quarta-feira, 17 de julho de 2013

4 crónicas 4...


(imagem obtida aqui)





Crise e castigo

Na quarta-feira, mal Cavaco Silva terminou a comunicação ao País, as televisões encheram-se de especialistas empenhados em interpretar a mensagem presidencial e explicá-la aos simples. Naturalmente, cada um apresentou uma interpretação distinta, conforme à respectiva filiação ideológica e à opinião que tem do actual Presidente da República. Houve quem acusasse o prof. Cavaco de interferir excessivamente no quadro político e quem o acusasse de fugir das responsabilidades. Houve quem acusasse o prof. Cavaco de evitar eleições antecipadas e quem o acusasse de promover eleições antecipadas. Houve quem acusasse o prof. Cavaco de rigor constitucionalista e quem o acusasse de ignorar a Constituição. Houve quem acusasse o prof. Cavaco de salvar um Governo inviável e quem o acusasse de sabotar um Governo viável. Houve quem acusasse o prof. Cavaco de servir os interesses da troika e quem o acusasse de desprezar a reacção dos mercados. Houve quem acusasse o prof. Cavaco de não saber escolher uma gravata que combine com o fato e quem o acusasse de não saber escolher um fato que combine com a gravata (esta última é inventada, embora por pouco). E os escassos especialistas que gostam do prof. Cavaco aplaudiram-no por quase todas as posições acima descritas. Obviamente, o cidadão comum não percebeu nada. Desconfio que os especialistas também não.

A verdade é que, à semelhança dos alienígenas que de longe a longe visitam o planeta, o prof. Cavaco cometeu a proeza de deixar inúmeras mensagens talvez indecifráveis. Com a desvantagem de que, ao contrário dos alienígenas, o prof. Cavaco em princípio não é fruto da nossa imaginação. Do que disse, ficou por exemplo clara a exigência de um acordo entre os três partidos não comunistas, mas a clareza murcha quando o PR não explicita se o acordo exigido é de natureza parlamentar ou implica a partilha do mando a três, e a clareza foge em debandada quando o PR defende a manutenção do acordo depois das eleições antecipadas para 2014, o que no fundo tornaria estas irrelevantes.

A propósito, eis um tema em que o prof. Cavaco mostrou inabalável firmeza: não haverá eleições em 2013. Repito, a fim de dissipar as dúvidas: não haverá eleições em 2013. Só mais uma vez: não haverá eleições em 2013. Excepto, lá está, se as eleições constituírem uma das "outras soluções no quadro do nosso sistema jurídico-constitucional" com que o PR ameaça caso o misterioso acordo partidário não se confirme - desfecho que, aliás, o PR suspeitará ser provável.

É, porém, nítida a forma como o prof. Cavaco avaliou o Governo - "na plenitude das suas funções" -, afirmando sem espaço para hesitações que as decisões do dr. Passos Coelho dispõem de total legitimidade, a menos, note-se, que o dr. Passos Coelho teime em transferir competências para o dr. Portas, que não obtenha o tal acordo com o PS e que não aceite a supervisão do acordo por parte de uma misteriosa "personalidade de reconhecido prestígio", a qual decerto chegará montada a cavalo. Ou seja, o Governo existe desde que abdique de existir. Parece-me justo.

Agora a sério. Cansado da liderança de garotos que brincam aos países e da oposição de lunáticos que juram preferir a riqueza à austeridade na presunção de que há escolha, julgo que o prof. Cavaco decidiu alinhar no pandemónio e, mediante represálias, aumentá-lo. Mas se os castigos ao dr. Passos Coelho, ao dr. Portas e ao dr. Seguro são inteiramente merecidos, castigar Portugal em peso é possivelmente um exagero


Patriota aos 43 anos

Foi com alegria e orgulho que li as notícias sobre a queima de bandeiras portuguesas na Bolívia. A alegria deve-se ao facto de a bandeira não ser das mais bonitas da Terra (a par das do Benin, da Etiópia, do Burkina Faso e, olha a coincidência, da Bolívia) e a Constituição proibir que seja maltratada de alguma forma, esquecendo-se de que os autores de semelhante combinação cromática é que cometeram um atentado estético. O orgulho deve-se ao facto de - ainda que com dificuldade - alguém ter reparado em nós. Recordemos os pormenores da história.

A 2 de Julho, o avião em que seguia o Presidente boliviano viu-se impedido de sobrevoar e de aterrar no espaço aéreo francês, italiano, espanhol e português, na suspeita de que transportava, recolhido em Moscovo, Edward Snowden, o antigo agente da CIA que os Estados Unidos hoje perseguem. Ao que consta, o avião correu riscos de se despenhar por falta de combustível e a afronta a Evo Morales correu a indignar as ruas do país que este chefia.

