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terça-feira, 25 de março de 2014

O fardo bancário




Não existem crises financeiras sem culpas avassaladoras da banca. Conceptualmente a possibilidade é admissível mas na realidade, para mais numa tão devastadora como esta, é quase impossível. A banca portuguesa tem alimentado o mito de que, apesar da convulsão mundial, o seu balanço está livre de lixo tóxico e portanto imune aos problemas das congéneres, nomeadamente espanholas. Surge assim como inocente da euforia que gerou o desastre, pretendendo-se apenas vítima dos apertos da recessão. Essa ideia, credível e conveniente durante a fase mais negra, começa a constituir um obstáculo à recuperação.

Deve dizer-se que esse mito foi-nos muito útil a todos. Ele tinha uma base de verdade, pois o sistema financeiro português esteve, por várias razões, bastante afastado do sub-prime americano, razão directa do colapso de 2008. Isso constituiu um bom argumento para manter a reputação dos nossos bancos, precisamente no período em que uma suspeita seria fatal. Em época de tanto tumulto e desconfiança, era crucial manter a credibilidade das instituições bancárias. A base desse negócio, como aliás de toda a moeda, é apenas a confiança; quando ela desaparece, tudo se dissolve em fumo, com resultados socioeconómicos catastróficos. É por isso que abalar a imagem da banca é sempre irresponsável, em especial em momentos de turbulência. Nada do que este artigo diga pretende criar a menor dúvida acerca a solidez dos nossos bancos, que são sólidos e credíveis. Mas isso não deve servir para esconder problemas e evitar ajustamentos dolorosos.

É verdade que a banca portuguesa esteve, na sua maioria, imune ao contágio financeiro global de há seis anos. Mas existiu também uma euforia financeira doméstica, que usou irresponsavelmente crédito interno e externo (este último canalizado através de instituições nacionais) em projectos vácuos e mirabolantes. É bom não esquecer a nossa década perdida do crescimento, desde a viragem do milénio, que paradoxalmente acompanhou o inflar da bolha de dívida. O mundo viveu um período de crescimento artificialmente alimentado por crédito; em Portugal aconteceu o mesmo, só que sem crescimento.

Quando no fim de 2008 as empresas privadas portuguesas atingiram um valor de endividamento de 172% do PIB e as famílias de 101%, a culpa principal é evidentemente delas; mas os bancos não se podem dizer inocentes. Eles tinham de saber que era irresponsável distribuir o dinheiro a tais fins, e que grande parte desses empréstimos iria dar mal, mais cedo ou mais tarde. Um crédito malparado desta dimensão nunca é erro apenas de um dos lados, e o seu custo tem de ser repartido.

É indubitável que existem muitos negócios desvalorizados, se não mesmo moribundos, no activo dos bancos. A segunda metade dos anos 1990 e primeiros anos do milénio foram férteis em projectos optimistas que realmente nunca chegaram a lado nenhum. Os mais conhecidos são as sagas públicas do TGV e o novo aeroporto de Lisboa, mas houve miríades de privados. Pior, muitos igualmente mirabolantes chegaram mesmo a ser criados, para depois nunca terem os efeitos pretendidos. Nesses de novo a fama recobre os exemplos estatais, como o Magalhães e as PPP, mas muitas empresas se meterem em tolices equivalentes, a todos os níveis. Tudo, público ou privado, acaba sempre a apodrecer na banca.

Quando se verifica um caso destes o que há a fazer é estripar o cancro e lavar a ferida. Isso é sempre doloroso mas inevitável. O pior é negação e ocultação, que só aumentam o tumor. Isso podia fazer sentido na época em que o estado geral do doente era tão frágil que a cirurgia era impensável. Agora parece ter chegado a altura de tratar desse assunto.

A economia precisa de crédito para se levantar. Existem até investidores interessados em comprar e recuperar os monos dos balanços bancários, desde que cotados a desconto. Quando a banca se recusa a vender para não assumir perdas, que são evidentes, ela surge como sabotadora da economia que devia servir. Só admitindo a verdade se sai da crise.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

"Douta ignorância"




Este, o título da crónica de João César das Neves, no DN:


Eu não percebo nada de economia, mas..." Esta é a frase mais ouvida hoje em Portugal. O mais curioso é que, logo após a admissão de ignorância, quem a faz costuma apresentar um conjunto de afirmações cortantes e taxativas, que defende com unhas e dentes sem hesitação. Afinal aquilo que não sabe chega e sobra para ser conclusivo e incontestável. Este comportamento paradoxal merece análise.

