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sexta-feira, 6 de março de 2009

Sobre o Irão

Quem manda em Teerão é o Guia Supremo,  Ayatollah Ali Khamenei, pelo que aquilo que ele diz numa frase é mais importante que todas as diatribes que Amadinejah disse, diz e dirá ao longo da sua vida. Na verdade Amadinejah e o seu governo de gente exaltada, apenas dizem aquilo que lhes deixam dizer.

Há dois dias Khamenei falou na 4ª Conferência de Apoio à Palestina, onde aliás estiveram presentes os indivíduos mais tenebrosos deste mundo, sem esquecer os companheiros “bolivarianos”.

O seu discurso, repleto de novilíngua, merece ser analisado.

Congratulou-se o Guia Supremo com as  “derrotas militares e políticas” infligidas aos “criminosos sionistas” em Gaza e no Líbano. Criticou os pragmáticos muçulmanos que aceitam a existência temporária da entidade sionista, por estarem convencidos de que Israel é forte demais, e atacou sem piedade os que sinceramente aceitam a possibilidade de coexistência pacífica com a entidade que há 60 anos “ocupa ilegitimamente” o território.

Disse que o Holocausto deve ser negado porque “serve como desculpa à usurpação da Palestina”, e reforçou a ideia de que a entidade sionista é um “tumor canceroso” com o qual não se deve negociar, como fazem alguns traidores, pelo que a única via de os muçulmanos alcançarem a vitória sobre a entidade sionista é a “resistência”. O discurso é longo mas o tom geral é este, condimentado com um indisfarçado ódio ao Ocidente.

Que se conclui daqui?

Khamenei é um homem inteligente, socializado num contexto político e religioso que valoriza o conflito, a vitimização (a palavra “islamofobia” foi inventada por Khomeiny) e o “martírio”. Como ele, milhões de iranianos. Se bem que não se possa jurar que o regime iraniano seja, ele mesmo, suicida, a maioria dos seus quadros, particularmente os dos poderosos Pasdaran, está imersa numa ideologia que assenta na agressividade imperialista (herança persa e islâmica) na vitimização e no “martírio” (herança islâmica).

Khameney não se dá ao trabalho de abrir a boca para produzir diatribes mediáticas, pelo que aquilo que diz descreve uma cosmovisão sólida e dogmática que não é alterável em função de manobras tácticas negociais, incentivos ou sorrisos, dos EUA e da Europa.

Os seus quadros de confiança bebem na mesma fonte:

O General Jaffari, Comandante dos Pasdaran, afirmou em 13 de Agosto de 2005 que “O Imã Khomeiny disse que a entidade sionista devia ser eliminada da face da terra. Ainda não pudemos concretizar esse objectivo. Mas devemos executar sem tardar esta vontade do Imã.”

Dois meses depois foi a vez de Ahmadinejad fazer a sua célebre declaração sobre riscar Israel do mapa.

O “moderado” Rafsandjani, actualmente no Conselho de Estado, disse em 14 de Dezembro de 2001 que “Uma bomba atómica será suficiente para destruir o regime sionista, ao passo que a resposta sionista apenas causará danos " .

O que nos leva ao problema do nuclear.

Muita gente entende que um Irão nuclearizado não será muito diferente do Paquistão ou de outros países na posse da bomba, e que se poderá lidar com ele com a clássica estratégia de dissuasão que foi utilizada com a URSS.

Ora isto é desconhecer a mentalidade milenarista que domina a elite iraniana.

Os soviéticos -  cantava Sting - “love their children too”. Não tenho dúvidas que muitos dos pasdarans também amam os seus filhos. Mas muitos há que agirão como qualquer suicida muçulmano que, na posse de uma bomba, procura com ela matar o máximo número de infiéis. É impossível controlar todos os milhares de fanáticos que alinham nos pasdarans, quando a mentalidade suicida domina os seus altos escalões. Na guerra com o Iraque esta gente lançou milhares de adolescentes voluntários à frente das tropas de assalto, para rebentar minas e saturar as defesas iraquianas.

Assim que estiverem na posse da bomba, os líderes iranianos desencadearão a mãe de todas as chantagens, sobre Israel, sobre o eixo sunita e sobre a Europa. Assumirão o papel de arautos do povo palestiniano e exercerão sobre Israel uma pressão insustentável. Não haverá equilíbro de terror com as 200 bombas de Israel, porque o universo mental dos pasdarans é o mesmo dos bombistas suicidas. Uma única bomba destruirá Israel, dada a extensão do país. A resposta israelita destruiria obviamente o Irão, mas os seus dirigentes estão prontos a sacrificar o país à causa islamista. 

Khomeini, disse-o em Qom em 1980: "Nós não adoramos o Irão, mas sim Alah…que esta terra arda se tal for necessário para que o Islão triunfe”.

Toda a gente sabe que este cenário é inaceitável e os árabes melhor que ninguém. Esta semana o Ministro dos Estrangeiros da Arábia Saudita instou todos os árabes a unirem-se para enfrentarem o “desafio iraniano”. Ontem mesmo, Marrocos suspendeu as relações diplomáticas com o Irão.

Israel e os EUA, cada um por seu lado, não podem também perder este desafio.

Israel arrisca a sobrevivência. A partir do momento em que o Irão tenha a bomba, o país ir-se-á esvaziando, porque mais tarde ou mais cedo ela será utilizada, e as pessoas sabem disso.

