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sexta-feira, 5 de julho de 2013

O EGITO E O FRACASSO CIVILIZACIONAL DO ISLÃ


1.


O óbvio será dito e redito sobre o recente golpe militar no Egito: que um golpe é um golpe, e que todo golpe contra um governo democraticamente eleito é antidemocrático. É óbvio, mas não necessariamente verdadeiro.


Um governante não recebe um selo de qualidade democrática de validade automática e perene. Para ser democrático, um governo deve ser constituído de forma democrática e governar de forma democrática. Mas a segunda parte da equação é sempre convenientemente esquecida pelos defensores abstratos da democracia, ou pelos defensores da democracia abstrata, sem nexos com os fatos. É então enfadonho mas necessário relembrar que Hitler foi eleito.


Se a eleição não é suficiente para garantir o caráter democrático de um governo, chega-se à conclusão lógica, apesar de aparentemente paradoxal, de que nem todo golpe contra um governo democraticamente eleito é antidemocrático. Na Turquia, por exemplo, durante o século XX, o exército deu uma série de golpes visando proteger a república e a democracia de ameaças teocráticas. E aqui adentra um complicador a mais. Pois dependendo das circunstâncias ou dos fatos políticos, não só a democracia pode estar ameaçada, como também a república.


A república é uma forma de organização do Estado, a democracia, um modo de instituir o governo representativo. As duas não são xifópagas: podem existir uma sem a outra. A Inglaterra é uma monarquia (portanto, não uma república) e uma democracia; a Espanha de Franco era uma república, mas não uma democracia. Mas estas são exceções. Na história moderna, a república como forma de organização do Estado e a democracia como modo de instituir o governo representativo andam juntas desde seus nascimentos, nas revoluções Americana (1776) e Francesa (1789). Faz sentido: pois na república, ao contrário da monarquia, o soberano é o próprio povo, que por isso mesmo exerce o poder através de seus representantes democraticamente eleitos.


A grande ameaça atual à república é a teocracia, em que o clero detém a soberania. E se o clero é o soberano, não o é o povo. Portanto, de modo claro e simples, não pode haver democracia numa teocracia. Daí a farsa e a falácia do caso iraniano.


Nos demais países muçulmanos, incluindo o Egito, trata-se, diferentemente, de tentar fazer conviver a república e, em tese, a democracia, com governos islâmicos eleitos. Teoricamente é possível: a soberania republicana não deve ser ameaçada por um governo democraticamente eleito. Mas apenas se se acreditar, ou se iludir, que modelos político-institucionais são universais ou universalizáveis, a despeito de histórias, culturas e sociedades específicas.


Um governo islâmico, não importa a forma como chegue ao poder, é um governo movido não por um programa, mas por uma ideologia. Neste sentido, é como um governo comunista ou fascista. Não se é fascista ou comunista para não se ser comunista ou fascista. Nem se é islâmico para não sê-lo. Ou seja, um governo islâmico existe, por definição, para impor leis islâmicas, não leis republicanas ou democráticas. Só não o faz completa ou radicalmente por falta de poder. Daí a falácia dos governos islâmicos “moderados”, cuja moderação não passa de fraqueza frente às instituições republicanas e democráticas, como na Turquia. Não por acaso, como na mesma Turquia, as necessárias tentativas do “moderado” Erdogan de testar os limites de sua “moderação” levaram à atual revolta popular contra sua busca de islamizar a política, a cultura e a sociedade turcas.


De forma mais aguda, foi exatamente o que aconteceu no Egito de Morsi e da Irmandade Muçulmana. Se a teocratização por um governo eleito leva, no limite, à teocracia, e se a teocracia é a morte da república, mesmo aceitando a abstração ideal de que todo golpe é antidemocrático, isso não impede que alguns sejam republicanos.


O golpe do exército argelino em 1995, por exemplo, contra o governo eleito da Frente Islâmica, que pretendia explicitamente impor a teocracia no país, foi antidemocrático para ser republicano. E ao ser republicano, e, portanto, defender a soberania popular, se não de forma imediata, de maneira mediata, é afinal um golpe democrático, ao abortar a teocracia. Pois a teocracia não é instituída por prazo determinado, mas ao contrário: por pretender-se de direito divino, concebe-se como instituição supra-histórica, e tão perene quanto a própria divindade que representa.
Em suma, nem todo governo democraticamente eleito é a priori democrático (isto depende do modo como age e do que almeja), portanto, nem todo golpe é necessariamente antidemocrático, por mais que isto seja de difícil compreensão para ocidentais incapazes de conceber o real significado de uma teocracia, e assim também sua antinomia com a república, em primeiro lugar, e com a democracia, em segundo. O mesmo vale para o fato de que governos islâmicos são governos islâmicos, pouco importando, a priori, se eleitos ou não (pois se sabe o que almejam).

 2.

Mas nada disso fala do título deste artigo. O que fala é esta imagem:



            

 
O fracasso civilizacional do islã foi exposto em carne viva, para quem quisesse ver, num fato ainda mais contraditório do que um golpe democrático. Trata-se de que, durante a “primavera egípcia”, ou seja, durante uma revolução popular contra uma ditadura (republicana), mulheres foram estupradas em massa. O absurdo cósmico contido neste fato corteja a incompreensibilidade: se a população está nas ruas enfrentando uma ditadura por sua liberdade, como pode, ao mesmo tempo, impor a mais brutal perda de liberdade e de dignidade a um indivíduo sem qualquer motivação/explicação política? Porém não se trata de um indivíduo: “Ao menos 91 mulheres foram estupradas nos últimos quatro dias em meios aos protestos na praça Tahrir, no Cairo, disse ontem em relatório a ONG Human Rights Watch” (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/07/1305808-praca-no-cairo-tem-ao-menos-91-casos-de-estupro-em-4-dias-diz-human-rights-watch.shtml). A notícia é de 03/07/2013, sobre os eventos que levaram à queda do governo islâmico eleito de Morsi, não sobre a queda da ditadura laica de Mubarak dois anos atrás. Portanto, não faz diferença. Mas como não faz? E por que não faz?

Porque o abuso de mulheres no Egito nada tem a ver com circunstâncias políticas, mas com instâncias culturais.

En los 18 días de manifestaciones que provocaron la caída de Hosni Mubarak, las mujeres que salieron a las calles no sólo luchaban contra un dictador, sino que se enfrentaban a los impulsos más bajos de su propia sociedad. En su lucha por la libertad, se mezclaron a una multitud en un país donde, en 2008, el 83% de las mujeres confesaba haber sufrido algún tipo de abuso sexual y el 62% de los hombres admitía haber cometido alguno, según los datos del
 Centro Egipcio para los Derechos de las Mujeres (ECWR). (Bárbara Ayuso, “El infierno de ser mujer en Egipto”, http://www.marthacolmenares.com/2013/05/07/el-infierno-de-ser-mujer-en-egipto).

O inferno de ser mulher no Egito é, portanto, claro e claramente quantificável: se 83% das mulheres sofrem algum tipo de abuso sexual, o abuso sexual é a norma, é normal. E uma sociedade em que o abuso sexual é normal não é e não pode ser considerada civilizada.


Nenhum argumento multiculturalista ou politicamente-correto é capaz de sequer ameaçar perfurar a dura espessura desse número: 83% das mulheres. 83% das mulheres. 83% das mulheres abusadas no país. Raríssimas epidemias chegam perto desse porcentual. Não é, de fato, uma epidemia, que tem, por definição, caráter episódico. E aqui se trata necessariamente da manifestação de um aspecto fundamental da cultura e da sociedade egípcias: o desrespeito completo pela condição feminina como fato conceitual, e pelas mulheres reais como fato empírico, sem o qual esse fenômeno não existiria nem poderia existir.
Quanto à origem do fenômeno, não é preciso ir longe na busca de hipóteses histórica ou sociologicamente sutis ou complexas, se não se quiser buscar hipóteses como forma de ocultar os fatos. Essa origen é o islã, e seu mais que notório e notoriamente profundo desrespeito teológico pelas mulheres. Não aceitar aqui a evidente relação de causa e efeito é um gesto de obscurantismo.

