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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A LONGA SOMBRA DAS TORRES – E DE TEERÃ (1)

Hyeronimus Bosch, Os sete pecados capitais

A propósito dos 10 anos decorridos após o atentado às Torres Gémeas, inicio hoje a transcrição deste novo texto enviado por Luís Dolhnikoff, que dividi em três partes. Publicarei as outras duas, amanhã e depois de amanhã.


1. O 2997º cadáver

Na madrugada de 10 para 11 de setembro de 2001, eu discutia com um artista plástico os planos para uma nova revista cultural. Ela era pretensiosa, no bom sentido, baseada em editoriais independentes e numa abordagem densa de cada tema, envolvendo arte, política e meio ambiente. Eu pretendia começar por localizar e traduzir indiretamente a poesia curda contemporânea. Não que eu tivesse a mais pálida ideia sobre ela. Mas acreditava que devia haver uma poesia curda contemporânea, enquanto a maioria das pessoas ao meu redor ignorava a mera existência do povo e da língua curdos. Por que a poesia curda? Por essa mesma ignorância. Os curdos eram o maior povo sem Estado do mundo, mas o mundo só parecia ser capaz de se preocupar com os palestinos. Tal preocupação com a questão palestina, se era inteiramente legítima, era perfeitamente seletiva. Havia dois pesos e duas medidas entre as “pessoas de bem” em relação aos palestinos e aos curdos: preocupação máxima com os palestinos, preocupação nenhuma com aos curdos. Eu não buscava a resposta na poesia curda, porque ela não estaria ali, e porque já a conhecia. Pretendia apenas demonstrar de forma direta, palpável, tanto a existência do povo curdo quanto a inexistência de qualquer preocupação das “pessoas de bem” por seu destino de grande pária entre os povos. Pode o verdadeiro humanismo ser assim seletivo? A preocupação com os palestinos, ao lado da despreocupação com os curdos, um povo maior e que sofria mais intensamente nas mãos de regimes cruéis como o de Saddam Hussein, não era de fato uma preocupação com os palestinos, mas uma forma de se mostrar contra Israel sendo a favor dos palestinos, o que, por sua vez, era um modo de ser contra os EUA. Não por acaso, havia dois grandes centros ou focos desse apoio particular ou especial para um povo sem Estado em particular, em detrimento de todos os demais (como ocorrera entre 1975 e 2000 com a luta “silenciosa” do Timor Leste contra a Indonésia): a esquerda internacional e o mundo árabe. Na noite de 11 de setembro de 2001, sentei-me com o mesmo artista plástico para pensar no que acabara de acontecer.

Não haveria mais a nova revista, nem interesse particular em traduzir a poesia curda (de fato, uma das consequências indiretas do 11 de Setembro foi o mundo “descobrir” os curdos). O mundo mudara de repente. Além disso, eu sentia uma enorme tristeza.

Em parte, porque o pós-Guerra Fria acabara de terminar. Se a própria Guerra Fria durara longos quarenta anos, entre 1949 e 1989, quando da queda do Muro de Berlim, o período pós-Guerra Fria, que prometia ser de distensão progressiva, da qual o governo Clinton fora uma pálida amostra inicial, mal durara, afinal, uma década, espremido e esmagado entre a queda do muro e a queda das torres. A alegria fora curta. E seria, agora, pouca.

Pois agora começava outra coisa. Uma coisa muito diferente desse curto e promissor interregno. Pois enquanto a queda do muro, que lhe dera início, além de marcar o fim da cinzenta e asfixiante Guerra Fria, fora um evento sem sangue marcado pela alegre libertação de países inteiros da ditadura stalinista, a queda das torres era um evento sanguinário que levaria a uma necessária reação militar dos EUA. Uma grande potência simplesmente não se deixa atacar assim sem reagir. A guerra voltara.

Ao mesmo tempo, minha tristeza era pela derradeira morte da esquerda.

A esquerda vinha morrendo há muito tempo, e morrera várias vezes. Morrera quando Lênin adoeceu antes de impedir que Stálin assumisse a liderança do Partido Bolchevique, ou quando, antes de adoecer, decidira silenciosamente não impedir que Stálin assumisse a liderança, ou antes ainda, quando recusou as teses de Rosa Luxemburgo sobre a necessidade da democracia interna, ou quando criou a primeira polícia política de esquerda, a Tcheka, ou quando Trótsky atacou militarmente os marinheiros revolucionários de Kronstadt em nome da unidade revolucionária, ou quando Bukharin foi morto por Stálin, ou quando Stálin fez um pacto de não-agressão com Hitler, ou talvez já em outubro de 1917, quando o Partido Bolchevique deu um golpe dentro da Revolução Russa de fevereiro, que depusera o czar e derrubara o czarismo num amplo movimento popular. A esquerda ainda morreria outras vezes em Budapeste, em 1956, em Pequim, em 1966, com o fascismo de esquerda da Revolução Cultural, em Praga, em 1968, e em 1975, nos arredores de Phnom Pen, quando Pol Pot abriu o primeiro campo de extermínio do Camboja. Mas a esquerda era um cadáver resistente. Desta vez, porém, eu tinha certeza de que chegara o fim final.

Fui uma parte da vida o que se chama ou chamava de “um homem de esquerda”, apesar de carecer da vocação para a cegueira voluntária que se espera e se exige dos fiéis. Mas porque, como diz o adágio, “Quem não foi comunista antes dos trinta, não tem coração; quem é comunista depois dos trinta, não tem cérebro”, queria acreditar e por isso acreditava na vitória final e inexorável do socialismo redentor da história e dos povos – mas tinha de me esforçar. Naturalmente, sempre fui um cético. Devia, por isso mesmo, ser um cético na mente, mas um crente no coração, porque o pesadelo da história, se podia ter um fim, devia ter um fim. E não havia outro fim além do socialismo. O socialismo, porém, era mentira e miragem. De um lado, revelou-se miserável politicamente, nada mais do que o fascismo vermelho do stalinismo; de outro, era miserável economicamente, pois a economia centralizada jamais gerou riqueza comparável ao capitalismo, mesmo porque jamais gerou riqueza, como a implosão de podre da URSS demonstrou de modo espetacular, e o lento, patético e interminável crepúsculo da ilha de Cuba demonstra de modo farsesco, com a miséria nojenta da Coreia do Norte correndo por fora, e a opulência da China depois de adotar o capitalismo correndo mais por fora ainda. Por fim, a esquerda também se demonstrou miserável culturalmente. A grande arte do século XX veio do mundo capitalista ocidental, a começar de todos os ismos de sua primeira metade, do cubismo ao abstracionismo, passando pelo surrealismo, o expressionismo etc., para não falar da arte pop e popular, do jazz ao rap. O mesmo vale para a ciência, da física à biologia, para a filosofia e para a tecnologia, incluindo celular, internet e cia. O socialismo foi afinal pródigo e prodigioso apenas em produzir cadáveres. Um deles, o seu próprio, que se recusava a ser enterrado. Porque os mitos são difíceis de matar e de morrer – ainda que facilmente façam matar e morrer por eles.

Em 11 de setembro de 2001 descobri, para minha surpresa, que minha rejeição racional do mito que eu mesmo acalentara por tantos anos no passado não fora tão completa quanto acreditava. Minha tristeza por sua morte derradeira o demonstrava. Mas por que a esquerda iria agora morrer derradeiramente? Porque ficaria do lado errado da história, que pegara um atalho imprevisto naquela manhã em Nova York.

Porque o fascismo islâmico atacou de modo furioso os EUA, o inimigo histórico, a maior parte da esquerda desconfiaria da vítima. “Ninguém é atacado assim sem motivo”, seria de fato um mote muito repetido. Principalmente uma superpotência imperialista e capitalista. Os EUA foram realmente atacados por bons motivos. Isto é, pelo que têm de bom, de melhor, ou seja, pelos motivos errados. Mas a miopia histórica da esquerda a impediria de ver o óbvio.

Ante a impossibilidade de apoiar de forma clara o fascismo islâmico, optaria por tampouco atacá-lo de forma consistente, deixando afinal o repúdio franco a esse novo fascismo para a direita. Assim, enquanto a direita se tornaria antifascista, a esquerda tornar-se-ia mal disfarçadamente filofascista – pronta para sacar a alcunha de islamofóbico contra todos os que são, de fato, fóbicos em relação ao fascismo, incluindo o islâmico. A esquerda tornou-se, enfim, ainda mais confusa, e ainda menos convincente.

