It is quite gratifying to feel guilty if you haven't done anything wrong: how noble! (Hannah Arendt).
Teste
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Entrevista a Carlos Pimenta...
sábado, 28 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
terça-feira, 26 de junho de 2012
COMO??!!
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Da surdez no clítoris - 5
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Da superioridade cultural do cristianismo
Uma das ideias nela muito difundida é a de que todas as religiões se equivalem:
- ou porque todas elas resultam de um apelo do e a um Transcendente comum e que, pela parcialidade e correspondente sectarismo de cada uma dessas visões, todas elas comungam de iguais virtualidades e culpas nos seus efeitos sociais e políticos - sobretudo culpas;
- ou porque se limitam a reflectir o temor e o tremor da humanidade, e benefícios em busca de uma protecção na luta contra os elementos hostis e ameaçadores da sua existência, antes deste dealbar da sua libertação pelo pensamento científico e respectivas conquistas;
- ou porque não passam de uma artimanha destinada a que uns quantos cimentem o seu poder sobre os restantes, manobrando-os e explorando-os mais facilmente e a seu bel-prazer;
- ou porque resultam de uma síncrese de todos estes factores, próprios, uma vez mais, de uma espécie que não atingiu, e estará ainda muito longe, da sua maturidade - e ainda que, céus!, se dirige já para as estrelas, podendo contaminar todo o universo com a sua moléstia moral.
Neste papaguear generalizado entre os eruditos e disseminado superficialmente através de uma vulgata dos conceitos – entre a maioria dos políticos e a restante população da civilização ocidental (mas só desta!) – com a preciosa ajuda dos jornalistas, esses aprendizes da informação que tanto têm contribuído para a generalização da confusão e da degradação, um dos pontos fortes da autoflagelação decadente da moda é que o cristianismo é uma religião como qualquer outra.
E não é.
Dizia Chesterton que os cristãos não são nem melhores nem piores do que os outros. Só são piores na medida em que teriam a obrigação de serem melhores.
Chesterton tinha toda a razão.
No cristianismo, e só no cristianismo, se encontra a raiz que levou ao surgimento do conceito de humanidade, de uma irmandade humana, pela ideia de uma cristandade universal – o budismo, ao dirigir-se a todos os homens mas ao fazer da salvação individual a sua pedra de toque, nunca foi capaz de o gerar.
E, mais ainda do que no budismo, é no cristianismo, e só no cristianismo, que a violência é condenada. Porque o é mesmo que em favor de Deus, quando Pedro é repreendido por Cristo ao puxar da espada para defender o Mestre. Porque Deus só é Deus de alguém enquanto for resultante do seu livre reconhecimento enquanto tal.
É no cristianismo, e só no cristianismo, que o estádio de desenvolvimento humano a que chamamos infância é valorizado pela boca do próprio divino, conferindo assim dignidade à totalidade da existência humana, dois mil anos antes do nosso tempo.
É no cristianismo, e só no cristianismo, como também Chesterton põe em relevo, que da boca do Enviado de Deus, um mero carpinteiro, saem não impropérios, ameaças, condenações e afirmações de grandeza, mas coisas do mais elementar bom senso, como um “que atire a primeira pedra quem ainda não pecou”. E em que, acrescento eu, o corpo é declarado como o Templo dos templos a Deus.
Estou a ouvir quem leia o que acabei de escrever a ripostar-me de imediato: “Mas, ó meu caro, não tem sido a história do cristianismo a negação de tudo isso ou, pelo menos, a sua negação quase total, a negação da vida? As crianças, por exemplo, não foram elas tantas vezes utilizadas, mal tratadas ou mortas no meio do fanatismo da cristandade? Não foram os não-cristãos tantas vezes perseguidos e aniquilados?”.
Sim.
Mas há nisso tudo uma diferença essencial, crucial.
É que os princípios nos quais dizem firmar-se os que o fizeram, os condenam sem equívocos, tal como Chesterton faz notar.
A cristandade terá, tal como os muçulmanos e outros o têm feito recentemente e por diversas vezes, sacrificado crianças e jovens para fins políticos e ambições pessoais, apresentando-os como “mártires do Reino de Deus”. Mas, ao contrário dos restantes, que nisso são sancionados pelos seus textos sagrados, o Evangelho faz desses cristãos mentirosos e condena-os a um julgamento divino inexorável.
