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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Dos iluminados encandeados






Só mais esta de Alberto Gonçalves:


A fava

Enquanto a polícia procurava o psicopata que andou aos tiros por Paris (e pelo jornal de esquerda Libération), inúmeros jornalistas preparavam os teclados para uma história-tipo do solitário de extrema-direita que abomina imigrantes em geral e árabes em particular, além de manter conversas no Facebook com organizações protonazis. Acrescentavam-se dois parágrafos acerca do perigo dos nacionalismos e o artigo estaria pronto. Azar. Saiu-lhes Abdelhakim Dekhar, com um interessante dinamismo em grupos de extrema-esquerda e participação em acções de "okupas", aliás já envolvido em diversos homicídios nos anos 1990. Para cúmulo, é árabe. E, surpresa das surpresas, muçulmano. Não se faz.

Dois a dizerem o óbvio




Por um lado, Helena Cristina Coelho:


A má memória de Soares

"O principal para que o Governo tenha êxito é saber persistir. Ter a coragem de não mudar de rumo, independentemente dos acidentes de percurso. Recomeçar, pacientemente, quantas vezes forem necessárias. Tomar decisões. Não se deixar perturbar por agressões verbais, por incompreensões ou por injustiças. Aguentar de pé. Para os homens de convicção e de recta consciência, o que conta é sempre - e só - o futuro". O texto foi-me recordado por uma amiga de boa memória, que se lembra de quem o escreveu há 29 anos. 

E foi igualmente repescado por outras figuras, como José Manuel Fernandes, que o replicaram para recordar as palavras e, sobretudo, o seu autor: Mário Soares, em Maio de 1984, quando era primeiro-ministro. O país não estava como agora, estava bem pior. Havia empresas a fechar portas e os salários em atraso tornaram-se uma chaga social, havia bolsas de fome e protestos irados nas ruas, os preços dispararam, a moeda desvalorizou, o crédito acabou.E o que fez o governo de bloco central? Acabou a estender a mão para assinar um memorando de entendimento e receber dinheiro do FMI. Foi então o tempo de ouvir pequenas pérolas de austeridade como a de que "Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos" ou que "a única coisa a fazer é apertar o cinto" ou ainda que "não se fazem omoletas sem ovos, evidentemente teremos de partir alguns". O autor? Acertou: Mário Soares.

Não há notícia de que alguém na altura tenha partido as pernas ao primeiro-ministro como represália por estas declarações ou pela dureza das medidas - nem mesmo quando teve de enfrentar manifestantes violentos na Marinha Grande, na campanha de 1986. Aliás, foi premiado por essa valentia e acabou por ganhar as eleições.

A política não tem a virtude (nem sequer a presunção) de ser coerente. E, se faltarem provas, Mário Soares está a encarregar-se disso. Aquilo que usou como sua defesa enquanto governante, é exactamente aquilo que hoje ataca sem pudor. Não pode ser apenas um problema de memória e a idade não pode ser desculpa para algo que não é só irresponsável:é inflamável. Com o país ainda de garrote apertado, polícias a escalaram o Parlamento para darem sinais do que são capazes, sindicalistas a invadirem ministérios para expressar indignação, uma simples palavra pode ser incendiária e deitar tudo a perder.

Independentemente de se gostar ou não da figura ou do seu passado, Mário Soares teve um papel relevante na história do país. Só por isso, e porque pelos vistos continua a reclamar a paternidade da democracia (que ninguém quer aniquilar) e de uma ideologia de esquerda (com óbvias crises de identidade), devia ser o primeiro a preservá-la. Mas não é isso que está a acontecer: ao atacar o presente (leia-se, quem hoje governa o país) de uma forma tão agressiva e estéril, Soares está a destruir um passado que passou por si e a hipotecar um futuro que devia ajudar a construir. E um país sem memória não pode ter grande futuro. Soares devia ser o primeiro a lembrar-se disso.

Por outro, Alberto Gonçalves:

Cabeças perdidas

Manuel Alegre (poeta). Vítor Ramalho (soarista). Carlos do Carmo (fadista). Boaventura Sousa Santos (latinista). Vasco Lourenço (abrilista). Marisa Matias (bloquista). Ruben de Carvalho (comunista). Pedro Silva Pereira (socrático). Jorge Sampaio (sampaísta). António Capucho e Pacheco Pereira (embaixadores do "centro-direita"). Pinto Ramalho (general). Helena Roseta. Maria de Belém. Carlos Zorrinho. Alberto Martins. Ferro Rodrigues. Jorge Lacão. João Semedo. António Costa. Manuel Tiago. Domingos Abrantes. Almeida Santos.

Estas são algumas das personalidades que, através de mensagem de apoio ou presença corpórea, disseram "sim" à convocatória de Mário Soares e iluminaram a Aula Magna a fim de alegadamente defender a Constituição e o Estado "social". Na verdade, o exercício versou mais o ataque ao Governo e ao presidente da República, a quem se exige imediata demissão a bem ou posterior remoção a mal. As sugestões de violência, os apelos à violência e as ameaças de violências foram tantos e tão explícitos que apenas a transmissão televisiva do evento nos lembrou não se tratar de uma reunião da Carbonária a conspirar o regicídio. O Dr. Soares "aconselhou" os governantes (e Cavaco) a regressar a casa pelos próprios pés enquanto podem. Vasco Lourenço incitou que os corressem, cito, "à paulada". Helena Roseta defendeu que "a violência é legítima para pôr cobro à violência". E, visto que as camisas de força nunca chegaram, um longo etc.

Talvez não valha a pena notar que, em 2013, a "família real" em causa foi eleita pela maioria dos cidadãos. Vale a pena notar que ninguém elegeu os revolucionários em questão. Sobretudo ninguém lhes passou procuração. Os amiguinhos do Dr. Soares falam em nome de um "povo" que, abençoadamente, não existe. O "povo" que existe pode não gostar do Governo e lamentar o Prof. Cavaco, mas boa parte da população é capaz de abominar com maior empenho o bando de privilegiados da Aula Magna, que no entender de muitos devia estar na cadeia pelo que outrora fez ao país ou pelas desmioladas soluções que agora propõe.