“Las mujeres que van a protestar en Tahrir son prostitutas que buscan ser violadas’, bramó el clérigo Abú Islam en la televisión.” (idem)

 “El Comité de Derechos Humanos del Consejo de la Shura mantiene que la responsabilidad por los abusos sexuales en las manifestaciones recae enteramente sobre las mujeres.” (idem)


A Shura acima referida é a máxima instancia religiosa oficial do Egito, espécie de assembleia de grandes mulás: “A responsabilidade pelos abusos sexuais nas manifestações recai inteiramente sobre as mulheres”. De fato. Porque, como dito aqui, não se trata de circunstâncias, mas de uma norma. Pois o mesmo vale, segundo a interpretação normal dos tribunais islâmicos, para todo caso de abuso. A culpa é da vítima, porque a vítima é uma mulher.


O islã não é apenas incompatível com o conceito ocidental moderno de democracia. Ele também é incompatível com o conceito de civilização, que apesar de plural, não é amorfo – e sempre antinômico à barbárie.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Revolta civil no Brasil. Por quê? Por que agora?




O que de repente mudou no Brasil na semana passada, para que o Brasil parecesse de repente mudado? A pergunta, algo circular, reflete a dificuldade generalizada em compreender o que se passa e mesmo por que se passa, pois o Brasil é, historicamente, caracterizado por uma cidadania débil, que em momentos de exceção se manifesta para, como regra, viver mergulhada na apatia política. Trata-se, então, de mais uma exceção. Ou será o começo de uma mudança histórica?


Estou em São Paulo, e, pela TV, parece Istambul. Mas os manifestantes logo respondem a isso: “Não é a Turquia / Não é a Grécia / É o Brasil / que saiu da inércia.” Em mais uma exceção, ou como início de uma mudança histórica?

Se em Istambul o estopim foi um parque, em São Paulo foram vinte centavos de aumento na passagem do ônibus. Mas logo isso foi rapidamente ultrapassado: “Não são os centavos, são os direitos!”. E esses direitos todos sabem quais são.

Eles são, simplesmente, os direitos básicos de uma sociedade moderna, como saúde pública de qualidade, educação pública de qualidade, transporte público de qualidade, segurança pública que mereça o nome e uma administração democrática, republicana ou transparente da coisa pública. Nada disso jamais existiu no Brasil, mas o contrário, sim. Saúde pública abjeta, educação pública indigente, transporte público infame, segurança pública nenhuma, administração corrupta e autista da coisa pública.

Mas se sempre foi assim, por que agora?

A questão, então, não é de fato por que, mas por que agora.

O Brasil sempre viveu em meio ao binônio anomia (política) e apatia (pública). Quando terminou a ditadura militar, a vitória das forças democráticas lhe foi roubada. Enquanto em todos os demais países da América Latina o fim do governo militar foi o fim do governo militar, com sua substituição pelos líderes e partidos da oposição ao regime militar, no Brasil foi feito um arranjo pelo qual um nome palatável para os militares, Tancredo Neves, foi indicado presidente por uma “eleição indireta” dentro do Congresso controlado pelos mesmos militares. Ele morreu sem tomar posse. Assumiu seu vice, o notório José Sarney, oligarca nordestino e líder notório do partido de sustentação do regime militar... Depois houve, por fim, eleições diretas. Mas num quadro político-institucional e midiático tal que o eleito foi outro membro do partido de sustentação do regime militar, além de também oligarca nordestino, Fernando Collor. 

Collor levou seu voluntarismo oligárquico de Fortaleza para Brasília, onde pretendeu governar com sua camarilha, além de tentar impô-la à grande camarilha oligárquica que tocava seus negócios habituais no Congresso. Daí nasceu seu processo de impeachment, que foi abraçado pelas massas nas ruas, num súbito surto de participação política. 

Assume então seu vice, Itamar Franco, afinal egresso da oposição ao regime militar, mas político mineiro provinciano e sem envergadura, que convoca para apoiá-lo o “príncipe da sociologia brasileira”, Fernando Henrique Cardoso, a quem designou primeiro para o ministério do exterior, depois para a economia, quando dá cabo da hiperinflação histórica e cria uma nova moeda, o real. FHC então se elege sucessor de Itamar e abre o mercado, libera o câmbio e institui as agências reguladoras dos serviços públicos, além do primeiro programa de inclusão social, o bolsa-escola. Então FHC foi substituído por Lula. E agora estamos perto da atual revolta civil.

Pois resultou que Lula e o PT eram uma farsa (uns poucos o perceberam de imediato; muitos o estão percebendo agora). Farsa porque passaram vinte anos afirmando ser a socialdemocracia brasileira, que realizaria as reformas históricas jamais realizadas (para além das reformas da conjuntura econômica de FHC), cujo adiamento adiava a entrada do país na modernidade e da população na cidadania moderna. Mas era farsa e era mentira. O PT não tinha um programa de governo, quanto mais um projeto de reformas de base. Era uma máquina de subir ao poder. Uma vez lá, não teve alternativa além de se integrar e se entregar à velha política brasileira, agora na condição de líder.

A política econômica de FHC foi, então, basicamente mantida, com controle de inflação via juros altos. Isso gerou certa estabilidade que permitiu algum crescimento econômico, e também algum aumento de consumo, tanto pelo crescimento econômico quanto pelo aumento da oferta de crédito subsidiado quanto, afinal, pela ampliação dos mecanismos de distribuição direta de renda, com o bolsa-escola de FHC agora transformado em bolsa-família. E isso é quase tudo.

Pois tudo o mais que era grave e grande carência histórica nacional, e que só poderia ser alcançado através de grande e grave conjunto de reformas, jamais foi sequer esboçado. Nada de reforma política, fiscal, previdenciária, educacional, jurídica, policial etc. Mas muitas reformas de estádios de futebol, para a Copa do Mundo vindoura, a um custo de dezenas de bilhões de reais (ou de euros).

Ao mesmo tempo, o país via o conjunto de sua infraestrutura ser sucateada. Hoje, estradas, portos, aeroportos, ferrovias, distribuição de energia, segurança pública, escolas públicas estão aos pedaços ou estressados e à beira do colapso. Mas há incontáveis novos estádios.

Quando a galinha de Lula afinal pousou, foi a gota d'água. A galinha é o crescimento da economia no Brasil. Pois aqui se diz que a economia brasileira, historicamente, quando cresce, cresce em “voo de galinha”. Ou seja, uma rápida subida para um ainda mais rápido tombo logo à frente. Lula jurou e berrou que desta vez a galinha voaria como uma águia. Mas galinhas são galinhas. A incapacidade do Estado, apesar dos níveis suecos de arrecadação de impostos, de melhorar a infraestrutura a fim de manter o voo explica sua não-manutenção, assim como a própria incapacidade se explica pela inépcia, pela corrupção generalizada, pelos objetivos particulares das lideranças políticas, pelas políticas erráticas, pelo cacoetes ideológicos e pela necessidade de agradar aos grupos de interesse. Mas, em compensação, o governo, agora com Dilma, foi eficiente na construção de dezenas de novos e modernos estádios de futebol, naturalmente superfaturados, pois ninguém é perfeito.

Quando a galinha desceu, a inflação subiu. Com ela, subiram as passagens de ônibus. Então um grupo de estudantes saiu às ruas em São Paulo para exigir a revogação do aumento. A truculenta e militarizada polícia estadual os atacou selvagemente, ferindo muitos e detendo muitos mais. Tudo somado, de repente a população saiu às ruas em todas as cidades do país, como formigas abandonando um formigueiro inundado, em reação a tudo isso.