Nos dias seguintes, os "telejornais" mostraram imagens dos indígenas a insultar repetidamente a França, a Itália e a Espanha, e a injustiça doeu. Portugal, que dedicou ao sr. Morales o exacto tratamento dedicado pelos seus vizinhos europeus, não suscitou uma declaração de guerra ou sequer um insulto gratuito por parte daquele povo em fúria. Era como se não existíssemos, e as nossas acções, bem ou mal intencionadas, não possuíssem consequências. Contemplei o espectáculo deprimido e, pelo vistos, sozinho na depressão. Ainda pensei ter companhia quando o PCP pediu explicações acerca do caso ao ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas não: naturalmente, o PCP estava preocupado com a atenção dada por Portugal aos EUA, não com o desprezo a que o mundo inteiro vota Portugal. A tristeza arrastou-se.

Até que, uma semana depois dos acontecimentos e sem que os mais optimistas o pudessem prever, uma visão encantada irrompeu nos noticiários: a bandeira nacional começou a arder nas ruas bolivianas e o nosso país passou a integrar os alvos explícitos do ódio local. Talvez aguardassem que uma fábrica de têxteis estampasse o tecido, talvez o MNE mexesse cordelinhos diplomáticos. A verdade é que me comovi, e não chorei por pouco. Afinal, existimos. Afinal, não somos menos do que os outros. Não ligo a desporto, e por isso, a bandeira a subir no mastro não me disse nada quando dos feitos olímpicos de Carlos Lopes, Fernanda Ribeiro e Rosa Mota. Já a bandeira em chamas à sombra dos Andes representou uma epifania patriótica que não esperava. Obrigado, dr. Portas. Obrigado, sr. Morales. Obrigado, pirómanos anónimos de La Paz.


Cortes

A barafunda política distraiu os portugueses de um drama de proporções arrepiantes. Falo, como deveria ser escusado dizer, da luta dos funcionários da Carris contra o capitalismo selvagem e a favor do corte de cabelo à borla. Passo a explicar.
A Carris, muito naturalmente e com base na cláusula 69.ª do contrato colectivo de trabalho, disponibiliza uma rede de barbearias que presta serviços gratuitos aos seus funcionários, activos ou reformados. Infelizmente, essa conquista histórica do operariado está em perigo dado que, pelo menos segundo o testemunho do PCP, a empresa fechou ou tenciona fechar as barbearias em causa, vergonha que levou o grupo parlamentar daquele partido a rabiscar um requerimento justamente indignado. Por seu lado, o Ministério da Economia garante que as barbearias se encontram operacionais e prontas a aparar a mais densa guedelha. Entretanto, e na aparente impossibilidade de se verificar se as barbearias existem ou não, os sindicatos da Carris propõem um compromisso: a administração desiste de garantir os cuidados capilares e começa a pagar 12 euros mensais a cada funcionário para que este trate do penteado onde entender. A concretizar-se, os carecas sairão beneficiados do arranjinho. Mas o arranjinho abre portas a inomináveis atentados aos direitos adquiridos.

Hoje, corta-se no cabelo, perdão, no barbeiro. E amanhã? Não estará para breve o momento em que a sanha do lucro e o desprezo pelo ser humano imponham aos assalariados dos transportes públicos o corte nas manicuras, nas esteticistas e nos profissionais de aromaterapia? Alguém acredita que um curso de reiki custa meros 12 euros? Por este andar, ainda veremos maquinistas da CP a financiar as próprias aulas de ioga e fiscais da Metro do Porto a contrair dívidas à banca de modo a frequentar as ancestrais sessões de depilação. Enquanto não compreendermos que o esboroar do Estado social não é apenas uma questão económica mas também moral, não vamos lá. O povo está pelos cabelos, para cúmulo desgrenhados.


A disfunção pública

Um pequenino bando de sindicalistas da função pública com imenso tempo livre entrou nas galerias da Assembleia da República e desatou aos berros. A presidente da AR mandou remover o bando, sugeriu a hipótese de impedir à partida badernas futuras e citou Simone de Beauvoir: "Não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes." Alguém descobriu que, na origem, a frase se aplicava aos nazis e a fúria contra Assunção Esteves começou a animar as donzelas do costume. Curiosamente, ninguém se zangou com a senhora pelo péssimo gosto na escolha dos autores. Mas a curiosidade maior é o facto de uma gente que acusa de nazismo todos os que defendem regimes livres, por oposição aos totalitarismos da sua preferência, se escandalizar quando alguém retribui o piropo, provavelmente exagerado, comparativamente adequado.

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