Os EUA jogam a sua liderança mundial. Um Irão fortalecido pela vitória política sobre os EUA, faria desabar a arquitectura de segurança americana no Médio Oriente e na Ásia Central, colocaria os estados árabes sob tutela (o Bahrain já é tratado como a 14ª província), desencadearia uma frenética proliferação nuclear e ameaçaria a supremacia do dólar.

Não tenho quaisquer dúvidas que o ataque já está planeado e poderá ocorrer nos próximos meses, a menos que o Irão inverta completamente o seu rumo, o que é pouco provável.

Militarmente não é complicado para os americanos, pese embora a retórica inflamada dos iranianos.

Para os ataques aéreos sobre a estrutura de comando, defesa aérea, unidades dos pasdarans, instalações nucleares, químicas e biológicas, etc., os aviões de 4 ou 5 porta-aviões, os mísseis de cruzeiro e os bombardeiros estratégicos são suficientes para fazer o trabalho. Mesmo uma ofensiva terrestre com 150 000 homens chegará facilmente a Teerão e aos locais a destruir, uma vez que a máquina militar iraniana não é adversário à altura. Obviamente não haverá ocupação, os americanos não podem atascar-se numa tal tarefa. Será entrar, destruir e retirar.

Seguir-se-á uma vaga de fúria antiamericana e anti-ocidental que poderá levar ao poder movimentos islamistas por todo o mundo muçulmano. Israel será atacado do Sul, do Norte e do Irão, e aproveitará para varrer o Hamas e o Hezbollah. Haverá muitos protestos e manifes dos habituais idiotas úteis, mas quando as redes terroristas às ordens de Teerão lançarem vagas de atentados um pouco por todo o mundo, como ameaçou o Gen Jayazeri dos Pasdaran, “Se os EUA atacarem o Irão, cada Estado americano deverá fazer face uma devastação semelhante à do Katrina”, os idiotas perderão alguma vontade de asneirar.

Muita gente encara as palavras dos líderes iranianos como meras fanfarronadas que não se deve levar a sério. Tal visão mostra o desconhecimento da psicologia totalitária: esta gente tende a fazer o que diz, como Hitler provou. Quando chegou ao poder, ingleses e franceses, em vez de levaram a sério a sua declaração de intenções, claramente explícita no Mein Kampf e nos vários discursos, pensaram que podiam “negociar” com ele.

Pessoalmente tenho poucas dúvidas de que nos aproximamos de um momento definidor.

E se os russos venderem o sistema S-300 ao Irão, o relógio começa imediatamente a bater.

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Guerras Milenares

A milenar luta entre o xiismo e o sunismo, atravessada por linhas étnicas entre árabes e persas, e complicada por relações de interesses entre aqueles que pretendem uma relação com o Ocidente e os que baseiam as suas legitimidades no ódio ao Ocidente está, segundo vários especialistas,  a decantar uma nova Guerra Fria, na região do Médio Oriente.

De um lado o Irão, a Síria, o Qatar (Al Jazeera), e grupos paramilitares no Líbano, Gaza, Iraque, etc.
Este grupo conta com a simpatia da Turquia de Erdogan, da América "bolivariana" e da  esquerda internacional.
Do outro o Egipto, a Arábia Saudita e os restantes países árabes.

Este é o antigo e grande conflito no Médio Oriente, disfarçado apenas pelo factor Israel.
Mas o jogo está a definir-se e as espingardas a ser contadas.

No início da semana 9 estados árabes (Abu Dhabi, UAE, Egipto, Arábia Saudita, Marrocos, Autoridade Palestiniana, Jordânia, Yemen, Bahrain e Tunísia)  reuniram-se no Abu Dhabi e foi clara e explícita a identificação da ameaça iraniana.

Para os próximos dias está agendada uma reunião do outro lado, desta vez na Síria, para celebrar a "vitória"  em Gaza, tendo sido convidados o Irão, o Qatar, o Hamas, o Hezbolah, a Turquia, e a  Venezuela.
Por enquanto a guerra é apenas de cimeiras..



quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Novilíngua

Na sua obra mais emblemática (1984) Orwell descrevia  o uso da novilíngua por parte do poder, com a finalidade de restringir os sentidos das palavras, impossibilitando deste modo pensar conceitos e ideias que, por ausência de palavras, seriam inexistentes. Controlando a língua, o poder controlava o pensamento e impedia o surgimento e difusão de ideias  “erradas”.

A apropriação de conceitos por parte de movimentos e ideologias totalitárias há muito que deixou o campo da ficção e saltou com grande facilidade para a  realidade.

Por exemplo, a  palavra “democracia”, foi alvo de tentativas de apropriação pelos partidos e regimes da esquerda  totalitária. 

A Alemanha que não era democrática, chamava-se a si mesmo "Republica Democrática Alemã", tal como de resto acontece com a "República Democrática da Coreia". 

Francisco Louçã afirma que quer combater a “democracia burguesa” e o Partido Comunista quando fala de “amplas liberdades” ou de “verdade” tem em vista exactamente o contrário daquilo que se entende por  liberdade individual,  e considera “verdade” não o que o é intrinsecamente, mas  aquilo que pode contribuir para fazer avançar a visão ideológica "certa", ou seja "verdadeira".

Os partidos islamistas, particularmente o Hamas e o Hezbolah,  levaram a novilíngua a um grau de superior sofisticação, facto  a que não deve ser alheia a espantosa identificação da esquerda mundial com estes grupos profundamente retrógrados e  fascistas.

Por exemplo, "vitória", no léxico destes grupos, significa simplesmente sobreviver.  Se num combate de boxe foste ao tapete em todos os assaltos, se  o adversário te massacrou e te deixou com a cara feita num bolo, desde que fiques vivo, podes clamar "vitória".