Parte é perfeitamente compreensível e justificada. Muitos de nós também não percebemos de medicina mas não estamos dispostos a aceitar tudo aquilo que os tratamentos nos querem impor. Uma coisa é a recomendação técnica, outra a nossa vidinha que a tem de suportar. Curas dolorosas são fáceis de recomendar aos outros, mas difíceis de engolir.

Apesar disso, admitimos que os médicos é que sabem. Mesmo quando não lhe ligamos, reconhecemos-lhe autoridade. De médico e de louco todos temos um pouco, mas poucos se atreveriam a apresentar e discutir com especialistas as terapêuticas e teorias de leigo que inventaram no duche. Na economia, porém, isso é habitual. Porque será?

Primeiro porque a economia, afinal, parece ser uma ciência rudimentar, como a própria crise manifesta. Tantos estudos e teorias e afinal estamos na miséria. Mas serão os economistas culpados? Afinal o País ignorou os sucessivos avisos que eles fizeram durante décadas. Além disso não nos passa pela cabeça acusar os meteorologistas pelo recente furacão ou os médicos pela morte do doente. A razão é que se compreende que clima e corpo humano são sistemas complexos e difíceis de controlar, mas não se entende que empresas e mercados são sistemas ainda mais complexos e difíceis de controlar. Dez milhões de pessoas, cada uma a puxar pelo seu lado e a tentar melhorar a vida, é algo indescritível, enigmático e insubordinável.

Apesar disso, a economia, como meteorologia e medicina, conseguiu avanços espantosos. Não só a recessão é muito menor do que se esperava e do que costumava ser há cem anos, mas o nível de vida que temos, mesmo com crise, é muito superior ao que se podia imaginar há uns anos. Só que ninguém dá valor a isto, dado as coisas estarem pior do que deviam ser. Todos se acham com direito a uma economia próspera e não vêem que isso é tão tolo como exigir um dia de sol ou uma vida longa e saudável.

Outra razão para a desconfiança é alegadamente os economistas estarem sempre em desacordo, sem se entenderem na cacofonia de opiniões. Existe realmente muita discussão, natural em assuntos complexos e difíceis de controlar. Só que o público respeita as polémicas médicas e meteorológicas mas, não só leva a mal os debates económicos, como ainda os empola. Porque as fortes controvérsias na economia não são em assuntos simples e claros, como a recessão portuguesa. Aí a generalidade dos economistas está de acordo e não existem muitas dúvidas acerca do caminho a seguir, para lá de variantes no detalhe.

Isso ficou evidente há um ano, quando no final de Fevereiro de 2012 o prémio Nobel Paul Krugman, professor em Princeton, visitou Portugal. Apesar de bem conhecido pelas suas posições polémicas, desabridas e keynesianas extremas, face à nossa realidade, desiludiu os críticos, concordando com as propostas da troika e a política seguida: "Detesto dizê-lo, mas não faria muito diferente do Governo português" (Público 29/02/2012).

Se é assim, como podem os nossos jornais e televisões estar cheios do que parecem ser as maiores discussões entre eminentes economistas? Bem, isso não é debate económico, mas outra coisa, que é fácil de entender para quem analisa a doença portuguesa. Para sairmos da crise temos de reduzir fortemente os gastos insustentáveis que beneficiavam muitos grupos e interesses dos vários sectores da sociedade. Naturalmente que, perante esses cortes, as vítimas não estão de acordo e movem todas as suas influências. Muitas mascaram os argumentos de teoremas científicos. Assim, embora travado com termos económicos, o debate é realmente político. Ora eu não percebo nada de política, mas...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"Incongruências"





(imagem obtida aqui)



Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão." Vendo o que se diz sobre a crise nota-se enorme falta de lógica e coerência. Isto é normal em tempos assim. Aliás o estranho e precioso em Portugal é que, por enquanto, as discussões, apesar de vociferantes, são pacíficas e a economia vai ajustando. Mas a paz e os progressos não impedem os disparates.