Sou avesso a excessos. É claro que umas centenas de malucos fechados numa sala (de que infelizmente não se perdeu a chave) não definem o espírito do tempo. O que o define é a importância que se dá à coisa. Assim de repente, os augúrios não são simpáticos: sem discernível ironia, os media dedicaram ao encontro a seriedade que se dispensaria a um encontro de gente séria, e quando se vê comentadores solenes interpretarem as palavras do Dr. Soares como interpretariam as de alguém digno de atenção, é lícito constatar que a democracia não atravessa um período radioso. Não discuto que o Governo não seja um paradigma de incompetência. Digo que enquanto a alternativa reconhecida implicar múltiplas exibições de demência, aliás em nítido desrespeito pelo Código Penal, isto não vai longe.

De resto, não imagino se o "povo" um dia pegará em armas e varrerá a tiro ou à paulada os poderosos. Porém, tenho a certeza de que o "povo" não berra a uma só voz e sem dúvida não pensa pelos cerebelos do Dr. Soares e respectivo séquito de parasitas: o trágico caos que se seguiria à hipotética sublevação varreria também a estirpe de poderosos que inflama as massas por diletantismo ou preservação de regalias. Os Robespierres de trazer por casa já perderam a cabeça no sentido figurado. Vê-los perdê-la no sentido literal seria, para os menos piedosos, o único alívio cómico do caos.

sábado, 23 de novembro de 2013

Nada de novo?




Disse assim Alberto Gonçalves:


O socialismo que não ousa dizer o seu nome

O socialismo tem imensas faces. Na Venezuela, por exemplo, persegue os comerciantes que vendem produtos acima dos preços que os senhores no poder consideram aceitáveis (esta semana, o Imperador Maduro incitou os clientes a invadirem as lojas a fim de obter o "reembolso"). Em Portugal, multa os comerciantes que vendem produtos abaixo dos preços que os senhores no poder consideram aceitáveis (há tempos, a ministra da Agricultura e da UDP em exercício assim procedeu).

A vantagem venezuelana é a sinceridade. Lá, o socialismo, às vezes chamado de "revolução bolivariana", orgulha-se de o ser e é reconhecido como tal. Aqui é envergonhado e passa inexplicavelmente por "neoliberalismo". Dito de outra maneira, o nosso querido Governo disfarça as verdadeiras convicções sob retórica de sinal contrário. É por isso que quando, há dias, o ministro da Economia defendeu a obrigatoriedade de uma disciplina escolar dedicada ao "empreendedorismo", a primeira coisa que apetece é recomendar ao Dr. Pires de Lima e respectivos colegas que a frequentem.

À semelhança de tantos crimes passionais, o amor do Governo pela iniciativa privada é de uma intensidade que termina invariavelmente com o homicídio desta a golpes de faca. Ou de lei: quase em simultâneo às arrebatadas declarações do Dr. Pires de Lima, um secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde anunciou, muito contentinho, que para o ano será proibido fumar em todos, todos, todos os espaços "públicos", conceito que no peculiar "neoliberalismo" indígena inclui os espaços particulares dos restaurantes, bares e discotecas.

Prometo não voltar a discutir os "perigos" do fumo passivo e o direito de cada um a arruinar a sua saúde da forma que entender. Limito-me a notar uma fulminante banalidade, a de que os proprietários dos estabelecimentos em causa deviam decidir sozinhos aquilo de que a casa gasta - e os potenciais clientes apreciariam ou não. Desde que não promova actividades criminosas, género sacrifício de virgens, parece-me natural que o dono de um restaurante, afinal o sujeito que investiu no dito, possa escolher a comida que serve, os comensais que atende e os hábitos que tolera. É tão absurdo abolir o fumo quanto forçar uma casa de pasto minhota a servir chop suey no lugar de sarrabulho. Por azar, sendo o Governo o que finge não ser e o país o que é, esse dia também não tardará. E ninguém se manifestará na rua. Em Portugal, a liberdade, palavra linda, assusta mais do que o enfisema pulmonar.


Em defesa dos trabalhadores

Os trabalhadores que confiam na CGTP para expressar o seu descontentamento deveriam acompanhar com maior assiduidade a forma como o descontentamento dos trabalhadores de outras paragens é tratado nos regimes com que a CGTP simpatiza.

A proeza está longe de ser inédita, mas segundo jornais da Coreia do Sul a vizinha do norte acabou de fuzilar oitenta infelizes por suspeita de subversão das regras da casa. E não, os trabalhadores em causa não fizeram greve, não marcharam aos berros contra o comunismo na Avenida da Liberdade lá do sítio nem organizaram um protesto contra a remoção de "direitos adquiridos" - até porque não têm direito nenhum. Os trabalhadores em causa, que frequentemente ganham um ou dois euros mensais (lá, a classe média aufere cerca de 20 euros e os empresários ricos a exorbitância de 70 euros), acabaram assassinados por crimes tão graves quanto a contemplação de programas televisivos sul-coreanos ou filmes proscritos (essencialmente, todos) e lerem, ou pelo menos possuírem, um exemplar da Bíblia. Alguns viram-se acusados de espalhar pornografia, esse palpitante instrumento da decadência ocidental. De acordo com as fontes citadas, decerto ao serviço do imperialismo americano, milhares de pessoas foram obrigadas a testemunhar as execuções e os familiares das vítimas enviados para campos de concentração (ou reeducação, de modo a poupar os espíritos sensíveis).

Nada disto pretende concluir que os portugueses não se devem manifestar. Apenas que conviria repararem nas companhias em que o fazem. Se, por absurdo, os sonhos mais profundos do Sr. Arménio Carlos se realizassem um dia, para milhões de criaturas a troika haveria de tornar-se uma saudade, e a austeridade uma lembrança de tempos felizes. E se, numa democracia europeia do século xxi, é um bocadinho primário usar a Coreia do Norte como termo de comparação, mais primária é a democracia que torna a comparação legítima.


