Alguém duvida de que isto seja inaceitável e escandaloso para os pedagogos "igualitários" que sufocam o ensino em Portugal desde os tempos de Roberto Carneiro?
It is quite gratifying to feel guilty if you haven't done anything wrong: how noble! (Hannah Arendt).
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quinta-feira, 28 de novembro de 2013
domingo, 29 de julho de 2012
Escola Secundária Sebastião e Silva
Retoiçava eu cerca de uma semana atrás, mais ou menos distraído, pela relva noticiosa da TVI24, quando, subitamente, as palavras do tratador, perdão, do pivot comunicador (ou ao contrário) zuniram com a força de um raio que me houvesse atingido os tímpanos, deixando-me em vertiginoso estado de desequilíbrio momentâneo. Num esforço quase sobre-humano, consegui, porém, retomar a presença de espírito necessária para perceber o que me acometera e dar-me conta das evoluções do fenómeno.
A força do que quase me derrubara provinha do inesperado do seu carácter: num qualquer concelho, cujo nome o choque me fez esquecer, autarquia, sindicatos de professores e associações de pais concordaram em que a extinção, decretada pelo ME, de onze (onze!) escolas era benéfico para as crianças, as quais passarão agora a frequentar uma outra, a estrear, maior e com melhores condições. Nem vestígios de bullying político, sindical ou outro. Harmónico consenso e tal.
Quase pensei ter acordado senão no céu pelo menos noutro país. Era bom demais e os (suponho eu) igualmente desorientados jornalistas deverão ter pensado o mesmo mas na perspectiva oposta, a do “ai!, que lá se vai o nosso negócio!, ai!, que querem dar cabo do nosso lindo Portugal!”. Pelo que terão ido a correr, em meio de atarantados tropeções, na direcção do telefone, ligar ao sr. presidente da CONFAP, o dr. Albino Almeida, que nunca lhes falhou com o sustento da indispensável tirada crítica.
Foto obtida aqui
Quando o presidente de todos os papás de Portugal entrou no ar, já eu me refizera o suficiente para o ouvir com uma atenção que se foi transformando em espanto: é que o PPP (presidente de todos os papás portugueses) nada tinha a dizer quanto ao fenómeno em si mesmo! Mas de Albino Almeida ainda o país terá muito a esperar, sem que sequer precise de gerar regularmente cidadãos pela vida fora ou sequer de os adoptar, para, deste modo, manter o estatuto que lhe permitiu alcandorar-se à nobre missão a que há anos se dedica. Pelo que não surpreenderá que, em quem o ouviu, haja ido diminuindo gradualmente o espanto, substituído uma vez mais pela admiração face à adequada, justa e subtil argumentação que desenvolveu perante os aplaudentes e reconhecidos profissionais da notícia.
Foto obtida aqui
Não se referindo, pois, ao assunto, frisou, todavia, Albino, algo que é vital ter em conta: se estas novas escolas foram construídas para resolver o problema do isolamento dos alunos que a diminuição da taxa de natalidade provocou nos pequenos agregados populacionais e, em simultâneo, proporcionar-lhes melhores condições de aprendizagem, o acentuar dessa diminuição fará, a médio prazo, que igual problema se ponha quanto às que agora se inauguram. E que é indispensável começar, desde já, a encarar frontalmente o problema e prover, na medida do possível, às suas consequências. Porque isto vai ser um “grave problema para o ensino” em Portugal.
Fiquei a matutar no significado profundo das palavras do PPP. A justeza do que apontou é indesmentível, a verificar-se a continuidade da tendência para a diminuição da natalidade. Não me parecia, no entanto, que isso pudesse vir a constituir um problema para o ensino e para a educação em si mesmos, a não ser que se considere como tal a redução do número de professores necessários para essa tarefa. Até porque, por outro lado, tal permitirá, tanto a alunos como a professores, usufruir de um maior espaço disponível para libertar e multiplicar e desenvolver as suas eventuais capacidades criativas e de investigação.
Lembrei-me, aliás, das escolas do regime do ditador Salazar da minha infância. O Liceu Nacional de Oeiras, por exemplo, a actual E. S. Sebastião e Silva, única escola secundária pública existente, até 1969, entre Algés e Cascais, foi construída para ser frequentada por 500 alunos. Disseram-me que, na década de 80, chegou a ser de 3000 a sua população escolar, e que, dadas as suas dimensões e estruturas, o ME terá mesmo pensado em instalar ali uma Faculdade. Imagine-se o potencial que, hoje, essa mesma escola não representaria para os alunos, em número para o qual foi originalmente planeada, num país livre e que promovesse um verdadeiro ensino.
Foto obtida aqui
Voltando, pois, àquilo que me motivou a escrever estas linhas de fim-de-semana. Posta de parte, por absurda e indigna do brilho da sua mente, a interpretação literal das palavras do dr. Albino Almeida (a não ser no caso de um oportuno, mas para todos impensável, mano-a-mano pontual com Mário Nogueira) apenas me restava supor nelas a existência de um outro significado, de carácter mais profundo e, como já disse, subtilmente enunciado. E foi então que o génio de Freud irrompeu na minha mente, não para que aplicasse os meus parcos conhecimentos de psicopatologia ao Querido Líder da paternidade lusa, mas antes a mim próprio. Porque, sem aparente razão plausível, irrompeu na minha zona de consciência uma frase de Tony Blair em simultâneo com uma outra, que se podia ver a cada passo em cartazes governamentais, nos anos 80 e 90. Passo a explicar.
Nenhum país - Portugal, nesta fase da sua História, muito menos - poderia prescindir de um cidadão com a envergadura intelectual e o dinamismo de Albino Almeida. O seu estofo levá-lo-á, quase inevitavelmente, a assumir, mais tarde ou mais cedo, um cargo governativo onde possa desenvolver uma acção decisiva para o sucesso do nosso destino colectivo. E o dr. Almeida, dotado de imparável argúcia, já se terá disso apercebido há muito tempo: a nação anseia por alguém com uma visão como a sua. Sendo, contudo, o PPP - como Cavaco Silva - um homem simples, que utiliza uma estratégia chã e directa na abordagem dos problemas mais complexos, não poderia, nesse plano, afirmar-se e competir com os chamados políticos de carreira, que utilizam nos seus discursos uma linguagem quase sempre aproximativa e, com frequência, metafórica. Pelo que haveria que adoptá-la e adaptar-se-lhe.