Para compreender os erros comecemos numa das poucas afirmações consensuais: o ensino obrigatório deve ser gratuito. Uma pseudo-ameaça a este princípio suscitou há pouco os maiores sobressaltos. Mas logo a seguir ouvimos os protestos das escolas e dos professores contra a redução dos seus gastos. Afinal a educação gratuita fica muito cara. Quem a paga então?

Dizer que deve ser o Estado é tolice, pois todo o dinheiro que ele gasta sai do nosso bolso. Só que os mesmos que querem educação gratuita e manutenção dos gastos das escolas também protestam contra a subida dos impostos. Assim se completa a incongruência. Como as coisas gratuitas e caras não se limitam à educação, a coisa fica mesmo grave. Pensões e apoios, polícia e tribunais, saúde e energia, embaixadas e militares, estradas e esgotos, entre tantos outros, constituem pesadíssimos encargos. E falar de pagamentos dos utentes, das portagens às taxas moderadoras, implica sempre novos protestos ruidosos. Podem ser compreensíveis, mas não são coerentes, violando as leis da aritmética.

Muitos julgam escapar à falácia apelando a mitos. Um dos mais populares, que o Governo também divulga, é cortar as "gorduras" do Estado. Os opositores usam uma variante da mesma ideia, falando de carros e gabinetes ministeriais, erros e corrupções administrativos. É verdade que existem muitos desperdícios, vícios, exageros e entorses na máquina pública. Mas um problema deste tamanho não se soluciona só com dieta. É precisa cirurgia estrutural. Devemos manter o essencial, na educação, saúde, estado social, etc., mas a aritmética exige que tudo seja alinhado com os impostos que podemos suportar. Recusar a mudança é perigosa ilusão.

Outro mito comum é achar que os ricos pagam a crise. Claro que quem mais tem mais deve pagar. Só que, não só não temos ricos suficientes, mas se abusarmos desse expediente quem beneficia é a Espanha e Inglaterra, para onde irão os nossos ricos, aumentando a nossa miséria. Também as empresas não podem ser sobrecarregadas de tributação se quisermos criar emprego e crescimento. Mais uma vez a lógica impõe-se. A verdade é que só cá estamos nós, e querer serviços gratuitos, despesas altas e impostos baixos não é possível. A não ser que alguém nos empreste.

Esta última ilusão é aquela que hoje nos custa couro e cabelo. A crise resultou directamente da acumulação de quinze anos de dívida externa. Aqui surge uma outra incongruência, quando descarregamos os nervos, não sobre os culpados, mas precisamente naqueles que nos querem ajudar.

É bom lembrar que Passos Coelho e Vítor Gaspar não geraram a doença, mas tentam curá-la. O mesmo se diga da troika. Só conseguimos o nível de vida dos últimos anos porque os alemães e outros europeus nos emprestaram as suas economias. A dívida externa bruta do País, incluindo Estado e privados, atingiu 386 mil milhões de euros em Junho. É isto a crise. Os credores não querem que saldemos essa dívida, mas apenas que demos garantias de conseguir ir pagando os juros. Foi esse medo que nos fechou os mercados em 2010 e criou a crise.

Ficar zangado com quem nos ajudou é estranho. Mais estranha é a continuação. A recuperação portuguesa interessa-nos a nós tanto quanto aos credores, que perderiam tudo se falíssemos. Por isso, em resposta às nossas dificuldades, eles decidiram emprestar-nos mais 78 mil milhões de euros, impondo em troca que sigamos uma cura exigente dos desequilíbrios. Estas condições são muito melhores que a generalidade dos países gastadores tiveram ao longo dos séculos. Face a isto fará sentido insultar a troika? São concebíveis alternativas melhores? Podemos ralhar, mas não temos razão.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

"A busca da chave"






(imagem obtida aqui)



Todos conhecem a anedota do homem que, perdendo à noite a chave à porta de casa, vai procurá-la debaixo do candeeiro da rua por aí ter luz. Os portugueses fazem isto há muito, insistindo numa solução nacional por sucessivos governos falhados, sem notar a realidade socioeconómica que passa ao lado.

