "indignações" televisivas diárias.

Os indignácaros acabarão em "instalações escolares" vazias, como okupas.

sábado, 23 de novembro de 2013

Nada de novo?




Disse assim Alberto Gonçalves:


O socialismo que não ousa dizer o seu nome

O socialismo tem imensas faces. Na Venezuela, por exemplo, persegue os comerciantes que vendem produtos acima dos preços que os senhores no poder consideram aceitáveis (esta semana, o Imperador Maduro incitou os clientes a invadirem as lojas a fim de obter o "reembolso"). Em Portugal, multa os comerciantes que vendem produtos abaixo dos preços que os senhores no poder consideram aceitáveis (há tempos, a ministra da Agricultura e da UDP em exercício assim procedeu).

A vantagem venezuelana é a sinceridade. Lá, o socialismo, às vezes chamado de "revolução bolivariana", orgulha-se de o ser e é reconhecido como tal. Aqui é envergonhado e passa inexplicavelmente por "neoliberalismo". Dito de outra maneira, o nosso querido Governo disfarça as verdadeiras convicções sob retórica de sinal contrário. É por isso que quando, há dias, o ministro da Economia defendeu a obrigatoriedade de uma disciplina escolar dedicada ao "empreendedorismo", a primeira coisa que apetece é recomendar ao Dr. Pires de Lima e respectivos colegas que a frequentem.

À semelhança de tantos crimes passionais, o amor do Governo pela iniciativa privada é de uma intensidade que termina invariavelmente com o homicídio desta a golpes de faca. Ou de lei: quase em simultâneo às arrebatadas declarações do Dr. Pires de Lima, um secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde anunciou, muito contentinho, que para o ano será proibido fumar em todos, todos, todos os espaços "públicos", conceito que no peculiar "neoliberalismo" indígena inclui os espaços particulares dos restaurantes, bares e discotecas.

Prometo não voltar a discutir os "perigos" do fumo passivo e o direito de cada um a arruinar a sua saúde da forma que entender. Limito-me a notar uma fulminante banalidade, a de que os proprietários dos estabelecimentos em causa deviam decidir sozinhos aquilo de que a casa gasta - e os potenciais clientes apreciariam ou não. Desde que não promova actividades criminosas, género sacrifício de virgens, parece-me natural que o dono de um restaurante, afinal o sujeito que investiu no dito, possa escolher a comida que serve, os comensais que atende e os hábitos que tolera. É tão absurdo abolir o fumo quanto forçar uma casa de pasto minhota a servir chop suey no lugar de sarrabulho. Por azar, sendo o Governo o que finge não ser e o país o que é, esse dia também não tardará. E ninguém se manifestará na rua. Em Portugal, a liberdade, palavra linda, assusta mais do que o enfisema pulmonar.


Em defesa dos trabalhadores

Os trabalhadores que confiam na CGTP para expressar o seu descontentamento deveriam acompanhar com maior assiduidade a forma como o descontentamento dos trabalhadores de outras paragens é tratado nos regimes com que a CGTP simpatiza.

A proeza está longe de ser inédita, mas segundo jornais da Coreia do Sul a vizinha do norte acabou de fuzilar oitenta infelizes por suspeita de subversão das regras da casa. E não, os trabalhadores em causa não fizeram greve, não marcharam aos berros contra o comunismo na Avenida da Liberdade lá do sítio nem organizaram um protesto contra a remoção de "direitos adquiridos" - até porque não têm direito nenhum. Os trabalhadores em causa, que frequentemente ganham um ou dois euros mensais (lá, a classe média aufere cerca de 20 euros e os empresários ricos a exorbitância de 70 euros), acabaram assassinados por crimes tão graves quanto a contemplação de programas televisivos sul-coreanos ou filmes proscritos (essencialmente, todos) e lerem, ou pelo menos possuírem, um exemplar da Bíblia. Alguns viram-se acusados de espalhar pornografia, esse palpitante instrumento da decadência ocidental. De acordo com as fontes citadas, decerto ao serviço do imperialismo americano, milhares de pessoas foram obrigadas a testemunhar as execuções e os familiares das vítimas enviados para campos de concentração (ou reeducação, de modo a poupar os espíritos sensíveis).