Casos de miséria

Pelo menos um jornal diário conta a história, presumivelmente trágica, de um rapaz que paga um euro e tal pelo almoço na cantina da escola para depois queixar-se da qualidade da comida e, cúmulo dos cúmulos, de o impedirem de repetir a dose. Os responsáveis da escola negam. O pai do rapaz garante que o filho tirou fotografias com o telemóvel a comprovar os factos. Suspeito que nenhuma foto explicaria o resto, a saber: que espécie de refeição "gourmet" se espera obter a troco de trezentos escudos? Se a refeição é péssima, porque é que os comensais desejam repeti-la? O que faz com telemóvel um adolescente de 14 anos, membro de uma família que quer parecer necessitada? O mistério permanece.

Porém, o mistério não se compara com o da indignação dos juízes portugueses, os quais, com vasta repercussão na imprensa em geral, se queixam dos "ataques" ao Tribunal Constitucional, do número de empregos previstos no novo mapa judiciário e, muito principalmente, dos cortes salariais. As críticas ao TC, órgão de derivação partidária, deveriam constituir uma portentosa trivialidade em democracias adultas. As vagas disponíveis para o cargo são aquelas que, correcta ou erradamente, quem de direito acha indicadas (e a ministra Paula Teixeira da Cruz até jura que serão mais do que as actuais). E os lamentos da classe acerca da quebra nos rendimentos são um insulto a todos os infelizes que ganham misérias ou não ganham nada de nada.

A propósito: se o jornalismo ambiciona a suprema redundância de mostrar que a crise fomenta apertos e casos dramáticos, o jornalismo que esteja à vontade. Mas convém limitar os relatos a situações aflitivas de facto, sob pena de reduzir a aflição a uma anedota e a crise a um pretexto para a rematada estupidez.



sábado, 16 de novembro de 2013

Com quase uma semana de atraso...


(imagem obtida aqui)


... mais duas crónicas exemplares de Alberto Gonçalves:




O irrealismo mágico




Fui só eu a achar encantadora a criação, na Venezuela, do vice-ministério para a Suprema Felicidade do Povo? Segundo o Maduro que manda naquilo, a coisa destina-se a "elevar a qualidade social dos venezuelanos até ao céu", e só estranho que o céu seja o limite quando, em vez de lidar com a realidade, a política decide inventar uma realidade alternativa. Naturalmente, trata-se de uma característica do socialismo, que começa científico e depressa descamba para o folclórico. Deve ser por isto que, pelo menos na literatura, se associa a América Latina ao "realismo mágico", embora conste que, a certa altura, mesmo o sisudo Estaline começou a financiar investigações psíquicas. Em Caracas, as investigações nem são necessárias: é costume o sr. Maduro afirmar que "vê" Hugo Chávez a pairar junto às montanhas da cidade e, na semana passada, o actual Presidente convocou a imprensa para anunciar que o rosto do presidente falecido surgira na parede de um túnel do metropolitano local. Há dias, o sr. Maduro antecipou o Natal, que de facto é quando um ditador quiser, para Novembro.

Entre nós, devido às greves, é frequente que nem o fantasma de um maquinista se mostre nos "metros" de Lisboa e do Porto. Falta-nos esse mergulho no fantástico, essencial sempre que a despesa com a propaganda e o "bem comum" leva um país a descer sem remédio ou vergonha à indigência e à mendicidade. A miséria aumenta exponencialmente? Tomem um ministério da Felicidade. A crise não parece ter saída? Experimentem uma aparição mística. O povo sofre? Venha uma revolução no calendário religioso.

É verdade que a Constituição caseira já pressupõe uma dimensão paralela, desde logo evidente no "caminho para uma sociedade socialista" do Preâmbulo, mas decretar o direito ao emprego e a uma habitação jeitosa não é igual a impor por lei a alegria das massas. É verdade que o principal responsável pela penúria vigente anda por aí a preparar um inconcebível regresso ao poder, mas dificilmente as aparições do eng.o Sócrates são passíveis de interessar parapsicólogos. É verdade que os senhores ministros prometem a retoma para daqui a dez minutos, mas isso não se compara a bulir na data de nascimento do menino Jesus. É verdade que uma pequena percentagem dos descontentes sai regulamente à rua a fim de exigir que os nossos satânicos credores nos deixem em paz conquanto continuem a enviar o dinheirinho, mas, se bem que por pouco, uma manifestação da CGTP não corresponde às premissas de uma manifestação do reino sobrenatural. É verdade que os gestos e as palavras dos socialistas dissimulados do Governo, dos socialistas assumidos da oposição corrente e dos socialistas maluquinhos das franjas vêm evoluindo vertiginosamente rumo ao delírio, mas ainda carecemos do golpe de asa que nos resgate da pobreza e eleve à irrealidade absoluta.

Precisamos de entregar o destino colectivo nas mãos de xamãs, cartomantes e videntes. Precisamos de confiar o défice aos astros e aos búzios. Precisamos de ler o futuro do Estado "social" nas entranhas de um bicho. Precisamos de responder à rigidez dos "mercados" com festa, dança e candomblé. Precisamos de uma Secretaria de Estado das Energias Positivas. Precisamos que as botas de Salazar ou as sobrancelhas de Cunhal se revelem num muro ou numa torrada. Precisamos de assombrações patrióticas. Precisamos, em suma, de alcançar a dimensão espiritual e transcender a material. Nesta não vamos longe.