Na recessão o pêndulo da popularidade anda mais depressa. O anterior Governo, que nos trouxe à crise, caiu em desgraça ao fim de uns anos. Foi substituído pelo actual que, após poucos meses de esperança, já o seguiu no descrédito. É espantoso, mas ainda há quem acredite que mudar o Executivo fará diferença. Há séculos que se repete o ciclo, sem que se aprenda. Continuamos fiéis adeptos do Estado mas violentos inimigos do Governo da altura. A política há-de ter a solução nacional, embora os políticos não prestem. O paradoxo merece reflexão, em especial no momento em que o Governo, de forma totalmente inesperada, conseguiu algo espantoso. E é violentamente zurzido por isso.

Em 2011, pela primeira vez desde 1950, o total da despesa pública desceu em termos nominais. Caso único nos últimos 60 anos, é fenómeno histórico que ninguém achava possível. A responsabilidade é partilhada, porque nesse ano o Ministério das Finanças foi dirigido por Teixeira dos Santos até 9 de Julho e Vítor Gaspar depois. Embora o maior esforço seja do segundo, a execução orçamental dos primeiros seis meses, de acordo com o Relatório do OE para 2012 (quadro II.2.1.), reduziu a despesa total em 1.9%, boa ajuda para a descida de 5,5% nominais no ano. Mais impressionante, o feito repetiu-se em 2012, em que haverá uma descida da despesa total em 10,2% nominais, algo a que ninguém vivo assistiu.

E não se prevê que volte a assistir, pois as contas para 2013 já dão uma subida nominal e real da despesa. Mas ao menos contaremos aos nossos netos que vimos o impossível: o Estado cortou a despesa duas vezes. Todos os Governos, em democracia ou ditadura, falam disso há décadas. Todos têm rigor e contenção, mas houve um que teve mesmo. E é considerado o pior Governo de sempre por causa disso. Não admira que ninguém o volte a fazer.

Governos criticados são a sina nacional pelo menos desde o Dr. João das Regras. Nunca se viu um executivo de quem a opinião pública tenha boa opinião e só será louvado anos depois, como argumento para atacar o sucessor. Mas há aqui algo errado. Ouvindo as opiniões comuns acerca da péssima qualidade das políticas e ministros, a única conclusão razoável é que Portugal está tão mal quanto o Zaire. Como constatamos que, mesmo com crise, somos mais ricos que a Coreia do Sul, alguma coisa falta na análise.

O motivo é que passamos a vida a procurar no lado errado. A capacidade da nossa sociedade e economia são espantosas e têm conseguido ao longo das décadas resultados únicos. Desta vez, perante o choque brutal da crise internacional e austeridade interna, de novo se estão a notar excelentes capacidade de ajustamento, flexibilidade e imaginação por parte das nossas famílias, empresas, trabalhadores e cidadãos. No meio dos sofrimentos fazemos maravilhas. Na taxa de poupança, balança externa, transformação sectorial, criatividade empresarial há efeitos rápidos e inesperados que, embora devidos ao choque e desespero, farão o País sair da crise. Só que ninguém nota por todos estarem fascinados com a dança nas cadeiras ministeriais.

Talvez o mais incompreensível seja encontrar tantos economistas que, esquecendo aquilo que aprenderam, se sentam à porta do Parlamento e ministérios, esperando daí o processo de desenvolvimento. Dado que o Estado tem de fazer dieta, é evidente para eles que a economia não poderá crescer, como se estivesse nas páginas do Orçamento a origem da dinâmica produtiva. Por isso boa parte das análises que ouvimos devem mais ao Conselheiro Acácio e Conde de Abranhos que a Adam Smith e Paul Samuelson. Os intelectuais portugueses continuarão a procurar a chave debaixo dos holofotes partidários. Felizmente a economia não espera por eles para arrumar a casa.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Não há pior "europeu" do que aquele que sempre se recusou a ver




Excerto de uma notícia no jornal SOL (sublinhados meus):

(...)

“Segundo o livro This time is different, de Kenneth S. Rogoff e Carmen Reinhart, docentes da Universidade norte-americana de Harvard, que analisa as crises financeiras passadas, só nos últimos 200 anos existiram, pelo menos, 250 falências de países, alguns deles várias vezes.