2. Fogo, fúria e infâmia, versão I

Ao meio-dia de 23 de novembro de 1993, uma caminhonete explodiu num dos estacionamentos subterrâneos da torre norte do World Trade Center, matando seis pessoas e ferindo e asfixiando outras tantas, mas falhando em seu propósito homicida de derrubar a torre norte sobre a torre sul, ao abalar suas fundações, causando a morte de milhares de inocentes. Bill Clinton era o presidente dos EUA (e não Bush-filho, tampouco Bush-pai, recém-derrotado pelo mesmo Clinton). O 11 de Setembro de 2001 seria assim a repetição de um atentado anterior, pelos mesmos autores e pelos mesmos motivos, com a diferença de que, desta vez, em lugar de tentar derrubar as torres por baixo, eles decidiram fazê-lo por cima.

Portanto, todas as afirmações que relacionam o 11 de Setembro com qualquer característica do governo Bush-filho são falsas ou idiotas ou ignorantes, pelo simples fato de que os atentados contra o WTC foram concebidos, planejados e tiveram sua execução iniciada muito antes de Bush-filho sequer imaginar ser um dia candidato a presidente dos EUA. Os atentados contra o WTC (e contra o Pentágono e a Casa Branca – este evitado pela queda na Pensilvânia do avião a ela destinada) foram concebidos contra os EUA. Os EUA em si mesmos. Até porque, Bush-filho, recém-eleito, nada tinha de intervencionista no início de seu primeiro mandato.

A grande acusação contra ele, tornada depois irônica pela história, e esquecida pelos idiotas desmemoriados de plantão, era a de ser um autista, que só tinha preocupações e interesses quanto à política doméstica, além de surfar na onda da prosperidade deixada por Clinton e na tranquila e incontrastada hegemonia mundial depois da autoimplosão da URSS. Bush tornou-se um intervencionista depois do 11 de Setembro. E em função dele. Logo, não pode ter sido sua causa. A invasão do Iraque, não custa lembrar, dada a capacidade de desmemoria dos idiotas de plantão, também aconteceu depois do 11 de Setembro. Portanto, tampouco pode ser uma de suas causas.

(cont.)

domingo, 31 de julho de 2011

"As lições de Oslo"


... é o título deste novo texto de Luís Dolhnikoff:


1. A boa lição de um mau cristão (ou de um cristão mau)

O trabalhista norueguês Thornbjoern Jagland, atual secretário-geral do Conselho da Europa, vê “uma boa lição” a tirar da dupla tragédia de Oslo e de Utoya: “Há uma obstinação em ver uma equivalência entre o terrorismo e o islã como religião”, ele diz. “Ora, o assassino se define como cristão. E por isso se deduzirá que existe um terrorismo cristão, ou cristianismo radical? Essa tragédia tem o mérito de mostrar que um terrorista só tem uma religião: a de eliminar aqueles que têm uma crença diferente da sua” (Marion Van Renterghem, “Os muçulmanos de Oslo estão chocados, mas aliviados por não serem estigmatizados”, Le Monde, http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2011/07/30/os-muculmanos-de-oslo-estao-chocados-mas-aliviados-por-nao-serem-estigmatizados.jhtm.

Um dos principais (e dos mais previsíveis) efeitos dos atentados de Oslo é certa pressa da esquerda, dos multiculturalistas e dos muçulmanos a fim de “provar” a inocência (em mais de um sentido) do islã. Volta a ganhar força a afirmação de que o islã é apenas uma religião como qualquer outra, eventualmente sequestrada por um bando de fanáticos, aliás instigados por ações pérfidas do próprio Ocidente. Isso é verdade. Mas não é toda a verdade.

O islã é, de fato, uma religião como qualquer outra. E isto inclui uma profunda aversão congênita à modernidade, à democracia, à sociedade aberta, à liberdade de expressão, à igualdade de gêneros, pois a religião existe para ser conservadora, ou seja, para conservar as tradições, não para questioná-las, a fim de assim conservar seu papel de guardiã da verdade e da salvação. As grandes religiões do Ocidente, num arco histórico que vai dos atos anticlericais da Revolução Francesa, no fim do século XVIII, aos atos anticlericais da guerra civil espanhola, no início do XX, passando pela reforma protestante, pela instituição da liberdade de culto e da laicidade do Estado, para não falar da crítica sistemática da filosofia a partir do Iluminismo, foram submetidas à modernidade, e forçadas a se reformar para conviver com a sociedade civil, laica e aberta. As leis religiosas não têm mais força de lei. Nada disso vale para o islã.

Não vale para o islã nos corações e nas mentes de seus praticantes, não vale para o islã nas práticas sociais e familiares, não vale para o islã em sua visão de mundo. Homens não usam véus. Mulheres não vestem a igualdade de gênero.

Outra confusão deliberada diz respeito ao terrorismo. O terrorismo clássico, anterior ao terrorismo de massa islâmico ao estilo da Al Qaeda, era um instrumento político. O IRA matava soldados e policiais ingleses na Irlanda para tentar expulsar a Inglaterra e obter a independência; o mesmo vale para os atentados do ETA na Espanha em relação ao País Basco. Isso nada tem a ver com o terrorismo de massa. A Al Qaeda não atacou Nova York para forçar Israel a sair da Cisjordânia (os palestinos jamais estiveram no centro de suas preocupações), ou para forçar os EUA a saírem do Iraque e do Afeganistão (os EUA não estavam no Iraque e no Afeganistão quando dos ataques a Nova York). O objetivo do terror de massa é o terror.

Numa mudança radical em relação ao terrorismo clássico, que era um meio, o terror de massa é um fim. Ao menos em termos táticos. Ou seja, não se trata de uma ação tática visando um objetivo político claro e verosímil qualquer, por mais difícil. O terrorismo de massa mata em massa por dois motivos. O primeiro, porque pode; o segundo, porque quer.

Pode, em função de seu idealismo. E aqui não há qualquer conotação positiva, mas denotativa. O idealismo é, fundamentalmente, a crença na existência de verdades abstratas, perfeitas, atemporais, ou seja, separadas da realidade empírica, que não necessitam, portanto, se submeter a ela, mas devem, por outro lado, tentar moldar essa realidade a si próprias. Toda religião é, por definição, um idealismo (foi Nietzsche, se não me engano, quem definiu o cristianismo como platonismo para pobres de espírito). Daí o terrorismo de massa querer matar em massa: pois acredita ser esse, justamente, um bom caminho para tentar forçar a realidade a se submeter às suas verdades ideais. As maiores e piores guerras na longa história de guerras da Europa – até o século XX – foram as guerras religiosas. E no próprio século XX, o idealismo foi uma das forças principais por trás das duas grandes guerras mundiais: o nacionalismo no caso da Primeira, o nazifascismo no caso da Segunda. O idealismo é perigoso porque se julga mais realista do que o rei, no caso, a própria realidade.

Portanto, o fato de o terrorista de massa norueguês não ser muçulmano, mas um cristão conservador, xenófobo e fascista, significa apenas que o idealismo cristão e o fascista, apesar de suas respectivas derrotas históricas ao longo da história moderna e contemporânea, não estão mortos. Mas isso não serve e não pode servir de consolo quanto à existência de outros idealismos perigosos. O fato de haver terroristas de massa cristãos não significa que eles têm, de repente, o monopólio do terror. Apenas se soma mais um perigo à existência de outros idealismos militantes e perigosos, como aquele ligado organicamente ao islã.

Não levar em conta o perigo do neofascismo europeu é um erro mortal, como os atentados de Oslo demonstram. Fazer disso uma desculpa para livrar o islã de críticas à sua própria intolerância é, mais uma vez, defender a cegueira militante do multiculturalismo, a tolerância com a intolerância, desde que esta seja “alheia”, ou seja, “culturalmente” justificável, respeitável ou o que seja. Mas o que os atentados de Oslo na verdade comprovam, mais uma vez, é que não existe a intolerância alheia, porque a intolerância não é alheia à tolerância que marca as sociedades ocidentais. Os pacifistas, no fim, morrem nas mãos dos belicistas. Os tolerantes, no final, morrem nas mãos dos intolerantes. A intolerância com a intolerância é a única defesa da tolerância. Seja ela a intolerância fascista europeia ou a intolerância religiosa do islã.

2. Corrigindo a lição sobre o mau cristão (ou sobre o cristão mau)

Identificado pela mídia como "fundamentalista cristão" ou como protestante tradicionalista, Breivik [o assassino de Oslo] não cita a Bíblia nem personagens do Velho Testamento [em seu manifesto publicado na internet] e se concentra noutro referencial ideológico. Suas principais obsessões são o ódio aos muçulmanos, ao multiculturalismo e à mestiçagem étnica e cultural que, segundo ele, são protegidas pelo "marxismo cultural" e pelos trabalhistas noruegueses. Ora, estes delírios, por mais maníacos que sejam, também alimentam movimentos de extrema-direita em vários países europeus.