A esquerda contra o desemprego




A título de intróito, palavra que nunca escrevera até este momento, deixem-me falar-vos de Rui Tavares, nome que espero não voltar a escrever depois de hoje. O dr. Tavares é o eurodeputado "independente" que se candidatou pelo BE ao Parlamento Europeu e, numa portentosa exibição de independência, saiu do BE a seguir à eleição, embora mantendo o cargo, o salário e a influência. Por azar, uma das maçadas dos processos eleitorais é o seu carácter temporário, pelo que o dr. Tavares vê aproximar-se o fim do mandato e, o que é compreensível, teme que coincida com o fim do cargo. E do salário. Desde já, o dr. Tavares rejeita com veemência uma candidatura nas "listas" do PS, proeza facilitada pelo facto de, salvo por uma vaga simpatia manifestada pelo dr. Assis (em contraponto à antipatia de outros socialistas), o PS não o ter convidado. Dado que o PCP não costuma recrutar no exterior das fileiras, sobra ao dr. Tavares a solução óbvia. Abandonar o sujo universo da política? Esse é o plano B. O plano A consiste em fundar um partido que devolva o respectivo fundador a Estrasburgo. Sucede que, na impossibilidade de enveredar pela franqueza e resumir os estatutos desse hipotético partido aos factos, leia-se preservar o emprego do líder, o dr. Tavares foi obrigado a congeminar uma complexa tese que envolve a falta de "convergência" entre as forças da oposição, a crítica às "plataformas fulanizadas" e, sobretudo, a urgência em criar um "espaço de liberdade à esquerda".

Compreendo a urgência e confirmo a lacuna. Se considerarmos que PSD e CDS são economicamente liberais - o que, a atentar pelas políticas em curso, implica uma desmesurada liberdade poética -, a esquerda caseira conta apenas com o PS, enquanto alternativa de governo; com o PCP, enquanto porta-voz dos "valores democráticos" no sentido não democrático do termo; com o BE, enquanto representante dos jovens que abominam o "sistema" embora ignorem o que o "sis-tema" seja; e com grupelhos microscópicos género PCTP e POUS, que em podendo enforcavam os "ricos" e não se voltava a falar no assunto. É, pois, óbvio que a nossa esquerda ainda é insuficiente, como são insuficientes os marsupiais na Austrália e a dengue no Brasil. Há ali "espaço" para a "liberdade" do dr. Tavares, o visionário que em 2011 descobriu a distância que vai do marxismo à tolerância e que em 2013 oferece à Europa o feliz matrimónio de ambos. Naturalmente, não oferece o ordenado.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Duas crónicas...



... das quatro que Alberto Gonçalves publicou aqui

Alívio cómico

Todo vaidoso, o Governo jurou não existirem quaisquer indícios de que entidades nacionais tenham sido escutadas pelas agências de espionagem americanas. Em vez de orgulho, o Governo deveria mostrar vergonha e perguntar-se porquê. O pior era a resposta: porque não pesamos no mundo. A menos, claro, que a CIA e aparentados andem com demasiado tempo livre e reservem o fim do dia para a merecida galhofa. Temos um país falido cuja população exige nas ruas a manutenção das causas da falência. Temos um Governo que demora nove meses a parir um "guião" para a reforma do Estado que se limita a reformar, com pensão vitalícia, a lucidez dos que o levarem a sério. Temos um ex-primeiro-ministro vocacionado para o embuste e preparado para voltar a mandar no exacto país que arruinou com empenho. Temos a dra. Assunção. Temos o "repúdio" ao sr. Blatter. Temos o dr. Seguro. Temos os "trabalhadores" da CGTP em greves e manifestações tão sucessivas que não há quem lhes retenha as datas. Temos uma "inteligência" convencida de que o nosso atraso de vida é culpa do "estrangeiro". Temos, em suma, os ingredientes necessários para que os espiões dos EUA passem um bom bocado. Fora do expediente.


Isto não é o "Zeca"

Entre as inúmeras homenagens a Lou Reed, certamente uma das mais estranhas aconteceu sexta-feira em Lisboa, onde uma série de músicos portugueses interpretou canções óbvias do norte-americano. Interpretaram ou, pelo que testemunhei nas notícias, demoliram. Mas o mais espantoso foi contemplar indivíduos associados ao PCP e a partidos similares mostrarem devoção por um anticomunista primário, que é como todos os anticomunistas devem ser. Veja-se o papel de Reed na resistência checa ao totalitarismo soviético. Ouça-se Black Angel"s Death Song, tema do disco inicial dos Velvet Underground e de oblíqua repulsa pela URSS. Recorde-se o ataque ao terrorismo palestiniano no álbum New York. Ecumenismo? Hipocrisia? Provavelmente ignorância, que é do que a casa gasta.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Portugal visto por...




Sonhos revolucionários



Primeiro, o Governo deixa escapar a notícia do saque às pensões das viúvas. Depois, fingindo-se zangado, o Governo faz o anúncio oficial: o saque limita-se a três por cento das beneficiárias. Por fim, desvenda-se o Orçamento e instala-se a confusão acerca da percentagem do saque. Entretanto, cem por cento dos socialistas outrora inquilinos de Belém imitaram uma cantilena em voga e apelaram à insurgência das massas.

Evidentemente, o apelo não foi explícito. Jorge Sampaio, no estilo críptico que desenvolve há sessenta anos, ofendeu-se sobretudo com o desrespeito do sagrado Tribunal Constitucional e pediu "um assomo patriótico", o que quer que isso seja. Mário Soares falou dos "delinquentes" no poder e confessou temer que "o ódio do povo se torne violento", formulação que numa cabeça matreira e pouco sofisticada significa que espera com impaciência a sublevação das massas.

Não pretendo defender as aventuras dos Drs. Coelho e Portas, de facto próximas do grotesco. Porém, é esquisito que alguns dos nossos mais celebrados democratas tenham uma visão peculiar da democracia, maravilhosa quando aclama os nossos, detestável quando premeia os restantes. Se não estou em erro, o Governo em funções resultou de uma escolha dos cidadãos, chamados a votar em eleições livres e justas. O Governo é mau? É, sim senhor, embora por não cortar onde devia e não pelos motivos que o Dr. Soares e o Dr. Sampaio sugerem. O Governo é ilegítimo? Não é, não senhor, excepto na opinião de criaturas como o Dr. Soares e o Dr. Sampaio, para quem a legitimidade advém da coincidência entre os titulares dos cargos e as suas simpatias pessoais. Simular preocupação com a "pátria" ou o "povo" para tentar impor as simpatias é estrategicamente compreensível. Mas é também uma trapaça.