A cristandade poderá ter sofrido poderes discricionários e prepotentes em nome de uma Cidade de Deus governada por iluminados de todos os matizes. Mas é nos textos cristãos – no “quem não é contra nós é por nós” (astutamente invertido pelo ditador Salazar) e no episódio da Paixão de Cristo que referi – que estão as sementes e as raízes da argumentação de John Locke em prol de uma sociedade democrática. A democracia ocidental tem a sua origem no cristianismo, não na “democracia” grega, assassina de Sócrates, o único democrata de Atenas, como ele sabia e disse aos seus juízes, incomodando-os e irritando-os.
A cristandade poderá ter depreciado o corpo como Templo de Deus, como o laboratório da Vida, criada por Deus. Mas essa depreciação e mesmo a sua mortificação é fruto (como qualquer estudante de Filosofia ou de Cultura Clássica o sabe) da infiltração dos misticismos grego e oriental, que consideravam o corpo como o túmulo da alma, logo no cristianismo dos primeiros séculos (“soma”, corpo, e “sema”, túmulo, têm a mesma raiz). Porque a sua glorificação vem, no Evangelho, na boca do próprio Cristo.
De facto, os valores que – ateus, crentes ou nem por isso – dizemos contemporâneos e as características que atribuímos aos seres humanos da futura humanidade diferente, tudo isso se encontra no Evangelho. Porque o cristianismo é diferente de tudo o mais.
Este o sentido da frase de Chesterton, para quem ele é a única religião que celebra a Vida, na acepção mais fundante do termo.
Defender os valores cristãos é, portanto, como se vê, defender e incentivar a evolução da espécie humana na própria óptica dos ateus e dos indiferentes e não o oposto, como o venenosamente prepotente obscurantismo reinante na nossa era pretende. E isto leva-me a um último aspecto não menos importante, o qual, em profunda relação com os anteriormente apontados, se torna também não menos decisivo.
O cristianismo é, enquanto religião do corpo, uma religião do finito e, por consequência, do limite. O mundo, qualquer mundo, é “o lugar” e por lugar entende-se algo de-limitado, de-finido. Donde se infere, por tabela, dois planos distintos inter-relacionados – tal como a pele é, em simultâneo, o que, separando-nos, nos liga inevitavelmente a tudo o mais. O mundo é o plano do limite, é “o caso”, na deliciosa expressão de Wittgenstein, o que faz com que tudo o que nele acontece tenha, necessariamente, limites.
O Cristo que toca os corações das boas almas de todos os credos e continentes, que anda na boca dos cantores de rock, nos discursos e cerimónias do correcto humanismo do Ocidente de todos os quadrantes políticos e que eu próprio pus em destaque, até agora, nas suas implicações mais profundas, é o Cristo compassivo, manso, misericordioso. A sua firmeza é a firmeza da resistência, de certo modo passiva, à barbárie, firmeza que afirma o que a esta se opõe.
O Cristo de que não falei e que todos eles, por diferentes motivos, procuram ignorar o mais possível é o outro, o que expulsou os comerciantes do Templo, chamando-lhes ladrões, virando-lhes as mesas e mesmo chicoteando-os. Coisa estranha, já que aparentemente contraditório não apenas com o fundamental da sua atitude e mensagem mas também com o facto de ser uma característica da Antiguidade que todos os actos fundamentais da vida humana, do comércio ao acto sexual que consumava o casamento, tivessem lugar no templo, assim ligando o mundo profano ao mundo sagrado, com o Templo no lugar de “pele” do profano.
Ironicamente, é a esquerda, na sua superficialidade, a que menos vira a cara e mais se aproxima de um enquadramento lúcido ao que é narrado. Na época, essa relação entre o profano e o divino estaria – dizem-nos os documentos que nos dão conta do ambiente religioso entre os judeus da época, divididos entre o judaísmo tradicional e o judaísmo helenizado, o ascetismo orientalizado e outras tendências que incluíam elementos das diferentes religiosidades presentes na região, num crescente clima de relativismo – muito desvirtuada pelo pendor para o mero comércio a pretexto do religioso.
Se Pessoa, na Mensagem, diz que no Portugal em que vive, “ninguém sabe que coisa quer/ninguém sabe que alma tem/ nem o que é mal nem o que é bem”, isto é, que Portugal, não tendo limites, não existe por falta de limite, por inexistência de de-finição que o faça existir, pela separação que o torne dinâmico (e note-se que definir-se é o oposto de tornar-se rígido), que o torne significativo, sinal da presença de algo vivo, Cristo age no mesmo sentido.
Cristo age e, pela acção, marca o limite a partir do qual deixa de ser possível estabelecer a ligação e a interacção entre o homem, a sua acção e o seu destino, isto é, deixa de ser possível criar vida entre o sentido e o valor que a serve e a mede. Ao expulsar os mercadores do Templo, não está a condenar os exploradores do povo mas a travar o esvaziamento da existência humana para o nível da mera sobrevivência animal, mais aperfeiçoada e sofisticada, a afirmar um conjunto de valores vitais.