A atual revolta civil no Brasil, que não para de se espalhar e de se intensificar (manifestações ainda maiores foram convocadas para a próxima quinta-feira, 20/06), não tem líderes e não tem reivindicações claras. É um movimento de indignação, que significa, em primeiro lugar, o fim da ilusão lulopetista do “novo Brasil” dourado, e marca também o fim de certa resignação histórica profunda, de uma sociedade sempre mantida distante do Estado muito além da distância normal ou aceitável numa democracia moderna.
Não há nenhum líder, e sequer há muitas palavras de ordem. A mais objetiva, até agora, é “Abaixo os impostos!”. E, claro, “Não são os centavos [das passagens], são os direitos [básicos]”.

Mas, afinal, por que exatamente agora?

Porque houve um recente crescimento econômico, antes de a galinha gorda de Lula e Dilma começar a adernar perigosamente as asas. Porque esse crescimento tirou da sombra parte da grande parte dos excluídos históricos. E também lhes levou mais informação, incluindo a internet. 

A revolta brasileira deve ser a mais conectada de todas as recentes revoltas mundiais. Não existe um brasileiro fora dos berçários sem celular.
Portanto, apesar de ainda galináceo e manco, o país não é mais um país perfeitamente pobre. Mas se não é mais um país pobre, por que ainda é um país de merda? Em suma, pela primeira vez na história parece que os brasileiros, menos pobres e melhor informados, não aceitam mais viver num país fedido (o Brasil tem a 6a. maior economia do mundo, e é o 85o. no IDH [índice de desenvolvimento humano]: uma defasagem de mais de mil por cento).


Ninguém sabe ou pode saber em que tudo isso vai dar. Mas em algo já deu. Quebrou o autismo da classe política brasileira, que acreditava poder governar o país como se habitado por um bando de palhaços, a quem só interessam o carnaval e o futebol. Os brasileiros estão gritando “Fora Copa!”. Além disso, fez perder a virgindade política da sociedade civil, que rompeu o hímen de sua apatia histórica ante a anomia igualmente histórica do Estado. Portanto, não há volta. Não há mais virgens.

Ainda que essa revolta sem líderes nem demandas políticas claras, e, portanto, exigíveis, acabe por perder o ímpeto, e se desfaça como uma onda na praia da indiferença política, esse mar que se comportava como um lago sabe agora ser um mar, e que pode produzir ondas quando queira. Não importa tanto, portanto, ainda que agora importe tudo, o possível ou provável fim dessa onda, mas o fato de que, no futuro imediato, outras ondas se erguerão, assim que algum vento de través soprar. E eles sempre sopram no Brasil.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A PRIMAVERA CHEGA À TURQUIA, AFINAL


Manifestante carrega bandeira turca com a imagem de Ataturk





Depois de sete dias de violentos protestos antigovernamentais nas maiores cidades do país, incluindo Istambul e Ancara, e após a terceira morte confirmada, a imprensa internacional começa a compreender o que se passa na Turquia, assim como seu significado.
De início era uma reação à reforma de um parque. Mas apenas os distraídos e os obtusos levaram tal motivação a sério por mais de um minuto. Algo estava acontecendo na Turquia. Algo está acontecendo na Turquia. Mas o que, exatamente?
O islamofascista mal disfarçado que é o primeiro-ministro Recep Erdogan, no melhor estilo ditador paranoico, acusa... o Twitter: “Há uma ameaça chamada Twitter. [...] Para mim, as redes sociais são a maior ameaça à sociedade”. Enquanto o próprio título da matéria resume e esclarece tudo, ainda que por negação: “Primeiro-ministro nega ‘Primavera Turca’ e culpa redes sociais por protestos” (http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/06/03/primeiro-ministro-nega-primavera-turca-e-culpa-redes-sociais-por-protestos.htm).
Sim, trata-se do início temporão da “primavera turca”. Mas por que, se a Turquia não é uma ditadura?

A Turquia não é uma ditadura, mas é uma democracia ameaçada. E a ameaça vem do próprio governo, que se autointitula “islâmico moderado”. Mas os turcos bem sabem que sua “moderação” não é sincera nem voluntária. Ou verdadeira.
A autoimputada “moderação” islâmica do atual governo turco advém, tão somente, da tradição de um século de laicismo do Estado turco, desde sua fundação por Kemal Ataturk em 1920, sob a tutela do exército. Mas esse laicismo sempre esteve ameaçado pela “Turquia profunda”. Daí o paradoxo de uma democracia mantida pela força. Pois sem o exército secular também deixado de herança por Ataturk, o islã teria há muito destruído essa democracia e esse laicismo.
Erdogan foi eleito pela “Turquia profunda”: pela periferia das cidades e pelo campo. E, desde o início, não fez outra coisa senão tentar enfraquecer, sistematicamente, as instituições laicas do Estado, a começar do próprio exército, hoje acuado por um judiciário controlado pelo governo, com inúmeros generais e outros oficiais aprisionados, a partir de um suspeito processo de conspiração militar.
A imprensa também é atacada: a Turquia tem hoje, ao lado da China, o maior número de jornalistas encarcerados em todo o mundo. E como o exército, a imprensa turca se acovarda. Daí os manifestantes a acusarem, justamente, de covardia, além de oficialismo e manipulação na cobertura das próprias manifestações.
Por isso Erdogan tem, afinal, razão: a culpa é da internet. Mas apenas como piada. Pois seria como culpar um carro por um atropelamento, em vez de o motorista. Por trás das críticas ao governo e das convocações aos protestos que tomaram conta das redes sociais turcas, está o segmento mais esclarecido da sociedade, que afinal reagiu, tardiamente, a um governo que utiliza a mesma tática de Chávez e outros liberticidas contemporâneos: chegar ao poder pela via eleitoral para, a partir daí, minar o mesmo sistema representativo que os levou ao poder.
Trata-se do que o grande arabista Bernard Lewis chamou de a tática do “um homem, um voto, uma vez”, para se referir à tentativa da Frente Islâmica de Salvação da Argélia, que, nos anos 1990, escancarou-a para ser, em seguida, derrubada pelo exército secular do país, antes de novas eleições serem convocadas, agora sem partidos islâmicos.
Os partidos islâmicos dos demais  países muçulmanos aprenderam a lição argelina. A tática do “um homem, um voto, uma vez” tem de ser implementada com alguma sutileza, fazendo o islã “comer” devagar e pelas bordas as instituições, as práticas e as mentalidades em países onde estas foram, em algum grau, laicizadas, seja por ditaduras ou por um grande reformador como Ataturk. Era o caminho de Erdogan. Vinha funcionando.
Mesmo porque, graças à pujança do capitalismo local (apesar das pressões islamizadoras do governo), esse governo retrógrado, num outro paradoxo turco, contou com grande popularidade até agora. Ou melhor, ainda conta com ela. Mas essa popularidade populista não amedronta mais os turcos urbanos, modernos e laicos que, desde a fundação da República, estiveram na liderança do país.
A Turquia é um solitário caso histórico de reforma modernizadora e democratizante razoavelmente bem sucedida no mundo muçulmano. Mas depois de quase um século, o modelo turco está sob forte ameaça. A melhor parte da sociedade turca sai enfim às ruas contra essa ameaça.