Nada disto pretende concluir que os portugueses não se devem manifestar. Apenas que conviria repararem nas companhias em que o fazem. Se, por absurdo, os sonhos mais profundos do Sr. Arménio Carlos se realizassem um dia, para milhões de criaturas a troika haveria de tornar-se uma saudade, e a austeridade uma lembrança de tempos felizes. E se, numa democracia europeia do século xxi, é um bocadinho primário usar a Coreia do Norte como termo de comparação, mais primária é a democracia que torna a comparação legítima.


Casos de miséria

Pelo menos um jornal diário conta a história, presumivelmente trágica, de um rapaz que paga um euro e tal pelo almoço na cantina da escola para depois queixar-se da qualidade da comida e, cúmulo dos cúmulos, de o impedirem de repetir a dose. Os responsáveis da escola negam. O pai do rapaz garante que o filho tirou fotografias com o telemóvel a comprovar os factos. Suspeito que nenhuma foto explicaria o resto, a saber: que espécie de refeição "gourmet" se espera obter a troco de trezentos escudos? Se a refeição é péssima, porque é que os comensais desejam repeti-la? O que faz com telemóvel um adolescente de 14 anos, membro de uma família que quer parecer necessitada? O mistério permanece.

Porém, o mistério não se compara com o da indignação dos juízes portugueses, os quais, com vasta repercussão na imprensa em geral, se queixam dos "ataques" ao Tribunal Constitucional, do número de empregos previstos no novo mapa judiciário e, muito principalmente, dos cortes salariais. As críticas ao TC, órgão de derivação partidária, deveriam constituir uma portentosa trivialidade em democracias adultas. As vagas disponíveis para o cargo são aquelas que, correcta ou erradamente, quem de direito acha indicadas (e a ministra Paula Teixeira da Cruz até jura que serão mais do que as actuais). E os lamentos da classe acerca da quebra nos rendimentos são um insulto a todos os infelizes que ganham misérias ou não ganham nada de nada.

A propósito: se o jornalismo ambiciona a suprema redundância de mostrar que a crise fomenta apertos e casos dramáticos, o jornalismo que esteja à vontade. Mas convém limitar os relatos a situações aflitivas de facto, sob pena de reduzir a aflição a uma anedota e a crise a um pretexto para a rematada estupidez.



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Rua com a vigarice aquecimentista


Fora com eles:

"In a move which shows what can only be interpreted as disdain for the UN climate summit, Poland abruptly fired its environment minister who also serves as President of COP 19!"...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Haiyan "o pior de sempre"!

Nas Filipinas, o tufão Haiyan foi, em intensidade de vento, o 7º desde 1970. Relativamente a todo o mundo foi o 28º.

The cheapest energy source ... it is the ultimate energy source

A reunião da cáfila do aquecimento global, na Polónia, recebeu uma prenda do governo anfitrião:
At a press briefing this week, Tobiasz Adamczewski, a spokesman for the World Wildlife Fund, reported that the group “received information from the Chancellor of the Prime Minister today that by 2060 Poland will be based 100% on coal.”

He went on to glumly note, “We received in their report that coal is the cheapest energy source therefore it is the ultimate energy source.”

One could almost feel the air go out of the room. Poland, as the host of the conference, was supposed to jump on board the global warming bandwagon. But it doesn’t appear Poles necessarily feel the same way.

sábado, 16 de novembro de 2013

Com quase uma semana de atraso...


(imagem obtida aqui)


... mais duas crónicas exemplares de Alberto Gonçalves:




O irrealismo mágico




Fui só eu a achar encantadora a criação, na Venezuela, do vice-ministério para a Suprema Felicidade do Povo? Segundo o Maduro que manda naquilo, a coisa destina-se a "elevar a qualidade social dos venezuelanos até ao céu", e só estranho que o céu seja o limite quando, em vez de lidar com a realidade, a política decide inventar uma realidade alternativa. Naturalmente, trata-se de uma característica do socialismo, que começa científico e depressa descamba para o folclórico. Deve ser por isto que, pelo menos na literatura, se associa a América Latina ao "realismo mágico", embora conste que, a certa altura, mesmo o sisudo Estaline começou a financiar investigações psíquicas. Em Caracas, as investigações nem são necessárias: é costume o sr. Maduro afirmar que "vê" Hugo Chávez a pairar junto às montanhas da cidade e, na semana passada, o actual Presidente convocou a imprensa para anunciar que o rosto do presidente falecido surgira na parede de um túnel do metropolitano local. Há dias, o sr. Maduro antecipou o Natal, que de facto é quando um ditador quiser, para Novembro.

