quinta-feira, 27 de junho de 2013

O PREC na Educação justificado por um dos protagonistas: Rui Grácio

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Este é um livro publicado, em 1981, que reúne textos avulsos publicados na segunda metade da década de 70 por um dos protagonistas maiores do PREC na Educação: Rui Grácio. As novas gerações de professores não conhecem a importância que Rui Grácio teve na génese do sistema de ensino do pós-25 de abril de 1974. O centralismo, a burocracia técnico-pedagógica, o corporativismo, o afastamento das escolas da realidade económica e do mundo real e a ideologia igualitária, que enfermam ainda hoje o sistema de ensino, devem-se, em parte, a ele. Foi ele, na qualidade de secretário de estado da orientação pedagógica - só o nome arrepia! - que pôs fim ao ensino técnico. Estávamos em finais de 1974. Professores, acusados de simpatias pelo Estado Novo, foram saneados em assembleias gerais. No átrio de alguns liceus nacionais fizeram-se fogueiras para queimar bibliotecas consideradas amigas do salazarismo.

No MEC, grupos de trabalho dirigidos por militantes do PCP, elaboraram e enviaram para as escolas textos de apoio, em boa parte de divulgação marxista, em substituição dos manuais escolares considerados "fascistas". O materialismo dialético entrou forte no programa da nova disciplina de Ciências Sociais (7º ano de escolaridade), Camões foi ensinado da maneira que os comunistas desejavam e Fidel Castro e Samora Machel entraram pela porta grande do currículo dos 7º, 8º e 9º anos de escolaridade do então chamado ensino unificado. A retórica da união entre o trabalho intelectual e manual percorreu as escolas e os alunos viram-se obrigados a fazer a disciplina de Educação Cívica e Politécnica que não era mais nem menos do que um espaço curricular de doutrinação marxista. Foram tempos terríveis. Num ano e meio, os comunistas e a extrema esquerda destruíram o país, afundaram a economia, delapidaram o superavite deixado pelos governos de Marcelo Caetano, fizeram disparar o défice e atiraram Portugal para as mãos da assistência financeira do FMI em 1978.

Rui Grácio foi, apesar de tudo, uma voz moderada no meio da insanidade que tomou conta da educação e das escolas. Ele queria um socialismo de face humana, liberto dos gulagues, embora fosse profundamente anticapitalista. Queria um socialismo impossível.

Conheci-o na Livros Horizonte onde me dirigi com um projeto de livro para publicação na coleção que ele dirigia: Biblioteca do Educador Profissional. Corria o ano de 1980. O livro era um relato da minha experiência didática durante o estágio pedagógico. Grácio leu o manuscrito e enviou-me pelo correio uma folha cheia de notas e sugestões de emenda escritas numa letra miudinha e num português perfeito. Rui Grácio escrevia muito bem. Fora professor no Liceu Francês, em Lisboa, e pertencia aos quadros de investigação da Fundação Calouste Gulbenkian. Aceitei as emendas e o livro foi publicado em 1983. Foi o meu primeiro livro: Mudar a Escola: Novas Práticas de Ensino.

Embora por esse tempo já eu soubesse que o socialismo acaba sempre em pobreza e tragédia, ainda revelava algumas influências da pedagogia romântica e construtivista. Foi preciso crescer mais como pessoa e ver as consequências nefastas do romantismo educacional para eu me afastar de tão perniciosa e influente onda pedagógica.

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