A chamada “primavera árabe” foi verdadeira apenas em parte: ter sido árabe. Pois quanto a ser primaveril, ou seja, significar o nascimento de um tempo novo e melhor, foi um engano, um engodo e uma ilusão. As revoltas árabes se deram contra ditaduras mais ou menos brutais, de Ben Ali na Tunísia a Assad na Síria, passando por Kadafi na Líbia e Mubarak no Egito. E todas elas eram seculares. A “primavera árabe” ocultava (mal) o “inverno islâmico” que, este sim, aflorou em seguida, com partidos religiosos autoproclamados “moderados” tomando previsivelmente o poder pela recém inaugurada via eleitoral (no caso sírio, grande parte da oposição armada ao governo genocida de Assad é formada por radicais islâmicos). A única “primavera” verdadeira no mundo muçulmano está a florescer agora. E ela não é árabe.
A “primavera turca” é verdadeira porque se trata de segmentos seculares protestando contra um governo islamizador. Ou reislamizador, considerando a história turca. Na Turquia, começou (melhor, recomeçou), afinal, o inevitável embate entre Alá e Ataturk. Que vença o melhor.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Porque viraram à direita - e para qual direita (Parte III)







 Nota introdutória


Nesta terceira e última parte de minha análise do livro Por que virei à direita, afasto-me da discussão de seu tema central, a defesa do liberalismo e da sociedade aberta contra as utopias rousseaunianas de esquerda e seu “liberticídio”, para esboçar por que esta discussão, apesar de sua importância e persistente atualidade (infelizmente), pede hoje uma ampliação de foco ou de abrangência, incluindo a hipótese radical do "decrescimento econômico".

1. O conservadorismo é um humanismo – logo, não basta

Capitalismo é produtivismo e consumismo. Dadas a inelasticidade física do meio ambiente terrestre e a elasticidade histórica da população humana e da produção capitalista, que na verdade é consumo, nas duas pontas (consumo dos produtos gerados, mas também da energia e dos insumos geradores), o capitalismo é, no limite, insustentável. Como a esquerda fracassou em sua crítica e a direita é inapetente a ela, resta, ou restaria, o ambientalismo. Este, porém, é incapaz, se não de fazer a crítica radical do capitalismo, ou seja, do consumismo, de levar tal crítica à sua consequência lógica, a concepção de um sistema socioeconômico alternativo. Porque isto implicaria em um sistema político que o implementasse. Aqui a diferença fundamental entre esquerdismo e ambientalismo se explicita: o esquerdismo, a partir do rousseaunismo, tem o homem, a história humana, a sociedade como foco e razão de ser. Já o ambientalismo tem um foco e uma razão diferentes, além de maiores ou mais abrangentes: a humanidade mais o meio ambiente terrestre. O esquerdismo é um humanismo. O conservadorismo, outro. Face aos conhecimentos contemporâneos, todo humanismo é insuficiente.

Se o esquerdismo é mudancista, ou seja, pretende mudar a sociedade para se adequar a certo ideal da condição humana, o ambientalismo é mudancista porque antimudancista, ou conservador. É surpreendente como não se costuma notar serem os termos conservador e conservacionista, originalmente, sinônimos. A diferença nos usos dos dois termos se dá em função dos objetos de conservação: os conservadores se preocupam em conservar a sociedade, os conservacionistas se ocupam em preservar o meio ambiente. Enquanto a história determinou o fracasso do pensamento de esquerda, essa diferença de foco entre os conservadores e os conservacionistas evidencia certa insuficiência do pensamento de direita. “After such knowledge, what forgiveness?”, como diria Eliot.

O conservadorismo político é hoje insuficiente porque, à semelhança do esquerdismo, mantém certa obsessão “humanista” que é, na verdade, uma forma de antropocentrismo. Luiz Felipe Pondé é, neste sentido, um caso limite e exemplar (daí a possível pertinência de se deter sobre ele): seu pensamento navega e naufraga numa insistência monótona, cansativa e algo fanática em “pensar sobre o homem”. Na prática, em denunciar como a modernidade é enganosa ao haver pretendido “solucionar o humano”: “O que caracteriza a modernidade é a utopia de que a gente vai organizar a agonia. Não resolve. O ser humano é agonia. O ser humano não é alguma coisa que tenha solução”.[i] De fato, não tem. Não, porém, como acredita Pondé, porque “a natureza humana [...] sempre subentende um certo mistério” (a “natureza humana” e apenas ela, obviamente...).[ii] Mas sim porque se trata de um falso problema, ou de um falseamento do problema.

Sendo apenas uma espécie, ou seja, um ponto em duas redes imensuráveis, uma estendida no tempo, ocontinuum da história da vida, outra estendida no espaço, o continuum da biosfera, o ser humano pouco importa, no sentido de que importa pouco, ou seja, não detém informação importante, isto é, suficiente, que dirá determinante. Frise-se que não quero com isso dizer que se trata de falta de informação por parte do ser humano, mas sim que toda informação possível sobre o ser humano é insuficiente para sequer começar a compreender ou descrever o ser humano (que dirá uma realidade maior ou mais abrangente), na medida em que este não apenas não existe no vácuo como não existe por si – ou em si. E aqui não me refiro a qualquer “dimensão espiritual” ou “transcendência”, mas à biologia (apenas para citar um exemplo, nosso DNA incorpora vírus antigos que já tinham sido incorporados por espécies de que descendemos, para não falar do fato de que há mais bactérias mutualistas em nosso corpos do que células humanas; a lista poderia se estender enormemente).

O atraso de certo pensamento conservador, de que Pondé é hoje o representante brasileiro mais notório, revela-se, afinal, profundo. Pois além de pretender “pensar o ser humano”, como se ainda suficiente, insiste em que o caminho para fazê-lo passa pela religião, pela crença em Deus ou coisa parecida, como se ainda nos tempos da escolástica. Se ao lado dessa velha “espiritualidade”, que não passa da forma mais radical de narcisismo humanista (apenas humanos têm alma; Adão foi criado à imagem e semelhança de Deus; etc.), ainda houvesse espaço para um pensamento ambientalmente informado, abrangente ou includente, ela seria apenas ociosa, e afinal irrelevante. Em um conservador obscurantista como Pondé, porém, a crença em Deus serve como importante reforço do narcisismo humanista, do tardoantropocentrismo, ou seja, da ignorância orgulhosa.

2. Uma oligarquia catastrófica [iii]

Com o colapso da URSS e o fim do “socialismo real”, o refluxo perplexo da crítica ao sistema capitalista foi seguido pela desorientação generalizada da esquerda mundial. A crítica ao sistema tomaria então, a partir dos anos 1990, dois rumos principais: o primeiro, que atacava não mais o sistema em si, porém sua face mais evidente, a globalização, expresso no movimento conhecido como altermundialismo e centrado nos Fóruns Sociais, com seu slogan “Outro mundo é possível” – sem que tenha sido possível descrever esse mundo; o segundo, mais pragmático e pontual, centrado na questão ambiental, denunciando extinções, desmatamentos e poluições, sugerindo dimuição de emissões, reciclagem e o uso de energia limpa, e afinal ganhando densidade na questão do aquecimento global – porém na situação paradoxal de ver tudo encampado pelos governos, o que afinal resultou em cúpulas internacionais e impasses idem. O que fazer, afinal, se o sistema alternativo morreu (felizmente), e se o sistema sobrevivente pode levar diretamente à catástrofe?

A maior parte da superfície do globo será transformada em deserto. Os sobreviventes se agruparão em torno do Ártico. Mas não haverá lugar para todo mundo, o que gerará guerras, populações enfurecidas, senhores da guerra. Não é a Terra que está ameaçada, mas a civilização.

Quem o diz é James Lovelock, criador da conhecida hipótese Gaia. Lovelock é um cientista sério, e como tal é reconhecido por seus pares. Não é, portanto, culpa sua se a metáfora da Terra como um organismo, formulada décadas atrás, visando transmitir uma visão da clara interdependência dos sistemas biológicos quando isto ainda era uma novidade, foi depois transformada pelos “miolos moles” de plantão em “Terra viva”, versão new age da mais antiga das divindades, a Mãe Terra – que, na verdade, está mais para madrasta. Uma madrasta totalmente indiferente, incapaz de lançar uma lágrima pela morte provável de milhões de seus filhos mais ousados. Mesmo porque, estará seca.


O que fazer, então, como diria Lênin? Recomeçar do começo: pelo diagnóstico. Eis o objetivo do francês Hervé Kempf em Como os ricos destroem o planeta (São Paulo, Globo, 2010), no qual aparece a declaração de Lovelock (p. 10). Kempf era um jornalista especializado em ciência quando houve o desastre radioativo de Chernobyl, em 1986, o que o fez se tornar um ecologista radical, mas não um idiota.