A História revela sempre dados curiosos. Desde 1800 até aos dias de hoje, Portugal entrou em incumprimento seis vezes, Alemanha e França oito vezes e a Espanha 13 vezes. Os espanhóis, aliás, foram os que mais processos de falência perante os seus credores registaram em todo o Mundo. Já países como os EUA, Canadá, Reino Unido, Holanda ou Suécia cumpriram sempre as suas obrigações perante os seus credores internos e externos.

Os dois autores estudaram ainda a duração da falência de um país, ou seja o número de anos em que este não pagou aos seus credores. A Grécia aparece em destaque com uma história de incumprimento único: desde 1839 até hoje, mais de metade destes quase 200 anos foram passados em default, adianta o estudo. No top dos campeões dos incumprimentos, segue-se a maioria da América Latina (40% dos últimos dois séculos em falência).

(...)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Entrevista a Carlos Pimenta...



... mas não o das "alternativas", recolhida aqui,  e cujo período final me abstenho de comentar:


Haveria tamanha crise se a União Europeia não andasse de abraços com o crime organizado, a fraude e a corrupção? E o que é que Portugal tem a ver com isso?
"Agora sabemos que é tão perigoso ser governado pelo dinheiro organizado como pelas máfias organizadas." Não, a frase não é atual. Quer dizer, atual até é, mas foi proferida em 1936 pelo Presidente dos EUA, Roosevelt, na ressaca da Grande Depressão. "É uma frase totalmente aplicável aos nossos dias", garante Carlos Pimenta, do Observatório de Economia e Gestão de Fraude da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (OBEGEF).
As palavras de Roosevelt podem até inspirar a conferência que o Observatório organizará, por estes dias, no Porto, com a "nata" do País e do estrangeiro no estudo e investigação da fraude e da corrupção. Afinal, "a crise que estamos a viver está muito ligada a situações dessas. Começou nos EUA, com o subprime, mas também é resultado das más políticas da União Europeia, promotora de medidas que, do ponto de vista científico, foram abandonadas há muitos anos", resume Carlos Pimenta.
Não se assuste, mas o resultado é este: "A Europa concentra hoje um grande número de off-shores e 'câmaras' de corrupção entre bancos sem qualquer registo de movimentos. É benévola para o crime organizado e comporta-se como um grande paraíso fiscal", resume o catedrático de Economia.
Faça-se um exercício sobre o desconhecido: quem reparou na adesão ao euro de países que não integram a UE e que, por vezes, nem nos lembramos que o são? Vaticano, São Marino, Kosovo e outros territórios constituem, segundo Carlos Pimenta, "o centro do tráfico internacional" e conquistaram o melhor de dois mundos: usam a moeda única, mas não respondem perante as leis europeias. "O dinheiro que ali circula fica automaticamente lavado." Não admira, pois, ver a Europa "extremamente vulnerável".
Portugal, galinheiro de serviço
Não sendo ainda um paraíso para as máfias, a verdade é que a moldura europeia, mais jeitinho menos jeitinho, cabe na perfeição a Portugal, país onde as raposas encontram sempre o galinheiro aberto, e à discrição, para se empanturrarem. Carlos Pimenta socorre-se da metáfora de Jean-François Gayraud - autor de diversas obras sobre fraudes e crime organizado - para ilustrar o nacional-porreirismo nestas matérias, conivente e irresponsável. "As crises e o endividamento do Estado geram situações de grande fragilidade. Degrada-se a situação social, abre-se a porta a negociatas", refere o economista. A estratégia de rapina é fácil e dá milhões: "As organizações criminosas não têm falta de liquidez. Além de facilitarem o crédito, tomam conta de empresas em situação difícil e dos negócios legais, através de jogos de influência e de branqueamento de capitais. As privatizações são um dos alvos", explica Carlos Pimenta.
Os sinais são variados e estão para durar. É "o cancro do off-shore da Madeira, onde Portugal só tem a perder". São as Parcerias Público-Privadas (PPP´s), "onde era bom saber quantas foram negociadas em situação de conflito de interesses". São os negócios entre Portugal e Angola, com "exemplos de uma relação pouco clara entre empresários portugueses e angolanos e onde a diplomacia secreta aparece em grande". Há tempos, em Luanda, Carlos Pimenta ouviu mesmo da boca de responsáveis da polícia económica angolana uma frase curiosa: "Disseram-se espantados com o facto de empresários falidos em Portugal serem um sucesso por lá." Por cá, valham-nos o Ministério Público e a PJ que, "mesmo sem recursos, têm sido extremamente corajosos. Nos últimos anos, foram trazidos a público e investigados casos que, noutros tempos, nunca viam a luz do dia".
Neste momento, de acordo com as estimativas de Carlos Pimenta, a "economia sombra" representa já 35% do PIB. Em 2007, o cenário corresponderia a uma pilha de notas de cem euros, quase do tamanho da Torre dos Clérigos. "Agora, são várias torres", ironiza.
Entretanto, "a comunidade pacífica de revoltados" de que falava Torga parece manter a fervura, sem levantar a tampa. Somos até "muito tolerantes com a fraude e a corrupção autárquica", sobretudo ao serviço da máxima "rouba, mas faz", mas continuamos impressionáveis quando o aparelho de Estado dá nas vistas. Os exemplos, esses, já não vêm de cima. "As revistas sociais alteraram o padrão de ética das pessoas", afirma Carlos Pimenta. "As referências, hoje, são tipos que vão à TV, alguns bandidos e vira-casacas." Tudo bons rapazes, portanto.
Elite nacional e mundial no Porto
Susan Rock-Ackerman, uma das maiores autoridades mundiais na área da fraude e da corrupção, e Friedrich Schneider, autor de um estudo sobre economia paralela na UE, são dois dos oradores da conferência Percepção Interdisciplinar da Fraude e Corrupção, organizada pelo OBEGEF e que decorre de hoje, 12, até sábado, 15. Na abertura do evento será divulgado o mais recente Índice de Economia Não Registada, da autoria do Observatório. Paula Teixeira da Cruz (ministra da Justiça) Cândida Almeida (diretora do DCIAP), João Amaral Tomaz (administrador do Banco de Portugal) e Carlos Tavares (presidente da CMVM), serão alguns dos oradores.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Qual desemprego?

