terça-feira, 23 de março de 2021

A China é um exército em marcha

 Este artigo por José Carmo foi publicado no jornal Inconveniente mas parece ter desaparecido de lá:

A recente e gelada reunião bilateral entre a China e os EUA, no Alasca foi um bom retrato de que a era da “harmonia” já lá vai e não volta, pelo menos nos termos que conviriam ao Ocidente.
 
O que aí vem, e que a hostilidade aberta da Administração anterior já sinalizava, é uma China confiante, nos seus objectivos, estratégias, meios e, sobretudo, no seu poder.
 
É essa confiança que leva à arrogância que se começa a notar, no engrossar da voz, na exibição do músculo militar, na ameaça aberta a quem se coloca, por palavras, actos ou omissões, no caminho do dragão em direcção ao seu grande objectivo: O regresso ao antigo e grandioso estatuto de “Império do Meio”, um degrau acima de todos os outros povos do mundo, os bárbaros que devem fazer ritualmente o kowtow, o acto de submissão dos vassalos ao soberano.
 
A China, oficialmente numa “Nova Era”, nas palavras de Xi Jinping, pretende, até 2050 o “grande rejuvenescimento da nação chinesa”, o que significa o “regresso a uma posição de poder, prosperidade e liderança”, no tabuleiro internacional. Isso implica competição estratégica com qualquer poder que se atravesse no seu caminho e a prossecução determinada do controlo social e da modernidade cientifica, tecnológica, industrial, militar, etc.
 
Alcançar o estatuto perdido nos dois séculos anteriores, no confronto com o Ocidente, implica também, para a liderança comunista, reunificar completamente o território que considera seu, nomeadamente Taiwan.
 
A estratégia chinesa é paciente e abrange todos os domínios do poder, a começar pela reformulação da actual ordem internacional, considerada incompatível com o sistema socialista e intoleravelmente limitador dos seus fins estratégicos, da sua soberania, segurança e interesses. Como disse Xi Jinping, “temos de lançar as fundações de um futuro onde teremos a iniciativa e a posição dominante”
Uma das prioridades tem sido o desenvolvimento económico, porque só ele pode gerar os recursos necessários para prosseguir sinergicamente os objectivos de modernização, incluindo as bases cientifica, tecnológica, industrial, militar, social, económica, etc. O que significa que, ao contrário das sociedades abertas, não há uma linha divisória clara entre o que é civil e o que é militar.
 
Basicamente, a China é um Exército em que tudo obedece ao Comandante, com tudo o que de vantajoso ou desvantajoso isso implica (sim, há algumas desvantagens militares, a começar pela comprovada ineficiência dos fluxos de informação quase exclusivamente top-down, em situações fluidas e complexas, como as que ocorrem nas batalhas e guerras modernas)
O objectivo militar está definido com alguma clareza: -Até 2050, possuir umas Forças Armadas de “classe mundial”, nas exactas palavras de Xi Jinping (2017), significando isto que tais FA serão equiparadas ou superiores às dos EUA, ou de qualquer outra potência que entretanto surja.
 
Neste momento, a menos de 30 anos, a China está a agir em conformidade, alocando recursos, tecnologia e vontade política.
 
Em 2019 o governo chinês anunciou um aumento de 6,2% nas despesas militares que é já, oficialmente, o segundo maior do mundo. Todavia os números deverão ser muitíssimo superiores, dada a prática chinesa de só divulgar as informações que lhe interessa divulgar.
 
Na realidade está já a confrontar directamente os EUA em alguns itens.
 
Neste momento o Exército chinês é claramente o mais numeroso do mundo, e está a modernizar-se a olhos vistos, tanto em equipamentos, como em doutrinas de emprego.
 
A Marinha é também a maior do mundo, em número da navios, está a modernizar aceleradamente as plataformas com equipamentos e doutrinas, e a dotar-se de mais submarinos, porta-aviões e sistemas de comando, controlo e comunicações.
 
A Força Aérea com cerca de 2500 aeronaves de todos os tipos é a maior da região, e tem vindo a equipar-se com material de elevada qualidade que, em alguns campos, se equipara já ao que de melhor se fabrica nos países ocidentais.
 
A Força de Mísseis, além dos milhares de vectores convencionais baseados em terra (balísticos e de cruzeiro) está dotada de centenas de ICBM, aptos a lançar cabeças nucleares a distâncias que abrangem todos os continentes.
 