Foto obtida aqui
Esta intervenção de Albino Almeida terá, provavelmente, dado o sinal de partida para o seu futuro percurso político, com um grau de elegância equivalente à deslocação que o sr. Presidente da República fez, em 1985, à Figueira da Foz, para rodar o seu novo Citröen. Aproveitando uma das mais recentes manifestações de preocupação do Professor Doutor Cavaco com o Portugal do século XXI, o PPP reforçou-a e apelou indirectamente à nação para resolver o verdadeiro problema, o que se encontra na raiz mesma do das escolas abandonadas.
A única solução é, efectivamente, aumentar a taxa de natalidade ou, em linguagem popular, fazer filhos. Cavaco já disse aos seus concidadãos que é dever de todos gerá-los, que a Pátria precisa de meninos. Nisso se opõe a Tony Blair que incitava os ingleses a fazerem mais sexo oral. E foi também no decorrer dos governos de Cavaco Silva que houve um enorme incremento de incentivos ao FEDER, que em múltiplas obras se viam cartazes em que se podia constatar o apoio que o FEDER lhes dera. Freud, tal como o algodão, não me enganou nos seus caminhos ínvios.
Foto obtida aqui
O dr. Albino não o disse, porque seria pouco aconselhável ir assim directamente ao assunto. Mas terá assumido, em espírito, e exprimido, sugestivamente, essa linha traçada por aquele que poderá vir a ser, um dia, um seu antecessor - afinal, em que é que o dr. Albino Almeida é menos do que o dr. Fernando Nobre para poder encabeçar qualquer candidatura de cidadania? Pois bem, eu declaro desde já a minha decisão de, nesse caso, lhe dar o meu voto. Nada me agradaria mais do inserir-me incondicionalmente na acção patriótica para que o seu discurso aponta, da qual sou um adepto entusiasta desde muito novo.
A minha única dúvida reside no mote da campanha que, para maior contundência, Albino Almeida deveria adoptar. Num tom assertivo, de comando, talvez
QUE SE FODA A NAÇÃO!
ou, tout-court,
FODA-SE!
Não sei, mas sei que ganhei aquele dia. É que se a espertalhice me enoja, a inteligência encanta-me.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Ensino - debate na Antena 1 - 6 de Junho de 2012
Intervenção do Professor Ramiro Marques ao minuto 11.
sábado, 26 de maio de 2012
Benaventismo-Rodriguismo
No Lisboa - Tel Aviv:
Os resultados de anos e anos de ensino socialista começam a surgir: vem ai uma catástrofe nos teste intermédios de matemática. É a ressaca do 'eduquês' das competências, do ensino centrado no aluno, do ensino inclusivo, da burocracia labirintica, da indisciplina galopante, do facilitismo, da perseguição e desautorização dos professores, dos planos disto e daquilo, dos projetos de fachada, do show-off, das montanhas de papel, da relação com a comunidade, das ações de formação em dança tibetana, dos coitadinhos dos alunos, dos pais a mandar na escola, dos psicólogos a mandar nas aulas, de todos a mandarem nos professores e do direito ao sucesso.
Alguém que peça contas à parelha Ana Benavente/Lurdes Rodrigues.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
MEC tarda em restaurar a autoridade dos professores e em eliminar a burocracia
No ProfBlog:
A propósito do post "Fraco desempenho dos alunos ou testes demasiado exigentes", o colega Fernando Roriz fez este oportuno comentário:
Já todos percebemos que o MEC está a regressar ao patamar dos anos 90.
Só que, nessa época, o "eduquês" , na sua versão lurdista, ainda não fazia mossa e a indisciplina obscena ainda não tinha nascido. O estatuto do aluno era outro, era decente. Hoje, o estatuto do aluno é "obsceno" para a escola pública e está ao serviço da indisciplina reinante.
Portanto está aqui uma boa equação para resolver (bem difícil por sinal): como conciliar o novo grau de exigência que se pretende nas escolas com a indisciplina e o eduquês reinantes?
É que, na escola pública, está tudo como Maria de Lurdes Rodrigues quis. Ou não está?
Assim, regressar aos anos 90, por mim está bem desde que todas as "dimensões" da escola pública regressem também. Caso contrário, a equação acima referida bem que poderá ser designada por "equação utopia".
Fernando Roriz
Bem visto. Nuno Crato faz bem em ajustar em alta os níveis de exigência dos testes intermédios, provas de aferição e exames mas para que a equação não seja utópica tem também de fazer regressar outras variáveis aos níveis de exigência e rigor dos anos 80 do século passado. E isso tarda para desespero dos professores.
E a reforma do Estatuto do Aluno, prometida há longos meses, tarda em ser aprovada. A prometida restauração da autoridade dos professores corre o risco de não passar de uma promessa. E a anunciada eliminação da burocracia inútil parece conhecer o mesmo caminho: adiamento.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
Mais uma bolha estatal de 1 milhão de milhões de dólares
No Espectador Interessado:
"Nos EUA em particular, os diferentes subsídios e incentivos atribuídos pelo governo federal, de acesso a crédito bancário para financiar a frequência universitária, levaram já à formação de uma bolha monstruosa de um milhão de milhões de dólares (1 trillion). Não é assim de estranhar que se verifique um fenómeno crescente de incumprimento dos graduados que não conseguem empregos (quando conseguem) com uma remuneração suficiente que lhes permitam pagar as dívidas contraídas."
sábado, 12 de maio de 2012
O papel da APM na hegemonia do uso das calculadoras na sala de aula
Ramiro Marques no ProfBlog:
Acompanhei com ceticismo a catequização feita nas duas últimas décadas a favor do uso das máquinas de calcular no ensino. A catequese foi feita sobretudo pela Associação de Professores de Matemática: uma associação com um poder imenso entre os professores de matemática e entre os professores do 1º CEB. Os segundos foram os que mais facilmente se deixarem endoutrinar por uma pedagogia construtivista do ensino da matemática que teve nas calculadoras o seu principal instrumento.