As baixas sofridas pela população no meio da qual se instalam, medem apenas a “capacidade de resistir” e na verdade  são até bem vindas, porque  provam o “genocídio” e o “holocausto”.

 A este propósito, veja-se como grupos de esquerda em Portugal tentaram apropriar-se do memorial que recorda a matança dos judeus de Lisboa, para justamente manifestarem o mesmo tipo de ódio ao judeu que motivou o progrom.

A própria palavra "sionismo", deixou de significar, para esta esquerda, o movimento que tinha como objectivo a formação de um Estado para os judeus na sua terra ancestral, para passar a ser sinónimo de uma ideologia maligna, permitindo aliás,  pela declaração de "anti-sionismo", verbalizar o velho ódio ao judeu, que de outra forma seria "impróprio" declarar.

Para esta nova aliança entre esquerda  e islamismo, "resistência” significa atacar Israel e os judeus,  e as abordagens racionais que alguns estados árabes tentam fazer são “traição” e “conivência” com  a “entidade sionista” ou a “ocupação”.

É este tipo de newspeak que permite a Khaled Mashal  garantir a partir do seu confortável buraco  em Damasco, que “ a resistência em Gaza está a correr bem , e a infraestrutura da  “resistencia” não sofreu grandes danos”.

Nesta estranha linguagem, a resposta isrealita  à "resistencia à ocupação" (lançamento de rockets)  é "agressão"  e até  "crime de guerra".

O facto de as populações (que supostamente a "resistência" devia proteger),  estarem a braços com uma situação dramática, não entra nos cálculos da “resistênca” que , de resto, se esforça bastante por filmar o drama com o maior requinte possível, para avivar o cromo da vitimização e lograr mais manifestações de “indignação” da esquerda mundial.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dissuasão

A operação israelita em Gaza, parece ter um objectivo simples : dissuadir o Hamas de preparar atentados, ou lançar foguetes sobre Israel.

Nenhum responsável falou em "destruir o Hamas", ou "destruir todos os lança-foguetes", objectivos evidentemente irrealizáveis a não ser que o Exército Israelita agisse com toda a força necessária, o que iria implicar a morte de dezenas de milhares de habitantes de Gaza. Isso está fora de causa.
A guerra é, sobretudo, um confronto de vontades. O que se procura destruir não é o inimigo, mas sim a sua vontade de combater, e os bons generais são aqueles que o conseguem sem sequer darem um tiro.

O Hamas terá cerca de 20 000 homens bem armados, provavelmente organizou o terreno e a defesa de modo similar ao Hezbolah, e tem milhares de lançadores para fazer desabar chuvas de mísseis sobre Israel.
Mas o simples facto de se possuir capacidade de ataque não leva necessariamente à sua activação.
No mundo real qualquer lingrinhas pode pespegar um soco no campeão mundial de boxe. Mas fazê-lo, implica a possibilidade de uma resposta e a expectativa da dimensão dessa resposta é normalmente suficiente para dissuadir a acção de um lingrinhas racional.
O Hezbolah tem também milhares de mísseis. E a Síria. E o Irão. Todos eles são capazes de fazer chover sobre Israel milhares de misseís por dia.
Mas não o fazem. Agitam a retórica, bramam inflamadas exortações à jihad, mas não lhes passa pela cabeça carregar no botão para traduzir as palavras em actos.
Porquê?
Porque temem a resposta de Israel.

Com o Hamas deverá acontecer o mesmo.
No fim desta campanha, haverá um cessar-fogo, Israel estará no mesmo sítio e Gaza também.
Mas a liderança do Hamas, ter-se-á tornado mais racional e pensará no mínimo 200 vezes, antes de se atrever a lançar um foguetezinho para Israel.
Como está a acontecer com o Hezbolah.

É esse o objectivo de Israel.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Hezbolah e Israel

Na década de 80, quando o poder da URSS parecia formidável, eu, então jovem tenente, frequentei no Regimento de Comandos um curso de Patrulhas de Reconhecimento de Longo Raio de Acção.
Tratava-se de um curso alemão, cujo conceito era simples:
-Na eventualidade de uma cavalgada blindada do Pacto de Varsóvia em direcção a ocidente, assumia-se que não era possível, face ao potencial relativo de combate, conduzir com sucesso uma defesa avançada, optando-se então por ceder terreno e defender em profundidade, numa malha de pontos fortes (povoações e zonas defensáveis) que canalizassem e abrandassem as colunas blindadas, desgastando-as e obrigando-as a desenvolver de forma a possibilitar contra-ataques pela manobra e pelos fogos.
Para trás das linhas inimigas, escondidas em shelters subterrâneos, ficariam numerosas equipas de 4 ou 5 homens, cuja missão principal era observar e reportar os movimentos soviéticos, podendo também conduzir acções directas, à ordem ou em alvos de oportunidade que não pusessem em causa a missão principal.
O curso era ministrado a tropas especiais alemãs e da NATO, e incidia essencialmente na capacidade de sobrevivência (as equipas estavam entregues a si mesmas, fora do alcance da cadeia logística), na camuflagem, no apurado reconhecimento visual de todo o equipamento do Pacto de Varsóvia e, acima de tudo, na capacidade de agir sem ordens específicas, face a situações inopinadas, mas dentro do conceito geral de operação.