Entre nós, devido às greves, é frequente que nem o fantasma de um maquinista se mostre nos "metros" de Lisboa e do Porto. Falta-nos esse mergulho no fantástico, essencial sempre que a despesa com a propaganda e o "bem comum" leva um país a descer sem remédio ou vergonha à indigência e à mendicidade. A miséria aumenta exponencialmente? Tomem um ministério da Felicidade. A crise não parece ter saída? Experimentem uma aparição mística. O povo sofre? Venha uma revolução no calendário religioso.

É verdade que a Constituição caseira já pressupõe uma dimensão paralela, desde logo evidente no "caminho para uma sociedade socialista" do Preâmbulo, mas decretar o direito ao emprego e a uma habitação jeitosa não é igual a impor por lei a alegria das massas. É verdade que o principal responsável pela penúria vigente anda por aí a preparar um inconcebível regresso ao poder, mas dificilmente as aparições do eng.o Sócrates são passíveis de interessar parapsicólogos. É verdade que os senhores ministros prometem a retoma para daqui a dez minutos, mas isso não se compara a bulir na data de nascimento do menino Jesus. É verdade que uma pequena percentagem dos descontentes sai regulamente à rua a fim de exigir que os nossos satânicos credores nos deixem em paz conquanto continuem a enviar o dinheirinho, mas, se bem que por pouco, uma manifestação da CGTP não corresponde às premissas de uma manifestação do reino sobrenatural. É verdade que os gestos e as palavras dos socialistas dissimulados do Governo, dos socialistas assumidos da oposição corrente e dos socialistas maluquinhos das franjas vêm evoluindo vertiginosamente rumo ao delírio, mas ainda carecemos do golpe de asa que nos resgate da pobreza e eleve à irrealidade absoluta.

Precisamos de entregar o destino colectivo nas mãos de xamãs, cartomantes e videntes. Precisamos de confiar o défice aos astros e aos búzios. Precisamos de ler o futuro do Estado "social" nas entranhas de um bicho. Precisamos de responder à rigidez dos "mercados" com festa, dança e candomblé. Precisamos de uma Secretaria de Estado das Energias Positivas. Precisamos que as botas de Salazar ou as sobrancelhas de Cunhal se revelem num muro ou numa torrada. Precisamos de assombrações patrióticas. Precisamos, em suma, de alcançar a dimensão espiritual e transcender a material. Nesta não vamos longe.


A esquerda contra o desemprego




A título de intróito, palavra que nunca escrevera até este momento, deixem-me falar-vos de Rui Tavares, nome que espero não voltar a escrever depois de hoje. O dr. Tavares é o eurodeputado "independente" que se candidatou pelo BE ao Parlamento Europeu e, numa portentosa exibição de independência, saiu do BE a seguir à eleição, embora mantendo o cargo, o salário e a influência. Por azar, uma das maçadas dos processos eleitorais é o seu carácter temporário, pelo que o dr. Tavares vê aproximar-se o fim do mandato e, o que é compreensível, teme que coincida com o fim do cargo. E do salário. Desde já, o dr. Tavares rejeita com veemência uma candidatura nas "listas" do PS, proeza facilitada pelo facto de, salvo por uma vaga simpatia manifestada pelo dr. Assis (em contraponto à antipatia de outros socialistas), o PS não o ter convidado. Dado que o PCP não costuma recrutar no exterior das fileiras, sobra ao dr. Tavares a solução óbvia. Abandonar o sujo universo da política? Esse é o plano B. O plano A consiste em fundar um partido que devolva o respectivo fundador a Estrasburgo. Sucede que, na impossibilidade de enveredar pela franqueza e resumir os estatutos desse hipotético partido aos factos, leia-se preservar o emprego do líder, o dr. Tavares foi obrigado a congeminar uma complexa tese que envolve a falta de "convergência" entre as forças da oposição, a crítica às "plataformas fulanizadas" e, sobretudo, a urgência em criar um "espaço de liberdade à esquerda".