Neste contexto, na França, onde o partido de extrema-direita Front National é um dos mais estruturados e eleitoralmente mais fortes dentre os que se alinham ao extremismo europeu, o debate sobre a tragédia da Noruega tomou uma feição particular. Qual o impacto da propaganda anti-islâmica do Front National na criação de um clima hostil, e de eventuais atentados, contra os muçulmanos franceses? (Luiz Felipe de Alencastro, “A tragédia da Noruega e a extrema direita europeia”, http://noticias.uol.com.br/blogs-colunas/colunas/luiz-felipe-alencastro/2011/07/30/a-tragedia-da-noruega-e-a-extrema-direita-europeia.jhtm

A propaganda talvez tenha algum impacto. Mas os fatos, com certeza, têm muito mais.

Na Holanda, um descendente da Vincent Van Gogh, o cineasta Teo Van Gogh, foi morto com uma faca no peito em plena luz do dia: a faca foi também usada para fixar em seu peito uma carta, na qual o assassino, um muçulmano holandês, o acusava de ser um blasfemo, um ofensor do islã, além de ameaçar de morte uma integrante do parlamento (que acabou por se exilar nos eua). Por todo o continente europeu, com destaque para a França e a Suécia (pasme-se), um grande aumento de ações e manifestações antissemitas é causado não por integrantes da extrema-direita, mas por muçulmanos. Nas escolas estatais de toda a Europa, alunos islâmicos reclamam das aulas de educação física mistas, e se recusam a frequentar aulas de biologia em função de negarem o darwinismo, e aulas de história europeia moderna por negarem o Holocausto. Charges de Maomé publicadas em jornais resultam em ameaças de morte aos desenhistas. O romancista anglo-indiano Salman Rushdie foi obrigado a viver décadas sob proteção policial, após ter sido condenado à morte pelo aiatolá Khomeini, em função de haver escrito um livro. Mulheres mortas por “honra”, casamentos arranjados de adolescentes, homofobia... A lista é infindável. Porém insuficiente para que Alencastro em particular e os comentaristas de esquerda em geral façam a seguinte pergunta: o quanto a intolerância islâmica assusta os cidadãos médios europeus ocidentais, e o quanto isto está alimentando os partidos de extrema-direita?

Ao fugirem de tal questão, por ser politicamente incorreta, a esquerda vai tapando o sol negro da intolerância islâmica com a peneira furada do multiculturalismo e da tolerância cega, enquanto os raios que sobram cuidam de alimentar as sementes da confusão e do medo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

"ONU CONDENA A DISCRIMINAÇÃO CONTRA JUDEUS E MULHERES"


É o título deste novo artigo de Luís Dolhnikoff:

A ONU emitiu ontem sua primeira condenação à discriminação contra judeus e mulheres.

A declaração foi formulada em termos cautelosos e saudada por seus apoiadores, incluindo os Estados Unidos, como um momento histórico. Membros do Conselho de Direitos Humanos da ONU votaram por margem estreita em favor da resolução apresentada pela África do Sul, e que teve resistência forte de países africanos e islâmicos.

A resolução foi aprovada por 23 votos a favor e 19 contra. Houve três abstenções, incluindo a da China.

Formulada em linguagem diplomática delicada, a resolução encomenda um estudo da discriminação contra judeus e mulheres em todo o mundo. Os resultados do estudo serão discutidos pelo conselho, sediado em Genebra.

Para muitos dos 47 países membros do conselho, entre eles Rússia, Arábia Saudita, Nigéria e Paquistão, a proposta foi longe demais.

Falando em nome da Organização da Conferência Islâmica (OCI), o embaixador do Paquistão na ONU em Genebra disse que a resolução "não tem nada a ver com direitos humanos fundamentais". E acrescentou: "Estamos seriamente preocupados com a tentativa de introduzir nas Nações Unidas algumas noções que não têm fundamento legal", disse o embaixador Zamir Akram. O texto, apresentado pela África do Sul, e qualificado como "histórico" por organizações não governamentais que defendem os direitos dos judeus e das mulheres, provocou um intenso debate entre um grupo de países africanos presidido pela Nigéria, contrário à decisão. A resolução afirma: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais no que diz respeito a sua dignidade e cada um pode se beneficiar do conjunto de direitos e liberdades sem nenhuma distinção".

A resolução pede ainda um estudo sobre as leis discriminatórias e a violência contra seres humanos por sua orientação religiosa ou gênero. Em alguns países africanos e islâmicos, o judaísmo é ilegal. Judeus e mulheres são penalizados às vezes com a sentença de morte por apedrejamento.

A Nigéria, porém, afirmou que a proposta contraria os desejos da maioria dos africanos. Um diplomata da Mauritânia, no noroeste da África, disse que ela foi "uma tentativa de substituir os direitos naturais de um ser humano por um direito não natural".

Estados Unidos, França, Brasil México e Argentina apoiaram a resolução, assim como ONGs de defesa dos direitos humanos.

"É um avanço. É a primeira vez na ONU que se aprova um texto tão forte sob a forma de uma resolução, e deste alcance", afirmou o embaixador francês Jean-Baptiste Mattei.

"É um debate muito passional", reconheceu, ao mencionar "a forte reticência do grupo africano e dos países islâmicos a respeito do tema. Mas não se trata de impor valores ou um modelo, e sim de evitar que as pessoas sejam vítimas de discriminação ou violência por sua orientação religiosa ou gênero".

A representante dos Estados Unidos, Eileen Donahoe, afirmou que a resolução "entra para a história da luta pela igualdade e a justiça. É um passo importante para o reconhecimento de que os direitos humanos são de fato universais", ressaltou.

A resolução afirma que "todos os seres humanos nascem livres e iguais no que diz respeito a sua dignidade e seus direitos e que cada um pode se beneficiar do conjunto de direitos e liberdades [...] sem nenhuma distinção".

Antes da votação, o representante da ONG Anistia Internacional na ONU, Peter Splinter, declarou que "resolução histórica será muito importante para os judeus e as mulheres na luta pelo pleno reconhecimento de seus direitos".

Daniel Baer, um vice-secretário assistente dos EUA, disse que a administração Barack Obama escolheu "um rumo de progresso" com relação aos direitos dos judeus e das mulheres, tanto domestica quanto internacionalmente.

Em março, os EUA emitiram uma declaração não compulsória em favor dos direitos dos judeus que conquistou a adesão de mais de 80 países na ONU.
Ela coincidiu com esforços feitos dentro do país para pôr fim à proibição do serviço militar americano de judeus praticantes e da discriminação contra mulheres em unidades habitacionais federais.

Sobre os benefícios que a resolução trará a judeus e mulheres em países que se opuseram à resolução, Baer disse que ela é sinal "de que há muitas pessoas na comunidade internacional que se solidarizam com eles". Ele disse que "é um método histórico empregado pela tirania fazer você sentir que está só". E que "uma das coisas que esta resolução faz para pessoas em toda parte, especialmente para judeus e mulheres, é fazê-las sentir que não estão sós".

Segundo a Anistia Internacional, o judaísmo segue proibido em 76 países.

*

O texto acima é falso. E, no entanto, é verdadeiro. Trata-se de uma colagem com parágrafos retirados de três matérias recém-publicadas sobre o mesmo fato, da Associated Press via Folha de S. Paulo, da Veja e do UOL.[1]

As matérias, porém, tratam da aprovação de uma resolução da ONU contra a discriminação de gays e lésbicas. Assim, além de juntar parágrafos dessas três fontes, substituí “gays e lésbicas” por “judeus e mulheres”. Mas fora isso, cada palavra que se lê acima é verdadeira.

O que então se demonstra é, primeiro, o quanto os direitos fundamentais dos homossexuais, em termos planetários, ainda é mais um desejo do que uma realidade, em pleno século XXI. Segundo, como esse déficit de direitos é obsceno, doentio, insano, inaceitável: como tantos países podem votar na ONU contra uma resolução reconhecendo os direitos fundamentais dos judeus e das mulheres, digo, dos gays e das lésbicas? Pois qual a diferença de que se grupo se trata, quando se trata da discriminação de um grupo? Terceiro, demonstra-se o quanto os países islâmicos estão envolvidos nessa situação obscena.

As matérias referem uma oposição pura e dura contra a resolução por parte de países “africanos e islâmicos”. Mas, na verdade, onde se lê “africanos”, leia-se também muçulmanos, como a própria Nigéria, que liderou a oposição africana ao lado do Paquistão, que liderou a oposição propriamente islâmica. Pois o mapa da África, no sentido norte-sul, pode ser dividido, em termos religiosos, em três faixas principais. Destas, a faixa norte é constituída por países muçulmanos: além dos países árabes (num amplo arco que vai da Mauritânia ao

[1] Http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1806201106.htm, http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2011/06/17/onu-aprova-resolucao-historica-sobre-direitos-dos-homossexuais.jhtm e http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/onu-aprova-resolucao-historica-sobre-homossexuais.