A doutrina militar soviética (e de todos os exércitos que a copiavam) assentava no princípio da massa, e o calcanhar de Aquiles da sua máquina militar era a rígida organização vertical, que retirava toda a iniciativa aos baixos escalões e exigia a constante injecção de ordens vindas dos centros de decisão.
Este sistema assegurava a obediência total das tropas e o cumprimento rígido dos planos de operações, mas impedia a flexibilidade necessária para reagir imediatamente a quaisquer alterações no campo de batalha, porque a maioria dos combatentes não tinha uma ideia do conceito da manobra, e nem sequer saberia onde estava a combater
Não era um assunto de somenos, embora parecesse. Na realidade, era ele que marcava a diferença entre ganhar ou perder.

Na Guerra do Yon Kippur foi a capacidade de comandar à frente e tomar iniciativas mais depressa que o adversário, que salvou Israel de uma derrota que parecia certa e iminente. Nos Montes Golan os sírios, organizados segundo o sistema soviético, atacaram massivamente em Outubro de 1973 com 1400 carros de combate, apoiados por fogos de aviação e de mais de 1000 peças de artilharia, ao longo de uma frente de menos de 50 Km. À sua frente apenas duas brigadas com 170 carros de combate apoiadas por menos de 100 peças de artilharia. Ao fim de 3 dias de combates, as forças israelitas estavam reduzidas a cacos e a derrota parecia inevitável mas, enquanto os sírios paravam para reagrupar e reorganizar, remanescentes de unidades israelitas lançavam, por iniciativa própria, contra-ataques localizados e montavam letais emboscadas anticarro que destruíram dezenas de carros sírios. Eram manobras tácticas de pequeno alcance, mas as forças sírias no terreno não percebiam o que se estava a passar, não tinham ordens adequadas à situação e não tinham iniciativa para reagir de forma adequada. Quando as informações, tardias e filtradas pelo canal hierárquico, chegavam ao Estado-Maior sírio, eram interpretadas como alteração dos pressupostos do plano o que obrigava à emissão de ordens cujo efeito foi um progressivo abrandamento da ofensiva que acabou por deter-se e converter-se em retirada geral, face à chegada de reforços acabados de mobilizar.

Na frente sul, a Divisão comandada por Ariel Sharon, agindo muitas vezes por iniciativa própria, logrou atravessar o Canal do Suez, cercar o 3º Exército egípcio, e só não entrou na cidade de Ismaília porque o cessar-fogo o impediu.
Sharon acabou por ser destituído do cargo, mas a verdade é que a iniciativa local, se bem que tenda a ser sempre contrariada no seio de organizações rigidamente hierarquizadas, demonstrou virtualidades que foram cabalmente compreendidas pelo Exército americano, cuja doutrina evoluiu no sentido de a incluir em todas as operações. As próprias ordens de operações passaram a incluir o conceito de operação do comandante e a intenção da operação, e a ser menos pormenorizadas nas missões específicas e nas instruções de coordenação. Diz-se o que fazer e nunca como se deve fazer.
Na verdade, a flexibilidade táctica foi sempre a melhor arma dos israelitas face à obesidade burocrática dos exércitos árabes.
Porém em 2006, no Líbano, este paradigma parece ter mudado e o Hezbolah combateu Israel utilizando conceitos que raramente haviam sido vistos em organizações militares árabes.

A guerra começou com um ataque cuidadosamente planeado a uma patrulha israelita, com o objectivo de capturar soldados para os utilizar como moeda de troca.
A reacção israelita não foi a que o Hezbolah esperava, mas os 33 dias que se seguiram mostraram um Hezbolah muito bem preparado, agarrado a pontos fortes estabelecidos nas povoações, com unidades actuando sem ordens especificas, e com shelters profundos, dissimulados e disseminados no terreno, de onde emergiam pequenos grupos de homens e de onde eram lançados foguetes sobre Israel, mesmo depois da infantaria israelita os ter ultrapassado. Um tipo de guerra que remete irresistivelmente para o plano alemão dos anos 80.

O terreno não é obviamente igual às grandes planícies alemãs. Na zona a sul do Rio Litani , é enrugado, rochoso, cortado por numerosas linhas de água e com abundante vegetação arbustiva, uma espécie de maquis que dificulta a progressão e facilita a ocultação. Um terreno parecido ao que podemos ver em largas partes do nosso território. A maioria da população é shiita e vive numa densa malha de pequenas povoações encavalitadas nas colinas. Este tipo de terreno permite as progressões apeadas, mas dificulta as grandes manobras blindadas e mecanizadas, canalizando as viaturas para óbvios e estreitos eixos de aproximação, que o Hezbolah minou intensivamente. Um bom terreno para defender, um bom terreno para infantaria , que o Hezbolah, entre 2000 e 2006, preparou minuciosamente, construindo posições de combate fortificadas e complexas, aptas a aguentar-se durante semanas. Israel sabia que havia bunkers espalhados pelo terreno, mas não tinha uma ideia precisa da sua localização, sofisticação e dimensão. Um deles tinha sido construído em completo segredo a apenas 20 metros de uma posição da UNIFIL, que de nada se apercebeu.
O facto de o Hezbolah ter usado as povoações como pontos fortes, motivou os israelitas a abandonar a manobra blindada, e a desmontar para atacar, perdendo as vantagens do movimento, do choque, da protecção e diminuindo a décalage tecnológica.
Prevendo a impossibilidade de reabastecimentos devido à supremacia aérea israelita, o Hezbolah disseminou pelo terreno, centenas de paióis e paiolins e estabeleceu sistemas telefónicos fechados e seguros.
Numa guerra com uma vertente psicológica muito apurada, o Hezbolah não poderia apenas defender, até porque os israelitas talvez nem sequer se dessem ao trabalho de atacar directamente as posições defensivas. Tinha de ter capacidade ofensiva que obrigasse os israelitas a ir ao terreno. Preparou por isso centenas de abrigos para os seus mísseis que, ao longo do conflito, foi disparando a uma taxa regular, procurando passar a ideia de que a acção israelita não estava a obter qualquer resultado.
Os lançadores e as respectivas guarnições estavam protegidos em abrigos de betão armado, debaixo do solo e subiam e desciam com a ajuda de elevadores pneumáticos.