Não me lembro de ouvir o Dr. Sampaio reclamar "assomos" enquanto o Governo anterior inscrevia a pátria na sopa dos pobres europeia. E sou capaz de jurar que, nesses gloriosos tempos, nunca o Dr. Soares avisou para os riscos da plebe indignada. A verdade é que ambas as alminhas citadas representam com brio o ramo do pensamento filosófico lusitano segundo o qual a "direita" (ou o que em Portugal passa por direita) moralmente não merece mandar. Se o povo real e bruto decidiu assim, há que imaginar um povo iluminado capaz de decidir assado e correr com a "direita" à bordoada.

Por enquanto, trata-se apenas da imaginação de dois antigos presidentes da República, felizmente para nós e, no fundo, felizmente para eles: nem sempre a fúria popular pendura uma comenda no pescoço dos respectivos instigadores. Às vezes, limita-se a uma corda.





Ai, a humanidade!



Uma amiga que trabalha no ramo falou-me recentemente e entre risos do sofrimento de inúmeros pais no momento de deixar o rebento no infantário. Ao que parece, a coisa não se distingue da despedida dos soldados que partiam para o Ultramar, com lágrimas e tudo. Uma das poucas diferenças é que os combatentes em África não estavam "monitorizados" (julgo ser o termo usado) por um sistema de vigilância que informasse os familiares das suas actividades diárias. Os rebentos começam a estar.

Vi no "telejornal". O sistema chama-se My Child, já foi adoptado em Portugal por dezenas de creches e similares e consiste numa "rede social" (também é o termo usado) que permite aos paizinhos acompanharem no computador, através de fotografias e vídeos, o fascinante quotidiano dos filhinhos. O filhinho come flocos ao pequeno-almoço? Os paizinhos vêem. O filhinho desenha um rabisco? Os paizinhos observam. O filhinho dorme a sesta? Os paizinhos contemplam. O filhinho bolsa? Os paizinhos admiram, ao longo do dia e com provável prejuízo do trabalho pelo qual alguém absurdamente lhes paga.

Não cabem aqui algumas considerações sobre as maleitas sociais e psíquicas de que semelhante toleima é sintoma: a solidão e o vazio de tantas vidas, a infantilidade dos padrões de comportamento, o alheamento face às responsabilidades, a obsessão maníaca elevada a norma. Limito-me a lembrar que o desmesurado zelo dedicado ao presente das crianças garante-lhes um futuro no mínimo sombrio. E isso, se as circunstâncias não dessem vontade de rir, é que mereceria copioso pranto.


(Recomenda-se a leitura deste e de outros posts do blogue de onde foi retirada esta foto)



Um modelo



Mário Soares, que diligentemente tenta bater o recorde de afirmações esdrúxulas na mesma semana, estranhou que Cavaco Silva não fosse julgado pelo "caso" BPN. Com a paciência que não dedica aos jornalistas e populares que o insultam, o Prof. Cavaco remeteu o Dr. Soares para os esclarecimentos que já prestara sobre a matéria e que, sendo verdadeiros, o colocam na posição de simples depositante do banco em questão. Segundo o Expresso, o Dr. Soares terá enviado um discreto pedido de desculpas ao chefe da Casa Civil, confessando que não dera pelos ditos esclarecimentos. Mas essa não é a questão.

A questão é a radiante facilidade com que o Presidente da República está sujeito ao tipo de ataques que ninguém ousa lançar aos ex-presidentes. Veja-se o mero exemplo da Fundação Mário Soares, que em 2014 receberá 210 mil euros do erário público, a juntar aos cerca de milhão e meio que já recebeu entre 2008 e 2013. Não espantaria que, em tempos de crise extremada, um populista pedisse o julgamento do Dr. Soares e dos benfeitores do Dr. Soares por aquilo que qualquer cidadão menos cauteloso no verbo poderia classificar de roubo, embora um roubo legalíssimo. O espantoso é que esse populista não surgiu. O respeitinho que o Dr. Soares suscita é directamente proporcional ao desrespeito que o próprio dedica ao mundo em seu redor, desde o Chefe de Estado ao simples contribuinte. Em países normais, semelhante fenómeno deveria servir de alerta. Aqui, serve de modelo.




A provocação e a serenidade



 Para quem abomina a propriedade privada e venera a estatal, a CGTP possui uma noção peculiar de ambas. Ao longo de um fascinante debate que durou semanas, a central sindical exigiu dispor de duas pontes em Lisboa e no Porto como se ambas pertencessem à espantosa multidão que presumivelmente viria gritar contra o Governo, a austeridade, a troika e etc. Contas feitas, o solitário motivo de espanto foi a pequenez da empreitada.

A cada dia, passam pela Ponte 25 de Abril cerca de 150 mil carros, talvez 300 mil criaturas. Proibidos de desfilar a pé, os fiéis do sindicalismo conseguiram que umas dúzias de autocarros percorressem o tabuleiro devagarinho. À saída, em Alcântara, as notícias da "concentração" falam em "milhares de pessoas", maneira genérica e simpática de descrever o que, à hora a que escrevo, tresanda a fracasso.

No Porto, onde as previsões arriscavam 30 mil manifestantes e não houve a divertida desculpa da chuva, "fracasso" tresanda a eufemismo: a TSF contou "centenas" de indignados. A "capacidade de mobilização" da CGTP só impressiona por comparação com a do microscópico Movimento Que Se Lixe a Troika, que normalmente mobiliza com dificuldade a quantidade de elementos de uma equipa de râguebi (sem suplentes). Ou por comparação com os poderes místicos que comentadores de diversa índole lhe atribuem.