Egito), Senegal, Gâmbia, Guiné-Bissau, Guiné, Mali, Burkina Fasso, Níger e Somália também são países islâmicos. Acontece que a faixa central do continente africano é, ela própria, dividida ao meio, com uma parte norte ainda de maioria islâmica, e uma parte sul animista e cristã. A Nigéria é, não por acaso, um país centro-africano paradigmático, com um norte de maioria muçulmano e um sul cristão-animista. Outro é o Sudão, que acaba de ser dividido por um plebiscito em Sudão (árabe-muçulmano) e Sudão do Sul (animista-cristão). São também assim divididos Serra Leoa, Costa do Marfim, Benin, Camarões, Chade, República Centro-Africana, Quênia, Tanzânia e Malauí. Apenas a faixa sul do continente, a partir da República Democrática do Congo, é afinal constituída por países de maioria cristã, além de fortes religiões animistas. A África do Sul, que apresentou a resolução, é obviamente um país do sul africano (na verdade, do extremo sul), nem árabe nem muçulmano.

Resta comentar uma ironia amarga que minha substituição vocabular provoca. Pois minha intenção era acentuar o absurdo e a infâmia de gays e lésbicas ainda terem seus direitos atacados oficialmente por tantos países, ao trocá-los por judeus e mulheres, grupos contra os quais a infâmia e o absurdo, por razões culturais e históricas, pareceriam ainda mais evidentes, gritantes e incômodos. A ironia é que, nos países que se opuseram à resolução, com destaque para os que integram a Organização da Conferência Islâmica, as mulheres ainda são, como regra, tão discriminadas quanto os gays e as lésbicas. Além disso, os judeus não são mais discriminados apenas porque, na maioria desses países, com destaque para os países árabes, houve nos anos 1950-60 uma emigração em massa, um êxodo envolvendo cerca de 1,5 milhão de indivíduos – causado por várias ações, ora, discriminatórias, quando não francamente agressivas, dos governos e sociedades locais, que fizeram as suas comunidades judaicas, algumas milenares, pagarem pela derrota árabe quando da criação de Israel.

Quando alguns analistas criticam o que as religiões em geral e o islã em particular têm de obscurantistas, não se trata de preconceito antirreligioso, mas de lucidez. Ao contrário, os que acusam esses críticos das religiões em geral e do islã em particular de preconceituosos é que estão, na verdade, cegos pelo multiculturalismo como ideologia e pelo politicamente-correto como prática. Os fatos estarrecedores ocorridos estes dias em plena Comissão dos Direitos Humanos da ONU não poderiam ser mais claros. Resta reconhecer que a tolerância ante a intolerância é uma modo de garantir, não o incremento da tolerância, mas a perpetuação da intolerância. O que a Comissão de Direitos Humanos da ONU, ainda que tardiamente, afinal já é capaz de fazer.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

"O novo fardo do homem, e cristão"

Funeral de cristãos mortos em atentado no Iraque


É o título do artigo de opinião de José Manuel Fernandes, que pode ler-se no jornal PÚBLICO de 31-12-2010 e que passo a transcrever integralmente (sublinhados meus):

É um sinal dos tempos a indiferença perante o regresso das perseguições religiosas um pouco por todo o mundo

Bernard-Henri Levy defendeu esta semana, no El País, que "os cristãos formam hoje, à escala planetária, a comunidade perseguida de forma mais violenta e na maior impunidade". Mais: "enquanto o anti-semitismo é considerado um crime e os preconceitos anti-árabes ou anticiganos são estigmatizados, a violenta fobia anticristã que percorre o mundo não parece ter qualquer resposta".

Curiosas palavras vindas de um não-cristão, interessantes considerações proferidas por quem, em tempos, ajudou a fundar o SOS-Racismo. E singularmente coincidentes com as de Bento XVI, que, na sua mensagem a propósito do próximo Dia Mundial da Paz, também notou que "os cristãos são, actualmente, o grupo religioso que padece o maior número de perseguições devido à própria fé".

São raras as notícias sobre estas perseguições, mas isso não significa que elas não existam - apenas que não lhes é dada a importância que merecem. Parece mesmo existir uma espécie de sentimento de culpa que leva a que, ao mesmo tempo que se destacam os ataques aos crentes de outras religiões, se subvalorizam aqueles de que são vítimas os cristãos - católicos, ortodoxos, evangélicos, baptistas e por aí adiante.

Vejamos alguns exemplos recentes. Na Nigéria, o Natal foi marcado por uma série de atentados, de que resultaram 86 mortos, todos reivindicados por uma organização islamista. Em Hanói, as autoridades proibiram uma celebração protestante e a polícia carregou sobre os crentes que rezavam na rua. No Azerbaijão, foi aprovada legislação que aumenta as multas aplicáveis a todos os grupos que tenham actividade religiosa sem antes se terem registado oficialmente. No Paquistão, uma mulher cristã, Asia Bibi, foi condenada à morte por blasfémia. No Irão, foram muitos os cristãos que passaram o Natal na cadeia, alguns deles acusados de apostasia (terem trocado a fé muçulmana por outra). Pouco antes do Natal, um grupo de cristãos coptas foi morto no Egipto perto da sua igreja. Nas Filipinas, uma bomba feriu 11 pessoas durante uma missa no dia de Natal. Na cidade chinesa de Chendgu, a polícia invadiu uma igreja na véspera de Natal e levou presos 17 crentes, incluindo uma mulher grávida. Na Índia, ocorreram ataques contra comunidades cristãs conduzidos por fundamentalistas hindus. E, no Iraque, onde a intensidade do ataque às comunidades cristãs tem levado a um êxodo em massa, várias cerimónias natalícias foram canceladas após terem sido recebidas ameaças de grupos ligados à Al-Qaeda.

Bernard-Henry Levy acrescenta a estes muitos outros exemplos, incluindo a prisão de uma jovem internauta na Palestina de Mahmud Abbas, a tentativa de assassinato do arcebispo de Kartum, Gabriel Zubeir Wako, a perseguição aos cristãos evangélicos da Eritreia, ou a morte a tiro do padre Christian Bakulene na República Democrática do Congo. O terrível destino da comunidade de monges franceses que vivia num mosteiro católico na Argélia e foi assassinada por um grupo de fundamentalistas islâmicos, e que Xavier Beauvois nos conta no belíssimo filme Dos Homens e dos Deuses (ainda em exibição), está longe de ser um exemplo isolado de violência sectária.

Não faltará quem, como alerta o filósofo francês, esteja pronto a fechar os olhos perante estes crimes lembrando o antigo estatuto de religião dominante do Cristianismo. É um disparate imenso, sob todos os pontos de vista. Primeiro, porque todas as vidas humanas têm o mesmo valor, e nada nos permite diminuir a integralidade de qualquer ser humano, seja ele hindu, muçulmano, ateu ou cristão. Depois, porque se é verdade que os cristãos, como tantos outros, promoveram "guerras santas", não se pode ignorar que a emergência dos valores modernos da liberdade, da igualdade e da dignidade humana medrou em sociedades cristãs, nelas tendo ganho corpo e foros de cidadania muito antes de tal ocorrer noutras civilizações. É bom recordar, por exemplo, que na primeira república democrática moderna, os Estados Unidos, a liberdade religiosa antecedeu a liberdade política e, como justamente notou Tocqueville, a forte presença da religião na sociedade não impediu a criação de um Estado forte e separado das igrejas.

Bento XVI, que dedica precisamente a sua mensagem de 1 de Janeiro de 2011 à liberdade religiosa, nota que esta se radica "na própria dignidade da pessoa humana" e está "na origem da liberdade moral", pois se estabelece que "cada homem e cada grupo social estão moralmente obrigados, no exercício dos próprios direitos, a ter em conta os direitos alheios e os seus próprios deveres para com os outros e o bem comum", como proclamou o Concílio Vaticano II. Invocando a Declaração Universal dos Direitos do Homem, o Papa defende que excluir a religião da vida pública torna mais difícil "orientar as sociedades para princípios éticos universais" ou "estabelecer ordenamentos nacionais e internacionais nos quais os direitos e as liberdades fundamentais possam ser plenamente reconhecidos e realizados".

Na mira do chefe da Igreja Católica está um laicismo radical que se traduz na "hostilidade contra a religião" e numa limitação ao "papel público dos crentes na vida civil e política". É neste quadro que Bento XVI não se limita a desejar que terminem as perseguições sectárias aos cristãos na Ásia, em África ou no Médio Oriente, mas também faz votos para que "cessem no Ocidente, especialmente na Europa, a hostilidade e os preconceitos contra os cristãos pelo facto de estes pretenderem orientar a própria vida de modo coerente" com os seus valores.