Em matéria de guerra no espaço, ciberguerra e guerra electrónica e psicológica, os progressos são extraordinários e o alvo principal são exactamente os EUA.
 
A ideia é, por enquanto, dissuadir, deter ou derrotar intervenções de terceiros durante eventuais operação nas imediações, como, por exemplo a retomada de Taiwan, mas a projecção de poder para zonas mais longínquas está a ser preparada metodicamente, não só com a construção acelerada de porta-aviões, mas também com instalação de bases de apoio. Uma já existe em Djibouti, e estão a ser consideradas outras em Myanmar, Tailândia, Singapura, Indonésia, Paquistão, Sri Lanka, Emiratos, Quénia, Seychelles, Tanzânia, Angola, Tajiquistão, Cambodja, etc.
 
Isto além dos portos que a China já adquiriu nos EUA, Europa, África, etc, e nos que procura activamente adquirir, como o de Sines.
 
A China conduz também operações para influenciar decisões de outros países, que sejam favoráveis aos seus objectivos, através de instituições culturais, media, negócios, academia, e politica, nos EUA, países importantes e instituições internacionais, tendo em vista fazer prevalecer a narrativa chinesa e lançar a divisão e a fragmentação nas sociedades potencialmente adversárias.
 
Paralelamente continua a roubar e/ou sabotar os esforços de pesquisa cientifica e tecnológica dos países ocidentais, usando de acções legais e ilegais. Investimento estrangeiro, joint ventures, fusões, aquisições, espionagem, etc.
 
Em síntese a China age de forma absolutamente maquiavélica relativamente a tudo, desde o clima ao comércio internacional, assinando acordos que cumpre apenas se e quando lhe convém, mas que comprometem os países ocidentais que os assinam, dada a forma como os encaram.
 
A nível militar, mais do que o hardware, que é, em si, impressionante, importa ressaltar a alteração das doutrinas de emprego e conceitos operacionais, cujo enfase está a ser colocado na preparação para operações conjuntas, prontidão e capacidade de projecção de poder.
 
Claro que há ainda muito para fazer, a China não tem ainda as capacidades militares para se confrontar com os EUA num conflito global, mas torna-se evidente que a paulatina modernização das FA não se destina apenas a mostrar brilho para inglês ver, ou para uso nos eventuais conflitos locais.
 
O que se busca é o seu efectivo uso integrado com os objectivos estratégicos chineses que são, também eles, de “classe mundial” ou seja, nada menos que uma mudança radical da ordem internacional com a China a desaguar um belo dia como a hiperpotência hegemónica.
 
Independentemente das incertezas do futuro, o facto é que a China tem uma visão estratégica, um objectivo, um plano, capacidades e vontade politica que concorrem para um desfecho que, a ser concretizado, fará da China a hiperpotência mundial, com tudo o que isso significa para o resto do mundo.
 
A China é um Exército disciplinado, que usa todos os aspectos do poder, tendo em vista a clara missão delineada pelo imperador do momento, o Sr Xi Jinping.
 
Com as velhas máximas de Sun Tzu e um discurso delicodoce, vai enleando o resto do mundo, particularmente o Ocidente, numa teia de dependências (o Ocidente descobre-se já hoje perigosamente dependente da China para a obtenção de inúmeras matérias primas, como as terras raras, e produtos industriais diversos, em todas as sectores da actividade) e opções tais, que, quando chegar a hora do falcão, só poderá respirar com a autorização do Imperador.





domingo, 14 de março de 2021

Já se fecharam escolas. Por causa da histeria

andre-dias.net

"Os miúdos dos morangos com açúcar são agora adultos. Mas continuam incapazes de distinguir realidade de ficção, e assim exigiram a destruição do país. Tiveram sintomas. Arrastaram milhões para a sua doença mental."

Portugal poderá [ou não] ter futuro

No Inconveniente:

«É a hora de refazer a política. Dar esperança de uma vida melhor a cada português. É hora de voltar a acreditar na nossa amada Pátria. Devolver-lhe a luz e a confiança de outros tempos. Fazermos das conquistas do passado a motivação para reconquistar o amanhã. Vamos cumprir Portugal! Pensemos o país em nome das futuras gerações e não apenas nas próximas eleições.»