Compreendo a urgência e confirmo a lacuna. Se considerarmos que PSD e CDS são economicamente liberais - o que, a atentar pelas políticas em curso, implica uma desmesurada liberdade poética -, a esquerda caseira conta apenas com o PS, enquanto alternativa de governo; com o PCP, enquanto porta-voz dos "valores democráticos" no sentido não democrático do termo; com o BE, enquanto representante dos jovens que abominam o "sistema" embora ignorem o que o "sis-tema" seja; e com grupelhos microscópicos género PCTP e POUS, que em podendo enforcavam os "ricos" e não se voltava a falar no assunto. É, pois, óbvio que a nossa esquerda ainda é insuficiente, como são insuficientes os marsupiais na Austrália e a dengue no Brasil. Há ali "espaço" para a "liberdade" do dr. Tavares, o visionário que em 2011 descobriu a distância que vai do marxismo à tolerância e que em 2013 oferece à Europa o feliz matrimónio de ambos. Naturalmente, não oferece o ordenado.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Jornaleiros

Este programa é extraordinário. Demonstra que os jornalistas vivem no mundo da espuma, da treta, do soudbyte, incapazes de distinguir a virtualidade dos cenários que criam e dentro dos quais vivem, da própria realidade. Para eles, as coisas acontecem porque há um cenário que eles próprios montam e que o permite.



Que lhes interessa que a terra seja redonda se a negociação fica sempre bem?

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Mais propaganda da "jornalista" Ana Leal na TVI

Comentário na mouche de J. S, no ProfBlog:

A Demagogia, ausência da verdade e hipocrisia no sistema de ensino.

Ontem à noite assisti a mais uma daquelas reportagens hipócritas, sensacionalista, tendenciosa e de uma pobreza Franciscana no que ao conhecimento, investigação e análise cultural, cientifica e correta diz respeito.

Da autoria de uma jornalista da velha guarda que faz do arremesso, sensacionalismo e ofensa, profissão de fé para a afirmação e sobrevivência no difícil meio profissional a reportagem assentava que nem uma luva no primeiro capítulo da contra reforma a uma das poucas ideias onde a proposta de reforma do estado de Paulo Portas tem pernas para andar.

Aqui há perto de um ano, a mesma jornalista numa reportagem sobre o mesmo tema ofendeu, alarmou e acusou um grupo privado de ensino de uma série de irregularidades cujo apuramento da verdade nem um ratinho fez parir.

Após a reportagem de ontem uma série de comentários nas redes sociais apresentavam indignação pelo panorama que supostamente, como dizia a mesma, permitia o esbanjar de dinheiros públicos, privatizava a escola pública e só permitiria o acesso aos privilegiados. Claro que a maioria eram professores da escola de propriedade do estado.

Assusta-me a facilidade com que os que têm acesso aos órgãos de informação tratam os ouvintes e telespectadores. Armados em educadores da classe operária, condição da qual nunca se libertaram, opinam sobre o que os portugueses pensam, tentam condicionar e conduzir o pensamento como se fosse seu e único, tratando como estúpidos e ignorantes os ouvintes. Nem sequer se lembram que se dirigem, como eles próprios dizem, à geração mais bem formada de sempre da população portuguesa.

Vamos aos factos, para não me perder e deixando para mais tarde uma análise profunda ao assunto.

Perguntas que a reportagem não respondeu:
1- Porque é que é desperdício dos nossos impostos quando a escola paga é privada e não é desperdício de dinheiros públicos quando a escola que tende a ficar às moscas é de propriedade estatal?

2- Porque é que a escola privada com contrato de associação, por isso grátis tal como a pública, é prioritariamente escolhida pelos pais, tendo assim mais “clientes”?

3- Será que os pais, como dão a entender os tais educadores, não querem o melhor para os seus filhos e perante as imensas virtudes de uma escola pública vão escolher a privada ali ao lado cheia de defeitos.

4- Porque é que, estando a oferta em excesso, se deverá encerrar a privada que a maioria dos pais escolhe e manter a pública?

5- Porque é que não se responde porque é o desemprego dos professores do privado a encerrar é aceitável e o desemprego dos professores da escola pública é um crime? Será pela competência? Já provaram isso? Será porque a seleção dos professores no público é mais exigente que no privado?