A hegemonia que a APM teve no ensino da matemática foi assegurada com a cumplicidade do ministério da educação. Os seus dirigentes foram chamados a integrar grupos de trabalho e comissões e foram os responsáveis pelas sucessivas revisões dos programas de ensino. A pouco e pouco, a APM controlou quase toda a formação contínua de professores na área da didática da matemática (educação matemática como eles dizem).
Antes da chegada ao Governo de Nuno Crato, a APM tinha um poder imenso nas estruturas centrais do ministério da educação. Continua a ter imenso poder nos departamentos e escolas de educação.
Durante duas décadas, quase ninguém foi capaz de questionar esse poder. Apenas a Sociedade Portuguesa de Matemática se opôs à retórica de instrumentalização dos professores. Na época de ouro das políticas socialistas educativas - durante os governos de Guterres e José Sócrates - ninguém ouviu os avisos da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM). Toda a atenção estava virada para as recomendações pedagógicas da Associação de Professores de Matemática (APM). Recomendações que foram aceites e seguidas com acriticismo. No final da década de 90 e na primeira metade da primeira década do século XXI, a APM conseguiu reunir nos seus congressos anuais mais de 2000 participantes vindos de todo o país, movimentando verbas astronómicas em inscrições, subsídios e patrocínios.
O poder da APM era imenso e fazia-se expressar através de uma revista de grande circulação, dezenas de livros sobre educação matemática, muitos de apologia ao uso das calculadoras, ações de formação creditadas por todo o país e congressos anuais que movimentavam milhares de docentes.
Os dirigentes da APM ocuparam toda a estrutura do poder ligado ao ensino da matemática. Milhares de professores do 1º CEB e professores de matemática do ensino secundário e do 2º e 3º CEB foram formados na ideologia pedagógica da APM. Centenas de teses de mestrado e de doutoramento em educação matemática foram orientadas por líderes educacionais próximos da APM.
Os professores de matemática e os professores dos 1º CEB deixaram-se seduzir pelo discurso da APM e dos seus líderes.
O resultado da hegemonia da retórica a favor da generalização do uso das calculadoras na sala de aula é conhecido: os alunos foram perdendo as capacidade de cálculo mental de tal forma que as operações matemáticas simples se tornaram impossíveis sem o uso de calculadora.
O resultado da hegemonia da APM no ensino da matemática impede a suspensão imediata do uso das calculadoras na sala de aula. No post anterior, eu perguntei: "Há algum problema em pô-la em vigor de imediato?". O Rio D`Oiro deu esta explicação que me parece acertada:
Tal faria com que, de um momento para o outro, ninguém soubesse quanto é 4x3 ou 2x6.
O que a mim me faz confusão é por que não começa a medida a ser implementada na primária, acompanhando os alunos. Este ano proibição até à 4ª para o ano até ao 6º, depois 9º.
A maioria dos alunos não têm a mínima noção se 50000 ervilhas ocupam apenas um MP3 ou enchem um camião.
Acompanhei com ceticismo a catequização feita nas duas últimas décadas a favor do uso das máquinas de calcular no ensino. A catequese foi feita sobretudo pela Associação de Professores de Matemática: uma associação com um poder imenso entre os professores de matemática e entre os professores do 1º CEB. Os segundos foram os que mais facilmente se deixarem endoutrinar por uma pedagogia construtivista do ensino da matemática que teve nas calculadoras o seu principal instrumento.
A hegemonia que a APM teve no ensino da matemática foi assegurada com a cumplicidade do ministério da educação. Os seus dirigentes foram chamados a integrar grupos de trabalho e comissões e foram os responsáveis pelas sucessivas revisões dos programas de ensino. A pouco e pouco, a APM controlou quase toda a formação contínua de professores na área da didática da matemática (educação matemática como eles dizem).
Antes da chegada ao Governo de Nuno Crato, a APM tinha um poder imenso nas estruturas centrais do ministério da educação. Continua a ter imenso poder nos departamentos e escolas de educação.
Durante duas décadas, quase ninguém foi capaz de questionar esse poder. Apenas a Sociedade Portuguesa de Matemática se opôs à retórica de instrumentalização dos professores. Na época de ouro das políticas socialistas educativas - durante os governos de Guterres e José Sócrates - ninguém ouviu os avisos da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM). Toda a atenção estava virada para as recomendações pedagógicas da Associação de Professores de Matemática (APM). Recomendações que foram aceites e seguidas com acriticismo. No final da década de 90 e na primeira metade da primeira década do século XXI, a APM conseguiu reunir nos seus congressos anuais mais de 2000 participantes vindos de todo o país, movimentando verbas astronómicas em inscrições, subsídios e patrocínios.
O poder da APM era imenso e fazia-se expressar através de uma revista de grande circulação, dezenas de livros sobre educação matemática, muitos de apologia ao uso das calculadoras, ações de formação creditadas por todo o país e congressos anuais que movimentavam milhares de docentes.
Os dirigentes da APM ocuparam toda a estrutura do poder ligado ao ensino da matemática. Milhares de professores do 1º CEB e professores de matemática do ensino secundário e do 2º e 3º CEB foram formados na ideologia pedagógica da APM. Centenas de teses de mestrado e de doutoramento em educação matemática foram orientadas por líderes educacionais próximos da APM.
Os professores de matemática e os professores dos 1º CEB deixaram-se seduzir pelo discurso da APM e dos seus líderes.
O resultado da hegemonia da retórica a favor da generalização do uso das calculadoras na sala de aula é conhecido: os alunos foram perdendo as capacidade de cálculo mental de tal forma que as operações matemáticas simples se tornaram impossíveis sem o uso de calculadora.
O resultado da hegemonia da APM no ensino da matemática impede a suspensão imediata do uso das calculadoras na sala de aula. No post anterior, eu perguntei: "Há algum problema em pô-la em vigor de imediato?". O Rio D`Oiro deu esta explicação que me parece acertada:
Tal faria com que, de um momento para o outro, ninguém soubesse quanto é 4x3 ou 2x6.