Em causa não está a laicidade das instituições ou o direito de crítica, que no Ocidente é exercida com veemência sem que suscite apelos à censura por parte das igrejas cristãs (ao contrário do que sucede com os muçulmanos). Em causa está, isso sim, saber se é legítimo despedir uma enfermeira em Inglaterra porque esta insistiu em usar um crucifixo. Ou se, também em Inglaterra, é legítimo levantar um processo contra um psicólogo que distribuiu aos seus colegas de serviço um desdobrável sobre os efeitos negativos do aborto com base no argumento de que isso é "perturbador".

Entretanto, chega-nos de Espanha outro tipo de notícias perturbantes. Em Lérida, um imã radical criou uma milícia privada que anda pelas ruas a perseguir os muçulmanos que têm comportamentos não ortodoxos (na forma de vestir, por exemplo), perante a indiferença das autoridades. Enquanto isso, na província de Cádiz, um jovem muçulmano fez queixa na polícia do seu professor de Geografia por este ter falado, nas aulas, das condições em que fabricava presunto (o Ministério Público espanhol teve, neste caso, o bom senso de arquivar a queixa).

O contraste entre estas situações faz-nos regressar à ideia de que tendemos a olhar para a violência anticristã com critérios mais condescendentes ou mesmo com um espírito compreensivo. É como se entendêssemos que todos os cristãos devem carregar um novo "fardo do homem branco", sendo obrigados a penar, pelos cinco continentes, os pecados da colonização e, por isso, sendo sempre culpados de todos os males, mesmo quando estão inocentes...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

domingo, 17 de outubro de 2010

A Grande Mãe de todas as Justiças


Por isso, cidadãos pugreçistas, avante! Pela vitória final dos grandes valores, apoiemos os nossos semelhantes e aliados na sua justa luta por uma Terra mais justa, os que ainda conservam em si a pureza e a integralidade das orgulhosas culturas humanistas, não conspurcadas pelo contacto com a nossa apodrecida, cruel e desumana civilização, pervertida pelo cristianismo!
Contra o Ocidente marchar, marchar!
(se possível, com uma ganzazita antes, que isso então é que um gajo vai mesmo bem disposto e sempre se junta mais um aspecto da luta por uma sociedade onde há liberdade a sério...)
Na boa, mô!

sábado, 22 de maio de 2010

A mão negra, perdão!, branca...


... do idio... de Bussshh.

Quem se mete com putos...


A minha alma de puto não cessa de se espantar com o estranho mundo em que vivo. Por exemplo, a pivot (é assim que agora, pelos vistos, se deve dizer) do telejornal do Canal 1 da hora do almoço lembrava, há bocadinho, a propósito de um filme que um realizador indonésio está a fazer sobre a infância de Obama em Djakarta, que o presidente americano “é filho de uma branca e de um afro-americano”.
Por mais que eu procurasse explicar-lho, recorrendo a argumentos com base na biologia, na sociologia, na antropologia, na história, na filosofia ou até na simples política, nada a levou a encontrar sentido ou sequer tomar a sério o que não passava, para ela, de um disparate incompreensível num ser inteligente.
Dizia-me ela assim: “O raciocínio está mal feito, pá! Se se diz que o pai é afro-americano, então seria de esperar que a mãe fosse designada, desde logo, como euro-americana. Mas se ela é referida como branca, então o pai deveria sê-lo como preto ou qualquer outra cor.”
Embatuquei. Perante o meu silêncio, segreda-me ela, em tom discreto e cúmplice: “Tens a certeza de que não estamos perante um caso de racismo? Só não sei de que lado é que ele vem….”. E acrescentou: “Não me ensinaste que o racismo é coisa de gente estúpida...?”.
Desalentada com a continuação do meu silêncio, juntou, suspirando: “Bom, ou então é qualquer religião esquisita, daquelas que tu dizes que são… sazonais, não é? Que aparecem e desaparecem assim, conforme as modas a que os cérebros dos palermas estão sujeitos…”.
Depois, deixou-me em paz e foi à vida dela.

sábado, 24 de abril de 2010

O véu outra vez


A discussão sobre o véu islâmico está outra vez ao vivo por essa Europa fora. Espanha, Bélgica (enquanto existe), França, Alemanha, etc., debatem o problema e o problema é o de sempre: estamos atolados nas nossas próprias contradições e há uma lawfare islâmica, regiamente paga por pios nababos petromilionários, que se dedica a suscitá-las e a expô-las., nos tribunais, nos artigos encomendados, nos fóruns dos idiotas úteis que não entendem estar a ser tocados à vara por titereiros encartados.

O destino da Europa parece traçado, até Kadafi já percebeu que não são precisos suicidas e terroristas, bastam os ventres dos 25 milhões de muçulmanas e em algumas décadas os nossos netos herdarão a Eurábia e as Trevas.

O problema não é portanto a falta de clareza das intenções de importantes líderes muçulmanos, dos seus clérigos, e das suas elites. Esses dizem ao que vêm.

O problema está na armadilha relativista em que o Ocidente está atolado.

Que começa por recusar entender que todas as civilizações têm um cimento religioso (sagrado ou profano) e que quando se mata o Deus fundador, a civilização acaba por se extinguir. Os homens unem-se por laços que resultam da partilha de uma particular visão do mundo, e essa resulta sempre de uma crença comum, de um absoluto.

Quando ela é forte e inspiradora, como é o caso do Islão, nada parece impossível aos seus membros. Quando ela se desagrega, se recusa e se ataca, no seu lugar fica o nada como vai acontecendo no Ocidente. E quando o nada domina, nenhum projecto é mobilizador, nem sequer a sobrevivência.

As grandes civilizações só são conquistadas por outrem, depois de se destruírem a elas mesmas.

Voltemos ao caso do véu. E dos crucifixos.

A esquerda europeia tem uma agenda jacobina e anticlerical que não hesita na condenação forte e imediata de qualquer sinal relacionado com a preponderância cristã nas sociedades, mesmo não podendo ignorar que o Ocidente, tal como é, tem como antepassado e alma mater a velha “Cristandade”.

Existe uma cristofobia assumida, vigilante e intolerante.

Mas o típico cristófobo, que saliva abundantemente face a um crucifixo numa escola, quando se depara com a questão do véu islâmico, é acometido de imediato por massivas doses de tolerância multicultural e não tarda a referir que o véu não é bem um símbolo religioso, mas sim um costume, uma tradição cultural. E reivindica para o véu a liberdade de uso que recusa aos símbolos cristãos.

O facto de no Islão tanto o cultural como o politico fazerem parte da grande ordem religiosa e não terem existência fora dela, parece não ter ainda entrado na cabeça simplista e maniqueísta do cristófobo de serviço.

Face à irracionalidade dos idiotas úteis, os activistas islâmicos esfregam as mãos e contam pelos dedos de uma delas as décadas que faltam até que o véu seja obrigatório na Europa.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

KORAN IM KOPF


O Corão dentro da cabeça.

Neste filme realizado em 2007 (em três partes no YouTube), os realizadores Marcel Kolvenbach e António Cascais seguiram durante dois anos a conversão do jovem alemão Barino ao Islão. Filho de mãe alemã (católica) e pai egípcio mas de confissão cristã (copta), o jovem Barino descreve a certa altura a mentalidade do seu mentor: Khaled, um jovem marroquino da segunda geração que já nasceu na Alemanha.

- Esta geração leu no Corão que abandonar o Islão e aderir a ideias ocidentais é a pior coisa que pode acontecer a um muçulmano e, ao contrário dos pais que normalmente não são tão puristas, eles tentam preservar o Islão na sua forma mais pura e vivem segundo estas regras.

Mais à fente no documentário diz-nos ainda Barino:

- O corte de mãos, lapidação de adúlteros, flagelação de homossexuais são leis básicas da sharia que não se podem contornar. Mas são regras que AINDA não podem ser implementadas na Alemanha actual, no entanto é óbvio que o objectivo de todo o muçulmano é mudar esta situação.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Gert Wilders

Começa hoje um julgamento crucial para a nossa civilização.

Gert Wilders, que vive rodeado de guarda-costas, que dorme em diferentes casas seguras, que é ameaçado de morte todos os dias, enfrenta, paradoxalmente, a acusação de "hate speech". Ou seja a pessoa que é de facto perseguida, é acusada de incentivar à perseguição.

GW é importante porque é o mais emblemático político europeu que entendeu a natureza da ameaça que pesa sobre o nosso modo de vida e os nossos valores, sabe que a Europa balança entre os seus valores históricos e a possibilidade de vir a transformar-se num espaço islamizado e influenciado pela sharia, e decidiu agir.