Porque não é possível transigir sem que isso implique o desaparecimento e a morte de quem transige. E se são os vendilhões quem representa e concretiza tal degradação e perigo, cristianismo significa não unicamente resistência activa, mas acção clara de repúdio.
Este é um Cristo que estraga os “arranjinhos” sempre possíveis de serem feitos com o lado que fica melhor na “fotografia”, publicada pela comunicação social com a conveniente regularidade. É um Cristo inconveniente, incómodo, não contextualizável na hipocrisia funda que vivemos. É um Cristo que não serve ao farisaísmo humanista, porque é um Cristo afirmativo.
E se há algo que faz guinchar os vampiros da cultura ocidental da nossa praça, que vivem do esgotamento da sua vitalidade, mistificando-o sem escrúpulos para servir os seus fins, é uma afirmação de cristianismo.
Concordo com Montesquieu quando aconselha a que não se pretenda dizer tudo no que se escreve, para que também o leitor possa completar assumir o texto e as suas conclusões, pela compreensão e pelos raciocínios que com ele aproveitou para fazer. Limitar-me-ei, portanto, por esse motivo e por escassez de tempo, a sugerir a quem teve a paciência de me acompanhar até aqui, que imagine o que eu poderia dizer quanto ao que provavelmente seria, a meu ver, a acção de Cristo no caso do juiz que sobrepôs a sharia à lei americana, referido no post d’O Lidador.
Peço desculpa pelas gralhas que possa haver no texto, inclusive as de ligação, mas já não tive tempo para o rever.
sábado, 14 de janeiro de 2012
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Da morte de Kadhafi e do Tribunal de Haia

VIVA A MORTE DA TIRANIA
1.
A morte brutal de Muamar Kadafi, registrada em vídeo, levou a que vários comentaristas questionassem sua legalidade. Não vou perder tempo analisando as platitudes genéricas e politicamente idiotas que o governo brasileiro sempre manifesta nessas horas, tentando manter a imagem de país ultra-humano ou humanista ou legalista ou o que seja, quando é, na realidade e no dia a dia, um dos países mais brutais e ilegalistas do mundo. Enfim, Dilma Doucheff afirmou que “Não se pode comemorar a morte de nenhum líder”. Dito assim, não se poderia comemorar a morte de Adolf Hitler... A frase não comporta outro adjetivo além de imbecil. Não por acaso, Obama declarou que o mundo fica melhor sem Kadafi. Concordo. E por isso comemoro sua morte. A questão relevante, porém, não é se se pode ou deve comemorá-la, mas se ela foi legal. No sentido popular do termo, não tenho dúvida que sim. Em termos jurídicos, é mais complicado.
Muitos líbios afirmaram que a morte de Kadafi encerra de modo correto, e portanto legítimo, seu período histórico, abrindo assim as portas para uma nova fase. Enquanto muitos analistas ocidentais disseram que, ao contrário, sua morte ilegal mancha de ilegalidade e de uma atitude antidemocrática o reinício líbio.
Começando pelo antidemocratismo dessa morte, ele residiria no fato de se tratar uma execução política sumária, o que democracias não fazem. Trata-se, porém, de uma inversão da relação de causa e efeito. Democracias não fazem isso, de fato. Mas desde quando a Líbia é uma democracia? Ah sim: deveria começar a sê-lo no próprio ato hiper-simbólico da captura do tirano deposto, assim como os nazistas foram levados ao Tribunal de Nuremberg... É ainda a mesma inversão. Pois as potências aliadas, com exceção da URSS, eram democracias. Logo, se tal decisão é desejável e quase inevitável em se tratando de democracias vitoriosas, não vale para a Líbia. O problema fundamental da Líbia pode ser resumido, aliás, como a falta absoluta de democracia. E o responsável por isso tem nome, Muamar Kadafi, déspota nada esclarecido ao longo de 42 anos. Sua morte, de fato, nada teve de democrática. Até porque, neste sentido, não poderia ser diferente.
Quanto à ilegalidade dessa morte, posto que o governo líbio fora declarado ilegítimo pela insurreição popular e por decreto da ONU, que reconheceu o Conselho Nacional de Transição (CNT), os únicos tribunais possíveis eram os revolucionários, dos próprios rebeldes, e o de Haia. Como tribunais revolucionários são tribunais de exceção, e como justiça de exceção não é justiça, restava apenas o caminho de Haia.
