quarta-feira, 5 de junho de 2013

A PRIMAVERA CHEGA À TURQUIA, AFINAL


Manifestante carrega bandeira turca com a imagem de Ataturk





Depois de sete dias de violentos protestos antigovernamentais nas maiores cidades do país, incluindo Istambul e Ancara, e após a terceira morte confirmada, a imprensa internacional começa a compreender o que se passa na Turquia, assim como seu significado.
De início era uma reação à reforma de um parque. Mas apenas os distraídos e os obtusos levaram tal motivação a sério por mais de um minuto. Algo estava acontecendo na Turquia. Algo está acontecendo na Turquia. Mas o que, exatamente?
O islamofascista mal disfarçado que é o primeiro-ministro Recep Erdogan, no melhor estilo ditador paranoico, acusa... o Twitter: “Há uma ameaça chamada Twitter. [...] Para mim, as redes sociais são a maior ameaça à sociedade”. Enquanto o próprio título da matéria resume e esclarece tudo, ainda que por negação: “Primeiro-ministro nega ‘Primavera Turca’ e culpa redes sociais por protestos” (http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/06/03/primeiro-ministro-nega-primavera-turca-e-culpa-redes-sociais-por-protestos.htm).
Sim, trata-se do início temporão da “primavera turca”. Mas por que, se a Turquia não é uma ditadura?

A Turquia não é uma ditadura, mas é uma democracia ameaçada. E a ameaça vem do próprio governo, que se autointitula “islâmico moderado”. Mas os turcos bem sabem que sua “moderação” não é sincera nem voluntária. Ou verdadeira.
A autoimputada “moderação” islâmica do atual governo turco advém, tão somente, da tradição de um século de laicismo do Estado turco, desde sua fundação por Kemal Ataturk em 1920, sob a tutela do exército. Mas esse laicismo sempre esteve ameaçado pela “Turquia profunda”. Daí o paradoxo de uma democracia mantida pela força. Pois sem o exército secular também deixado de herança por Ataturk, o islã teria há muito destruído essa democracia e esse laicismo.
Erdogan foi eleito pela “Turquia profunda”: pela periferia das cidades e pelo campo. E, desde o início, não fez outra coisa senão tentar enfraquecer, sistematicamente, as instituições laicas do Estado, a começar do próprio exército, hoje acuado por um judiciário controlado pelo governo, com inúmeros generais e outros oficiais aprisionados, a partir de um suspeito processo de conspiração militar.
A imprensa também é atacada: a Turquia tem hoje, ao lado da China, o maior número de jornalistas encarcerados em todo o mundo. E como o exército, a imprensa turca se acovarda. Daí os manifestantes a acusarem, justamente, de covardia, além de oficialismo e manipulação na cobertura das próprias manifestações.
Por isso Erdogan tem, afinal, razão: a culpa é da internet. Mas apenas como piada. Pois seria como culpar um carro por um atropelamento, em vez de o motorista. Por trás das críticas ao governo e das convocações aos protestos que tomaram conta das redes sociais turcas, está o segmento mais esclarecido da sociedade, que afinal reagiu, tardiamente, a um governo que utiliza a mesma tática de Chávez e outros liberticidas contemporâneos: chegar ao poder pela via eleitoral para, a partir daí, minar o mesmo sistema representativo que os levou ao poder.
Trata-se do que o grande arabista Bernard Lewis chamou de a tática do “um homem, um voto, uma vez”, para se referir à tentativa da Frente Islâmica de Salvação da Argélia, que, nos anos 1990, escancarou-a para ser, em seguida, derrubada pelo exército secular do país, antes de novas eleições serem convocadas, agora sem partidos islâmicos.
Os partidos islâmicos dos demais  países muçulmanos aprenderam a lição argelina. A tática do “um homem, um voto, uma vez” tem de ser implementada com alguma sutileza, fazendo o islã “comer” devagar e pelas bordas as instituições, as práticas e as mentalidades em países onde estas foram, em algum grau, laicizadas, seja por ditaduras ou por um grande reformador como Ataturk. Era o caminho de Erdogan. Vinha funcionando.
Mesmo porque, graças à pujança do capitalismo local (apesar das pressões islamizadoras do governo), esse governo retrógrado, num outro paradoxo turco, contou com grande popularidade até agora. Ou melhor, ainda conta com ela. Mas essa popularidade populista não amedronta mais os turcos urbanos, modernos e laicos que, desde a fundação da República, estiveram na liderança do país.
A Turquia é um solitário caso histórico de reforma modernizadora e democratizante razoavelmente bem sucedida no mundo muçulmano. Mas depois de quase um século, o modelo turco está sob forte ameaça. A melhor parte da sociedade turca sai enfim às ruas contra essa ameaça.


A chamada “primavera árabe” foi verdadeira apenas em parte: ter sido árabe. Pois quanto a ser primaveril, ou seja, significar o nascimento de um tempo novo e melhor, foi um engano, um engodo e uma ilusão. As revoltas árabes se deram contra ditaduras mais ou menos brutais, de Ben Ali na Tunísia a Assad na Síria, passando por Kadafi na Líbia e Mubarak no Egito. E todas elas eram seculares. A “primavera árabe” ocultava (mal) o “inverno islâmico” que, este sim, aflorou em seguida, com partidos religiosos autoproclamados “moderados” tomando previsivelmente o poder pela recém inaugurada via eleitoral (no caso sírio, grande parte da oposição armada ao governo genocida de Assad é formada por radicais islâmicos). A única “primavera” verdadeira no mundo muçulmano está a florescer agora. E ela não é árabe.
A “primavera turca” é verdadeira porque se trata de segmentos seculares protestando contra um governo islamizador. Ou reislamizador, considerando a história turca. Na Turquia, começou (melhor, recomeçou), afinal, o inevitável embate entre Alá e Ataturk. Que vença o melhor.

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