sexta-feira, 21 de junho de 2013

O papel dos hábitos na educação do carácter

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O processo mais fácil e rigoroso para analisar esta questão é ler e analisar o pensamento de Aristóteles, tal como ele é expresso na Ética a Nicómaco (1).

As virtudes de carácter não são adquiridas pelo ensino. São-no pelo hábito. Nenhuma das virtudes de carácter surge naturalmente. As crianças não nascem com elas. Embora as crianças nasçam com os sentidos naturalmente activos, por exemplo a visão ou a audição, o mesmo não acontece com as virtudes de carácter que carecem de tempo, experiência, prática e actos repetidos, de forma a se tornarem hábitos. Se as virtudes de carácter surgissem naturalmente, como os sentidos, é claro que não podiam ser mudadas pelo hábito. Não é o hábito de ver ou de ouvir que aguça e melhora o sentido da visão ou da audição, mas é o hábito de ser justo, corajoso, temperado e prudente que aguça e melhora cada uma dessas virtudes de carácter.

As virtudes de carácter são adquiridas da mesma forma que nós adquirimos a mestria nas artes e nos ofícios: pelo exemplo, pela prática supervisionada e pelo hábito de fazer. Esta questão não é de pouca importância. Repare-se: se as virtudes de carácter se adquirem pelo hábito, uma comunidade onde rareiam oportunidades para a criação de bons hábitos é totalmente hostil à aquisição das virtudes de carácter. Podemos generalizar e afirmar que o mesmo acontece na sociedade e na vida política em geral. Um país com um poder político hostil à prática das virtudes não oferece as condições de base para o desenvolvimento do carácter dos cidadãos. Um poder político hostil à prática das virtudes é, por exemplo, um poder político favorável à corrupção, clemente para com o crime organizado ou fomentador de rivalidades étnicas.

À semelhança das virtudes, também os vícios se adquirem pelo hábito. Da mesma forma que um mau professor de música produz um mau músico, também os pais e professores, pouco preocupadoscom as virtudes de carácter, tendem a favorecer o desenvolvimento do mau carácter nas crianças e nos jovens. Uma escola que se tenha tornado numa comunidade hostil às virtudes de carácter potencia um ambiente favorável à aquisição dos vícios. É fácil identificar os vícios que um tal ambiente hostil favorece: injustiça, imprudência, intemperança, cobardia, desonestidade, irresponsabilidade, entre outros. Na medida em que o bom carácter floresce pela repetição de actividades propícias, a comunidade deve proporcionar o exercício dessas actividades. A habituação deve evitar quer o excesso quer a deficiência. Aristóteles (2) avisa-nos que tanto o excesso como a deficiência numa actividade podem arruinar quer a formação dos hábitos quer das virtudes a eles associadas. Vejamos o exemplo da coragem. Se uma pessoa evita e tem medo de tudo, está aberto o caminho para a aquisição do hábito da cobardia e, concomitantemente, do vício que lhe anda associado. Da mesma forma, se o indivíduo não for capaz de refrear o usufruto de prazeres em excesso, está aberto o caminho para a aquisição do hábito da intemperança e do vício que lhe anda associado. Contudo, se o indivíduo se abstém de todos os prazeres, torna-se insensível. Como vimos, quer a coragem, quer a temperança podem ser destruídas quer pelo excesso quer pela deficiência. Aristóteles chama-nos a atenção para o papel que o prazer e a dor têm no processo de habituação. Por exemplo, se o indivíduo consegue ser firme face às situações difíceis e tira prazer disso, então essa pessoa torna-se corajosa; mas se isso lhe provoca dor, então tende a tornar-se cobarde. Se o indivíduo sente prazer na capacidade de resistir ao excesso de prazeres, usufruindo-os com moderação, então podemos dizer que é temperado. Se, pelo contrário, sofre em refrear-se, temos de afirmar que é intemperado (3). Resulta daqui que a educação correcta é aquela que nos faz sentir prazer e dor nas coisas certas. Para os casos em que o indivíduo retira prazer nas coisas erradas, importa que o processo educativo proceda à necessária correcção, da mesma forma que o médico faz perante os sintomas de uma determinada doença. A virtude é, então, uma espécie de estado que leva à realização das melhores acções correctas que dizem respeito aos prazeres e às dores e o vício é o seu contrário. E Aristóteles avisa que a aquisição das virtudes exige prática continuada e não apenas teoria: “há muitos, contudo, que não agem, antes se refugiam em argumentos, pensando que fazem filosofia e que essa é a forma de educar para a excelência. No fundo, são como as pessoas doentes que ouvem atentamente o médico mas que não põem em prática as suas instruções” (4).

Notas
1) Aristóteles (1985). Nichomachean Ethics. (Introdução, tradução
e notas de Terence Irwin). Indianapolis: Hackett, 1103ª20,
1103ª25, 1104ª, 1104b15, 1104ª25 e 1105ª30
2) Idem, 1104ª15
3) Ibid, 1104b5
4) Ibid 1105b15

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