Mas esse caminho estava, na verdade, desde sempre fechado. Uma importante liderança do CNT matou a charada: declarou que o Tribunal de Haia “não servia”, porque não previa a pena de morte. Isso não quer dizer que Kadafi estivesse condenado a ela a priori. Neste caso, tal porta-voz sequer consideraria um tribunal. O que ele manifestou sintética e inequivocamente foi que, para Kadafi ser levado a julgamento, a pena máxima deveria ser uma possibilidade. Caso contrário haveria, agora sim, um a priori: a de que sua vida estaria salva. O que não era politicamente possível.
Ao contrário da declaração belamente inócua do governo brasileiro, não só se pode comemorar a morte de certos líderes, como é inevitável desejá-la. Porque esse desejo nasce e é alimentado pelo sofrimento monstruoso e pelo medo atroz que tal líder impôs a partes importantes da população. Quando isso acontece, o desejo de vê-lo morto torna-se uma manifestação política. Além disso, uma manifestação política legítima, porque representativa de anseios mais do que legítimos de parcela importante da população.
É aqui que toda a argumentação sobre a legalidade exclusiva e portanto condicionante de Haia, que condena automaticamente qualquer ato realizado à sua revelia à ilegalidade, se torna quase tão inócua quanto a declaração do governo brasileiro. Porque Haia não é, como pretendem subentender seus defensores incondicionais, um tribunal comum.
2.
Apenas para um tribunal comum, que julga segundo a letra da lei atos ilegais previstos por essa mesma lei, vale toda a argumentação sobre o necessário condicionamento legal dos julgamentos perfeitamente jurídicos. Acontece que Haia é um tribunal político, que julga crimes políticos praticados, senso lato, contra o povo, ou contra a própria humanidade, no caso do crime de genocídio. Ignorar que Haia é um tribunal político, temendo com isso abrir as portas para o questionamento de sua legitimidade, é a forma mais forte de questionar sua legitimidade, que não pode então ser sustentada às claras. Haia é um tribunal político porque instituído não por uma Lei fundamental, uma Constituição, votada democraticamente, sequer por um Estado legítimo, mas sim por um órgão político, uma assembleia não eleita de líderes, indiferentemente democráticos e ditatoriais, legítimos e ilegítimos, a ONU. E porque julga crimes políticos praticados por lideranças políticas. Haia é um tribunal político sob todos os aspectos.
Seus defensores pretendem lhe garantir robustez metajurídica afirmando que, à diferença de Nuremberg, tribunal ad hoc instituído pelos vencedores sem qualquer ordenamento jurídico prévio, ou seja, um tribunal de exceção, Haia foi votado pelo ONU e se baseia em tratados (leis) internacionais. Mas isso apenas lhe retira o caráter de tribunal de exceção. Não pode, pois nada pode, lhe retirar a natureza de tribunal político. Afinal, por que criminosos comuns não são julgados em Haia?
O Tribunal de Haia deve ser defendido, mas não por uma suposta legalidade perfeita. Ao contrário. Sua defesa só pode ser e deve ser política. Defender o Tribunal de Haia significa, na verdade, defender uma forma de fazer política, ou seja, a democracia representativa e o Estado de direito. Porque Haia só pode julgar tiranos. Um líder eleito, porque eleito, é um líder legítimo, além de agir, como regra, dentro da lei. Não significa que líderes eleitos não possam cometer crimes (Hitler foi eleito). Mas significa que, enquanto se mantiverem dentro da legalidade e da legitimidade política, não as confrontando (e não se tornando, assim, tiranos, como Hitler ao dar um golpe de Estado), seus crimes eventuais podem e portanto devem ser julgados em seu próprio país, então um Estado de direito. Nada disso vale para um tirano e para uma tirania. Daí Haia existir para julgar tiranos em geral, além de criminosos de guerra em particular.
Mas se Haia é um tribunal político, não há como defender suas disposições legais apenas juridicamente. O porta-voz do CNT líbio que declarou sua não serventia, por não prever a pena de morte, fez um questionamento político perfeitamente legítimo.
3.
Costuma-se invocar os direitos humanos e seu universalismo (o que não é o mesmo que universalidade) para sustentar, igualmente, a legalidade inquestionável do banimento da pena de morte. Mas isso sequer é um fato: a pena de morte não foi banida da imensa maioria dos países, todos eles signatários das declarações da ONU envolvendo os direitos humanos. A pena de morte continua em vigor nos códigos e nos tribunais militares da maioria desses países. Afirmar que ela foi banida da maioria dos países, e que deve inclusive por isso ser banida de todos, é meramente falso. Ela foi banida de seus códigos civis. Mas os códigos civis não representam a totalidade dos códigos da maioria dos países, que possuem forças armadas. Trata-se de uma omissão deliberada, que falseia toda a discussão.