6- Finalmente respondam por favor a esta simples pergunta: em média os ditos impostos que criam a tal despesa pública são mais racionalmente gastos numa situação ou noutra? Isto é quanto custa o ensino anual por aluno na escola pública e na privada com contrato de associação? Mas por favor metam lá tudo neste cálculo incluindo evidentemente as instalações, a manutenção das mesmas e despesas de organização. Não são só os professores.

Continuarei a abordagem. Mas por favor preparem já uma reportagem que respondam a estas simples perguntas.

Jorge Santos

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Duas crónicas...



... das quatro que Alberto Gonçalves publicou aqui

Alívio cómico

Todo vaidoso, o Governo jurou não existirem quaisquer indícios de que entidades nacionais tenham sido escutadas pelas agências de espionagem americanas. Em vez de orgulho, o Governo deveria mostrar vergonha e perguntar-se porquê. O pior era a resposta: porque não pesamos no mundo. A menos, claro, que a CIA e aparentados andem com demasiado tempo livre e reservem o fim do dia para a merecida galhofa. Temos um país falido cuja população exige nas ruas a manutenção das causas da falência. Temos um Governo que demora nove meses a parir um "guião" para a reforma do Estado que se limita a reformar, com pensão vitalícia, a lucidez dos que o levarem a sério. Temos um ex-primeiro-ministro vocacionado para o embuste e preparado para voltar a mandar no exacto país que arruinou com empenho. Temos a dra. Assunção. Temos o "repúdio" ao sr. Blatter. Temos o dr. Seguro. Temos os "trabalhadores" da CGTP em greves e manifestações tão sucessivas que não há quem lhes retenha as datas. Temos uma "inteligência" convencida de que o nosso atraso de vida é culpa do "estrangeiro". Temos, em suma, os ingredientes necessários para que os espiões dos EUA passem um bom bocado. Fora do expediente.


Isto não é o "Zeca"

Entre as inúmeras homenagens a Lou Reed, certamente uma das mais estranhas aconteceu sexta-feira em Lisboa, onde uma série de músicos portugueses interpretou canções óbvias do norte-americano. Interpretaram ou, pelo que testemunhei nas notícias, demoliram. Mas o mais espantoso foi contemplar indivíduos associados ao PCP e a partidos similares mostrarem devoção por um anticomunista primário, que é como todos os anticomunistas devem ser. Veja-se o papel de Reed na resistência checa ao totalitarismo soviético. Ouça-se Black Angel"s Death Song, tema do disco inicial dos Velvet Underground e de oblíqua repulsa pela URSS. Recorde-se o ataque ao terrorismo palestiniano no álbum New York. Ecumenismo? Hipocrisia? Provavelmente ignorância, que é do que a casa gasta.

domingo, 3 de novembro de 2013

Abasteçam-se de creolina

Há algum exemplo que permita a este tótó pensar que a esquerda consegue dialogar? Acordou agora começando por mostrar como não se dialoga?
O eurodeputado independente Rui Tavares, eleito nas listas do Bloco de Esquerda em 2009, está descontente com a incapacidade da esquerda dialogar entre si e promete agitar as águas.

Agitando as águas obriga-nos a recorrer a creolina.

Gary North: O carácter messiânico da NSA

No Espectador Interessado:
Houve um tempo em que os homens acreditavam que Deus conseguia curar as pessoas doentes. Hoje, maioria das pessoas acredita que a ciência médica consegue curar as pessoas doentes. Sob esta visão, é certo e sabido que o estado irá intervir. O estado procura o controlo sobre a medicina. Os seus agentes afirmam quer a autoridade quer a capacidade para servir como deuses funcionais da sociedade e, portanto, o estado não pode permitir que a medicina seja regida por acordos de livre mercado. O estado é visto como tendo um imperativo moral - que é em última análise um imperativo religioso -, para intervir na relação entre o prestador de serviços de saúde e o cliente.

sábado, 2 de novembro de 2013

Obama espicaça as toupeiras gramscianas

Face às derrotas sucessivas averbadas por Obama e infligidas pelas realidades económica e climática, ei-lo a mobilizar as toupeiras granscianas:
"President Obama directed federal agencies this morning to work with state and local governments to prepare society for the risks of a warming planet. The executive order (attached), which carries out several goals outlined in the President’s climate action plan, calls on multiple departments within the executive branch to identify and eliminate any barriers to resiliency investments within their policies and guidance documents (attached)."