O que a mim me faz confusão é por que não começa a medida a ser implementada na primária, acompanhando os alunos. Este ano proibição até à 4ª para o ano até ao 6º, depois 9º.
A maioria dos alunos não têm a mínima noção se 50000 ervilhas ocupam apenas um MP3 ou enchem um camião.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Matemática e máquinas de calcular
Vai sei progressivamente reduzida a utilização de máquinas de calcular em aulas e exames de matemática. A meta será deixar de se usar máquinas até ao 9º ano (suspeito que terão que abrir excepções pelo menos para trigonometria).
E para quando o fim do uso de computadores até à mesma altura?
E para quando o fim do uso de computadores até à mesma altura?
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Educação socialista
Professora Maria do Carmo Vieira:
Neste momento, nas escolas, exercem-se apenas técnicas pedagógicas. Não há conteúdo.
Há professores muito ignorantes porque estão a ser formatados em pedagogia e não sabem nada.
Os alunos que estão mais bem preparados não podem ser vítimas dos outros.
Há muitas escolas de 'bom senso'.
domingo, 15 de abril de 2012
A mentira da educação
No ProfBlog:
A nossa Educação Pública vive há décadas sobre uma mentira: a ideia romântica e inquestionável de que todas as crianças e adolescentes são capazes de chegarem até onde elas ou os pais delas quiserem.
Toda a gente finge que acredita neste axioma. Na verdade, ninguém acredita nele mas todos fingem que este axioma é uma verdade inquestionável.
Quem ousa manifestar dúvidas, apontando exemplos de crianças e adolescentes que, por mais que os professores se esforcem, não conseguem chegar onde os pais querem que elas cheguem, é estigmatizado de diversas maneiras. A mais comum é levar com a etiqueta de conservador.
Chegámos a uma situação em que é de mau tom afirmar aquilo que todos conhecem: há crianças muito inteligentes, outras que o são medianamente e outras ainda que são muito lentas a aprender. E há crianças que se esforçam muito, outras que se esforçam pouco. E há algumas que adoram aprender e outras que se cansam facilmente.
E, por fim, há crianças que adoram a escola e outras que a detestam.
A falácia da escolaridade obrigatória e de uma via única para todos é aceite de forma inquestionável. O resultado está à vista: os gastos com a Educação não cessam de subir e os resultados não passam da mediocridade.
Todos nós sabemos isso mas fingimos que não é verdade. E vamos repetindo até à exaustão o contrário.
domingo, 8 de abril de 2012
Socráticos agarrados à Parque Escolar fazem guerra a Seguro
Relativamente a este post do ProfBlog, deixei este comentário:
Não há forma desta gente perceber que tijolos são tijolos e cérebro é coisa de humanos. Até nisso esta gente é uma contradição pegada. Dizem defender o intelecto com unhas e dentes e acham que tijolos desenvolvem o intelecto.
Portugal tem regra geral um clima ameno e à excepção da zona Norte* nada há que justifique que um país falido gaste dinheiro em obras de climatização e muito menos embelezamento. Embelezamento, pura propaganda socretina daquela em que o agora "estudante" se rodeava e nos obrigava a pagar para aparecer bem. Era o político-espantalho amante da escola-espantalho.
---------
*Justifica-se aquecimento nalgumas daquelas escolas durante um par de meses.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Estatísticas ...???
Seria bom que quando alguém aborda estatísticas em Portugal tivesse presente que tudo é possível. David Levy chama a atenção para este caso particular:
Os relatórios que de vez em quando são publicados acerca da segurança escolar, são apenas uma pequena amostra do que realmente se passa. Diz este último que no ano lectivo 2010/2011 houve 874 agressões entre alunos. Só se for por dia, basta ir a qualquer escola para se perceber imediatamente o quão longe da realidade estão estes números. São ainda os efeitos directos de anos e anos de uma cultura de desculpabilização e encobrimento da violência escolar.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Rita Rato e a transparência opaca
A deputada Rita Rato, do PCP, licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais desconhece (tem falta de informação), entre outras espantosas coisas e como anteriormente se ficou a saber, o que se passou nos gulags. Pois a mesma deputada acha-se em condições para determinar que informação deve ser facultada a alunos ... !!!
Recebido por email...
... mas já a circular no facebook e publicado noutros blogues, alguns de amigos do casal.
Carta de Sara Fidalgo, filha do jornalista Joaquim Fidalgo e de Estefânia Fidalgo, professora de Inglês, que se suicidou recentemente
Carta da Sara
Carta a professores, alunos, pais, governantes, cidadãos e quaisquer outros que possam sentir-se tocados e identificados.
As reformas na educação estão na boca do mundo há mais anos do que os que conseguimos recordar, chegando ao ponto de nem sabermos como começaram nem de onde vieram. Confessando, sou apenas uma das que passou das aulas de uma hora para as aulas de noventa minutos e achei aquilo um disparate total. Tirava-nos intervalos, tirava-nos momentos de caçadinhas e de saltar à corda e obrigava-nos a estar mais tempo sentados a ouvir sobre reis, rios, palavras estrangeiras e números primos.
Depois veio o secundário e deixámos de ter “folgas” porque passou a haver professores que tinham que substituir os que faltavam e nós ficávamos tristes. Não era porque não queríamos aprender, era porque as “aulas de substituição” nos cansavam mais do que as outras. Os professores não nos conheciam, abusávamos deles e era como voltar ao zero. Eu era pequenina. E nunca me passou pela cabeça pensar no lado dos professores. Até ao dia 1 de Março.
Foi o culminar de tudo. Durante semanas e semanas ouvi a minha mãe, uma das melhores professoras de Inglês que conheci, o meu pilar, a minha luz, a minha companhia, a encher a boca séria com a palavra depressão. A seguir vinham os tremores, as preocupações, as queixas de pais, as crianças a quem não conseguimos chamar crianças porque são tão indisciplinadas que parece que lhes falta a meninice. Acreditem ou não, há pais que não sabem o que estão a criar. Como dizia um amigo meu: “Antigamente, fazíamos asneiras na escola e quando chegávamos a casa levávamos uma chapada do pai ou da mãe. Hoje, os miúdos fazem asneiras e os pais vão à escola para dar a dita chapada nos professores”. Sim, nos professores. Aqueles que tomam conta de tantos filhos cujos pais não têm tempo nem paciência para os educarem. Sim, os professores que fazem de nós adultos competentes, formados, civilizados. Ou faziam, porque agora não conseguem.