Para além de milhares de milicianos, o Hezbolah tem um núcleo duro de soldados profissionais, bastante bem treinados e aptos a manusear armas avançadas. Organizam-se geralmente em pequenas unidades de 5 a 10 elementos, capazes de operar de forma independente por razoáveis períodos de tempo, mas em contacto com os decisores, através de um elaborado sistema de comunicações filares e TSF. O sistema filar está agora ser estendido à escala nacional, e é tão importante para o Hezbolah, que foi justamente uma das causas das confrontações que varreram o Líbano em 2008, quando o 1º ministro o quis controlar.
Os aspectos mais significativos desta organização são a elevada autonomia dos comandantes nos baixos escalões e a inexistência de uma pesada cadeia logística durante as operações.
Ou seja, exactamente o contrário daquilo que sempre caracterizou os exércitos árabes, e a demonstração cabal de que o Hezbolah estudou as doutrinas tácticas ocidentais e de Israel.
Foram estas características novas que surpreenderam os israelitas em 2006.

Em termos de armamento, um dos tradicionais handicaps das milícias ou de exércitos improvisados é a incapacidade para obter o rendimento óptimo de sistemas de armas mais avançados. Qualquer pessoa pode aprender a disparar uma espingarda em poucos minutos, (embora para a usar com eficácia sejam necessárias algumas horas), mas o mesmo não acontece com artilharia, morteiros e mísseis anticarro por exemplo. Os dois primeiros necessitam de guarnições treinadas e aptas a fazer cálculos de trajectórias e os mísseis guiados exigem uma prática aturada, uma vez que não basta carregar no gatilho. Para além disso, municiar estas armas é uma tarefa logística complexa dada a dimensão, o peso e a periculosidade dos projécteis
O Hezbolah mostrou possuir e saber usar com eficácia um abundante e sofisticado arsenal, desde a clássica Kalashnikov ao míssil anticarro russo AT-14 Kornet, passando por vários tipos de mísseis e foguetes balísticos, SS e SM com alcances entre os 20 e os 200 km.
A descrição que um oficial israelita fez do Hezbolah como “uma Divisão de Comandos iraniana”, não peca por exagero

Face à inesperada reacção israelita, cujos objectivos foram claramente expostos (destruir o Hezbolah, impedir o lançamento de foguetes e libertar os soldados capturados), o Hezbolah reajustou a sua missão com bastante rapidez, definido os pressupostos de “vitória” : negar aos israelitas os seus objectivos. Para isso era necessário sobreviver, causar o maior número possível de baixas pela usura, e manter o lançamento de mísseis sobre Israel.

O ataque israelita partiu de um conceito claro que recusa a lógica dos proxies, isto é, um ataque a partir de um Estado soberano, por grupos que nele têm guarida, é um acto de guerra. Assim sendo, a reacção israelita alcançou todo o Líbano, o que terá chocado o próprio Nasralah que admitiu que se soubesse que Israel iria reagir assim, teria pensado duas vezes.
Em termos estratégicos, a reacção israelita foi bem urdida porque logrou surpreender o Hezbolah. Mas em termos tácticos, a história foi outra e as unidades israelitas agiram com a lentidão que convinha ao Hezbolah.
O comando israelita, ignorando ainda o grau de fortificação do inimigo, acreditava que a força aérea seria suficiente para destruir o Hezbolah, mas os cinco dias que passaram até os soldados meterem as botas no chão, permitiram, ao Hezbolah recuperar da surpresa, adaptar os seus próprios planos e organizar a defesa a partir dos pontos fortes nas povoações.
Israel, em vez de avançar impetuosamente para o Rio Litani, ultrapassando as defesas ainda mal estabelecidas e deixando-as para trás, agiu como um meticuloso burocrata, tratando de conquistar laboriosamente cada uma das posições fortificadas. Exactamente o contrário do que os panzers alemães fizeram na França, Sharon no Sinai e os americanos no Iraque. Mesmo no fim da guerra, uma unidade blindada israelita perdeu vários carros de combate, porque recebeu ordens para voltar para trás e, quando algumas horas depois a mandaram avançar novamente, já o Hezbolah tinha montado no percurso uma gigantesca emboscada anticarro com dezenas de Kornets.
Prender o exército israelita a miríades de pequenas batalhas por vilórios sem importância, era exactamente o que convinha ao Hezbolah
Tanto os israelitas como os soldados do Hezbolah combaterem bem, mas isto foi uma novidade para os israelitas, cuja infantaria, nos últimos anos, não tinha efectuado treinos para este tipo de inimigo e neste tipo de terreno.
Claro que a organização descentralizada não tem só vantagens. O apoio mútuo é precário, a defesa tende a tornar-se estática, e um adversário bem treinado pode explorar isto em seu benefício. A força combate de forma óptima durante um determinado período de tempo, mas é incapaz de sustentar o esforço para além de um limite, o que ajuda a explicar a ansiedade com que o Hezbolah e os seus patronos exigiram o cessar-fogo.

