terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Se o SNS não consegue salvar vidas...

Original de Raquel Varela, aqui.

Vamos falar de números a sério. Somos 10 milhões e 250 mil. Há 169 mil doentes ou com teste positivo. Isto é - 1,65% está ou doente ou positivo. Destes, 6 117 estão internados, ou seja, 0, 06%. Dos quais em UCI 742, ou seja, 0,007% da população.
 
Estamos numa gigante prisão insuportável, o desemprego galopa, as falências disparam, há delactores estimulados pela PSP, órgão do Estado que pede em directo nas TVs mais denúncias!, tudo isto porque nos dizem que o SNS não consegue nos seus hospitais tratar 0,06% da população sem colapsar. Isto apesar de sermos o 4º país de toda a OCDE com impostos mais altos.
 
Muitos profissionais de saúde estão com a noção real do que isto significa, e viram que o SNS foi durante anos de facto semi destruído, apelam à razão e sentem-se ofendidos com as descrições Correio da Manhã que estão agora por todo o lado e lançam a população no terror. Mas muitos insistem em dar testemunhos apocalípticos e dizer que somos culpados se ficarmos doentes. Ainda que metade do Governo, que definiu estas regras, esteja positivo. O que se espera de um profissional de saúde numa altura destas é que questione afinal o que aconteceu ao SNS, o que aconteceu ao seu trabalho. Se não podem transmitir segurança e confiança, é isso que esperamos, que pelo menos nos deixem de culpar e aterrorizar. Um profissional de saúde cuida, dá confiança, soluções, critica as que não são boas - não atira pedras nem espalha o pânico à população que pagou para ser cuidada. Pagou, como poucos no mundo pagam.
 
Ninguém quer admitir o óbvio e que Jorge Torgal disse vezes sem conta - esta é uma pandemia ligeira para a maioria, podemos ter um dia pandemias muito piores. Esta pandemia efectivamente atira para as UCIs gente que - se for cuidada a tempo - na sua maioria sai de lá viva; e os idosos acima da esperança média de vida de facto ou são protegidos ou a medicina não consegue em cerca de 20 a 30% dos casos fazer nada. O que temos é um SNS destruído e um Governo que para o ocultar diz que o país deve entrar na sua maior crise económica de sempre, fechando tudo.
 
No meio disto tudo um tipo de extrema-direita tem 500 mil votos, alimentando a fogueira com mais gasolina. Ele navega e cresce no caos que os governos (e na ausência de oposição) semearam ao longo destas décadas de trabalho barato e serviços públicos destruídos.
 
Haja pelo menos neste caos político a contenção em parar de culpar quem ficou doente. Se o SNS não consegue salvar vidas a culpa não é dos portugueses, é do SNS e de quem Governa.