[Comentário que deixei algures]

Não se pode afirmar se o desemprego sobe ou desce. O que se pode afirmar é que deixou de ser possível manter os empregos alimentados à custa do aumento de dívida.

Como nos antigos paraísos socialistas em que não havia desemprego, tudo era artificial pela simples razão de parte do emprego não corresponder à verdade da economia. Já sem a almofada do aumento exponencial da dívida, já não há forma de manter postos de trabalho que eram directa ou indirectamente suportados por esse dinheiro.

O que se passa neste momento é um retorno a realidade há muito tempo estabelecida mas disfarçada pelo dinheiro proveniente de empréstimos. Se para além disso há perca ou ganho em termos de emprego, é coisa que ainda ninguém aborda e é, provavelmente, difícil de saber até que se afaste, no tempo, o efeito do aumento de dívida (que, aliás, continua, mas muito atenuado).

quinta-feira, 12 de abril de 2012

João Cantiga Esteves no Jornal das 9 da SIC

Leis laborais
Não há crescimento há mais de uma década
O desastre do défice das contas públicas
60% dos trabalhadores têm apenas pré-escolar e básico
O desastre das políticas públicas de criação de emprego
Pagamos muito caro um estado quase contínuo de negação
É (era) insustentável reformar gente a partir dos 50 e tal
Não há dinheiro, nada poderá manter-se como está

 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Medina Carreira - Paulo Pinho - Electricidade (Eólicas) - OnO26

Mais uma via sacra que os portugueses terão que fazer. Com as energias "renováveis", José Sócrates meteu Portugal num autêntico Alcácer Quibir. A tralha eólica obriga o país a exportar quantidades colossais de dinheiro, lança sobre os portugueses uma insuportável despesa e, numa palavra, só dá prejuízo. 

E, .... ninguém vai preso?