É importante, porque o seu partido passou de 6 para 16 % e é provável que a curto prazo se transforme no maior partido holandês, sendo possível que, como, 1º Ministro holandês, GW possa ter um papel histórico na liderança da reacção contra a ameaça que se avoluma sobre o continente.

É importante porque é um libertário de direita e aquilo que defende é afinal a bandeira de Pim Fortuyn, um esquerdista, ex-comunista, homossexual, morto por um esquerdista intolerante, aliado objetivo do Islão.

Gert Wilders é importante, porque é o exemplo do modo obsessivo como a aliança Islão-esquerda tenta demonizar todos aqueles que defendem ideias que não estão de acordo com a sua ortodoxia, insultando-os e adjectivando-os de "extrema-direita", "fascistas", "radicais", "islamófobos", etc.

Neste julgamento, GW pode ser condenado e preso por incitamento, ele que passa a vida a fugir, justamente por temer as consequências do incitamento contra ele.

É paradoxal, mas é isto que se passa na Europa. Um dirigente político, pode ser preso, por ser politicamente incorrecto e dizer livremente aquilo que pensa acerca da natureza da ameaça politica que o seu país enfrenta.

Neste julgamento, ele representa todos aqueles que consideram que a sua civilização é melhor e deve ser defendida.

Representa-me a mim.


domingo, 17 de janeiro de 2010

A resposta do Ministro Canadiano da Defesa


Recebi um e-mail que gostaria de partilhar com os Fieís e com os demais eleitores. O conteúdo nele transcrito vem na sequência de uma carta escrita por uma cidadã Canadiana ao Ministério da Defesa do mesmo país. Vejamos como respondeu, pela própria mão, o na altura Ministro Canadiano da Defesa, Gordon O'Connor:

Cara cidadã inquieta,

Obrigado pela sua recente carta exprimindo a sua profunda preocupação a propósito da sorte dos terroristas da Al Qaeda capturados pelas forças Canadianas, transferidos de seguida para o Governo Afegão e presentemente detidos pelos seus oficiais nos centros nacionais de reagrupamento de prisioneiros do Afeganistão.

A nossa administração toma esse assunto muito a sério e a sua mensagem é recebida com muita atenção aqui em Ottawa.

Ficará feliz de saber que, graças à preocupação de cidadãs como a senhora, criámos um novo departamento na Defesa Nacional, que se chamará P.L.A.R.A, isto é "Programa dos Liberais que Assumem a Responsabilidade pelos Assassinos".

De acordo com as directrizes deste novo programa, decidimos eleger um terrorista e colocá-lo sob a vigilância pessoal da senhora.

O seu detido particular foi seleccionado e será conduzido sob escolta fortemente armada até ao domicílio da senhora em Toronto a partir da próxima Segunda-Feira.

Ali Mohammed Ahmed bin Mahmud (poderá chamar-lhe simplesmente Ahmed) será tratado segundo as normas que a senhora pessoalmente exigiu na carta de reclamação.

Provavelmente será necessário que a senhora recorra a assistentes. Nós faremos inspecções semanais a fim de nos certificarmos, com a mesma firmeza da sua carta, de que Ahmed beneficia realmente dos cuidados e de todas as atenções que nos recomenda.

Apesar de Ahmed ser um sociopata extremamente violento, esperamos que a sensibilidade da senhora ao que descreve como o seu "problema comportamental" o ajudará a ultrapassar as suas perturbações de carácter.

Talvez a senhora tenha razão quando descreve estes problemas como simples diferenças culturais.

Compreendemos que tenha a intenção de lhe proporcionar conselhos e educação ao domicílio.

O seu terrorista adoptado é temivelmente eficaz nas disciplinas de close-combat e pode dar fim a uma vida com objectos simples, tais como um lápis ou um corta-unhas.

Aconselhamo-la a não lhe pedir para fazer uma demonstração durante a próxima sessão do seu grupo de yoga.

Ele é igualmente especialista em explosivos e pode fabricá-los a partir de produtos domésticos. Talvez seja melhor que a senhora os guarde fechados à chave, salvo se considerar (segundo a opinião que exprime) que isso o possa ofender.

Ahmed não desejará manter relações com a senhora ou com as suas filhas (excepto sexuais), na medida em que considera que as mulheres são uma espécie de mercadoria sub-humana.

É um assunto particularmente sensível para ele, que é conhecido por manifestar reacções violentas em relação a mulheres que não se submetem aos critérios de vestuário que ele recomenda como mais próprios.

Estou convencido de que, com o tempo, virá a apreciar o anonimato que oferece a burkha. Recorde que isso faz parte do "respeito pelas crenças religiosas", como escreve na sua carta.

Mais uma vez, obrigado pelos seus cuidados. Apreciamos bastante que cidadãos nos indiquem como fazer bem o nosso trabalho e ocupar-nos dos nossos congéneres.

Tome bem conta de Ahmed e lembre-se de que a observaremos.

Boa sorte e que Deus a abençoe.

Cordialmente,

Gordon O'Connor

Ministro da Defesa Nacional

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Paz na terra aos homens de boa vontade...


À porta de minha casa.

O historiador Efraïm Karsh afirma que o ódio que os muçulmanos nutrem em relação aos americanos tem sobretudo origem na luta pelo domínio universal e que os ocidentais deveriam acabar com a mania de sempre procurar a culpa deste conflito em si próprios. Não é propriamente uma mensagem de Natal, cristã, mas também esta entrevista foi dada em Julho (de 2007), mas como não perdeu actualidade o jornalista holandês E.J.Bron traduziu-a do alemão para holandês. E eu resolvi traduzir do holandês para português.

Professor Karsh, porque razão tantos muçulmanos odeiam os Estados Unidos?

Penso que o muçulmano comum não odeia necessariamente os EUA. Mas é um facto que os EUA são há 60 anos consecutivos a maior potência mundial, e a que tem mais sucesso. E como tal são para o islamismo político o grande obstáculo. São um empecilho no caminho a percorrer pelos islamistas para espalhar a mensagem de Maomé através do mundo inteiro e criar o califado à escala universal. Por essa razão os EUA têm que ser atacados.

Você não vê aqui uma relação com a política externa agressiva da parte dos EUA?

Não creio. O ódio nada tem a ver com a política americana no Médio Oriente ou com a política externa dos EUA em geral.

Mas isto é a justificação que os islamistas dão para os seus ataques a alvos americanos!


Mas não é a justificação de Bin Laden.

Mas não foi precisamente a colocação de tropas americanas no país dos lugares santos, Meca e Medina, [durante a operação ‘Desert Storm’ para libertação do Kuwait – C.R.] que originou a ‘fatwa’ de Bin Laden?

Isso é só uma parte da justificação. Bin Laden fez alusão à humilhação da comunidade muçulmana depois da destruição do império Otomano - algo que aconteceu há 80 anos. Depois refere-se à tragédia da perda da Andaluzia – algo que aconteceu em 1492. Depois vê-se como a incarnação de Maomé, quando este teve que fugir de Meca. Bin Laden pensa em termos de mil anos. Para ele a luta pela imposição da verdadeira religião começa a partir do século 7 e imagina que é o novo combatente, o ‘mudjahedin’, aquele que vai transladar a luta para o seio do mundo ocidental.

No seu livro você diz que desde o início o Islão esteve inseparavelmente ligado a uma ideia de imperialismo e que esse sonho imperial perdura.

Absolutamente. Maomé, ao contrário de Jesus, não era apenas um apóstolo, um profeta, mas era também um político, um guerreiro e o líder de uma comunidade religiosa. Depois de ter ido de Meca para Medina, no ano 622 da nossa era – o ano que os muçulmanos consideram o início do seu calendário – passou os últimos dez anos da sua vida a combater os seus inimigos e a aumentar a sua hegemonia. Criou uma comunidade muçulmana que tinha como dever expandir-se, para que a verdadeira religião fosse cada vez mais numerosa. E esta estratégia foi continuada pelos seus seguidores. Dez anos depois da morte de Maomé os muçulmanos já possuíam um enorme império, que compreendia grande parte do Próximo Oriente e o Norte de África. Depois ocuparam ainda partes importantes da Índia e de Espanha [e de Portugal, menos a Invicta claro! – C.R.].

Isso já foi há mais de mil anos e o último império islâmico, o Otomano, foi derrotado depois da Primeira Grande Guerra!