Colocando na balança o fato de que, em seus tribunais militares, a maioria dos países mantém a pena de morte, por exemplo, por crime de traição em tempo de guerra, a maioria dos países mantém a pena de morte. Isto, somado ao fato de que se trata de um tribunal político, mina os argumentos dos criadores de Haia e de seus defensores também quanto às suas penas. O banimento da pena de morte nada tem de necessário, ideal etc. Mais uma vez, a manifestação do porta-voz do CNT líbio mostra-se correta. Haia não serve a priori ou necessariamente, apesar do que pretendem seus defensores. Portanto, não condiciona a legitimidade ou a legalidade.
Há, de fato, circunstâncias políticas que questionam o tribunal internacional a partir de sua própria natureza política (das circunstâncias e do tribunal). Tais circunstâncias podem levar a atos que, se não são legais, pois não previstos por lei nem executados por um tribunal regular, nem por isso são necessariamente ilegais, posto que Haia não detém, por sua politicidade, um condicionamento legal perfeito, automático ou absoluto. Esses atos talvez fossem melhor definidos como alegais, à semelhança de amoral em relação a imoral. Entre tais circunstâncias e tais atos, destaca-se a morte de um tirano.
Como um tirano, por definição, é a morte da liberdade e da legitimidade, não é falto de razão o argumento que afirma ser sua morte, se não o renascimento em si da legitimidade e da liberdade, das condições para o parto. Mesmo porque, um tirano, também por definição, personaliza o poder e personaliza o Estado. Ao personalizá-los, sua sobrevivência e sua morte deixam de ser um fato comum para se tornar um fato político. Neste sentido, nada pode ser mais legítimo do que a morte de um tirano. Mesmo porque, nada pode ser mais democrático do que o fim de uma tirania. E a morte da tirania, pela própria natureza desse regime, comumente passa pela morte do próprio tirano.
Kadafi foi, circunstancialmente, capturado vivo. Mas, em primeiro lugar, jamais renunciou ao poder, ao contrário, até o fim reafirmava sua condição de Grande Líder e demandava a morte de seus oponentes. Em segundo lugar, como poucos tiranos atuais, Kadafi tornou-se, ao eliminar qualquer forma de organização política e civil, a personificação mais acabada do Estado ilegítimo que comandava. Sua morte não é apenas politicamente compreensível. Ela é, também politicamente, perfeitamente comemorável.
4.
O vídeo mais detalhado da morte de Kadafi demonstra que, ao contrário do afirmado pelo CNT, ele não morreu em um tiroteio, mas foi, de fato, capturado, agredido, linchado e executado. Em certo momento, de joelhos, rendido e com o olhar mudo, com um misto de medo, compreensão e incompreensão, o rosto e os cabelos ensanguentados, lembra certas figuras de tiranos shakespeareanos caídos, como em Titus Andronicus, Ricardo III e mesmo Macbeth. O que, naturalmente, nada diz de seu caráter trágico (ele era apenas grotesco, além de insano, pequeno usurpador de um país apequenado), mas sim da monstruosa capacidade criativa de Shakespeare. Ao mesmo tempo, as imagens lembram as fotos do fim semelhante de Mussolini. Mussolini que, a depender do governo brasileiro e dos defensores “apolíticos” de Haia, não seria linchado e morto, mas entregue a um tribunal para ser depois encarcerado. Com isso, se feriria de morte a reconstrução italiana pós-Segunda Guerra, pois as forças fascistas seriam muito mais dificilmente desbaratadas. Seria tragicamente injusto com a Itália e com o povo italiano. Prefiro a “injustiça” aplicada ao tirano.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Informação, desinformação e contra-informação (4)

A curto prazo:
a) a técnica do porco com óculos ou do primo fino. Declaração, usualmente infirmativa, lida ou prestada por um assecla com boa imagem ou com autoridade moral (sic). Nunca ir ao fundo da questão, mas recortar generalidades entremeadas de vagas e dissimuladas ameaças. Permite, nos casos mais eficazes, encolerizar o oponente e fazer-lhe perder tempo a recolocar os dados do assunto em apreço.
b) a técnica dos tenores. Duas ou três personalidades próximas referirem o assunto ou como um absurdo ou como um dado adquirido, conforme os casos, seguindo-se imediatamente declaração corroborando, mas feita como se não tivesse directa ligação.
c) a técnica do bilhete amoroso, comunicado enviado aos jornais, que obviamente só na próxima edição o farão sair e no qual os factos são apresentados como se tudo fosse evidente. Aqui, nunca dar indicativos falsos, mas apontar as falsidades (reais ou presuntivas) do oponente. Assim se lança a dúvida, que posteriormente pode ser aproveitada para tripudiar ou macerar.
d) a técnica do tiro ao lado. Chama-se à colação um detalhe ou caso realçado que desvie as atenções do fundamental. (Falar-se em eventuais escutas ao próprio eventual alto magistrado, desviando assim as atenções da crítica justificada de haver compadrio ou desleixo em delegações de promotoria).
