terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

"Adeus tristeza"


(imagem obtida aqui)


Com "uma guitarra na mão", Fernando Tordo emigrou para o Brasil. Até aqui, descontada a louvável tolerância da TAP na bagagem de cabina, nada de especial: embora por regra mais jovens, muitos portugueses também emigram e, se atendermos à história, sempre emigraram. A circunstância de se tratar de um cantor e compositor popular não torna o gesto de Fernando Tordo diferente do gesto de tantos enfermeiros, biólogos e serralheiros, mesmo que estes raramente mereçam reportagens televisivas. É típico dos países pobres que as pessoas sem trabalho, ou com trabalho mal remunerado ou, como se afirmou no caso, com reformas pequeninas, procurem uma vida melhor. A culpa? É de todos e não é de ninguém, se me permitem o cliché. Não vale a pena apontar o dedo a quem votou no Governo da "austeridade". Nem a quem votou nos governos que forçaram a "austeridade". Por muito que nos custe, a "austeridade" é o nosso valor facial, o melhor que conseguimos se nos deixarem entregues a nós próprios e aos "fundos" e "tranches" que continuam a cair por aí. Sem os "fundos" e as "tranches", o valor facial será ainda menor. E, salvo um milagre, a "austeridade" maior.

Fujo do assunto. O interessante na partida de Fernando Tordo começa no pormenor de ele a ter anunciado no Facebook, em texto cheio de pretenso entusiasmo que as lamúrias em entrevistas posteriores (sim, teve direito a entrevistas) comprometeram. O interesse cresce quando o filho de Fernando Tordo publica no seu Facebook uma "carta-aberta" e terna ao seu pai, lamentando o ódio nas "caixas" de comentários online (ai, ai, que haveria imenso a dizer sobre o ódio nas "caixas" de comentários online). Por fim, a coisa atinge o sublime no momento em que Fernando Tordo responde ao filho - adivinhem - através de "carta-aberta" no Facebook.

Em suma, a internet é um refúgio de mal-intencionados, por isso vamos lá trocar intimidades na internet que as chamadas telefónicas estão pela hora da morte e os e-mails "fechados" não suscitam notícias de rodapé. À primeira vista, o maior problema da família Tordo não é a falta de dinheiro: é a falta de noção de privacidade, a falta de noção da sua insignificância. O problema da família Tordo é, afinal, o problema de incontáveis artistas caseiros, com e sem aspas: a lata. Dado que Fernando Tordo gosta de "cartas-abertas", cá segue outra.

Caro senhor (que não tenho o prazer de conhecer), emigrar não é um drama obrigatório. É uma decisão pessoal que, por definição, convém mantê-la assim ou limitá-la a círculos restritos. E se não é proibido espalhá-la aos ventos, é ridículo apresentarmo-nos ao público enquanto exemplo de sofrimento. Principalmente se o sofrimento é bastante relativo. É que também não é proibido que o público ache o exercício pretensioso e responda em conformidade. Além disso, já se sabe que quem abusa do acesso aos media arrisca-se a levar com os media em cima. Era escusado provocar a manchete do jornal i, que divulgou os 200 mil euros amealhados desde 2008 pela empresa que o senhor possui - só em concertos encomendados pelo Estado, com as autarquias à cabeça. Para quem se queixa dos "agentes públicos que desprezam as Artes (com maiúscula)", não está mal. Para quem insiste na relevância da Arte que produz, está péssimo: não haverá multidões ansiosas por encher auditórios de modo a assistir, sem patrocínios camarários, à enésima interpretação de Tourada? Pelos vistos, não. Por isso, o senhor rumou ao Brasil, onde decerto o aguardavam impacientes. E, ao que li, regressa em Abril. O senhor é um emigrante breve, mas o tempo que nos rouba já vai longo.

Adenda (26-02-2014) - Um esclarecimento de Fernando Tordo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

De um país que é um sorvedouro de paciência...





...disse Alberto Gonçalves, aqui:



Perder na secretaria

Ou porque o seu presidente andou com problemas de saúde ou porque a equipa de futebol não anda a jogar bem, é voz corrente que o FC Porto está em fim de ciclo. Talvez esteja, talvez não, para mim tanto faz: fui do Benfica na idade em que liguei ao assunto, sou completamente neutro desde que deixei de ligar. De qualquer modo, se o fim do ciclo é discutível, o ciclo não é.