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A ISTO CHAMA-SE DECLÍNIO. A PARTIR DE QUE MOMENTO SE TORNA IRREVERSÍVEL?

 (Por Helena Matos, Observador)

 Há 60 anos Portugal mantinha uma guerra em África. 
 
Há 45 recebia 800 mil retornados. 
 
Hoje Portugal não consegue controlar os paióis ou montar um plano de vacinação. Sobrevive graças ao apoio da UE.
 
O país que agora não consegue passar à prática um plano de vacinação é o mesmo que em 1961 montou em poucos meses um Serviço Postal Militar que quotidianamente tratava dez toneladas de correio. Recordo que em Junho de 1961, após os incidentes de Luanda de 4 de Fevereiro e os ataques às fazendas no norte a 15 de Março, começara uma forte mobilização de militares para Angola. 
 
Com o acréscimo de militares o caos instalou-se nos CTT de Luanda: as famílias escreviam aos militares ali destacados mas as cartas não chegavam ao destino pois os CTT Ultramarinos não só não tinham capacidade para tratar tanto correio como nem sequer tinham estações em muitos dos locais para onde os militares eram transferidos após chegarem a Angola. 
 
Torna-se então óbvio às chefias militares que têm de intervir porque sem correspondência é impossível manter as tropas motivadas e as respectivas famílias com a tranquilidade possível: o então Chefe do Estado-Maior do Exército, General Câmara Pina, requisita Ernesto Lourenço Dias Tapadas, funcionário dos CTT de Elvas, para montar um Serviço Postal Militar pois fora Ernesto Dias Tapadas quem os CTT tinham indicado no ano anterior, 1960, para criar uma secção postal nas manobras anuais em Santa Margarida em que tinham participado 15 mil homens.
 
Dentro de algum tempo o Serviço Postal Militar tratava dez toneladas de correio por dia. Em média cada militar escrevia 13 aerogramas por mês e recebia dez. Entre 1961 e 1975 circularam 376 milhões de aerogramas. Aos aerogramas há que juntar as cartas, os cartões de Natal, os vales do correio e as encomendas. Tudo somado, estima-se que o Serviço Postal Militar tenha recolhido, transportado e distribuído 21 mil toneladas de correspondência. 
 
Porquê recordar agora esta história?
 
Para lembrar que não é preciso recuar muito para perceber que já fizemos operações de grande exigência e em contextos adversos. 
 
Custa dizê-lo e custa ainda mais vivê-lo mas temos de o assumir: o país que agora não consegue sequer saber que armas tem guardadas e em que paióis as tem conseguiu manter um esforço militar assinalável noutro continente, África, em territórios separados entre si por milhares de quilómetros. 
 
O país que agora não conseguiu assegurar a tempo aulas online aos alunos do ensino público é o mesmo que em 1975, no meio de uma situação politicamente convulsa, recebeu quase um milhão de pessoas provenientes de África, colocando muitas delas em pensões, hotéis ou seminários. 
 
Que teve de lhes fornecer novos documentos, certificados de habilitações, cartões de saúde e lugares nas escolas para os filhos. Dirão que foi caótico. 
 
É verdade que muitas vezes o foi mas se compararmos a dimensão do que então se conseguiu tratar com os meios então existentes com o que agora está a acontecer temos de admitir que Portugal perdeu capacidade e competência. 
 
Em Fevereiro de 2021 quando há vacinas não há listas de prioritários, quando se seleccionam os prioritários não há lista de reserva, quando há seringas não há agulhas, os hospitais de campanha só agora, em Fevereiro, escolhem potenciais voluntários, as escolas não têm os computadores que desde Março do ano passado se sabia irem ser necessários… 
 
O que Portugal está a viver neste momento não são tanto os efeitos da pandemia mas sim o confronto com algo que temos procurado iludir: somos um país em declínio. Intuímo-lo nos incêndios de 2017.
Confirmámo-lo agora no estrepitoso falhanço da preparação desta vaga do vírus. 
 
Porque nos está acontecer isto?
 
Porque aos problemas de sempre – as cunhas, os favores e a dependência – juntou-se uma administração tão medíocre quanto omnipotente e omnipresente. Um administração dos “filhos de algo” do regime: os maridos estão nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, as mulheres nas Misericórdias e num qualquer grupo de trabalho, os filhos no centros da Segurança Social, as noras nas comissões de combate à causa do momento e num gabinete de estudos, os sobrinhos no instituto ou no observatório, ou em ambos, a prima na unidade de missão. 
 