A minha mãe levou a maior chapada de todas e não resistiu. Desculpem o dramatismo mas a escola, o sistema educativo, a educação especial, a educação sexual, as provas de aferição e toda aquela enormidade de coisas que não consigo sequer enumerar, levaram deste mundo uma das melhores pessoas que por cá andou. E revolta-me não conseguir fazer-lhe justiça.
Professores e responsáveis pela educação, espero que leiam isto e acordem, revoltem-se, manifestem-se (ainda mais) mas, sobretudo e acima de qualquer outra coisa, conversem e ajudem-se uns aos outros. Levem a história da minha mãe para as bocas do mundo, para as conversas na sala dos professores e nos intervalos, a história de uma mulher maravilhosa que se suicidou não por causa de uma vida instável, não por causa de uma família desestruturada, não por dificuldades económicas, não por desgostos amorosos mas por causa de um trabalho que amava, ao qual se dedicou de alma e coração durante 36 anos.
De todos os problemas que a minha mãe teve no trabalho desde que me conheço (todos os temos, todos os conhecemos), nunca ouvi a palavra “incapaz” sair da boca dela. Nunca a vi tão indefesa, nunca a conheci como desistente, nunca pensei ouvir “ando a enganar-me a mim mesma e não sei ser professora”.
Mas era verdade. Ela soube. Ela foi. Ela ensinou centenas de crianças, ela riu, ela fez o pino no meio da sala de aulas, ela escreveu em quadros a giz e depois em quadros electrónicos. Ela aprendeu as novas tecnologias. O que ela não aprendeu foi a suportar a carga imensa e descabida que lhe puseram sobre os ombros sem sentido rigorosamente nenhum. Eu, pelo menos, não o consigo ver. E, assim, me manifesto contra toda esta gentinha que desvaloriza os professores mais velhos, que os destrói e os obriga a adaptarem-se a uma realidade que nunca conheceram. E tudo isto de um momento para o outro, sem qualquer tipo de preparação ou ajuda.
Esta, sim, é a minha maneira de me revoltar contra aquilo que a minha mãe não teve forças para combater. Quem me dera ter conseguido aliviá-la, tirar-lhe aquela carga estupidamente pesada e que ninguém, a não ser quem a vive, compreende. Eu vivi através dela e nunca cheguei a compreender. Professores, ajudem-se. Conversem. E, acima de tudo, não deixem que a educação seja um fardo em vez de ser a profissão que vocês escolheram com tanto amor. Pensem no amor. E, com ele, honrem a vida maravilhosa que a minha mãe teve, até não poder mais.Sara FidalgoP.S. - Não posso deixar de agradecer a todos os que nos ajudaram neste momento de dor *
quarta-feira, 21 de março de 2012
Bases para a reorganização do ensino profissional de jovens
[Artigo congeminado pelo Professor Ramiro Marques e por mim para o ProfBlog. Haverá gralhas, mas o tempo não estica.]
Nota prévia
A reforma do ensino profissional de jovens tem de ser gradualista, apostar no aumento da qualidade e do rigor e aprofundar a ligação às empresas. Há-de ter o contributo das escolas secundárias, públicas e privadas, e das empresas e associações empresariais.
Essa articulação deve fazer-se pela partilha de conhecimentos, recursos e equipamentos. As escolas fornecem os recursos humanos para assegurarem o ensino da literacia, numeracia, inglês e informática. As empresas oferecem o ambiente de trabalho, o contexto onde se faz o estágio e se ensina a dimensão tecnológica do currículo. É também a empresa, através de um centro de aprendizagem de preferência, que oferece o currículo informal centrado na aquisição das virtudes que potenciam a realização profissional e a integração no mercado de trabalho: empreendedorismo, resiliência, pontualidade, assiduidade, respeito pelas chefias e gosto pelo trabalho bem feito.
A reorganização deve fazer-se criando incentivos para as escolas e cursos com elevada empregabilidade, rigor e exigência. O apoio financeiro deve seguir os alunos. As escolas e as empresas devem ser estimuladas a concorrer entre si para atrair os alunos. As escolas e cursos com baixa empregabilidade e pouco rigor e exigência devem perder os financiamentos.
As nossas empresas são coisas muito frágeis, geralmente ligadas a clientes frágeis ou, se sólidos, ligadas por corrupção, em particular no caso do estado.
Há experiências interessantes, por exemplo, com alunos noturnos (excelentes) da Auto Europa mas, regra geral, as empresas pautam-se pela regra do mínimo indispensável. O sistema de formação profissional em uso na Auto Europa merece estudo para futura generalização.
Neste momento, as empresas estão todas com a corda na garganta. Só aceitam estagiários se cada formando levar atrás de si algum apoio financeiro. A criação de uma rede de centros de aprendizagem localizados em empresas depende muito do envelope financeiro agarrado ao formando. Mas o montante do envelope financeiro deve depender da empregabilidade dos formandos. Maior para as escolas e centros de aprendizagem com formandos que, no final do processo de aprendizagem, conseguirem ocupar um posto de trabalho; menor para os que não conseguirem.
A importância do Inglês
Começamos por chamar a atenção que muitos professores ligados a áreas tecnológicas não são capazes de ler um manual técnico em inglês. O problema básico é o vocabulário não técnico (o inglês corrente).
Os formadores com mais de 50 anos de idade andaram na escola no tempo em que o francês era dominante e o inglês coisa secundária. Não poucas vezes os vemos com livros franceses debaixo do braço. Os mais novos nem francês nem inglês.
Todos sabemos que o mundo da tecnologia é dominado pelo inglês e quando precisamos desembrulhar um problema numa aplicação qualquer a única hipótese viável é participar nos forae em inglês deixando perguntas, trocando notas e impressões e usando a gramática do software tal como ela se nos depara: em inglês.