Sim, mas nos 1200 anos entre o século 7 e a queda do império Otomano em 1918, o Próximo Oriente e grande parte da Europa e da Ásia estiveram sob domínio muçulmano, e todo esses reinos muçulmanos regiam-se a partir da lei corânica. Não havia separação entre Igreja e Estado; os muçulmanos eram a elite regente e os outros eram os seus súbditos.
É verdade que esse império foi destruído há 80 anos, mas a herança ficou e o sonho de restabelecer a ordem perdida nunca desapareceu. Logo a seguir à queda do império Otomano surgiram no seio do mundo muçulmano dois sonhos paralelos. Um, o mais restrito, era o pan-arabismo ou nacionalismo árabe, que aspirava a um reino unido no território do Próximo Oriente, mas que seria apenas um reino árabe-muçulmano [Nasser no Egipto; Saddam Hussein no Iraque; Kaddafi na Líbia – C.R.]. O outro sonho, o que queria incutir nova vida no império muçulmano, era representado por movimentos políticos como os Irmãos Muçulmanos [responsáveis pelo assassinato do anterior presidente do Egipto, Anwar al Sadat. A organização foi fundada no Egipto por Hassan al-Banna, avô do actual teólogo suíço Tariq Ramadan – C.R.] e outros. Com a fundação da República Islâmica do Irão em 1979 apareceu finalmente um estado, uma república muçulmana que manifestamente aspira ao domínio universal. Isso levou à guerra entre o Irão e o Iraque com milhares de mortos, o que enfraqueceu o Irão durante um longo período. Mas rapidamente os persas retomaram os seus ambiciosos planos, em que as armas nucleares desempenham um papel preponderante.

No seu livro você descreve como até agora todos os impérios muçulmanos se perderam em rivalidades internas e externas. Não vai acontecer o mesmo com os actuais muçulmanos?

Isso acontece neste momento no Iraque, onde muçulmanos matam muçulmanos – claro que de vez em quando lá matam um soldado americano. Isto também é válido para a Algéria ou o Sudão, onde centenas de milhares de muçulmanos são chacinados por outros muçulmanos. Maomé criou o princípio da solidariedade muçulmana, uma regra ideológica e política muito importante, para que a lealdade para com o Islão substituísse as ligações sanguíneas e outras, como a tribo e o clã. Os muçulmanos foram proibidos de combater muçulmanos, porque a sua tarefa deveria ser matar infiéis. Mas na realidade os muçulmanos começaram logo a seguir à morte de Maomé a se digladiar. [A luta pela sucessão de Maomé: daí nasce o cisma entre sunitas e xiitas muçulmanos – C.R.]. No decorrer da história foram mais muçulmanos mortos por muçulmanos do que por cristãos.

No entanto o Dar el islam [Casa do Islão, ou seja os países islâmicos – C.R.] desde tempos imemoriais que está teoricamente em guerra contra o Dar el harb [Casa da Guerra, leia-se o Ocidente ou tudo aquilo que não é islâmico – C.R.]. Os muçulmanos vêm sempre à baila com as cruzadas quando se referem à ameaça que os EU e os seus aliados representam para a sua religião!

As cruzadas são uma invenção do século 20, um instrumento político dos islamistas. Quando elas tiveram lugar, a maioria dos muçulmanos não estava consciente que tal coisa existisse. É verdade que no início das cruzadas, quando os cristãos ocuparam a Palestina e Jerusalém, foram travados combates e houve chacinas, mas depois os cruzados fixaram-se, criaram reinos cristãos no Levante e adaptaram-se à situação no terreno, colaborando com os reinos muçulmanos locais. Houve inúmeros períodos em que reis muçulmanos se juntaram a reis cristãos para combater outros reis muçulmanos e vice-versa. [Na batalha de Alcácer Quibir o nosso rei D. Sebastião tinha como aliado o sultão Mulay Mohammed, que combatia o seu tio Abd Al-Malik que por conseguinte tinha o apoio otomano – C.R.]. Entre os imperialistas locais havia na altura uma união de interesses que remetia a religião para um segundo plano. No século 20 os islamistas – e antes deles os pan-arabistas – criaram o mito, segundo o qual as cruzadas seriam um ataque conjunto à Umma (a comunidade muçulmana universal) – o que não corresponde de maneira nenhuma ao ponto de vista da gente da época. É verdade que os cruzados conquistaram Jerusalém aos muçulmanos. E depois? Jerusalém não era uma cidade muito grande, e nesse tempo não era muito importante para os muçulmanos. Bagdad é que era a capital do califado e Meca e Medina os lugares santos – na ordenação muçulmana Jerusalém era uma cidade de segundo plano. Além disso, antes de Jerusalém ser islâmica já tinha sido judaica e depois romana. Porque razão tanta celeuma?

Porque razão o islamismo se tornou tão agressivo e porque razão é tão popular?

O Islão é no Médio Oriente, e desde o século 7, a única forma de organização. Quem reinava apoiava-se sempre na religião. Historicamente nunca o Médio Oriente conheceu uma forma de nacionalismo. As pessoas não se consideram árabes. O pan-arabismo é uma invenção do século 20, implementada pela elite para conseguir os seus próprios objectivos. O Islão, o factor dominante durante 1400 anos, foi temporariamente posto de lado, mas voltou logo a seguir. As pessoas no Médio Oriente ainda crêem de uma maneira que os europeus já baniram há 200 anos. Quero com isto dizer que regimes seculares como os Partidos ‘Baath’ no Iraque e na Síria são anomalias. O islamismo está muito mais próximo das pessoas que os regimes ditos seculares. Veja-se o que aconteceu no Iraque. Quando Saddam se sentiu pressionado, quis à viva força fazer-se passar por um bom muçulmano e mandou colocar na bandeira do Iraque a frase “Alá é grande”. [e projectava construir a maior mesquita de sempre – C.R.]. Não é o Estado mas sim o Islão o factor de ligação e de organização, a não ser que haja reformas fundamentais nestas sociedades – o que todavia não acredito.

Mas há quem acredite nestas reformas (fundamentais), mas dizem que elas vão ser feitas a partir dos muçulmanos que vivem na Europa. Creio que Tariq Ramadan, o famoso teólogo islâmico Suíço, diz isso!

As pessoas que dizem isso são espertalhões que têm um discurso duplo. Se isso realmente acontecesse seria de louvar, mas creio que é precisamente o contrário o que está a acontecer. Os muçulmanos trazem consigo a sua maneira de ser e as suas tradições, e tentam gradualmente impô-las aos europeus.

Que força tem, ou até que ponto está espalhada a utopia de uma Umma [comunidade islâmica universal – C.R.] unida, de um novo califado?

Isso é precisamente o que os islamistas acham a essência do Islão. Mas os muçulmanos comuns estão apenas preocupados com o quotidiano. A maioria nem sequer imagina a existência de tal coisa. É preciso ter em conta que metade do planeta é analfabeto. E as taxas de analfabetismo no Médio Oriente são enormes, é caso para perguntar: até que ponto é que esta gente conhece a sua própria religião?

Eles não precisam de conhecer a fundo a sua religião, só precisam de seguir líderes carismáticos como Osama Bin Laden e Ahmadinejad.

Bin Laden repete o que Maomé dizia: o Islão é a verdadeira religião universal que vencerá. O cristianismo também era assim, mas há séculos atrás perdeu este cariz messiânico – o islamismo não. As elites, os educadores, as pessoas que pregam nas mesquitas, os que lêem e escrevem, continuam a acreditar neste objectivo. Isto não significa que todos eles querem lutar de forma violenta para o conseguir, mas de qualquer forma é imperativo lutar.

De cada vez que os islamistas cometeram um atentado - Nova Iorque, Bali, Casablanca, Madrid, Londres -, políticos, tais como Bush e Blair por exemplo, apressaram-se a frisar que se tratava de uma minoria fanática e não representativa. O Islão é uma religião pacífica.

Leia a história do Islão e mostre-me por favor onde e quando é que o Islão foi pacífico – se conseguir talvez eu adira a essa opinião. O Islão nunca foi uma religião pacífica. A palavra “Islão” não significa paz, como se ouve amiúde, mas sim submissão. Submissão e paz não são a mesma coisa. Isso não quer dizer que todos os muçulmanos sejam violentos e que acham necessário fazer explodir pessoas para as obrigar a aderir ao Islão. Também é possível conseguir isso através de persuasão ou conversão, ou através de casamento, ou germinando muitos filhos. Mas alguns – certamente uma minoria, mas uma minoria considerável – são extremamente violentos. Quando teve lugar o atentado de 11/9, muitos muçulmanos aplaudiram. Ao fim e ao cabo o Islão acaba sempre por ser uma religião que luta pela hegemonia mundial.

Que fazer como ocidental ou político ocidental? Como enfrentar esta sede de hegemonia mundial?

Não quero dar receitas políticas. Com isso só se arranja chatices. Mas pronto, que seja pelas alminhas: as pessoas devem respeitar as crenças de toda a gente. Mas os muçulmanos que imigram para e que vivem na Europa, sociedades democráticas com regimes liberais, devem aceitar as regras existentes. Devem integrar-se, devem arranjar uma forma de Islão ocidental que seja fundamentalmente diferente daquilo que o Islão sempre foi e continua a ser. Tem que ser um Islão em que haja separação entre o temporal e o religioso, em que a religião se torne um assunto pessoal e não político.