Socialismo e morte

O zenital tentáculo marxista local do gang do mensalão/Foro de S. Paulo/marxistas globalistas (ao qual pertence o tentáculo IPCC/aquecimento global), excelentemente ancorado em doutros trabalhos de filosofia sobre tortura, pretende instalar em Portugal este tipo de cenário.




Ainda não conseguiu, mas é essa a meta e os vectores os mesmos.

Entretanto (1), o mesmo gang infiltrado desta vez na Associação Americana de Psiquiatria, vai testando o terreno para implementação de outros igualmente revolucionários "valores". Lula da Silva, ele próprio, exercitou, enquanto "jovem" esta interactividade com "cabritinhas".




Em Inglaterra, um outro troglodita vibra de "ideias novas", o caminho para a derradeira igualdade:



Na China, vai-se volta-se à terra com o resultado das ideias que o referido gang, lá tão douta e socialmente implementou:


1 - Via Lura do Grilo

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Offshores, fonte de diabo

Advogado do PGR de Angola classifica de "vergonhosa" a actuação do Ministério Público português

Já agora, alguém conseguiu saber MESMO a origem do dinheiro? Haverá razão para suspeitar que um português em igualdade de circunstâncias seria catrafilado?

domingo, 27 de outubro de 2013

Mastúrbios, "sinal positivo"

E.... ninguém lhes dá com um gato morto nas trombas até o gato miar?

Repare-se como os "lutadores" encaram a coisa:

Manifestação por convite:

"dos 1.643 convites enviados, apenas 49 confirmaram a sua participação"

Caso não "lutem", há que prestar contas:

"mas com uma explicação das razões por que ficaram indiferentes"

Os "lutadores" não explicam se a vigarice está incluída no meu:

"associando-lhe intervenções de várias artes"

De lamentar não se poder ter exercido o direito de apedrejar os símbolos do capitalismo:

"não seria um mero desfile. As pessoas participariam, mas ao longo do percurso haveria diversas manifestações culturais"

Parece que até entre os "esclarecidos" há trolls:

"nem mesmo a camada intelectual da cidade respondeu"

sábado, 26 de outubro de 2013

Jornalismo e propaganda

Como uma manobra de propaganda de jornalismo indignácaro é desmontada pelos próprios factos e como a "jornalista" Raquel Amado e o Correio da Manhã não têm escrúpulos em usar a senhora como carne para canhão.


Formação profissional: "Leiam o relatório todo, senhores jornalistas!"

Comentário meu relativamente a este artigo de Ramiro Marques:

Entre o Piaçaba e o Precário, eu parece-me que, de uma forma ou outra, a maioria das turmas está entalada entre três infecções:

1 - Novos ou velhos, os professores deixaram de ter (ou nunca tiveram) em larga medida a técnica da coisa profissional.

2 - Os alunos são colocados em turmas que pressupõem já haver habilitações que eles, para além do papel, não têm nem por sombras.

3 - Os alunos há muito deixaram de viver no mundo concreto (o que existe versus aquele "ideal" que lhe tem sido pintado) e passaram a viver de virtualidades, entre elas a do computador.


Já fora da sala de aula, os alunos, na sua esmagadora generalidade, 'desligam' da sala de aula e mergulham a 100% no mundo troll do futebol, da chungaria, da tralha tecnológica aplicada a jogos de computador, do status da traparia de marca, do exercício do caudilhismo (ou aspiração a) na "sua" tribo.

A escola pactuou (e continua a pactuar) com estes desígnios de "afirmação de cidadania".

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Profissionalização de azémolas

Malta que tem o 6º, não sebe ler nem escrever (fazer contas ainda muito menos) ... e depois diz-se que o ensino é desadequado.

Na verdade, desadequado é ter-se o 6º sem se saber sequer ler. Daqui resulta que desadequados são os alunos face ao programa.

Quer-se adequação? Remetam-se os alunos ao nível de onde eles nunca saíram e investigue-se como conseguiram eles aparecer com o 6º ano feito.