A médio prazo:
a) a técnica do bom gigante. Artigo presumivelmente ou preferentemente da autoria de especialista respeitável, mostrando com soma de pormenores a razão que assiste ao objecto exposto. Daí que devam sempre ter-se alguns operadores com notoriedade pré-fabricada (ou vedetas com bom paladar) para dar credibilidade ao tema. O populacho, mesmo aparentemente culto ou não provinciano, é muito sensível a esses áulicos. (O defunto EPC foi um dos mais notórios, assinalado pelo professor da Sorbonne e da Univ. de Abidjan André Coyné, ensaísta e companheiro de André Breton, num livro editado por Lima de Freitas).
b) a técnica do engate ou do sr. prior. Convidar-se um idiota útil do campo neutro ou mesmo contrário e, com o pretexto da democraticidade, conseguir ou um artigo ou uma entrevista em que, sem dizer mal, é capciosamente objecto de uma ou duas perguntas dissimuladas que, depois, permitem estabelecer uma tese no mínimo dubidativa. (As chamadas personalidades ou famosos do sector artístico ou desportivo são geralmente um campo fértil para o operacional trabalhar.).
c) a técnica da tourada ou da puta espanhola. Mesa redonda ou debate, onde um idiota útil e um assecla fazem as despesas da defesa e simultaneamente do ataque. Nunca hostilizar e muito menos ofender o adversário, mas sim ajudar o público a reflectir (pois o público reflecte pouco, ajudado reflecte melhor…).
d) a técnica do fardo de palha, baseada no ditado de que todo o burro come palha, o que é preciso é saber-se dar-lha. Entrevista ou programa género um dia com o objecto. Humaniza o dito, possibilita-lhe boa performance, tanto mais que a matéria é editada e tratada. Responde à curiosidade latente no poviléu. (O actual premier é perito na utilização desta técnica).
e) a técnica do tio da América ou da herança milionária. Momento presuntivo de apresentação de assuntos efectuada por áulico (de ataque ou de defesa) mas sendo no entanto matéria contra-informativa clássica propiciada por um comparsa que simula interrogar mas apenas serve de introdutor. (O notório MRS é um dos mais capazes neste género de manipulação, a que chamam análise ou comentarismo. As suas intervenções são caracterizadas por um eficacíssimo cinismo).
A longo prazo:
a) técnica do bom irmão. Livro ou opúsculo com boa soma de informações sobre as razões do objecto. Visa em geral ser um detalhe de propaganda.
b) técnica do santo venerável. Geralmente biografia, em livro ou opúsculo, apontando para as qualidades com esbatimento de defeitos, do objecto. (Exemplos: “Sócrates, o menino de oiro do PS”, “Força, força, companheiro Vasco”, título a partir duma canção militante. As hagiografias da ICAR, geralmente controladas ou revistas por operacionais competentes da hierarquia ou agentes da Sodalitium Pianum).
(Em continuação iremos esclarecer alguns pontos do léxico, não só para podermos seguir em frente como para se entenderem melhor certas sequências posteriores).
(continua)
NS (antigo operacional “cloak and dagger”)
(O presente texto não teve continuação, pois entretanto o autor recebeu indicação amavelmente anónima mas credível de que, se continuasse, talvez uma bela manhã não acordasse vivo…como diz na anedota. Dado ser avisado e prudente, seguiu o conselho vindo de…algures).
NOTA: Este texto foi escrito ainda durante o consulado do senhor engenheiro José Sócrates Pinto de Sousa, actualmente em Paris, profundamente imerso em filosóficos estudos. Da sua actualidade caberá aos leitores ajuizar.
domingo, 23 de outubro de 2011
Informação, desinformação e contra-informação (3)

(...)