Nos últimos 35 anos, o FC Porto largou a irrelevância que o marcava e começou a discutir a hegemonia com os clubes da capital. Nos últimos 20, assumiu a hegemonia sozinho e deixou a irrelevância aos outros. Os processos utilizados não interessam muito e, sobretudo, não me interessam nada. À semelhança dos fundamentos do sucesso do Benfica de há meio século e, em menor escala, no sucesso do Sporting de há três quartos, suponho que o FC Porto é melhor dentro do campo e fora dele, incluindo-se aqui matéria lícita e, apesar do falso pudor das virgens que dominaram o sector em 1950 e em 1970, ilícita. Nestas coisas não há acasos: sem "ajudas" provadas, Lance Armstrong teria sido igualmente superior aos adversários, tal como antes o fora Merckx, evidentemente com "ajudas" por provar. Salvo pormenores ocasionais, nem o Benfica de Eusébio nem o FC Porto de, por exemplo, Deco, careciam de favores para humilhar a concorrência. Os adeptos, maioritariamente do Norte e ainda mais do Grande Porto, agradeceram a proeza e tomaram-na a título de desagravo do centralismo lisboeta. Fizeram mal.

Ao mesmo tempo em que celebravam as vitórias nos estádios, os portistas, portuenses e nortenhos viam-se derrotados no mundo real. As glórias do FC Porto coincidem com o período em que a região que o clube pretende representar perdeu influência nos destinos do País, peso no respectivo PIB e riqueza proporcional dos seus cidadãos. Trata-se, justamente, de uma coincidência, já que as mudanças devem-se menos às cabeçadas de Gomes e Jardel do que a factores um bocadinho alheios. A globalização desmantelou boa parte da estrutura produtiva do Norte, assente na indústria e nas exportações. Portugal tornou-se um lugar de serviços, crescentemente sediados a Sul. O desenvolvimento nacional passou a fazer-se a expensas dos "fundos" europeus, cuja distribuição, por fintas e mergulhos dignos de Paulo Futre, teima em concentrar-se nas imediações do proverbial Terreiro do Paço. Enquanto o FC Porto reinava, o Porto, cidade e área metropolitana, secava. Entretida com os remates certeiros, e orgulhosa de um clube caracterizado pela organização eficaz, taças em abundância e, por comparação aos rústicos rivais, um genérico ar "moderno", a população não reparou que, no que importa, Lisboa começava a golear o Porto.

Não falo apenas de política. Ou de economia. Ou, descontada a ridícula dimensão pátria, de cultura. Basta ver televisão, onde as referências sortidas ao Porto ou ao Norte, com frequência a cargo de criaturas nadas e criadas no Porto ou no Norte, crescentemente não dispensam a distância imposta pelo advérbio "lá": lá em cima, lá para aquelas bandas, lá no Porto, lá no Norte. De forma oficiosa, quase oficial, o Porto é província, quase ultramar (o Norte nem isso). Hoje, Lisboa só precisa do Porto na medida em que o Porto precisa do interior nortenho: para simular carências e açambarcar os apoios de "convergência". E o bom povo lá de cima (ou cá de cima, na minha perspectiva) convenceu-se de que os êxitos na bola, erguidos a símbolo e a orgulho regionais, compensam o resto. Não compensam, pelo que fica a esperança de que o alegado fim de ciclo do FC Porto aconteça e sirva para recordar que um esboço de equilíbrio geográfico não se alcança aos pontapés no famoso esférico.

Convém, para evocar um cliché, que o Porto - os cidadãos, não as autarquias, delegações e pechisbeques afins - desvie os olhos da baliza e veja o essencial. E o Norte, que cavalgou sem retribuição o apogeu do FC Porto e, repito, sofre em benefício do Porto o exacto desprezo que o Porto sofre em prol de Lisboa, também. O bairrismo é cretino, mas a demografia conta.


Escravos

"É cada vez maior o número de portugueses sujeitos a trabalho escravo no seu próprio país", lia-se num título do Público. No corpo da notícia, procurei as senzalas, os feitores, os chicotes, o sofrimento de sol a sol. Nada. Afinal, tratava-se apenas de sujeitos que, no Alentejo e no Douro, trabalham nas colheitas a troco de 30 euros diários, não declarados ou através de, cito, "falso recibo verde". Enquanto averiguo o que é um recibo verde autêntico (explico na próxima semana), adianto que, conforme reconhece a Autoridade para as Questões de Trabalho num momento de maior serenidade, a questão é sobretudo grave para o fisco e a Segurança Social. Que me lembre, não era esse o principal drama nos campos do Mississippi ou de Minas Gerais.

Podemos achar, e eu por acaso acho, que a profissão de assalariado agrícola não é das mais confortáveis, que 600 euros mensais é um rendimento curto e que desempenhar funções clandestinamente impede o acesso às prodigiosas reformas que aguardam a maioria dos nossos compatriotas. Porém, daqui à escravatura vai um salto tão grande quanto comparar a larica das seis da tarde com a fome em África ou o bullying (sic) nas escolas ao Holocausto.