O uso intensivo de foguetes contra áreas edificadas, foi um sucesso psicológico, mas um fracasso estratégico, porque não logrou o objectivo de quebrar a moral da população israelita. Isto, acrescido ao facto de o Hezbolah não ter conseguido que um único míssil de alcance intermédio atingisse Israel (dezenas de lançadores de Fajr e Zelzal foram destruídos em apenas meia hora pela força aérea israelita) terá sido devidamente anotado pelo Irão e pela Síria, que dependem exclusivamente destes sistemas para confrontarem Israel.

Em suma, o Hezbolah sobreviveu e tem toda a legitimidade para se ufanar do desfecho da guerra.

Os israelitas tiraram ilações muito importantes e certamente que, conhecida a forma como são capazes de estar um passo à frente, estão já a preparar as tácticas e as estratégias que lhe permitirão derrotar e vencer um inimigo que é agora minuciosamente conhecido e tende a ser imitado pelo Hamas.

O Hezbolah consolidou tácticas. Nos últimos meses há notícias de intensos trabalhos de organização das povoações (zonas que a ONU não tem mandato para inspeccionar) e é facto assente que novas linhas de bunkers estarão a ser escavadas, e apetrechadas com abrigos profundos para homens e armas.
Não é difícil prever que o Hezbolah irá enterrar também os lançadores de mísseis de alcance intermédio, apostar na massificação dos mísseis anticarro e tudo fará para limitar a supremacia aérea israelita, com a aquisição e distribuição de mísseis antiaéreos de fabrico russo.
Será um adversário temível, se Israel lhe der combate nos termos que ele pretende.
A solução está, como sempre desde os tempos de Belisário, na velocidade, na iniciativa, nas manobras indirectas, sem esquecer a inovação tecnológica, as protecções activas anticarro e um sistema que neutralize o impacto psicológico da chuva de foguetes (Sistema Iron Dome).

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Pena de morte

Israel cumpre hoje uma jornada dolorosa, recebendo dois cadáveres de soldados do seu Exército e entregando em troca 5 terroristas condenados a prisão perpétua, acrescidos dos cadáveres de umas centenas de outros. Para além da desproproção que se revê na simples contabilidade, importa sobretudo o princípio de que não se trata de uma convencional troca de prisioneiros de guerra entre Exércitos que se regulam pelas regras da Convenção de Genebra, mas sim da cedência a uma organização terrorista.
O Hezbolah, bem como outras organizações do mesmo tipo, age deliberadamente à margem da Convenção e esta troca acaba por ser uma derrota para Israel, porque premeia um comportamento que Israel sempre considerou inaceitável.

Na base disto tudo está o facto de Israel não ter pena de morte. Se terroristas como Kuntar, condenados a prisão perpétua, tivessem sido executados há muito tempo, não haveria incentivo para que o Hezbolah e o Hamas procurassem tão esforçadamente capturar soldados israelitas em operações que são sempre extremamente difíceis e implicam a perda de muitos dos seus operacionais.
Porque o que motiva estas organizações terroristas não é a vida dos seus homens , mas sim as vitórias da propaganda.
Enquanto Israel não restaurar a pena de morte para crimes terroristas e mantiver os criminosos na cadeia, haverá sempre motivação para casos como este.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Algumas palavras de Chomsky..


Na sequência desta postagem do lidador, trago-vos algumas palavras de Noam Chomsky, retiradas do seu livro "What we say goes":

"What about Hezbollah? First of all, as far as rockets are concerned, the United Nations (UN) keeps very careful records of what happens on the Israel-Lebanon border. The UN has registered hundreds of Israeli border violations, overflights, sonic booms, and other actions on essentially a daily basis."

"Hezbollah´s position is that it does not regard Israel as a legitimate state. It doesn`t think that Israel ought to exist. However, Hassan Nasrallah, has said repeatedly that Hezbollah will accept whatever the Palestinians accept. If the Palestinians accept a two-state settlement, Hezbollah won`t like it, but they will accept it. Incidentally, the Iranian position is exactly the same."

"(Ali Khamenei declared): (...) normalization of relations with Israel in a two-state settlement on the international border, in other words, the international consensus. (...) The only two major actors that do not accept this consensus are the United States and Israel."

"The issue of Hezbollah`s weapons goes back to the question: Does Lebanon deserve to have a deterrent to U.S.-Israeli aggression? The current invasion of Lebanon is the fifth in the last thirty years. Every one has been disruptive and violent. One of them (...) probably kills twenty thousand people. So, do they have a right to a deterrent? If nobody has a right to a deterrent against U.S.-Israeli aggression, the answer is clear: they don`t. The United States and Israel are allowed to invade anyone they like."
Noam Chomsky - "What we say goes", interviews with David Barsamian