DETRÁS da Cortina (2)
PEQUENO MANUAL DE CONTRA-INFORMAÇÃO
Ao elaborar este pequeno e resumido manual para uso prático, contendo apenas as linhas gerais mas que permitem, se necessário, praticar contra-informação com conhecimento de causa e, ao mesmo tempo, ficar-se habilitado a ver claro a do oponente, devo dizer antes de mais que quem quiser entrar e sentar-se nele como um educado cavalheiro, ou educada dama, se continuar a ler é melhor perder as ilusões …
Efectivamente, os leitores – geralmente pequeno número de confrades de confiança ou eventuais futuros membros de task force, ainda que apenas suposta para efeitos de léxico comum – devem perceber que acabaram de entrar como espectadores/visitantes no continente dos golpes baixos, do trabalho sujo, da deliberada simulação operacional.
Em contra-informação a moral não rende nem paga a pena, a não ser que, por hipótese, ela permita afivelar uma maior eficácia. Ou uso democrático, leia-se anti-regime totalitário.
Um manual praticado de contra-informação é a assumpção da fille-d’autre mère bem sucedida, que deve obviamente creditar-se como a “maior moralidade”, a “maior ética”, o mais justo desempenho. O que conta, nela, é aniquilar o adversário, de preferência ao primeiro golpe. O segundo golpe só é de desejar se, mediante o mesmo, se conseguir destroçar um punhado mais de adversários ou preparar o campo para mais eficazes futuras hecatombes. Em contra-informação os fins justificam os meios, a não ser que esses meios corram o risco de ficar excessivamente expostos.
Como consolação, haja em vista que mediante o estudo prático deste assunto se incrementa a liberdade democrática, que é filha do conhecimento, que os membros do poder usam geralmente, pelo contrário, para destroçar o bem comum.
Tal como no famoso tomo de Machiavelli, aqui ao fim e ao cabo alerta-se o cidadão para as realidades, permitindo-lhe entender as ciladas.
Os operacionais, é claro, não precisam de as ler.
Nunca esquecer que, como disse Salazar (um excelente e talentoso hipócrita), “em política o que parece, é”. Será necessário dizer que em contra-informação é exactamente a mesma coisa?
Não esquecer também que uma contra-informação eficaz pode ajustar-se preferencialmente se apoiada em meios societários favoráveis: sistema judicial parcialmente corrompido ou corruptível dum ponto de vista ético, forças de segurança lábeis ou venais, operadores mídias passíveis de estipêndio, etc…
Os objectivos – bem como as acções sequentes - devem pois trabalhar-se caso a caso e com índices seguros. Nunca contar com as chamadas “expectativas de milagre”.
Isso irá evitar tropeções aos operacionais.
Primeira parte
1. As Técnicas contra-informativas temporais
São elas: imediatas, a curto, a médio e a longo prazo.
As imediatas visam responder quando o objecto de protecção ou operador de topo fica subitamente exposto, ou quando uma situação emergente é despoletada.
a) o desmentido (deve usar-se com rapidez, haja ou não razões para desmentir). O seu objectivo é, primeiro que tudo, ganhar tempo.
b) A declaração de próxima emissão de comunicado. Permite gerar uma certa expectativa, além de que os factos posteriores podem contorná-la. E só se emitirá o comunicado se esses factos não o tornarem desnecessário por entretanto as condições terem mudado.
c) A remissão de declarações para um outro emissor, de preferência ausente do núcleo duro. Cria confusão nos receptores.
d) A postura frontal. Se for pedido ao protagonista um número, tentando confundi-lo pela incapacidade de o ter à mão, aventar um qualquer que possa parecer minimamente credível, visto haver sempre a possibilidade de rectificar posteriormente ou alegar má-fé na transcrição, além de que o grande público é desatento e mal formado (o que lhe interessa é a aparência palpitante, não a verdade dos factos).
e) A resposta paralela. Exemplificando: “Por agora, o meu comentário é que só falta que me acusem de que também fiz o Benfica perder em Alvalade ou que afundei o Titanic”. Não diz nada e o povo usa capear-se pela referência a um clube popular ou um caso histórico mediático primário. Como se sabe, a (in)capacidade de apreensão não é muito grande e liga preferencialmente ao acessório espectacular. (O falar-se por exemplo em robalos, detalhe risível aventado para possibilitar um tom anedótico no meio dum facto grave).
(cont.)
sábado, 22 de outubro de 2011
Informação, desinformação e contra-informação (2)

“Ninguém precisa dos mortos”
Bryan Forbes
As acções de contra-informação exercem-se porque existe um público do outro lado que ou está atento aos acontecimentos nas diversas áreas societárias (políticos, económicos, científicos, fideístas) ou, não o estando ainda, é susceptível de disponibilidade uma vez para eles chamada a sua atenção mesmo que de forma especiosa, forjando-se um movimento de simpatia ou de recuo conforme as acções sejam activas ou reactivas.