Entretanto o mesmo se repete (com mais gravidade ainda) com os que na papelada têm o 9º ano.

Portugal visto por...




Sonhos revolucionários



Primeiro, o Governo deixa escapar a notícia do saque às pensões das viúvas. Depois, fingindo-se zangado, o Governo faz o anúncio oficial: o saque limita-se a três por cento das beneficiárias. Por fim, desvenda-se o Orçamento e instala-se a confusão acerca da percentagem do saque. Entretanto, cem por cento dos socialistas outrora inquilinos de Belém imitaram uma cantilena em voga e apelaram à insurgência das massas.

Evidentemente, o apelo não foi explícito. Jorge Sampaio, no estilo críptico que desenvolve há sessenta anos, ofendeu-se sobretudo com o desrespeito do sagrado Tribunal Constitucional e pediu "um assomo patriótico", o que quer que isso seja. Mário Soares falou dos "delinquentes" no poder e confessou temer que "o ódio do povo se torne violento", formulação que numa cabeça matreira e pouco sofisticada significa que espera com impaciência a sublevação das massas.

Não pretendo defender as aventuras dos Drs. Coelho e Portas, de facto próximas do grotesco. Porém, é esquisito que alguns dos nossos mais celebrados democratas tenham uma visão peculiar da democracia, maravilhosa quando aclama os nossos, detestável quando premeia os restantes. Se não estou em erro, o Governo em funções resultou de uma escolha dos cidadãos, chamados a votar em eleições livres e justas. O Governo é mau? É, sim senhor, embora por não cortar onde devia e não pelos motivos que o Dr. Soares e o Dr. Sampaio sugerem. O Governo é ilegítimo? Não é, não senhor, excepto na opinião de criaturas como o Dr. Soares e o Dr. Sampaio, para quem a legitimidade advém da coincidência entre os titulares dos cargos e as suas simpatias pessoais. Simular preocupação com a "pátria" ou o "povo" para tentar impor as simpatias é estrategicamente compreensível. Mas é também uma trapaça.

Não me lembro de ouvir o Dr. Sampaio reclamar "assomos" enquanto o Governo anterior inscrevia a pátria na sopa dos pobres europeia. E sou capaz de jurar que, nesses gloriosos tempos, nunca o Dr. Soares avisou para os riscos da plebe indignada. A verdade é que ambas as alminhas citadas representam com brio o ramo do pensamento filosófico lusitano segundo o qual a "direita" (ou o que em Portugal passa por direita) moralmente não merece mandar. Se o povo real e bruto decidiu assim, há que imaginar um povo iluminado capaz de decidir assado e correr com a "direita" à bordoada.

Por enquanto, trata-se apenas da imaginação de dois antigos presidentes da República, felizmente para nós e, no fundo, felizmente para eles: nem sempre a fúria popular pendura uma comenda no pescoço dos respectivos instigadores. Às vezes, limita-se a uma corda.





Ai, a humanidade!



Uma amiga que trabalha no ramo falou-me recentemente e entre risos do sofrimento de inúmeros pais no momento de deixar o rebento no infantário. Ao que parece, a coisa não se distingue da despedida dos soldados que partiam para o Ultramar, com lágrimas e tudo. Uma das poucas diferenças é que os combatentes em África não estavam "monitorizados" (julgo ser o termo usado) por um sistema de vigilância que informasse os familiares das suas actividades diárias. Os rebentos começam a estar.

Vi no "telejornal". O sistema chama-se My Child, já foi adoptado em Portugal por dezenas de creches e similares e consiste numa "rede social" (também é o termo usado) que permite aos paizinhos acompanharem no computador, através de fotografias e vídeos, o fascinante quotidiano dos filhinhos. O filhinho come flocos ao pequeno-almoço? Os paizinhos vêem. O filhinho desenha um rabisco? Os paizinhos observam. O filhinho dorme a sesta? Os paizinhos contemplam. O filhinho bolsa? Os paizinhos admiram, ao longo do dia e com provável prejuízo do trabalho pelo qual alguém absurdamente lhes paga.

