Caros confrades da revista SIBILA*
Tomei conhecimento, por leitura recente, da polémica que vem acontecendo a propósito de um texto sobre Augusto de Campos (creio que digo bem) da autoria de Luis Dolhnikoff e que despertou situações bravas...
Não vou referir-me ao cerne da questão, pois só posso aquilatar pela rama.
Mas gostaria de dizer que essas polémicas, no fundo, são produtoras de luz - uma vez que purgam os maus humores do que esteja eventualmente errado, tendo em vista a existencia salubre.
Muito diferente é o que se passa em Portugal, onde um espesso manto de silêncio vem cobrindo tudo. Os donos da aparelhagem literária/literata conseguiram criar por aqui um simulacro de "serenidade mansa e doce", em que não há sobressaltos nem pendências. E os que acaso se atrevem a tentar dizer que algo está mal, que alguns reis vão nus, são de pronto silenciados para que não causem danos eventuais à "panelinha" a que aludiu com perspicácia Eça de Queirós.
Aí haverá coisas pouco amáveis. No entanto, aqui, caminha-se a passos largos para um indubitável cripto-fascismo.
Com o selo da unanimidade e da falsa cortesia!
Saudações do
nicolau saião
*(“SIBILA - revista de Cultura”, é editada no Brasil e nos Estados Unidos e dirigida por um núcleo de autores e professores tendo no lugar de topo o juiz de Direito e escritor Régis Bonvicino).
It is quite gratifying to feel guilty if you haven't done anything wrong: how noble! (Hannah Arendt).
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terça-feira, 29 de maio de 2012
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Liberdade, igualdade, normalidade
Alberto Gonçalves, a 13 de Maio, no DN:
Enquanto obedece à tradição local e enche a boca de fanfarra
nacionalista para falar de "la France", François Hollande gosta de se
proclamar "um homem normal". A imprensa, por lá e por cá, gostou do
auto-retrato e, decerto para evitar canseiras, desatou a usá-lo com abundância nas
manchetes da vitória: "uma presidência 'normal'"; "um senhor
'normal' no Eliseu"; "a vitória de um homem 'normal'", etc. O adjectivo
define menos o sr. Hollande do que a concepção que o sr. Hollande e, pelos
vistos, boa parte dos jornalistas têm da normalidade.
Basta espreitar o currículo do sujeito. Em 1974, ainda
estudante universitário, o sr. Hollande voluntariou-se para a campanha de
François Mitterrand. Mal se licenciou, conseguiu emprego numa comissão
governamental. Aos 25 anos, inscreveu-se no Partido Socialista. Aos 27,
concorreu ao Parlamento nacional. Não ganhou, mas viu o esforço recompensado
com um cargo de conselheiro do então recém-eleito Mitterrand. Em 1983 foi
vereador de uma cidadezinha do interior e, em 1988, chegou enfim a deputado,
posto que perdeu em 1993 e recuperou em 1997. Pelo meio, divertiu-se em tricas
partidárias e Lionel Jospin escolheu-o para porta-voz do PS. Nem de propósito,
em 1997 tornou-se líder do PS, honra que lhe caberia por mais de uma década. Em
2001, pairou pela autarquia de Tulle. Desde 2008, o sr. Hollande prosseguiu o
tirocínio numa presidência regional. Agora, é presidente da República.
Um homem normal? Normalíssimo, se a palavra definir as
criaturas que passam a vida inteira sem, digamos, trabalhar. Esta linha de
pensamento olha de viés os que algum dia arriscaram colocar o pé fora da
política e experimentaram uma profissão a sério. O sector privado é coisa de
excêntricos e, convenhamos, de excêntricos pouco confiáveis. Na França e aqui,
o Estado é a norma.
As ideias do sr. Hollande também são normais. Naquilo que
nos toca, conheço-lhe uma: a austeridade é má. E não custa nada encontrar gente,
igualmente normal, que partilha a opinião. Só em Portugal, Francisco Louçã
reclama o fim da austeridade, Mário Soares jura que a austeridade não faz
sentido e António José Seguro, que naturalmente tomou o triunfo do sr. Hollande
a título pessoal, acha a austeridade excessiva e dispõe-se a sair à rua em
protesto.
É inacreditável como é que ninguém se lembrou disto antes.
Afinal, a solução não passa por apertos que nos atormentam a bolsa e a
existência: passa, obviamente, pelo crescimento, definição lata para a
estratégia que consiste em gastar acima das possibilidades, viver de prometidos
mundos e fundos, contemplar a descida das promessas à Terra, acumular dívida,
rebentar com estrondo e atribuir a culpa de tudo às agências de rating, à sra.
Merkel e, grosso modo, ao capitalismo selvagem.
Para surpresa de uns poucos (muito poucos), a solução dos
problemas implica o regresso ao estilo descontraído que alimentou os problemas.
E se a solução talvez não seja o sr. Hollande, entretanto já empenhado em desmentir
os delírios de campanha e prevenir os franceses para as maçadas que os esperam,
é garantido que a solução virá, no mínimo espiritualmente, de França. Chama-se
José Sócrates e é, para sermos educados, outro homem normal.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
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