Assim sendo, é necessário analisar-se argutamente esse público, perscrutando as suas características conformativas: grau cultural, preconceitos ou tendências, nível de exigência ética ou humana, capacidade de empenhamento, etc.
Em seguida, estudar-se a forma de confeccionar um discurso apelativo, facilmente reconhecível para que haja uma boa adesão, moldável mas nunca integralmente falso ou desbocado (não deve nunca descer às injúrias, como é de uso estar a suceder nos tempos já interactivos modernos em fóruns ou espaços afins, aliás geralmente ineficazes ou sem qualidade), nem arvorar violências verbais desbragadas (que o público em geral não partilha ou de que não gosta). Esse discurso quase credível deve ser conformado ora por pequenas nuances, pequenos detalhes habilmente distorcidos mas partindo de bases reais, ora discretamente repetidos (técnica da lente de aumentar), ora vindos das razões do adversário, mas modificados e moldados como num reflexo (técnica da imagem no espelho ou da inversão).
Em toda este verdadeiro rol de situações específicas, os contra-informadores competentes nunca perdem de vista o contexto em que os factos estão integrados, o seu timing e a sua possível eficiência e operacionalidade. Muitas tiradas contra-informativas até usam aparecer em público travestidas de trechos analíticos cinéfilos, desportivos, de sociedade…
Basta lembrarmo-nos do que sucedia nos tempos da segunda guerra mundial, ou nos tempos da guerra fria, ou nos da actual détante ocidental vigiada de perto pelo fanatismo islâmico - e ficará feita a constatação.
Em suma: a contra-informação competente, sendo activa, cria um ambiente massivo favorável à eventual propaganda que se lhe segue, imediata ou mais espaçadamente (por vezes é necessário que certas ideias ou conceitos sedimentem suficientemente, para ficarem melhor incrustados nas cabeças dos alvos a manipular com intuitos salvíficos ou maléficos). Sendo reactiva, pode conseguir rasurar de forma capaz situações de risco propiciadas por dirigentes relapsos ou por dificuldades legítimas no mundo da confrontação entre estados.
Como corolário, conclua-se que existem bons e eficazes serviços de contra-informação (não estamos, obviamente, a referir-nos à sua bondade social, mas à sua qualidade operativa). Os da ICAR são um exemplo positivo, tanto mais que têm a vantagem de ser servidos pelas características e afinidades do seu público mapeável. Outros serviços mais ou menos exemplares: os britânicos, cuja experiência vivificada pela grande confrontação mundial contra os nazis e as forças de leste nunca se viu irrevogavelmente posta
No que aos soviéticos respeitava, se em certos campos, principalmente da propaganda tout court, conseguiam resultados muito razoáveis, ajudados aliás pelos adeptos das suas doutrinas vivendo no Ocidente, a nível de contra-informação viam-se limitados pela retórica matraqueante dessa mesma doutrina, que internamente era algo ineficaz e pouco credível porque confrontada pelas realidades que os cidadãos viviam quotidianamente.
Nos países islâmicos a contra-informação é praticamente inexistente enquanto disciplina reservada, tendo sido substituída ou tendo sempre existido sob a feição de discurso intensivo feito a partir das doutrinas religiosas que os enformam.
Em conclusão: a contra-informação sempre foi um dado que explicava muito razoavelmente uma certa sociedade, uma certa maneira de viver, um certo continente existencial se observado com alguma penetração.
Nos nossos dias, o que não deixa de ser, e é mesmo, absolutamente significativo e muito característico duma sociedade que vive sob os signos mediático e interactivo, a contra-informação que conseguimos detectar (uma vez que os sigilos reais e perfeitamente afastados do homem comum controlados pelos condutores da coisa pública e da casta de topo são indubitáveis) ela começa a ser a dona e senhora de um certo ambiente, de uma certa quotidianeidade, de uma certa existência social.
Um algo inquietante “estado de normalidade”, como muito apropriadamente escreveu no TriploV Maria Estela Guedes?
Franca e sinceramente, eu não levantaria voz nem figura para formular expressão diferente ou para discordar!
Bibliografia de base:
A escola dos ditadores – Ignazio Silone
A informação – Fernand Terrou
A caçada sem fim – Bryan Forbes
O terceiro Reich visto por dentro – Albert Speer
A propaganda política – Jean-Marie Domenach
El medio media – Lorenzo Gomis
Ofício de espião – Allen Dulles
Eu não sou uma lenda – Jacques Bergier
História da minha vida – Sir Winston Churchill
(cont.)
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