Não cabem aqui algumas considerações sobre as maleitas sociais e psíquicas de que semelhante toleima é sintoma: a solidão e o vazio de tantas vidas, a infantilidade dos padrões de comportamento, o alheamento face às responsabilidades, a obsessão maníaca elevada a norma. Limito-me a lembrar que o desmesurado zelo dedicado ao presente das crianças garante-lhes um futuro no mínimo sombrio. E isso, se as circunstâncias não dessem vontade de rir, é que mereceria copioso pranto.


(Recomenda-se a leitura deste e de outros posts do blogue de onde foi retirada esta foto)



Um modelo



Mário Soares, que diligentemente tenta bater o recorde de afirmações esdrúxulas na mesma semana, estranhou que Cavaco Silva não fosse julgado pelo "caso" BPN. Com a paciência que não dedica aos jornalistas e populares que o insultam, o Prof. Cavaco remeteu o Dr. Soares para os esclarecimentos que já prestara sobre a matéria e que, sendo verdadeiros, o colocam na posição de simples depositante do banco em questão. Segundo o Expresso, o Dr. Soares terá enviado um discreto pedido de desculpas ao chefe da Casa Civil, confessando que não dera pelos ditos esclarecimentos. Mas essa não é a questão.

A questão é a radiante facilidade com que o Presidente da República está sujeito ao tipo de ataques que ninguém ousa lançar aos ex-presidentes. Veja-se o mero exemplo da Fundação Mário Soares, que em 2014 receberá 210 mil euros do erário público, a juntar aos cerca de milhão e meio que já recebeu entre 2008 e 2013. Não espantaria que, em tempos de crise extremada, um populista pedisse o julgamento do Dr. Soares e dos benfeitores do Dr. Soares por aquilo que qualquer cidadão menos cauteloso no verbo poderia classificar de roubo, embora um roubo legalíssimo. O espantoso é que esse populista não surgiu. O respeitinho que o Dr. Soares suscita é directamente proporcional ao desrespeito que o próprio dedica ao mundo em seu redor, desde o Chefe de Estado ao simples contribuinte. Em países normais, semelhante fenómeno deveria servir de alerta. Aqui, serve de modelo.




A provocação e a serenidade



 Para quem abomina a propriedade privada e venera a estatal, a CGTP possui uma noção peculiar de ambas. Ao longo de um fascinante debate que durou semanas, a central sindical exigiu dispor de duas pontes em Lisboa e no Porto como se ambas pertencessem à espantosa multidão que presumivelmente viria gritar contra o Governo, a austeridade, a troika e etc. Contas feitas, o solitário motivo de espanto foi a pequenez da empreitada.

A cada dia, passam pela Ponte 25 de Abril cerca de 150 mil carros, talvez 300 mil criaturas. Proibidos de desfilar a pé, os fiéis do sindicalismo conseguiram que umas dúzias de autocarros percorressem o tabuleiro devagarinho. À saída, em Alcântara, as notícias da "concentração" falam em "milhares de pessoas", maneira genérica e simpática de descrever o que, à hora a que escrevo, tresanda a fracasso.

No Porto, onde as previsões arriscavam 30 mil manifestantes e não houve a divertida desculpa da chuva, "fracasso" tresanda a eufemismo: a TSF contou "centenas" de indignados. A "capacidade de mobilização" da CGTP só impressiona por comparação com a do microscópico Movimento Que Se Lixe a Troika, que normalmente mobiliza com dificuldade a quantidade de elementos de uma equipa de râguebi (sem suplentes). Ou por comparação com os poderes místicos que comentadores de diversa índole lhe atribuem.

A única proeza que a CGTP cometeu no sábado prende-se com o facto de as autoridades terem por sua causa encerrado ao trânsito uma série de ruas nas duas maiores cidades do país, afinal subjugando o lendário interesse comum à ambição imediata do extraordinário Arménio Carlos, leia-se atrapalhar a vida alheia.

Sem querer, e referindo-se ao FMI, o Sr. Arménio afirmou ao DN o essencial sobre a relação do sindicalismo com a sociedade: "Aqui mandamos nós." É o que parece, por muito que apeteça perguntar porquê. Ainda a propósito do FMI, o Sr. Arménio prosseguiu: "Respondemos à provocação com serenidade." E nós, incluindo os milhões que por óptimas ou péssimas razões já não aguentam o Governo mas não se iludem com prepotentes e reaccionários no pior sentido, pelos vistos também.