A hipótese de partida de Kempf pode ser expressa em poucas palavras: a crise ambiental é ainda mais grave e, portanto, ainda mais urgente, do que se costuma reconhecer; ela não pode ser equacionada, ou seja, compreendida e muito menos resolvida, sem levar em conta sua causa central: o consumismo como ideologia, e a oligarquia mundial (sic) que o impõe, defende e sustenta.

Daí o livro denunciar, inclusive, o próprio “desenvolvimento sustentável”: “A única função real do ‘desenvolvimento sustentável’ é manter os lucros e evitar mudanças de hábito, apenas alterando um pouco o curso. Mas são justamente os lucros e os hábitos que nos impedem de mudar o curso” (p. 44).

Kempf, portanto, articula de forma direta e sintética a questão ambiental à questão sociopolíticoeconômica, apontando para a saída do impasse tanto das insuficiências ingênuas do ambientalismo como do tardoesquerdismo vazio do altermundialismo. Como o ambientalismo é manco e o altermundialismo é cego, a tarefa revela-se ainda mais difícil.

Kempf chega então à sua colocação central. E no que o livro tem de melhor. Revisitando o clássico esquecido do final do século XIX, a Teoria da classe ociosa, de Thorstein Veblen, propõe uma interpretação e uma mudança do “capitalismo de consumo” contemporâneo que faz Marx parecer quase moderado (e o “socialismo real” ser tão questionável em seu produtivismo de Estado quanto o próprio capitalismo com seu produtivismo privado). Há uma oligarquia mundial (ou “nomenklatura capitalista”) isolada socialmente e hiperconsumista materialmente, mas principalmente criadora do modelo seguido pela longa cadeia de emulações que move as classes sociais a partir do momento em que suas necessidades fundamentais estão satisfeitas (se a miséria, a falta do necessário, não se relativiza, a pobreza, a falta do desejável, é sempre relativa a algum modelo do que seja a não-pobreza; de fato, seus parâmetros mudam de país para país). Como sintetiza o título de um dos capítulos, “A classe superior define o modo de vida de sua época”. Daí seu corolário: “A oligarquia incrementa a crise ambiental”. Pois esta é, fundamental e diretamente, resultado da produção, ou seja, do uso e da transformação dos recursos naturais. Kempf advoga então uma mudança brutal de paradigma, sintetizada em outro título: “Não é preciso aumentar a produção”.

A existência de uma casta de oligarcas, de uma camada social de hiper-ricos, não é, teoricamente, um problema. Pudemos observar, no passado, que a detenção do poder caminhava junto com a apropriação de grandes riquezas. [Porém] estamos em um momento muito específico da história, o século xxi, que coloca um desafio radicalmente novo para a espécie humana: pela primeira vez desde o início de sua expansão, há mais de 1 milhão de anos, ela se defronta com os limites biosféricos de seu prodigioso dinamismo. Viver este momento significa que devemos encontrar, coletivamente, os caminhos pelos quais guiar toda essa energia de forma diferente. Trata-se de um desafio magnífico, mas difícil. Ora, essa classe dirigente predadora e ávida, desperdiçando suas sinecuras, fazendo mau uso do poder, ergue-se como um obstáculo nesses caminhos. Ela não traz consigo nenhum projeto, não é levada por nenhum ideal, não emite nenhum discurso. A aristocracia da Idade Média era uma casta exploradora, mas não apenas isso: ela sonhava em construir uma ordem transcendente, de que são testemunhas as esplendorosas catedrais góticas. A burguesia do século xix, que Marx qualificava de classe revolucionária, explorava o proletariado, mas tinha também o sentimento de estar difundindo o progresso e os ideais humanistas. As classes dirigentes da Guerra Fria eram levadas pela vontade de defender as liberdades democráticas diante de um contramodelo totalitarista. Mas hoje, depois de triunfar sobre o comunismo soviético, a ideologia capitalista não sabe fazer outra coisa que não festejar a si mesma. Todos os círculos de poder e de formação de opinião estão engolidos pelo seu pseudorrealismo, que considera impossível haver alternativas e que a única meta a ser perseguida para interferir na fatalidade da injustiça é aumentar cada vez mais a riqueza. Esse suposto realismo não é só sinistro, mas também cego. Cego diante do potencial explosivo da injustiça exposta. E cego diante do envenenamento da biosfera provocado pelo crescimento da riqueza material, envenenamento que significa a deterioração das condições da vida humana e a dilapidação das oportunidades que estarão à disposição das próximas gerações (pp. 97-8).

O desenvolvimentismo e o produtivismo são postos em cheque: pois se o título do último capítulo afirma não ser preciso aumentar a produção, seu texto argumenta que é imperativo diminuí-la. Taxas de crescimento devem ser lidas como aproximações à catástrofe, e substituídas por taxas de decrescimento.

3. Decrescimento econômico

Parece absurdo, à primeira vista. Mas apenas porque os paradigmas dominantes se transformam em ideologia, no sentido de crença política “naturalizada”. Neste caso, o crescimento indefinido da produção, sintetizado no crescimento do PIB, parece natural, entre outras coisas, porque a própria população não para de crescer. E também porque parece associado ao desenvolvimento qualitativo da civilização, evidente, por exemplo, nas conquistas tecnocientíficas, incluindo as médicas.

Começando pelo fim, tais conquistas nada têm a ver com a produção industrial. São o resultado de esforços pontuais de grupos de especialistas. Enquanto o aumento da população pode ser controlado. Isto já é verdade para a maior parte dos países ricos, em alguns dos quais a população na verdade diminui. E mesmo no Terceiro Mundo, o fim do crescimento só não é hoje maior por questões culturais. Por exemplo, entre a população muçulmana, que chega a um quinto da população mundial, com mais de 1 bilhão de indivíduos, a contracepção vai contra os princípios religiosos e as tradições sociais de grandes famílias patriarcais.

Mas talvez o maior obstáculo à aceitabilidade, antes ainda da aceitação, do contraparadigma decrescionista seja o fato de parecer apontar para a pobreza. Pois se a produção decresce, no limite, chegará a zero. Isto, porém, tampouco é verdade. Porque a parada do crescimento da produção e do consumo, e sua subsequente diminuição, devem ser acompanhadas de medidas de contenção de desperdício e de melhoria geral dos padrões de consumo, ou seja, de sua racionalização. Um artigo da presidenciável brasileira Marina Silva coloca a questão de forma clara e pontual, tratando objetivamente da problemática hidrelétrica de Belo Monte:

Estão mais do que evidentes a complexidade e os riscos envolvidos na construção da usina hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, no Pará. [...] Vê-se o direcionamento de todos os instrumentos de políticas públicas para viabilizar um projeto estrategicamente ruim, caro e de altíssimo risco socioambiental. Enquanto isso, pouco se faz para reduzir perdas da ordem de 15% em energia no país, o equivalente a três vezes a capacidade média de Belo Monte. E o processo em curso aponta mais desperdício: Belo Monte terá uma produção energética efetiva bem menor do que sua capacidade total -4.428 mw, em função do regime hídrico do rio e da configuração do projeto, e não os 11.223 mw anunciados. Surpreendem também as condições à disposição dos interessados em comercializar a energia gerada pelo rio Xingu. Tem-se R$ 13,5 bilhões em crédito subsidiado pelo bndes, com prazo de 30 anos para pagamento, a juros de 4% ao ano. Isenção de impostos sobre os lucros, o comprometimento do capital de empresas estatais e de fundos de pensão e, de quebra, o absurdo comprometimento de licenciamento ambiental com prazo preestabelecido para a obra começar já em setembro. [...] Imaginem se todas essas condições excepcionais fossem para melhorias da eficiência do sistema elétrico e para a redução da demanda por energia.[iv] [grifos nossos].