O inglês (a falta dele) é uma barreira gigantesca para o técnico português.
Nos Estados Unidos tem-se a 'mania' de pespegar com tudo na Internet. Não há assunto que não seja lá discutido e bem discutido. As universidades publicam programas inteiros (vídeo) sobre todas as matérias. Todos os assuntos são publicados e escalpelizados na internet com conhecimento de causa.
O português resume-se a Portugal, aos PALOPS e o Brasil. Portugal está, a esse respeito, no tempo da pedra lascada, nos PALOPS não há nem pedra quanto mais lascada e no Brasil ... é o caos. O Brasil tem muita coisa de tecnologia na Internet, mas a asneira campeia. Nada é fiável.
Se o técnico português não romper proficientemente a barreira do inglês não conseguirá sair da cepa torta. Será sempre o último a saber e só saberá quando essa informação estiver caduca. Já agora, e os professores também.
Se os formandos não aprenderem Inglês de pouco lhes serve a ferramenta da Internet. É por isso que qualquer programa de formação, quer para jovens quer para adultos, deve incluir uma forte presença de Inglês.
Algumas empresas cientes da dificuldade em encontrar trabalhadores que prestem pagam cursos de largas centenas de horas para que os formandos aprendam alguma coisa. Mas costuma ser um desastre. Aprender dá trabalho, é uma chatice, estão de corpo presente e alma distante. O resultado médio é duvidoso (havendo casos bons e mesmo muito bons). Habitualmente fazem com os alunos um contrato de permanência ao serviço (quem investe pretende retorno) ... mas os jovens, caso se vejam com o canudo, abandalham militantemente o trabalho.
Nas empresas médias a coisa é mais interessante. Os trabalhadores têm mais interesse e flexibilidade. Tal não significa que aprendam como deviam mas é melhor que nas grandes.
Nas pequenas predomina a empresa familiar que, por vezes tem também funcionários. É talvez o caso em que há mais variação entre gente muito boa e muito má. Por exemplo, neste grupo, encontram-se engenheiros que sabem, trabalham com máquinas e orientam o resto da família e funcionários. São casos muito interessantes.
Nas empresas pequenas, há ainda gente que começou a trabalhar com a maquinaria mas que a abandonou para se remeter à "gestão". É a empresa que tem uns quantos trabalhadores a trabalhar sem vínculo significativo que convém, por vezes, às duas partes.
É nesta confusão de contextos que se tenta encontrar empresas para os jovens estagiarem. Em geral aquelas onde há gente mais competente não aceitam estes jovens (não estão para os aturar ou asseguram-se previamente que o estagiário se parece como tal).
Entretanto, em estágio, há de tudo: bom e mau. Alguns faltam porque não estão habituados ao esforço.
Outros ficam com problemas "psicológicos" quando em obra lhes mandam um berro. Outros perdem todos os dias o autocarro porque não "conseguem" acordar (por atalhos ficamos a saber que vão diariamente para a farra). Outros perdem o passe que, às vezes, custa uma fortuna. Outros perdem o capacete e as botas e queixam-se que os não deixam entrar na obra. O estágio vai correndo, mas todos os dias os telefones tocam e as cenas são múltiplas.
Depois de tudo isto o que se aprende? Para os alunos adultos, os que aturam os jovens, pouco. Os jovens, praticamente nada.
Articular escola com as empresas
Onde fazer o ensino profissional de jovens? Na escola? Em algumas, não em todas. Apenas nas que têm recursos humanos e equipamentos adequados. Uma forte ligação ao tecido empresarial local ajuda. Na empresa e associações empresariais? Sim, sobretudo nas empresas que estejam dispostas a criar centros de aprendizagem para jovens. E o currículo? Faz sentido oferecer um currículo com duas componentes formais: geral e vocacional. Na primeira, a oferta deve centrar-se no inglês, literacia e numeracia. Na segunda, a oferta deve centrar-se na aprendizagem das tecnologias. O centro de aprendizagem de empresa deve oferecer um currículo informal que enfatize valores como a pontualidade, assiduidade, resiliência, respeito pela hierarquia e gosto pelo trabalho bem feito. E, claro, o estágio.
A dimensão informal da aprendizagem em empresa
Há uma dimensão do currículo que não se deve negligenciar. Essa dimensão é informal, depende da cultura do centro de aprendizagem, e inclui os valores básicos necessários a uma vida profissional bem conseguida: pontualidade, assiduidade, respeito pela hierarquia, gosto pelo trabalho bem feito e resiliência.
Em algumas escolas públicas, dificilmente é possível assegurar a presença dessa dimensão. Os cursos de educação e formação e os cursos profissionais estão, muitas vezes, contaminados por uma cultura de desresponsabilização que é hostil à aquisição de valores básicos. É por isso também que defendemos a criação de centros de aprendizagem em empresas, em associações empresariais e nas escolas que tenham um ethos e uma cultura favoráveis à articulação com as empresas locais e, claro, recursos humanos e materiais adequados.
Obviamente, esses centros de aprendizagem podem e devem estabelecer parcerias com escolas secundárias que assegurem a oferta da dimensão curricular geral: matemática, português e inglês.
Há cursos profissionais que funcionam bem. Esses devem ser acarinhados. Não defendemos a eliminação pura e simples de todos os cursos profissionais. Os bons devem manter-se. Sobretudo os que funcionam em escolas profissionais com uma boa articulação às empresas e com ofertas formativas para nichos de mercado com saída: indústria, hotelaria, turismo, agricultura e pescas. Os cursos que não têm qualidade devem ser eliminados e os recursos financeiros aplicados neles transferidos para centros de aprendizagem com uma estreita articulação com as empresas e associações empresariais.
É fácil identificar os cursos com qualidade: basta ver as taxas de empregabilidade.
Em ambientes sem ordem nem tranquilidade, os alunos não adquirem as virtudes consideradas imprescindíveis para a entrada no mercado de trabalho: pontualidade, assiduidade, respeito pela autoridade e resiliência. Ao invés, aprendem a ser erráticos, caprichosos, desobedientes, malcriados, arrogantes e indolentes.