A única proeza que a CGTP cometeu no sábado prende-se com o facto de as autoridades terem por sua causa encerrado ao trânsito uma série de ruas nas duas maiores cidades do país, afinal subjugando o lendário interesse comum à ambição imediata do extraordinário Arménio Carlos, leia-se atrapalhar a vida alheia.

Sem querer, e referindo-se ao FMI, o Sr. Arménio afirmou ao DN o essencial sobre a relação do sindicalismo com a sociedade: "Aqui mandamos nós." É o que parece, por muito que apeteça perguntar porquê. Ainda a propósito do FMI, o Sr. Arménio prosseguiu: "Respondemos à provocação com serenidade." E nós, incluindo os milhões que por óptimas ou péssimas razões já não aguentam o Governo mas não se iludem com prepotentes e reaccionários no pior sentido, pelos vistos também.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mais umas quantas crónicas exemplares...










Sua Excelência, o autarca

Há dias, li um jornalista jurar que a Lisboa actual está sempre em festa, cheia de animação, eventos culturais, artes de rua e "iniciativas" em geral, logo (sublinho o "logo"), o jornalista em causa apoia a reeleição de António Costa. Ainda que não fosse essa a intenção, é difícil resumir melhor a relação dos portugueses com o poder, e sobretudo com o poder local.

Para o cidadão comum, aquilo que acontece numa cidade, Lisboa ou outra, é necessariamente resultado das decisões - ou da falta delas - dos senhores que ocupam a autarquia. Se a cidade é pródiga em bares, espectáculos musicais, exposições e homens-estátua, o mérito é da câmara municipal. Se a cidade anda mortiça, a culpa é da câmara municipal. Os munícipes, criaturas sem vontade própria que seguem as decisões autárquicas como os zombies seguem mioleira fresquinha, não são para aqui chamados, excepto para exaltar a sumidade que espevitou a vida urbana ou criticar a nulidade que deixa a vida urbana desligar-se às sete da tarde. Aparentemente, ninguém é capaz de se instalar a servir copos, organizar concertos ou espirrar três vezes sem o aval, e talvez o patrocínio, de Sua Excelência, o autarca. A ausência de vida para além dos Paços do Concelho não só é uma concepção absurda: se calhar, é verdadeira.

Em países civilizados, é possível visitar uma cidade, ler sobre uma cidade ou espreitar um documentário alusivo a uma cidade e nem sequer notar a existência do senhor presidente da câmara. Em Portugal, isso seria tão estranho quanto um vereador balbuciar uma frase que não inclua a palavra "valências". Não há "apontamento de reportagem" acerca de qualquer lugarejo sem depoimento do senhor presidente. Não há jornal local sem 37 fotografias do senhor presidente. Não há procissão de Nossa Senhora dos Aflitos sem a presença do senhor presidente junto da protagonista. Não há instalação instalada em galeria sem autorização do senhor presidente. Não há garrafa de vodca aberta às duas da madrugada sem uma vénia ao senhor presidente, que afinal criou as "condições" para que os súbditos se embriagassem com galhardia. O senhor presidente, emanação do Estado, encontra-se por toda a parte, numa consumação assustadora das "políticas de proximidade" que o jargão da classe promete "incrementar".

Puro Terceiro Mundo? Obviamente. Ou, se não apreciarem a expressão, herança de séculos de pobreza e dependência, que mantêm o povo petrificado, à espera das migalhas largadas por quem manda. Se a "festa" lisboeta se deve de facto ao dr. Costa, a "festa" é uma exibição do nosso permanente atraso, hoje, aliás, celebrado em eleições.




Uma fraude e uma ofensa

Antes de mais, a boa notícia: um estudo da universidade inglesa de East Anglia confirmou que a Terra um dia se aproximará demasiado do Sol e nenhuma forma de vida sobreviverá. A má notícia é que esse dia só ocorrerá daqui a 1,75 mil milhões de anos, no mínimo, ou 3,25 mil milhões de anos no máximo. Ou seja, por um lado Keynes tinha razão quando sugeria que gastássemos à tripa forra, já que "no longo prazo", cito, "estaremos todos mortos". Por outro, teremos muito tempo para suportar as consequências de tão desvairada filosofia e a retórica de gente como António José Seguro.

Num discurso em Coimbra, durante a campanha das "autárquicas", o dr. Seguro explicou pela enésima vez que "O Estado social não é um capricho dos socialistas, mas uma necessidade dos portugueses para combater as desigualdades sociais". E acrescentou: "Quem defende um Estado mínimo, a única coisa que está a dizer é que os portugueses ficam entregues à sua sorte." A primeira frase é uma demonstração de iliteracia económica, a segunda um insulto pouco velado à população.

Vamos por partes. Mesmo sem perceber o que é que o "Estado mínimo" tem que ver com o Governo em funções e mesmo sem discutir as hipotéticas virtudes do Estado dito "social", no fundo uma maneira de submeter recursos aos critérios redistributivos de quem manda e, com frequência, um sistema de perpetuação da desigualdade, a verdade é que até as necessidades dos portugueses, ou pelo menos as necessidades decretadas pelo dr. Seguro, dependem dos meios existentes para financiá-las. Prometer maravilhas sem acautelar o dinheiro que as paga talvez excite a ala esquerda do PS e algum eleitorado, mas constitui de qualquer modo uma burla.

E a segunda frase acima constitui, repito, uma ofensa. Qual é o mal de os portugueses ficarem entregues à sua sorte? Salvo casos excepcionais de miséria ou invalidez, a posse do próprio destino é uma bênção e uma prerrogativa da liberdade. Infelizmente, os senhores que passeiam superioridade moral e preocupação para com o povo entendem que o povo padece de rematada estupidez. E, quando lhes confia a vida, o povo dá-lhes certa razão.