Uma coisa é o Público apreciar espalhafato, outra é presumir que essa é a função de uma reportagem. Não é. Se o leitor não for irremediavelmente estúpido, a descrição rigorosa dos factos basta-lhe para formar uma opinião. Haverá leitores a considerar a "escravatura" alentejana e duriense uma vergonha; haverá leitores, principalmente entre os que procuram emprego em vão, a invejá-la. Por azar, vivemos numa época em que alguma imprensa (na televisão não vale a pena falar) tende a desaprender as regras básicas do ofício e, como um cómico que avisa que a piada seguinte é particularmente engraçada, a incluir no relato da realidade os sentimentos que a realidade nos deve inspirar. E isso não é jornalismo, mas uma ofensa, maior do que os portugueses "escravos" em Portugal. Uma dúvida: no estrangeiro a escravatura é tolerável?


Perigoso, porque ambicioso e utópico

"O ex-primeiro-ministro José Sócrates defendeu hoje que o Estado social libertou o indivíduo, numa intervenção em que fez um ataque cerrado ao neoliberalismo, advertindo que se trata de um sistema perigoso, porque "ambicioso e utópico"." O texto é da Lusa, que não se esqueceu de notar que o engenheiro Sócrates se apresentou "sem gravata e de calças de ganga". E apresentou onde? Ora essa: "Perante um auditório cheio no ISCTE." Ainda mais do que as "praxes", eis a prova de que o ensino superior vai pelas ruas da amargura.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Na Venezuela, o socialismo chega ao seu destino:

Os assassinatos pelos guardas da revolução e por motivos políticos são o dia-a-dia e em ritmo crescente.

A comunicação social ocidental, incluindo a portuguesa, assobia para o lado. A coisa vai ao arrepio da causa em que militam.




sábado, 15 de fevereiro de 2014

No mímino, aparvalhamento.




Esta surpresa perante uma "estudante" que reclama o direito à humilhação parece-me requentada. Não são a maioria dos programas das TVs nacionais (e se calhar não só), de há muitos anos a esta parte, com particular acutilância na TVI, um exercício de humilhação em função de espectadores que assumem o papel de humilhadores pelo método do voyeur?

Salazar deve rebolar a rir-se na tumba. É a cidadania marxista.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Mais uma parvoeira de pânico por causa dos amiantos?

Aproveitando mais uma febre contra os amiantos, alguém sabe explicar se os tipos de amianto em causa são azuis, castanhos ou brancos? Tal nunca é referido mas, na verdade, a variante branca é inofensiva:

MIRÓ, GRAVURAS E "COLTURA"



A propósito do Miró, um amigo referiu o caso de Foz Côa.
É uma excelente referência.
Na altura, com os cofres cheios do dinheiro cavaquista, Guterres, devidamente tocado à vara pela malta da "coltura" (a malta que pretende que os restantes cidadãos paguem, mesmo que não queiram, as mediocridades que produzem ou gostam), largou uma quantia pornográfica do nosso dinheiro para suspender uma barragem já em construção, porque "as gravuras não sabem nadar".
Ui, as gravuras, ia ser um ror de gente a desaguar ali, resmas de turistas iam transformar o vale do Coa numa Rupestrelândia, e não sei quê. Amanhãs cantariam, as gravuras iam ancorar o desenvolvimento da região, tudo para todos, todos ganham, todos têm prémio, como promete a Alice no seu país das maravilhas.
Calhei na altura ir lá ver as famosas gravuras e o melhor que posso dizer é que só as vi porque um dos arqueólogos que lá andavam, apontava para as pedras e explicava que aquelas sombras e entalhes eram as famosas gravuras. Contornava aquilo com os dedos e a gente via coisas, mais ou menos como o Maduro, da Venezuela, vê o Chavez nos entalhes dos túneis do metro.
E pensei para mim mesmo que só nos sonhos húmidos destes malucos é que aquilo atrairia turistas a sério.
A realidade está ai para provar este ponto.
Enfim, pagou-se principescamente para destruir uma barragem, pagou-se majestosamente para institucionalizar as gravuras e o resultado está à vista: só alguns nerds da arqueologia sairam a ganhar. Os mesmos da "coltura" que berram pelo dinheiro dos contribuintes mas que não metem o dinheiro deles no negócio. Se todos aqueles que berraram desalmadamente pelas gravuras tivessem pagado para as irem ver, se calhar até o prejuizo teria sido mínimo.
O mesmo com o Miró. Se os da "coltura" estão tão empenhados, porque não compram eles as pinturas e instalam um museu?