Na realidade, a parada do crescimento e sua diminuição ameaçam apenas a lógica do lucro atual. Sem voltar às velhas estigmatizações religioso-medievais da usura, é impossível, hoje, equacionar a questão ambiental sem chegar aos fundamentos do problema, que não é mais tão somente a poluição desse ou daquele tipo de produção ou de produto, mas a produção em si, cujo móvel primeiro é o lucro como hoje buscado e realizado. Mais exatamente, o crescimento indefinido do lucro – que não pode ser obtido sem um aumento da produção (mais ainda que o da produtividade), pois é esse aumento que gera mais produtos a partir do capital investido, ou imobilizado, produtos cuja comercialização aumentará então o retorno desse capital. Os produtos novos, impondo sua substituição, completam o quadro.

Um dos problemas centrais é o fato de que toda a atual contabilidade capitalista é falseada. Ela é falseada porque não incorpora entre seus custos os custos ambientais. Se estes são computados, e também computadas todas as ações públicas relacionadas diretamente ao consumismo, como a coleta de lixo e sua destinação, além de outras incontáveis iniciativas, como a oferta crescente de água etc., o que se constata é, de um lado, um involuntário “subsídio” pelo meio ambiente natural, e de outro, um subsídio estatal generalizado indireto de toda a atividade econômica. E como o meio ambiente natural é patrimônio comum, e como o dinheiro do Estado é dinheiro da população concentrado via impostos, a própria população subsidia parte importante dos lucros como hoje realizados. E se parte dos lucros é por ela subsidiada, essa mesma população tem o direito de questionar tal subsídio, logo, tal tipo de lucratividade.

Em termos práticos, o decrescionismo econômico, um novo pararadigma por enquanto teórico, mas que começa a emergir neste debate, propõe e pressupõe uma verdadeira “revolução cultural”, em que uma reforma radical do “capitalismo de consumo” seria criada principalmente a partir da demanda. Porém a mudança da demanda só viria da mudança de hábitos, que dependem da referida “revolução cultural”. Ao mesmo tempo, há vários exemplos de medidas práticas. Seguindo e estendendo o modelo da indústria tabagista, proibir-se-ia a publicidade e a propaganda como um todo, a partir de leis apoiadas pela população. As atividades hoje bancadas pela publicidade, como TVs abertas e jornais, seriam bancadas por assinaturas do público interessado, ou fracassariam ao não se adaptar. Reverter-se-ia a tendência da obsolescência programada dos produtos, por exemplo, taxando mais os produtos menos duráveis, e menos os mais duráveis. A taxação progressiva da renda seguiria o modelo puro e duro dos países escandinavos, com a concomitante extinção, através das instituições internacionais, de todos os paraísos fiscais. Por fim, a cultura econômica “fordista”, de produzir em massa e de massificar o consumo como ideal econômico mas também sociocultural e no limite existencial, seria revista em função do mote de Franklin Lloyd Wright: “Less is only more where more is no good”. “Menos é mais apenas onde mais não é bom”. Esse “onde” é hoje o mundo. Enfim, produzir menos, mas melhor. Consumir menos, porém mais cada produto.

Desde o século XVI, o capitalismo sofreu várias mutações, passando do modelo mercantil para o industrial, depois para o pós-industrial etc., e, por outro lado, mudando do capitalismo “dickensiano” para o do welfare. É essa capacidade de mutação, adaptação e evolução que tornam o capitalismo resiliente, enquanto mantém seu aspecto fundamental de ser o único sistema historicamente capaz de tirar a humanidade da miséria e da pobreza e, por consequência, do atraso e da servidão. Não há nada mais “capitalistamente correto” do que reformar o capitalismo, para que se mantenha como a base da modernidade, em que, como dizia o velho Marx, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Isso também vale para o “capitalismo de consumo” atual.


[i] "A modernidade quis organizar a agonia", entrevista à Folha de S. Paulohttp://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2701200709.htm.
[ii] Idem.
[iii] Algumas passagens desta seção do texto parecem ter sido diretamente plagiadas do release do livro de Kempf acessável no sítio da editora Globo (http://globolivros.globo.com/busca_detalhesprodutos.asp?pgTipo=CATALOGO&idProduto=1413). De fato, são idênticas, porque eu sou o autor do referido release.
[iv] “Represa de erros”, Folha de S. Paulo, 29/04/2010.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Porque viraram à direita - e para qual direita (Parte II)








Nota introdutória

Nesta segunda parte da minha análise do livro Por que virei à direita, de João Pereira Coutinho e dos ensaístas brasileiros Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield, concentro-me nas posições de Pondé, por este representar, ao contrário dos outros dois autores, não um verdadeiro liberal, mas o que eu chamo de conservador obscurantista – que acredito dever ser separado dos verdadeiros liberais, para o bem destes.

1. Ponderações sobre um obscurantista contemporâneo I

A defesa do conservadorismo político – ao menos, de certo conservadorismo –, apesar de toda a crítica de que a esquerda seja merecedora, guarda suas próprias armadilhas. Desmascarar certo obscurantismo antirracionalista e antimodernista que macula parte do pensamento conservador – representada por Luiz Felipe Pondé neste livro – é afinal não apenas pertinente a ele, como tão importante quanto sua análise.

Mesmo porque, a possível relevância do pensamento obscurantista de Pondé está em sua falta de originalidade. Estender-se sobre seus argumentos tem, portanto, o possível valor da exemplaridade.

O senhor acredita em Deus?

Pondé: Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do universo. Não é que eu rejeite o acaso ou a violência implícitos no darwinismo – pelo contrário. Mas considero que o conceito de Deus na tradição ocidental é, em termos filosóficos, muito sofisticado. Lembro-me sempre de algo que o escritor inglês Chesterton dizia: não há problema em não acreditar em Deus; o problema é que quem deixa de acreditar em Deus começa a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência ou em si mesmo.[i]




Sim, acredito em Deus. Mas... 1) Já fui ateu. 2) Porque sou elegante: “Acho Deus uma das hipóteses mais elegantes em relação à origem do universo”. Bobagem. A narrativa mítica para a origem do Universo é, na verdade, banal, arcaica e popular. Vamos a ela...

As cinco maiores religiões têm algo de fundamental em comum. Judaísmo, cristianismo, islamismo, hinduísmo e budismo possuem, no centro de suas concepções teológicas, a ideia, algo óbvia, da necessidade de uma causa das causas. Parece complicado, mas é, na verdade, simples. E não necessariamente elegante.

Se tudo tem uma causa, uma regressão na longa cadeia de causas e efeitos levaria, ou a uma causa primeira, autogerada, ou ao infinito. É evidente que a ideia de uma cadeia infinita de causas e efeitos é mais difícil de ser concebida e transmitida do que a de uma cadeia de causas e efeitos com um ponto de origem identificável – e, além disso, parecido com o homem. Não surpreende, portanto, que esta tenha sido a hipótese “elegante” escolhida por todas as grandes religiões.

Há, claro, diferenças fundamentais, antes que os adeptos dos “inconscientes coletivos” e similares se alegrem. Porém a estrutura conceitual básica dos mitos de origem de todas as grandes religiões é bastante semelhante: uma causa das causas original, não causada e parecida com o homem. Na verdade, se as grandes religiões são cinco, os grandes mitos da criação são apenas dois. O judaico, adotado também pelo cristianismo e pelo islã, e o hindu, adotado pelo budismo.

O mito judaico é conhecido: o Universo existe porque existe um Deus, que não se sabe bem por que, resolve um belo dia criar o mundo. Sua semelhança com o homem está explicitada na Bíblia, ainda que às avessas, pela afirmação de o homem ser a imagem d´Ele. No caso do hinduísmo, a semelhança mais sutil de Brahma, a causa das causas, o Uno pleno etc., com o mesmo homem está no motivo pelo qual Ele decide, um dia, se dividir, deixando de ser Neutro para se tornar Macho e Fêmea, e daí gerar as Formas, isto é, a matéria, o mundo. O motivo é a solidão de Brahma, e o fato de que Ele “não tinha nenhum prazer”.