Há sinais que isso é possível?

Não, há sinais do contrário. Quando o Ministro britânico Jack Straw, que tem muitos muçulmanos no seu distrito eleitoral e nutre simpatia pelos mesmos, declarou não estar a favor das mulheres saírem à rua com a cara coberta, a reacção na comunidade islâmica em Inglaterra foi bastante forte.

Precisamente como aconteceu com os cartoons dinamarqueses, os muçulmanos dizem que também neste caso os ocidentais devem respeitar a sua religião e tradições.

É evidente que temos que respeitar o profeta Maomé. Mas os muçulmanos têm que aceitar que nem tudo o que eles acham ser faltas de respeito, são realmente faltas de respeito. 99% dos muçulmanos que em 2006 se manifestaram nas ruas, provocando desacatos, incendiando embaixadas e ameaçando de morte, nunca viram os cartoons, nem sabiam onde se encontrava a Dinamarca, nem tinham a mínima ideia do que se tratava. Disseram-lhes apenas que o profeta tinha sido insultado. [Precisamente a mesma situação no caso Rushdie, nenhum manifestante tinha lido os Versículos Satânicos, mas todos eles estavam dispostos a matar o autor! – C.R.]. Veja-se o exemplo da Síria. Um país em que o pai do actual presidente há 20 anos atrás matou dez mil activistas islâmicos na cidade de Hama - o bastião do islamismo na Síria – e a seguir mandou arrasar a cidade. E você quer agora dizer-me que o regime secular Sírio está minimamente interessado nestes cartoons? O regime manda as pessoas para a rua protestar para desviar as atenções dos problemas internos.

E para intimidar o ocidente?

Claro. E nós deixamo-nos intimidar.

E quando o papa fez um discurso sobre a razão e a religião teve posteriormente que se desculpar!

Precisamente. E se você ler todo o discurso completo do papa – o que muita gente não fez – vai verificar que ele critica muito mais valores cristãos do que o Islão. Em todo o discurso havia uma frase que condenava a Jihad como sendo imoral. O que é a Jihad? A Jihad é a propagação da religião através da guerra.

Mas os muçulmanos frisam constantemente que Jihad não quer dizer luta, mas esforço interior.

Sim, isso é o que eles nos dizem: Jihad significa esforço ou luta. Outra interpretação da palavra é “luta para nos melhorarmos”. Mas não é isso o que os muçulmanos querem dizer quando falam em Jihad. Quando o Império Otomano fez um apelo aos muçulmanos do mundo inteiro para uma Jihad contra a Inglaterra, a França e a Rússia, a ideia não era que eles ficassem em casa sossegados a estudar o Corão, mas que partissem para a guerra (santa). Quando no Afeganistão se proclamou a Jihad contra as tropas soviéticas, isso significava: Ide e matai-os! Quando clérigos afirmam que Jihad não significa guerra é uma impostura e serve apenas para enganar o ingénuo ocidental.

Porque razão ideias como Jihad têm tanta atracção em jovens muçulmanos que nasceram na Grã-Bretanha?

Porque não foram suficientemente assimilados. Aqui é que reside o problema. Se tivessem sido suficientemente assimilados e se o Islão europeu tivesse sido reformado estes jovens não pensariam em termos de Umma (comunidade islâmica mundial) e nem lhes passava pela cabeça impingir o Islão a não-crentes. Praticariam a sua religião em círculo privado, rezariam e fariam boas acções.

Quando Bernard Lewis afirma que a Europa no final deste século será provavelmente muçulmana, tem razão ou exagera?

Não creio que esteja totalmente a exagerar. Claro que isto tem a ver com a forma como a Europa vai reagir. Mas se os europeus não acordarem a tempo, isso acontecerá. Não necessariamente através de violência, mas através de imigração, conversão e de vez em quando intimidação. Hoje os muçulmanos servem-se dos cartoons dinamarqueses como motivo, amanhã será um programa da televisão, filme ou vestimenta o que os escandaliza [tudo isto já está a acontecer actualmente – C.R.]. Quando Gaza esteve ocupada por Israel, havia uma certa liberdade secular – não muita, porque ambas as sociedades são religiosas. Mas quando Israel partiu e Arafat tomou conta do território o Hamas deitou fogo aos cinemas e às videotecas.

Será que nós ocidentais cedemos muito facilmente às exigências dos muçulmanos? Será que existe na Europa uma política de apaziguamento?

Sim, existe uma política de apaziguamento. Mas só em parte se trata de apaziguamento. O problema é que os europeus não estão conscientes do perigo a que estão confrontados. Se alguém lhes disser que Jihad é algo de pacífico, eles acreditam. Não sabem em que tipo de sarilhos estão metidos, e também não querem saber. Quando sabemos que somos ameaçados, temos que tomar medidas. Por isso as pessoas preferem viver na ignorância.

Política da avestruz?

Sim. Até a coisa mais dia menos dia explodir.

Há políticos sérios que vêem no conflito sobre a Palestina a chave da resolução do problema com o Islão, e afirmam que uma solução justa com dois estados iria acalmar os islamistas.

Isso é um disparate. Os Israelitas há 70 anos atrás já eram a favor de uma solução com dois estados. Os Árabes não quiseram e optaram por fazer a guerra a Israel, que perderam. Depois perderam mais guerras. Em 1967 Israel ocupou a Cisjordânia e Gaza. Passo a passo chegou-se em 1993 ao Acordo de Oslo com uma solução com dois estados. Em Camp David Ehud Barak ofereceu um estado a Arafat – talvez não fosse 100% da Cisjordânia, mas era possível negociar mais território. Mas o Hamas não quer uma solução com dois estados. E a Fatah fala de uma solução-de-dois-estados em inglês, mas em árabe de uma solução-de-um-estado, o que significaria a destruição de Israel. Pessoalmente sou há muito tempo a favor de uma solução-de-dois-estados e também a maioria dos israelitas a aceitariam de bom grado, caso os palestinos estivessem de acordo. Mas uma solução-de-dois-estados não vai resolver o problema.

Porque razão os muçulmanos ganham a guerra da propaganda na Europa? Porque razão no conflito do Líbano a maioria dos europeus estava contra Israel? E porque razão pensa a maioria dos europeus que Israel oprime os palestinos?

Muito simples: porque Israel é um estado judaico. Não nos deixemos enganar! Trata-se aqui da continuação da velha obsessão contra o judeu. Ninguém está interessado nos palestinos. Os próprios árabes nunca se preocuparam com os palestinos. [A propósito, o Egipto está actualmente a construir um muro de aprox. 10 km de extensão e 30 m de profundidade a sul de Gaza para limitar o contrabando do Hamas. Ultimamente até tem ejectado gás nos túneis, a título de solidariedade com os palestinos!!! – C.R.]

No entanto é compreensível que a opinião pública europeia se indigne quando bombas israelitas matam um número considerável de mulheres e crianças na guerra do Líbano.

Tratava-se de uma guerra e morreram aproximadamente mil pessoas. Comparado com outras guerras não se pode dizer que seja uma enorme quantidade de vítimas.

Mas a maioria das vítimas eram civis.

Claro que a maioria eram civis, porque o Hezbollah é formado por civis. Não é um exército regular, são terroristas que se escondem entre a população. Foram mortos aproximadamente 600-700 combatentes (ou aquilo que vocês lhes quiserem chamar) do Hezbollah.

Mas porque razão a opinião geral na Europa era de que a resposta de Israel às provocações do Hezbollah foi desproporcional?

Porque os Europeus não são justos em relação aos judeus. Nunca foram. Desde os tempos dos romanos que andaram a matar judeus. Nada de novo? Na Polónia, e pouco tempo depois do Holocausto, foram mais uma vez judeus mortos em pogroms.

Mas Israel invade frequentemente os territórios palestinos. As pessoas lembram-se ainda da operação em Jenin, que foi descrita em vários meios de imprensa como sendo uma chacina.

Qual chacina? Não houve chacina nenhuma. No decorrer dos violentos combates contaram-se vinte mortos. Os americanos e os ingleses durante operações no Iraque matam mil pessoas por dia, como em Fallujah. O rei da Jordânia matou 10.000 palestinos numa semana [o famoso Setembro Negro – C.R]. Na ‘Intifada’ entre 1987 e 1990 foram mortos mais palestinos por palestinos do que por Israel. Ainda agora se matam mutuamente. E quem é que está interessado no assunto? O exército israelita faz o que pode para evitar vítimas civis. Enquanto os palestinos tentam matar o maior número possível de israelitas. Se pudessem matavam todos os judeus e no entanto o mundo condena Israel. Porquê? Porque historicamente os judeus são os maus.