São maioritariamente socialistas porque ser do PS é uma garantia de que se é melhor sucedido nestes percursos e menos escrutinado. 
 
De geração em geração esta gente vive na máquina estatal ou nos negócios do Estado. Constitui um polvo gigantesco que tudo envolve e nunca se dá por satisfeito. 
 
Põem-nos a discutir colonialismos pretéritos enquanto eles e as suas famílias, num remake das antigas juntas de colonização, fazem do aparelho de Estado a sua roça. 
 
Multiplicam as acções de sensibilização à solidariedade para depois passarem à frente dos velhos, dos doentes e dos trabalhadores da saúde na corrida à vacina. Exigem a regionalização porque ela implica mais umas camadas de cargos na administração pública. 
 
A voracidade desta oligarquia estatal levou a uma exaustão de recursos (não por acaso chegámos ao absurdo de os custos de licenciamento de uma obra serem frequentemente superiores aos custos materiais da obra propriamente dita). Já a sua forma tentacular de exercer o poder conduziu a uma decadência técnica e moral da administração pública e política: ninguém é responsável por nada, o que disseram ontem desdizem hoje.
 
O seu objectivo não é fazer mas sim sobreviver no cargo. 
 
Apenas a pertença à UE mantém ainda algum verniz no funcionamento do regime e garante as verbas para irmos gerindo o declínio. 
 
Resta-nos pouco tempo para que este seja irreversível.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Se o SNS não consegue salvar vidas...

Original de Raquel Varela, aqui.

Vamos falar de números a sério. Somos 10 milhões e 250 mil. Há 169 mil doentes ou com teste positivo. Isto é - 1,65% está ou doente ou positivo. Destes, 6 117 estão internados, ou seja, 0, 06%. Dos quais em UCI 742, ou seja, 0,007% da população.
 
Estamos numa gigante prisão insuportável, o desemprego galopa, as falências disparam, há delactores estimulados pela PSP, órgão do Estado que pede em directo nas TVs mais denúncias!, tudo isto porque nos dizem que o SNS não consegue nos seus hospitais tratar 0,06% da população sem colapsar. Isto apesar de sermos o 4º país de toda a OCDE com impostos mais altos.
 
Muitos profissionais de saúde estão com a noção real do que isto significa, e viram que o SNS foi durante anos de facto semi destruído, apelam à razão e sentem-se ofendidos com as descrições Correio da Manhã que estão agora por todo o lado e lançam a população no terror. Mas muitos insistem em dar testemunhos apocalípticos e dizer que somos culpados se ficarmos doentes. Ainda que metade do Governo, que definiu estas regras, esteja positivo. O que se espera de um profissional de saúde numa altura destas é que questione afinal o que aconteceu ao SNS, o que aconteceu ao seu trabalho. Se não podem transmitir segurança e confiança, é isso que esperamos, que pelo menos nos deixem de culpar e aterrorizar. Um profissional de saúde cuida, dá confiança, soluções, critica as que não são boas - não atira pedras nem espalha o pânico à população que pagou para ser cuidada. Pagou, como poucos no mundo pagam.
 
Ninguém quer admitir o óbvio e que Jorge Torgal disse vezes sem conta - esta é uma pandemia ligeira para a maioria, podemos ter um dia pandemias muito piores. Esta pandemia efectivamente atira para as UCIs gente que - se for cuidada a tempo - na sua maioria sai de lá viva; e os idosos acima da esperança média de vida de facto ou são protegidos ou a medicina não consegue em cerca de 20 a 30% dos casos fazer nada. O que temos é um SNS destruído e um Governo que para o ocultar diz que o país deve entrar na sua maior crise económica de sempre, fechando tudo.
 
No meio disto tudo um tipo de extrema-direita tem 500 mil votos, alimentando a fogueira com mais gasolina. Ele navega e cresce no caos que os governos (e na ausência de oposição) semearam ao longo destas décadas de trabalho barato e serviços públicos destruídos.
 
Haja pelo menos neste caos político a contenção em parar de culpar quem ficou doente. Se o SNS não consegue salvar vidas a culpa não é dos portugueses, é do SNS e de quem Governa.