[ii] Ingênuo, por um lado, e contraditório, por outro: pois se insiste na Plenitude de Brahma, e é de se imaginar que o Pleno não conheça, por definição, nem a solidão nem a falta de prazer. Mas estas são concepções anônimas, populares, frutos de especulações não movidas nem pela experimentação nem pelo rigor. Numa palavra, mitos. E mitos podem muito bem ser ingênuos e contraditórios, ainda que não se deva explicitar poderem ser contraditórios e ingênuos. “Eu era um tesouro oculto e desejava ser conhecido, por isso criei as criaturas”: o “eu” desejante (mais uma vez...) é aqui o próprio Alá, que assim teria se expressado a Maomé sobre a origem do mundo, segundo o misticismo islâmico.[iii]

Depois de afirmar a elegância superior contida em tudo isso (deixando desta vez implícito seu desdém obscurantista pela explicação científica), Pondé acrescenta que “o conceito de Deus na tradição ocidental é, em termos filosóficos, muito sofisticado”. Imaginei, ao ler isto, que sairíamos dos mitos de origem para, por exemplo, alguma referência a Tomás de Aquino. Não me pegaria desprevenido, nem de todo despreparado, pois li Aquino o suficiente para saber que muito do que se diz sobre ele, ou a partir dele, não resiste a uma ida à fonte (por exemplo, que ele elabora a separação entre fé e razão; isto só é verdade se se acrescenta que o faz para subordinar a razão à fé). Mas não: depois de um golpe en passant e mal disfarçado no darwinismo (outra marca do obscurantista), Pondé se sai com uma velha referência a Chesterton, tão usada e surrada quanto a de Fiódor “Se não há Deus tudo se permite” Dostoiévski: “Não há problema em não acreditar em Deus; o problema é que quem deixa de acreditar em Deus começa a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência ou sem si mesmo”. Sempre achei esta afirmação de Chesterton um dos exemplos mais acabados, ora, de obscurantismo. Além de se tratar de um sofisma, como de hábito nesse tipo de argumento (incluindo o de Dostoiévski). O sofisma está na redução implícita do conhecimento a outra forma de opinião. Refiro-me aos conceitos gregos de episteme e doxa.

A religião, a fé, o mito, não é conhecimento, no sentido de não ser conhecimento demonstrável ou testável de qualquer maneira, mas, então, apenas discurso, opinião – no limite, literatura. A ciência não é, por seu lado, nem mera opinião nem um tipo de crença nem, muito menos, “outra bobagem”. Stephen Hawking: “Há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade, e a ciência, que se baseia na observação e na razão”. A frase de Hawking não tem valor por ele ser um dos maiores físicos da história (não se trata, portanto, de um argumento “de autoridade”), mas porque ela é robusta em si. Para demonstrá-lo, basta inverter os termos e constatar o absurdo do resultado: “Há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na observação e na razão, e a ciência, que se baseia na autoridade”.

Aqui se evidencia a radical dicotomia contemporânea entre religião e ciência, entre fé e lucidez, entre mito e comprovação, entre opinião e conhecimento, contra a qual os obscurantistas de vários matizes (incluindo relativistas e construtivistas) tanto se batem. Frisei contemporânea porque o debate, neste caso, é viciado por uma permanente retomada de suas condições passadas, a partir, principalmente, dos problemas causados pela Igreja para a pesquisa de Galileu. Não que essas questões passadas estejam ultrapassadas, no sentido de não serem mais verdadeiras ou pertinentes: tudo o que foi dito nos últimos séculos sobre os antagonismos fundamentais da religião em relação à ciência (nesta ordem) continua tão verdadeiro e tão pertinente quanto quando dito a primeira vez.

A religião se baseia em crenças, isto é, em certezas, daí afinal se basear em respostas e em dogmas, enquanto a ciência se baseia em questionamentos, ou seja, em dúvidas, daí afinal se basear em perguntas e em pesquisas. Isto deveria ser evidente, e, na verdade, apenas não o é por conta da insistência multissecular dos obscurantistas em pôr a ciência em questão. Noutras palavras, a religião não é, na verdade, sequer uma preocupação para a ciência, enquanto a ciência é uma verdadeira obsessão para a religião. Isto é, para os crentes, como Pondé.

2. Ponderações sobre um obscurantista contemporâneo II

Há, portanto, outra razão para citar aqui Hawking: o golpe en passant de Pondé no darwinismo, comum nos obscurantistas. Coutinho e Rosenfield, obviamente, não rejeitam o darwinismo. Já Pondé, não surpreendentemente, é um defensor da “alternativa” do criacionismo, ainda que, como de hábito, às vezes o assuma, outros vezes pareça negá-lo, como aqui: “Não é que eu rejeite o acaso ou a violência implícitos no darwinismo – pelo contrário”. Atente-se, porém, para a formulação ambígua e condescendente, além de pretensiosa: “Não é que eu rejeite o darwinismo...”. Tanto o rejeita que é incapaz de compreendê-lo minimamente: qualquer estudante de primeiro ano de biologia sabe que o acaso e a violência são, na verdade, explícitos no darwinismo. Compare-se, em todo caso, com outra passagem do mesmo autor:

 A controvérsia que opõe o darwinismo ao criacionismo [...] – ou teoria do “design inteligente”, herdeira direta da união entre o “primeiro motor” aristotélico e o Deus de Abraão – não é apenas uma querela sobre como a poeira cósmica começou a pensar, mas uma discussão acerca do sentido profundo da vida.[iv]




Não há nenhuma controvérsia opondo o darwinismo ao criacionismo, mas o contrário, o que não é indiferente: o criacionismo se opõe, agressivamente, ao darwinismo. Pondé, sendo um crente, deveria ser, necessariamente, um criacionista, pois como ele mesmo afirma, Deus é uma “hipótese para a origem do Universo”. Acontece que há hipóteses excludentes: no caso do surgimento da vida, ou Deus a criou, ou a matéria inanimada regida pelo acaso. Não há como ser ambos. Pondé, de fato, desconfia do darwinismo: “O darwinismo é a teoria da autossuficiência da matéria”.

[v] Sua inconsistência e sua confusão obscurantistas, porém, fazem com que acredite poder servir a dois amos. Assim, a depender do dia, de seu humor ou do texto seu que se consulte, ele defenderá, ora o darwinismo, como no livro em questão (em que concede sentir “simpatia pela teoria de Charles Darwin” [p. 61]), ora o criacionismo, como na passagem acima, em que manifesta mais do que simpatia, mas faz dele verdadeira justificativa.

Porém não se trata, afinal, do darwinismo, e sim da própria biologia. Porque não existe biologia sem darwinismo. O problema é ser impossível conceber um ataque minimamente consistente ao gigantesco edifício da biologia, que inclui a paleontologia, a genética, a embriologia, a fisiologia, a anatomia comparada, a etologia, a bioquímica e um gigantesco etc. O darwinismo é a base conceitual unificadora de todas as ciências biológicas, que, por um lado, sem ele sequer podem existir, e que, por outro, o corroboram em seus vários campos de pesquisa. Portanto, ao atacar o darwinismo (ou defender o criacionismo), os crentes em geral e os obscurantistas em particular estão, na verdade, atacando o conjunto das ciências biológicas. Não convém, porém, explicitá-lo, primeiro, porque soa, ora, obscurantista; segundo, porque indica a imensa robustez do darwinismo; terceiro, porque demonstra implicitamente a fraqueza e a insensatez do ataque, que não pode sequer nomear seu verdadeiro alvo, o edifício das ciências biológicas, de que o darwinismo é o alicerce e o cimento. Mas por que, afinal, a necessidade de atacar a biologia?