Link directo: http://www.youtube.com/playlist?list=PL8BD05535DB4F3D16

Para inserir os 4 vídeos de uma só vez usar o seguinte código (substituir « » por < > ):
«iframe allowfullscreen="" frameborder="0" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/videoseries?list=PL8BD05535DB4F3D16&hl=en_GB" width="560"»«iframe»


Micro-empresas

Este vídeo encaixa que nem uma luva também na forma como os governos, o Estado português e a "europa" de há muito tem tratado as micro e pequenas empresas.


Urge libertar as micro e pequenas empresas da pata regulamentadora e burocrática do estado e da "europa". O que os pequenos empresários sabem é aquilo para que estão vocacionados e são impedidos de se dedicarem ao real trabalho porque passam a maioria do tempo atafulhados em questões que em nada estão relacionadas com o trabalho propriamente dito.

Via Era uma vez na America.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Do Buraco-mor

Obama foi um dos muitos que militaram no intervencionismo estatal no negócio do imobiliário que estoirou também no nariz dele.

 No poder, assegura ser capaz de "resolver" o problema que ajudou a criar aplicando receitas similares às que tinham acabado de dar raia. A esquerdalha mundial rejubilava de contentamento: finalmente alguém capaz de fazer vergar a espinha ao capitalismo desenfreado, neo e de casino.

Obama anunciou que tinha um plano, intervencionista (evidentemente) que pretendia fazer face ao período de recuperação que, quanto a ele, corresponderia à linha a azul claro. O seu plano, que permitiria re-encontrar o equilíbrio com menos dor, corresponderia ao caminho da risca azul escura.

A realidade, essa coisa que insiste em estar em permanente desacordo com as bússolas de futuros, foi a linha vermelha ...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Krugman Visitou o Congado; Causas e Omissões

Krugman visitou Portugal e recebeu o grau Honoris Causa atribuído por 3 - três - 3 universidades portuguesas.


Porquê?

1º Porque entre os defeitos dos portugueses está esta caraterística de lamber as botas a quem está na moda e junto ao poder. E alguém que tem uma coluna no NYT, ganhou um Nobel da economia e é socialista, está com certeza na moda e junto ao poder; claro que também está nos antípodas da razão, mas a razão não tem nada a ver com o caso;

2º Porque, segundo Krugman,
as long as we can borrow, were not broke, que se pode traduzir por “a pelintrice não é um defeito, é uma virtude, e se você não tem dinheiro para pagar o que deve e quer continuar a gastar mais do que recebe, fale com o seu Banco e peça outro empréstimo”. Um país em que os indígenas têm maioritariamente mentalidade de pelintra (termo popular para “novo-rico”) teria, necessariamente, de reverenciar o nobelizado autor de tamanha patacoada;

3º Porque Krugman é o mais mediático e persistente dos economistas keynesianos dos nossos dias, e Portugal é o mais notável e persistente dos países keynesianos dos nossos e dias, e les beaux esprits se rencontrent.


O que não se disse:

1º Não se disse que Krugman nunca foi capaz de prever a crise do excesso de crédito de 2008 cujas causas continuam a ser basicamente as mesmas que afetam atualmente as economias dos países ocidentais;

2º Não se disse que, nos EUA, a receita keynesiana (mais crédito e mais dinheiro impresso para “salvar” a economia) que Krugman advoga, está em plena aplicação e continua a encravar aquela que, por enquanto, é a maior economia do mundo.

3º Não se disse que o principal motivo que conduziu a economia portuguesa ao poço em que se encontra foi precisamente esta política keynesiana defendida por Krugman – aumento da despesa do Estado e endividamento dos particulares e do Estado para “estimular” a economia;

Não se disse que Krugman só agora descobriu que a adesão ao euro de países como a Grécia ou Portugal foi um erro. Claro que foi, mas quem é verdadeiramente competente na sua profissão não constata erros: prevê-os:

5º Finalmente, nos espaços noticiosos das TVs omitiu-se de forma intencional e manipulativa que, na opinião de Krugman, e em última análise, Portugal ganharia competitividade de modo mais indolor e assertivo através da saída do euro em alternativa a uma dolorosa redução de salários.


Para finalizar, confira imagens da festa de recepção da comunidade universitária de Lisboa a Paul Krugman.