Há escolas que não são o local certo para fazer ensino profissional de jovens que acumulam insucesso atrás de insucesso e que não têm hábitos de trabalho nem respeitam os padrões mínimos de civilidade. Os alunos viciam-se numa cultura de direitos, centrada na gratificação imediata, e não dão valor nem à escola nem aos professores. Não são capazes de traçar a fronteira entre o lúdico e o trabalho, entre a brincadeira e o esforço. Tudo lhes é dado - pequeno-almoço, almoço, livros e transportes - sem lhes ser exigido nada em troca.
Os diretores habituaram-se à ideia de que a criação de cursos profissionais, Cef e Efa, ainda que não haja na escola equipamentos e recursos humanos adequados, é uma exigência que resulta das políticas educativas inclusivas. O objetivo é tirar os jovens da rua. A avaliação externa, tal como hoje é feita, reforça essa exigência.
As escolas secundárias públicas foram empurradas, entre 2006 e 2010, para criarem cursos profissionais com o objetivo de permitir ao Governo o cumprimento de metas estatísticas. Criaram-se cursos a eito sem atender à cultura e características das escolas nem às necessidades do mercado de trabalho. Deu-se demasiada ênfase à oferta de cursos para o setor terciário em desfavor da agricultura, indústria e pescas.
As empresas querem profissionais que gostem de aprender, que saibam cumprir regras, respeitem a hierarquia, sejam pontuais, sejam assíduos e resilientes. As escolas onde os cursos profissionais são ministrados ensinam, em alguns casos, o contrário de tudo isto.
Obviamente, as empresas só estarão dispostas a alinhar na reconstrução de um ensino profissional deste tipo se ganharem alguma coisa com isso. O valor do envelope financeiro deve ser proporcional à taxa de empregabilidade conseguida.
Pouco rigor e tecido empresarial fraco
O panorama do ensino (chamemos-lhe genericamente) de oportunidade é de filme de horror com cenas dantescas provocadas pela aguda perda de soberania económica que Portugal enfrenta e de que é principal responsável (independentemente de pormenores de índole política).
O horror é composto pela insistência em políticas de sucessivo abaixamento de fasquia baseadas em disparatadas e aberrantes visões do mundo. De tudo isto o ensino regular também padece embora em menor grau, apesar de preocupante (é aliás do ensino regular que os alunos que procuram a via profissional brotam sem a real preparação que a documentação atesta).
Favorece-se a progressão dos alunos sempre alimentada numa infundada esperança de que as criaturas posteriormente recuperarão o tempo e as matérias perdidas. Esta política não passa, porém, de um premiar da incompetência. Alavancada no “sucesso anterior”, será insistentemente mais e mais exercitada levando os alunos a um beco constituído pela impossibilidade de perceber matérias para as quais não estão nem preparados nem a milhas de estarem. Esta política pretende ainda estar na vanguarda, pasme-se, de um Portugal de mão-de-obra qualificada, resguardado do trabalho mal pago, repetitivo e monótono, jamais se encarando o treino de alunos em habilidades básicas não carentes de preparação teórica. Não fica por aqui como mais tarde se verá.
No que respeita aos agentes directamente envolvidos no processo, temos as empresas, os estabelecimentos do ensino regular e os centros de formação profissional (estatais e privados).
As empresas que temos são as que nos restam num sistema que só vê nelas uma fonte de impostos. Os melhores empresários foram-se afastando (saindo do país ou remetendo-se a uma qualquer atividade que lhes permita sobreviver sem dores de cabeça) e ficando apenas os que se adaptam ao sistema.
Tendo em atenção que historicamente o tecido empresarial português é composto por minúsculas empresas, o empresário que conhece bem aquilo que faz vê a vida dificultada por uma imensidão de imposições burocráticas que o levam ou a afastar-se da exata coisa pela qual se interessa ou a sobrecarregar a minúscula empresa contratando quem o liberte do fardo pelo qual terá sempre e invariavelmente que responder e ser derradeiro responsável. Neste padrão surge, por um lado, a economia paralela, por outro o crony capitalism. Uma e outro espalham suficiente mau ambiente para tornar estes os dois tipos de entidades crescentemente dominantes, afugentando empresários pouco dados a truques.
A generalidade das subsistentes empresas opera hoje em modo de sobrevivência. Faz o que pode, aceita fazer o que sobra, aceita sobreviver. Os trabalhadores, perante o espetro do desemprego, aceitam fazer o que resta para fazer.
Os estabelecimentos de ensino regular são dominados por docentes que desconfiam das empresas vendo nelas uma coisa tenebrosa que “apenas” procura o lucro. Tendem a militar num mundo alternativo que evite que os alunos possam pretender ter uma profissão concreta numa qualquer empresa, sempre insistindo em caminhos tangenciais a um mal definido enriquecimento do aluno “enquanto cidadão”, pasme-se, para ficarem “fora do jugo da exploração”.
Os centros de formação encontram-se a meio caminho entre um ensino avesso a empresas e as empresas maioritariamente geridas por empresários cada vez mais especialistas em adaptação a todo o tipo de interceção subversiva ao aparelho do estado ou, alternativamente, vivendo à revelia de … tudo.
A formação profissional por via direta do estado tem a maioria dos tiques do ensino regular porque a maioria dos docentes são dali oriundos (mesmo que pouco claramente). A formação profissional privada é um pouco mais ligada aos problemas e ao interior das empresas muito embora com as limitações decorrentes, embora atenuadas, do ensino profissional estatal e do presente estado de coisas nas próprias empresas.
Rigor e exigência
É voz corrente que quem chega ao ensino profissional chega já com determinado grau académico que não corresponde, nem de longe, à realidade. Este aspecto tem que ser resolvido ou, pelo menos, começar a ser resolvido porque nenhuma decisão poderá ser aplicada racionalmente sem que os factos de que o aluno é portador correspondam ao certificado que lhe foi passado.