A carteira e a vida

É costume os media divulgarem extasiados que uma publicação ou um site quaisquer distinguiram Lisboa, ou o Porto, ou o Douro, ou o Algarve, ou o Cacém como o "melhor destino turístico" da Terra, ou da Europa, ou da Península Ibérica, ou dos países mediterrânicos cujo nome começa pela letra pê.

O êxtase foi menor quando um teste da Reader"s Digest colocou Lisboa no último lugar em honestidade entre 16 cidades. Ou no primeiro lugar em desonestidade. Eis o teste: espalharam-se 12 carteiras recheadas com documentos pessoais e 30 euros (ou o equivalente) por cada uma das cidades. E depois esperou--se a devolução. Em Helsínquia, 11 carteiras regressaram ao dono. Em Bombaim, nove. Em Nova Iorque e em Moscovo, oito. Em Lisboa, uma. Uma, abaixo de Madrid, Praga, Rio de Janeiro e Bucareste, os lugares seguintes na tabela da pilhagem de ocasião.

Conclusões? A dimensão e a aleatoriedade do teste não chegam para tanto. No máximo, o teste ajuda a desmontar o mito de que os pobres são menos propensos à rectidão. Curiosamente, trata-se de um mito tão propagado pela direita "darwinista" quanto pela esquerda "conscienciosa". Uma acha que a pobreza reflecte os traços de inferioridade dos que a sofrem, incluindo a preguiça ou a tendência para a trapaça. A outra sonha com uma multidão de pobres que subverta o "sistema" através do crime. No mundo real, naturalmente, as condições económicas não influenciam o carácter.

Mas isso já se sabia. E, no resto, o alcance da brincadeira do Reader"s Digest é limitado. Será que, por coincidência, o teste encontrou os únicos 11 indivíduos malformados a operar na capital? Será que no Porto, em Braga, em Faro ou em Coimbra os resultados mudariam ou o problema é nacional? Será que os turistas que confessam deixar cá um pedacinho de si estão a elogiar a hospitalidade pátria ou literalmente a constatar um facto?




Falar sobre o tempo

Parece-me que os peritos procuram novidades da crise económica internacional nos indicadores errados. A maior evidência de que o pior já terá passado está no regresso em força do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), que anda outra vez a alertar para o Apocalipse.

Nos últimos cinco anos, em parte pelas falcatruas que desacreditaram o organismo, em parte pelo facto de as pessoas terem coisas mais sérias com que se ocupar, o IPCC praticamente sumiu do que agora se chama "espaço mediático". O "aquecimento global", e sobretudo o "aquecimento global" com origem na actividade humana, afinal o evangelho do IPCC, viu-se trocado na atenção pela "bolha" imobiliária, as complexas operações da alta finança, os resgates da banca, os gastos dos governos e, principalmente, os apertos das populações, mais preocupadas em chegar ao fim do mês do que em assegurar que o Pólo Norte chegue ao fim do século.

Assistir, em 2013, às manchetes sobre o clima que faziam furor em 2007 é, além de um consolo nostálgico, um sintoma de que a economia internacional se encontra em recuperação e de que, não tarda, poderemos voltar a consumirmo-nos com ninharias especulativas. As promessas do fim do mundo são sempre uma garantia de que o mundo vai benzinho, obrigado.




Novidades literárias

Não sei o que é mais engraçado, se o anúncio de que o eng. Sócrates escreveu um livro, se o facto de o livro versar a tortura, se a circunstância do prefácio ser assinado por Lula da Silva, esse fenómeno de integridade e rectidão que assolou - e, por interposta gente, ainda assola - o Brasil. Por este andar, assistiremos em breve ao lançamento da "Nova Gramática da Língua Portuguesa", obra de Manuel Almeida, candidato do PTP à autarquia de Gaia. Com prefácio de Jorge Jesus.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Autárquicas, Isabel A Endocrinologista, Marco Mouro na Costa





Alberto Gonçalves dixit:





Clima de festa

Parece que o presidente da Câmara Municipal de Esposende (CME), João Cepa, gastou 5266,80 euros dos cofres do município para oferecer dois mil terços a outros tantos idosos do concelho. Não satisfeito, acrescentou 16560 euros, naturalmente públicos, para alugar 32 autocarros e enviar os ditos idosos numa peregrinação a Fátima. Na página do Facebook da CME, conclui-se que a viagem foi um sucesso, com direito a missa, piquenique junto ao santuário e, cito, "a partilha dos farnéis e o convívio entre os participantes, em clima de festa e alegria". Os que defendem o social-democrata João Cepa, leia-se o próprio, explicam que o homem não é candidato nas próximas eleições autárquicas. Os que o atacam evocam a separação entre o Estado e a Igreja.

É evidente que concordo com os segundos, embora me pareça que a restrição não baste. Além de se separar o Estado da Igreja, proeza que, aliás, já foi razoavelmente consumada há décadas, convinha com urgência separar o Estado do dinheiro alheio. A menos que se ache que o único problema desta história passa pelo carácter religioso das prendas e do destino. Se o sr. Cepa tivesse oferecido ao povo duas mil garrafas de espumante e um passeio à Bairrada, o caso seria diferente? Suponho que não.

Limitar a generosidade dos autarcas apenas nas matérias da fé é continuar a dar-lhes livre trânsito para estraçalharem o rendimento de quem trabalha em pândegas sem eucaristia, rotundas sem evangelho, "multiusos" sem sacerdote, "requalificações" de "envolventes" sem redenção. E isto para ficarmos pela iconografia mais representativa do entusiasmante "poder local".