Beirute

Em relatório ao Conselho de Segurança, há uns meses, o Secretário-Geral da ONU já havia dado conta de que estavam a ser transferidas para o Hezbollah grandes quantidades de armas a partir da Síria.
Tratava-se de uma ostensiva violação da Resolução 1701 e , segundo o Sr Ban, a situação poderia escalar e conduzir a uma corrida generalizada às armas e a novas confrontações.
O Sr Ban pedia ao CS que adoptasse medidas urgentes para vigiar a fronteira com a Síria, mas não houve consenso.
No terreno o Hezbolah continuou a reabastecer-se e a instalar infraestruturas autónomas, dando-se até ao luxo de, há dias, ter ordenado a tropas da ONU que não metessem o nariz num carregamento de armas.
Assim sendo, a Síria, o Irão e o Hezbollah têm continuado a preparar a próxima guerra, sendo certo que escolherão desencadeá-la quando entenderem oportuno, e sabendo que quando isso acontecer, multidões de idiotas úteis por essa Europa fora, irão fazer manifes a defender a "resistência do Hezbollah" e a condenar a força "desproporcionada" de quem quer que lhe faça frente, principalmente se forem israelitas
O folclore será o habitual e não será de estranhar que a nova aliança entre a esquerda e o islamofascismo faça novamente das suas, com o Dr Miguel Portas a deslocar-se a Beirute para beijar o rabo "resistente" do Sr Nasralah, provavelmente acompanhado pela Srª Ana Gomes, muito bela e elegante numa burga azul celeste, em respeito total pela cultura islâmica e nulo respeito pela sua própria cultura e dignidade.
De ontem para hoje, as coisas agravaram-se em Beirute. Nasralah fala abertamente em guerra.
Está de papo cheio e flecte os músculos.
Irá haver guerra...se não for já, outro dia será.
O palco prepara-se!

segunda-feira, 17 de março de 2008

As raízes ideológicas do islamismo-Mawdudi e o Hezbollah

Um dos principais assuntos deste blogue é o choque entre o islamismo, enquanto ideologia e praxis político-social, e a democracia liberal, entendida na sua forma mais lata como o sistema formal no qual assentam os valores que definem a chamada “Civilização Ocidental”, isto é, o individualismo, o Estado de Direito, a liberdade individual, etc.
O islamismo não é apenas uma sucessão de conflitos surgidos no rescaldo de uma imaginária “luta de classes” à escala mundial, como parece entender uma certa esquerda formatada nas interpretações marxistas do mundo; não é também o resultado de nenhuma “justa luta”, contra as injustiças e o Bush e o “neoliberalismo”, como argumentam alguns indivíduos mais dados à casuística do seu horizonte imediato; muito menos se trata de uma “reacção” ao “problema palestiniano” e às “atrocidades israelitas”, como garantem os velhos anti-semitas e os novos “anti-sionistas”.

Não, o islamismo não é essa espuma.
O islamismo é uma ideologia coerente com uma base intelectual bem definida.
Os seus mais importantes ideólogos foram o paquistanês Sayyid Mawdudi (1903-1979) e o egípcio Sayyid Qutb (1906-1966) que estão para o islamismo, como Marx e Engels para o marxismo.
Darei conta das suas doutrinas ao longo de próximos postes.
São postes menos ligeiros, mas que podem ajudar à compreensão do fenómeno, para quem estiver interessado em olhar não apenas para as simplificadas narrativas do fast-food politicamente correcto.

Começo por Mawdudi,
Mawdudi
escreveu, entre outros, o incontornável livro “O Modo de Vida Islâmico” (1948).(Sayyid Mawdudi, The Islamic Way of Life, Leicester, The Islamic Foundation,1986)
Nesse livro começa por dizer que “A característica mais importante do Islão é que não faz distinção entre o espiritual e o secular. O seu objectivo é configurar quer as vidas individuais quer a sociedade no seu conjunto, de forma a assegurar que o Reino de Alá possa ser efectivamente estabelecido na terra e que a paz e a felicidade, possam preencher o mundo”.

Esta ideia absolutamente incompatível com os valores ocidentais, não surge de geração espontânea na cabeça de Mawdudi. Todos os islamistas se esforçam sempre por fundamentar no Corão as suas ideias e Mawdudi remete para surata do «Arrependimento» (9: 111):
“Alá comprou aos crentes as suas almas e as suas riquezas porque lhe pertence o Paraíso: combatem na senda de Alá e matam ou são mortos. É uma promessa d´ Ele [...] Alegrai-vos pelo contrato que com Ele haveis concluído!”

Para Mawdudi este versículo configura a relação de Alá com o indivíduo. O contrato estipula que Alá compra a vida e a propriedade dos crentes, em troca da recompensa do Paraíso, após a morte. É um pacto com importantes consequências: desde logo a ideia de que tudo pertence a Alá e que o homem não é sequer dono de si. Com o pacto, Alá apenas pretende que o indivíduo reconheça voluntariamente a sua subordinação, condição sinequanon da eterna felicidade.
A pessoa que faz tal contrato é um crente. Quem o recusa é um infiel. Quem o denuncia é um apóstata.
O modo de vida islâmico, segundo Mawdudi, abrange a esfera privada e a esfera pública. Daí que as repercussões políticas ultrapassem a mera crença pessoal e privada, razão pela qual a ordem política deverá ser uma clara manifestação da soberania de Deus
Porquê?
Porque, garantia Mawdudi, sem o Estado Islâmico, o Islão nunca será completamente implementado e tenderá a ser marginalizado.
Ao longo do tempo, Mawdudi interpretou cada vez mais a fé como um processo na procura de uma ordem virtuosa onde a umma, a comunidade dos crentes, se converteria no Hezbollah, partido de Deus, organização da verdadeira fé.
«O nosso partido não é um partido de intelectuais ou de missionários religiosos. É um partido de soldados de Deus. Por isso, este partido não tem outra opção se não tomar o controlo político» . (Sayyid Mawdudi, op. cit. ant. pag.13.)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Líbano-Warm up

