quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Burros e sindicalistas (ou vice-versa)




Eis do que se fala em duas crónicas de Alberto Gonçalves:



E o burro somos nós


Já quase toda a gente foi informada de que a edição europeia do New York Times cedeu boa parte da primeira página ao burro mirandês, um animal doce cuja preservação depende de subsídios e que o autor do artigo usou como metáfora para a situação portuguesa, ou pelo menos do interior português. Em vez de nos resignarmos à galhofa e a outras, e evidentes, metáforas, convinha ler o artigo com atenção e notar as palavras de Orlando Vaqueiro, ex-presidente da Junta de Freguesia de Ifanes (160 habitantes), que declarou ao NYT: "Os subsídios são necessários para manter os burros, mas sucede que todos se tornam completamente dependentes deles, logo não existe espírito de inovação nem vontade de modernizar ou produzir mais." Aqui, já nada é metafórico, mas a pura verdade, e é curioso que tenha sido um político a resumi-la. É natural tratar-se um político obscuríssimo e sem sombra de carreira. Para os hábitos caseiros e as vulgares perspectivas de ascensão, o homem é (preencham o resto com o nome de um animal da vossa, ou nossa, predilecção).


Humilhados e ofendidos

(imagem recolhida aqui)

Na falta de um povo que execute arruaças por eles, os próprios sindicalistas resolveram entreter o ócio e passar um dia a forçar a entrada em ministérios. Na falta de um Governo com vestígios de coragem, os sindicalistas não foram recebidos por uma ordem de detenção, conforme seria razoável, mas pelos governantes ou seus representantes, cheios de compreensão e agendas para marcar reuniões com os arruaceiros. Percebo a ideia. Se meia dúzia de larápios me invadirem a casa, a minha reacção natural é aprazar uma almoçarada com os ditos. E se, numa perspectiva diferente, o chefe da repartição de Finanças não me desempatar uma chatice qualquer com a brevidade desejada, furo-lhe dois pneus do carro e tudo terminará entre abraços. Ou não?

Se calhar, não. Num país em que as desigualdades são pasto da demagogia mas raramente preocupam mesmo alguém, é possível que o cidadão comum contemple este espectáculo e sinta que alguma coisa lhe escapa. Porque é que alguns são livres de violar a lei e outros não? Porque é que alguns são julgados instantaneamente após dirigirem uns remoques ao Presidente da República e outros incitam à violência popular sem que lhes aconteça nada? Porque é alguns vêem a vida a andar para trás a pretexto de uma mísera prestação à Segurança Social e outros vêem dívidas de 17 milhões "assumidas" pelos contribuintes em peso? Porque é que eu, você e o meu vizinho do lado devemos obediência à autoridade e um conhecido treinador da bola consegue tratar a autoridade ao tabefe sem consequências dignas do nome? Porque é que delinquentes sem posto são impedidos de trepar a escadaria do Parlamento e centenas de polícias em fúria não? Porque é que deputados recorrem à nostalgia revolucionária para montar "piquetes" e aos benefícios do cargo para evitar represálias?

A impunidade de que tanto se fala e que tanto se condena não se esgota no estereótipo do banqueiro anafado, de preferência com cartola e monóculo. Há imensos privilégios à solta, e cada um implica a humilhação dos que não os gozam. E um gozo a cada menção do lendário Estado de direito.

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