Se quisermos ir um bocadinho além, consultar o portal base.gov.pt é descobrir todo um universo de despesas peculiares em que as autarquias também se especializaram. Há os cinco mil euros gastos pela CM de Faro nos serviços de "manutenção e suporte" de um "software de gestão desportiva", os sete mil euros gastos pela CM de Miranda do Corvo em bilhetes de avião para a Turquia, os 42 mil euros gastos pela CM de Barcelos num misterioso "compressor Nitrox", os 24 mil euros gastos pela CM da Amadora na "concepção de um desdobrável para as eleições", os dez mil euros gastos pela CM de Sousel num espectáculo com "o artista "Quim Barreiros"" (curiosamente, "artista" aparece sem aspas), os quatro mil euros gastos pela CM de Loulé em máquinas de musculação ("e stepper"), os 54 mil euros gastos pela CM de Serpa na "aquisição de serviços para a direcção do Centro Musibéria", os 6500 euros gastos pela CM de Aljustrel num "monobloco em betão", os 50 mil euros gastos pela CM de Vila Pouca de Aguiar na "tradicional Feira das Cebolas" e, para não cansar e terminar em grande, as largas dezenas de milhares de euros gastos pela CM de Lisboa em incontáveis passagens aéreas para Dublin, Odense, Belfast, Luxemburgo, Helsínquia e onde calha.

Tudo isto, acreditem ou não, são exemplos colhidos na semana agora finda, em suposta época de crise. Multipliquem-nos pelas cerca de duas mil semanas de municipalismo democrático e não se esqueçam: no dia 29, corram às urnas. O voto é um direito e um dever. E, para eles, uma festa e uma alegria.




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Bombocas à noite

O jornal i entrevistou Isabel do Carmo, a endocrinologista que, pelo aspecto, possui a legitimidade de um alcoólico que é cirurgião hepático, e a ex-terrorista que lutou à bomba pelo tipo de sociedade que admirava. Podia ter sido pior: em vez de uma entrevista amável, o i podia ter concedido uma comenda à senhora. Mas disso o antigo presidente Jorge Sampaio já se encarregara.

Ainda assim, a referida entrevista é suficientemente comovente. Desde logo, pela preocupação que a dra./camarada Isabel dedica ao futuro do SNS, regime que acha merecer a exclusividade total dos médicos. E se a dra./camarada Isabel acumulava há décadas o serviço público com o privado, isso deveu-se apenas a razões logísticas. Ou, como ela explica: "A certa altura, é um caminho irreversível." Porquê? Porque "a pessoa ganha uma certa notoriedade que torna difícil voltar atrás". E porque o Estado só é bom quando rouba os outros: "Ando a trabalhar no privado para pagar os impostos do público." Muitos andamos, minha senhora.

Espantosamente, a entrevista consegue melhorar. Não é todos os dias que uma jornalista faz uma questão tão pertinente quanto: "É o jeito para mobilizar que liga a Isabel do Carmo de 73 anos à jovem das Brigadas Revolucionárias?" Porém, o segundo grande momento da História da Imprensa Ocidental é a pergunta: "Sendo médica, como é que se gere a defesa da luta armada?" O primeiro momento é a resposta: "Gere-se bem."

O resto da peça mantém este nível. A dra./camarada Isabel conta que se reunia em hospitais com "Zeca" Afonso (um excelente aproveitamento de recursos), invoca a aprovação de Otelo (esse baluarte do juízo), informa que se limitava a colocar "bombas à noite" (e que a classificação de bombista é uma calúnia "da direita e da extrema-direita") e garante que hoje não voltaria à luta armada na medida em que não lhe "apetecia ir para a cadeia [risos]" (a moral é uma mariquice que não a detém). A terminar, a jornalista exibe extraordinária coragem: "Tem algum doce preferido?" "Bombocas?"




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A renegociação a 500 euros/mês

Marco António (Costa) é daquelas coisinhas tão pequeninas e engraçadas que apetece levar para casa. Mas não para a minha. Um destes dias, para que não parecesse que o CDS era o único membro da coligação a alinhar nos clichés contra o Fundo Monetário Internacional, Marco António (Costa), todo lampeiro, insurgiu-se: o FMI padece de "hipocrisia institucional", já que os seus responsáveis terão afirmado num alegado relatório que a austeridade aplicada a Portugal é excessiva. E depois os malvados "mantêm-se inflexíveis" nas negociações.

Coitadinho do Marco António (Costa), que ainda não percebeu a enrascada pátria. Mesmo que tal afirmação e tal relatório sejam verdadeiros, importam menos os estados de alma de algum funcionário da entidade do que os factos, e estes mostram que a intervenção local do FMI, acompanhado pelos dois terços não tão benignos da troika, só existe porque a classe política a que Marco António (Costa) pertence e o bom povo que a legitima criaram uma situação que tornou a intervenção necessária: eles mandam; nós colocámo-nos a jeito de ser mandados. A alternativa, de que pelos vistos ele não se lembra, era a bancarrota absoluta. Assim, estamos numa bancarrota assistida, na qual uns senhores emprestam (a juros) o suficiente para que isto possa fingir que é uma nação soberana e inúmeras figuras gradas da nação querem mandar os senhores pentear macacos (embora por palavras mais viris). O patriotismo é muito lindo.


Infelizmente, os patriotas não explicam onde arranjaríamos o crédito caso os credores decidissem abandonar-nos à nossa sorte. Ou explicam, o que é igual. A ideia consiste em preservar a troika só que em versão boazinha: eles continuam a mandar-nos o dinheiro; nós dispensámo-nos de condições aborrecidas como a de ter de pagá-lo. Ou, no máximo, obrigamo-nos a pagar em suavíssimas prestações, semelhantes à que a autarquia de Vila Nova de Gaia, que contou durante anos com os brilhantes préstimos de Marco António (Costa), cobra ao FC Porto pelo centro de treinos ou lá o que é. O centro custou aos contribuintes 16 milhões. O clube abate 500 euros mensais. Daqui por 2666 anos - por extenso: dois mil, seiscentos e sessenta e seis -, aquilo estará pago. A Câmara Municipal de Gaia é generosa com o que não é seu. O FMI é cioso do que é. Vá-se lá compreender o mundo. Não admira que Marco António (Costa) nem tente.