Porque a biologia não distingue o homem dos demais animais. A biologia é a ciência da vida em seu conjunto. E as grandes religiões são antropocêntricas. A controvérsia que opõe o criacionismo ao darwinismo (e não o contrário), não é, portanto, uma discussão acerca do sentido profundo da vida, como pretende Pondé, mas do sentido profundo da vida humana.

Eis, enfim, o antagonismo fundamental entre as grandes religiões e a biologia, que centraliza o antagonismo (real, apesar dos relativistas) entre as religiões e a ciência: a biologia não reconhece nenhum sentido profundo da vida humana, que é apenas parte da vida terrestre, enquanto as religiões existem para afirmar o sentido especial da espécie. Para que as religiões tenham algum sentido, a vida humana deve ter um significado especial. Daí a biologia, na figura do darwinismo, ter de ser atacada. Não que possa ser fácil ou convincentemente atacada. Daí, enfim, a obsessão e a mal disfarçada frustração dos obscurantistas.

3. Saudades da Idade Média

Para mim, a religião é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do Estado moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média – querer se meter na vida moral das pessoas.[vi]




Eu poderia aqui falar em pura e simples ignorância histórica, mas não o farei. Prefiro pensar em obscurantismo, em sofisma, em falseamento. Mesmo porque, são argumentos não originais. A religião não oferece historicamente nenhuma resistência à “tendência do Estado moderno de querer fazer a cura das almas”. Porque não há tal “tendência”, senso lato, no Estado moderno. Este é por demais multiforme, em termos históricos, para poder ser assim reduzido (que semelhança pode haver entre a República de Weimar e a “República Popular” de Pol Pot no Camboja?). Porque se trata de mais um ataque geral e irrestrito à modernidade. E porque a defesa da religião como fonte de “hábitos morais” é o último recurso do obscurantista. Para começar, não há religião no singular. Para intermediar, existem e existiram religiões que defendem e defendiam “hábitos morais” como a poligamia, a morte de adúlteras, o infanticídio, o sacrifício humano e um interminável etc. Para finalizar, porque em termos históricos a religião é, na verdade, uma fonte inesgotável de disputas culturais e de guerras, para não falar de genocídios: o nazismo, por exemplo, não criou o antissemitismo alemão, mas sim teve no antissemitismo alemão uma de suas causas. E o antissemitismo alemão tem como causa profunda, por sua vez, o antissemitismo europeu, que é, na verdade, o antissemitismo cristão – criado e difundido como elemento central da cultura e da história europeias pela Igreja.

Um conhecido especialista em história do cristianismo não poderia ser mais explícito a esse respeito, ao comentar textos fundamentais de importantes autores cristãos dos primeiros séculos:



Estamos no início de uma forma de ódio antijudaico que não havia aparecido no palco da história antes do advento do cristianismo, e que foi construído sobre uma visão [...] de que as Escrituras judaicas [na verdade] testemunham sobre Cristo, que foi [portanto] rejeitado pelo seu próprio povo e cuja morte, por sua vez, leva à condenação desse povo.[vii]




 Ao contrário do que afirmam obscurantistas antirracionalistas como Pondé, a ideia de que todo um povo – incluindo os bebês – possa ser “culpado” de algo, não vem da racionalidade política – ou de qualquer racionalidade –, mas da irracionalidade mítica (a primeira referência conhecida a um genocídio está no Velho Testamento, em que é perpetrado por Deus através do dilúvio). O método do genocídio nazista foi o da moderna racionalidade instrumental, porém o objeto desse genocídio nasceu da irracionalidade mítica. E antes da modernidade.

A famosa mutação do antissemitismo religioso medieval em antissemitismo “racificado” ou “biológico”, ligado a modernos conceitos “científicos” de raça e eugenia, então se relativiza: o antissemitismo moderno não é idêntico ao medieval, mas tampouco lhe é inteiramente estranho; mesmo porque, é dele diretamente originado. Há, portanto, muitos aspectos relevantes da modernidade que não nasceram nela ou dela, mas dos quais ela é, na verdade, herdeira. Um conservador como Pondé deveria saber disso. Entre esses aspectos, está o próprio totalitarismo.

Quando estados religiosos como o Afeganistão sob o Taleban voltam a existir, torna-se mais fácil imaginar a vida na Europa cristã. Por exemplo, episódios de brutal vontade totalitária, como a expulsão de toda a comunidade judaica espanhola pelos “reis católicos” (não por acaso). Se esse episódio, em pleno século XV, já possui algo da nascente ideia moderna de Estado nacional, com sua ideia de "povo", tem muito de protototalitarismo cristão medieval – cujas manifestações incluem da conhecida censura do
Index Prohibitorum às menos conhecidas destruições de comunidades “heréticas”, como a dos cátaros. A “caça às bruxas” (tampouco uma criação original do Estado totalitário moderno) começara, em todo caso, muito antes – mais exatamente, no século IV:

Todos os povos sobre os quais exercemos regência bondosa e moderada devem [...] converter-se à religião comunicada aos romanos pelo divino apóstolo Pedro [...]. Apenas aqueles que obedecem a esta lei poderão [...] chamar-se cristãos católicos. Os demais, que declaramos verdadeiramente tolos e loucos, carregarão a vergonha de uma seita herética. Tampouco poderão ser chamados igrejas seus locais de reunião. Por fim, que os persiga primeiramente o castigo divino, porém depois também a nossa justiça punitiva.





De alguma maneira, a justiça punitiva por sentença celestial vigorará até 1789, pois os reis absolutistas o eram por “direito divino”. Nada, porém, impede que Pondé, isto é, que um obscurantista, ataque desdenhosamente a racionalidade moderna e a modernidade em si:

A modernidade é uma adolescente, uma menina de 14 anos, que chega a um lugar e começa a organizar. Essa é a imagem. Imagine essa menina, que entra na empresa e começa a administrá-la. Joga fora o que foi feito até hoje, começa a inventar todos os procedimentos.

É a modernidade. Perde-se o quê nesse processo? Perde-se o que uma adolescente de 14 anos perderia administrando uma empresa. Quase tudo.


Mas talvez se ganhe algo: de Galileu a Einstein, passando por Newton e Darwin e chegando à descoberta recente do bóson Highs, base do Modelo Padrão da física contemporânea, ao lado do fim da servidão medieval e da própria emergência do capitalismo, que os verdadeiros liberais não desprezam, ao contrário, pois liberou as maiores forças produtivas (e destrutivas) da história, para usar a expressão de Marx (gerando, por exemplo, da medicina à energia atômica, e da Revolução Industrial à arte moderna, entre otras cositas más). A modernidade foi, obviamente, a maior e mais poderosa conquista da história da humanidade. Apenas um cego, um louco ou um obscurantista nega convictamente o óbvio.




[ii] Brihad Aranyaka 1.4.2, apud David L. Haberman, “Hinduísmo upanixádico: a busca do conhecimento último”, in Leslie Stevenson e David L. Haberman, Dez teorias da natureza humana, São Paulo, Martins Fontes, 2005, p. 68.
[iii] Albert Hourani, Uma história dos povos árabes, São Paulo, Cia das Letras, 2007, p. 237.
[iv] “A vida em suspensão”, Mais!, Folha de S. Paulo, 29/10/2006.
[v] Idem.
[vii] Bart D. Ehrman, Evangelhos perdidos, Rio de Janeiro, Record, 2008, p. 221. A arrogância heurística cristã não pode ser exagerada.
[viii] Decreto imperial de Teodósio I (Cunctos populos, a. D. 380), apud Matthias von Hellfeld, “Cristianismo tornou-se religião de Estado do Império Romano em 380 d. C.”, in Os europeushttp://www.dw-world.de/dw/article/0,,4224599,00.html.
[ix] “A modernidade quis organizar a agonia", entrevista à Folha de S. Paulohttp://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2701200709.htm.