Na semana passada Nasralah, emergindo fugazmente do esconderijo onde está condenado a viver o resto da sua vida, garantiu aos seus apoiantes que o “desaparecimento de Israel é um facto estabelecido”.
A retórica inflamada de Nasralah, cópia fiel dos estribilhos repetidos por Amadinejad, denuncia a fúria do Hezbolah.
Fúria pela incapacidade de derrubar o Governo de Siniora, objectivo que julgou ser fácil de conseguir, já lá vai mais de um ano, e fúria pela execução do notório terrorista Imad Mughniyeh.
O boicote à eleição de um novo Presidente, está a fazer passar para a opinião pública libanesa e árabe, a ideia de um Hezbolah completamente enfeudado ao shiismo iraniano, varrendo a imagem cuidadosamente cultivada ao longo de anos, de um movimento de “resistência patriótica” contra os pérfidos “sionistas”
O caso Mughniyeh, tornou clara a subordinação do Hezbolah aos interesses iranianos. Durante muitos anos, o Hezbolah negou vigorosamente quaisquer ligações ao terrorista, ideia que fez o seu caminho na imprensa árabe, mas a fúria com que assumiu as dores de corno da sua morte, limpou a névoa da propaganda e os média árabes têm sido férteis, nos últimos dias, nas revelações sobre as íntimas ligações entre Mughniyeh, o Hezbolah e o Irão. Por exemplo, o treino de terroristas iraquianios do Exército Mahdi, e o apoio a grupos shiitas em vários países árabes, actividades coordenadas pelo feliz falecido, com meios humanos e materiais da Força “Quds”, da Guarda Revolucionária Iraniana.
A recente retórica de Nasrallah, tem de ser vista como tentativa de galvanizar uma população que não está muito virada para voltar a servir de escudo humano e que, segundo a France Press, não se coibe de dizer que está farta de guerras e quer viver em paz e tratar da sua vida.
Nasralah precisa de sair do buraco e voltar a aparecer como o “resistente- que-defende-o-Líbano-da-agressão-sionista”.
Tendo-se rearmado, uma nova escalada guerreira com Israel, seria uma bela oportunidade, e a tentação deve ser grande.
E não será especialmente difícil, bastando lançar 3 ou 4 vólleys de Katiuschas sobre o Norte de Israel. O problema é que ele sabe que desta vez Israel terá forçosamente de ir até ao fim e não se deterá enquanto não tiver reduzido o Hezbolah a entulho, por grande que seja o clamor da indignação muçulmana e dos sectores anti-semitas de todo o mundo, incluindo o Dr Miguel Portas que, ao que se sabe, continua apaixonado por Nasralah.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Menos um..


Morreu ontem um dos tipos mais procurados pela Mossad, pela CIA, pela Interpol e pelo FBI. Chamava-se Imad Fayez Mughniyeh, pertencia aos bons e puros quadros do Hezbollah e foi responsável por uma série de raptos, desvios de aviões, atentados, assassinatos e outros acontecimentos diversos, que geralmente acabavam com avultados números de mortos.

O homem parecia um tipo duro de roer, pois figurou na lista dos mais procurados do FBI durante muitos anos. Era considerado um dos mais inteligentes operacionais das dignas forças de defesa do movimento Islâmico.

Não demorou muito para Mughniyeh recolher os louros de tão árduo trabalho desempenhado durante grande parte da sua vida. Aliás, ele foi considerado pela Al-Manar (televisão do Hezbollah), como um dos "maiores jihadistas da resistência Islâmica". Creio, portanto, que a esta hora o tipo está bem melhor do que eu: 70 virgens, boa comida, boa bebida, divertimento, enfim, boa vida. O profeta era incapaz de cometer a desfeita de não lhe conceder uma entrada VIP no reino dos céus.

Surpreendentemente, nem Israel nem os Estados Unidos da América reivindicaram um acto que foi considerado pelo governo Libanês como sendo "terrorista". No entanto, a Al-Manar já avançava que tinha sido um atentado perpetrado pelos serviços secretos Israelitas, ao mesmo tempo que a Mossad negava ser a responsável pelo atentado. Creio, cá com os meus botões, que Israel não teria qualquer tipo de problemas em assumir, caso tivesse sido o autor do ataque, que o tinha feito. Para comprovar esta tese, basta ver as reacções dos Estados Unidos da América, de Israel e da comunidade Internacional em geral. Todos, de certo modo, "aplaudiram" a morte de um dos mais perigosos cérebros do fundamentalismo armado Islâmico, negando, ao mesmo tempo, a autoria do mesmo.

O que é certo é que
Mughniyeh morreu, não se sabendo, portanto, quem o matou. Eu cá arrisco-me a dizer que, pela complexidade do atentado, este foi planeado pelo próprio Hezbollah, ou por uma outra organização adjacente. Por muitas possíveis razões: luta de poder dentro da organização; ideias divergentes dentro da mesma; velhice; ou outras.

Não é habitual verificar-se no modus operandi Israelita este tipo de operações, embora, possivelmente, possa ter existido um ou outro caso em que isso tenha ocorrido. Não descarto, portanto, que o atentado tenha sido executado pelos serviços secretos Israelitas.

A morte de Fayez foi prontamente utilizada pelo Hezbollah para reavivar o ódio que borbulha no Líbano, na Faixa de Gaza, na Jordânia, na Síria, e noutros países Islâmicos. Prometeram, desde logo, vingança e um regresso à guerra do Verão de 2006, que consideram inacabada.

Guerra aberta espera-se, segundo Nasrallah.

Espero por essa tal Guerra aberta. Mas é melhor não esquecer que Israel raramente falha duas vezes.