Supondo que numa fase inicial há que dar destino a alunos que irremediavelmente se apresentam com um grau académico deturpado não parece haver outra solução que aplicar a estes alunos exames apropriados que confiram um razoável grau de confiança de ponto de partida. Chame-se a esse exame o que se quiser, mas não vale a pena tentar ensinar trigonometria a quem não sabe o que é uma régua ou porque começa a respectiva escala em 0 e não em 1 (para não falar num ângulo). Esses alunos devem ser colocados em pontos de partida de percurso de ensino profissional por forma potenciar-se a possibilidade de se ensinar a partir daí.
Naturalmente que, paralelamente, há que perguntar como se consegue ter o 9º ano (ou qualquer outro) sem saber ler ou escrever, ou nunca mais sairemos deste torpor em que se tenta ensinar quem não tem bases para o que se pretende ensinar.
Aparentemente há um fenómeno do campo da falácia que explica a razão porque são encaminhados alunos que quase nada sabem para os mais avançados percursos. Há umas múltiplas entrevistas em variadas instituições de “seleção” que apuram os alunos que mais vêm ao encontro do que se espera ouvir: “esforço”, “disciplina”, “método”, “assiduidade”, “educação” ... palavras soltas que os alunos bem conhecem e sabem usar como forma de afagar o coração da outra parte que, entretanto, acha razoável remeter quem “demonstra tanta vontade” a caminho sofisticado que “ele, coitado, merece”. Para o aluno é fundamental entrar para o mais impossível caminho porque sabe que aquele erro inicial vai, direta ou indiretamente, dificultar em extremo a sua reprovação. Para quem o seleciona, uma espécie de paz celestial parece instalar-se no coração de quem se autoconvence que, finalmente, vai permitir “justiça” à vida de um aluno cuja vida fora da escola se assemelha às cenas do filme Gangues de Nova Iorque.
Nada do anteriormente dito tem qualquer relação prática positiva para quem quer que seja. Os professores ficam com turmas afogadas em ignorantes, os ignorantes ficam afogados em matéria que nunca perceberão sem repetirem o ensino 3 ou 4 anos atrás (e daí para a frente), o estado eterniza encargos múltiplos e acaba caindo na necessidade de sustentar uma qualquer “estatística” supondo que “sendo assim este ano, para o próximo já se resolve”.
Irresponsabilidade e desperdício
As turmas de ensino profissional são turmas bizarras no que respeita à relação aluno professor porque alunos cuja idade anda pelos 18 anos não só se comportam como catraios como tratam o professor por “stor”. O habitual, no ensino profissional de adultos, é que os alunos (rebatizados de “formandos”) tratem o professor por aquilo que ele é: professor. Por vezes, tratam por engenheiro, etc, mas dificilmente por doutor. A verdade é que de adultos, este tipo de alunos têm apenas o corpo. O restante desenvolvimento ficou entalado no passado por entre políticas de eterna criancice.
Na sala de aula sentam-se ou em postura passiva ou em postura ativa mas, neste caso, com a missão de estabelecerem a hierarquia do gang local. Estabelecida essa hierarquia, nunca mais qualquer dos restantes alunos tentará sobressair sem a douta autorização e supervisão do chefe de claque. É notória a instabilidade que se instala quando o “chefe” e os mais próximos vassalos faltam a uma aula. Todos começam a olhar em todas as direções, como que perdidos, enquanto vão assumindo um protagonismo potencialmente positivo embora quase sempre e infelizmente inútil. Se o “chefe” desaparecer de vez (for preso, por exemplo), recomeça a luta pelo estabelecimento de uma nova hierarquia ...
A tudo isto o sistema de ensino assiste impávida e serenamente como se espetador fosse do filme Gangs de Nova Iorque. Não poucas vezes se ouviu de quem de direito (!) que são “formas informais de inter-relacionamento” e que a escola “deve negociar” (implicitamente pactuando) com semelhantes e sinistras instituições e figurões para que seja possível que algo se ensine.
Chama-se a isto pactuar com aquilo que na vida real e numa empresa será liminarmente escorraçado pelos próprios operários que já lá trabalham. Os “chefes” do gangue ver-se-ão cuspidos sem sequer perceberem porquê. Os restantes, por incompetência-militante irão parar, quanto muito, ao pátio onde se lavam os carros da empresa. “Ninguém está para aturar semelhante fauna” – ouve-se com frequência. Com o passar do tempo talvez venham a fazer algo de mais-valia, mas o pouco que em formação aprenderam já terá sido quase completamente esquecido.
Na sala de aula há dois tipos de pessoas: os que ensinam e os que têm que aprender, e há que afirmar, alto e bom som, que a parte mais complicada está do lado de quem aprende. Por muito trabalho a que o professor se dê, não são questões de dificuldade relativamente à matéria que o atormentam mas trabalho de repetição, de correcção, de procura de explicação alternativa, etc, que o carregam. A dificuldade relativamente à matéria está do lado do aluno.
Quando às dificuldades com que o professor se depara nada têm a ver com o ensino mas com a falta de pontualidade, falta de cadernos, livros, canetas, réguas, etc, falta de educação, uso e abuso do telemóvel, conversa da treta entre colegas e a todo o momento, apartes firmadoras de capacidade de achincalhar e de escavacar um qualquer raciocínio, etc. tudo o que parece relacionar-se com uma tal “nova forma de estar na sala de aula”.
Todos estes desvios têm sido mais ou menos viabilizados porque se deixam entrar os problemas pessoais na sala de aula. Percebe-se que muitos dos alunos têm uma vida complicada mas não se pode também deixar de perceber que a aceitação dessas dificuldades na sala de aula não só não resolve qualquer problema como potencia mirabolantes histórias que cada vez mais vão tolhendo o normal decorrer das aulas. Não sendo possível evitar, por variadas razões, que problemas pessoais entrem no centro de formação, deve ser cultivada uma barreira para que na sala de aula não entrem e em especial em reuniões de avaliação. Uma coisa é providenciarem-se aos alunos os meios para que eles cumpram a sua missão, outra coisa é propiciar-lhes ferramentas (truques) para que passem ao lado dela.
O aluno tem uma missão a cumprir e essa missão deve ser cumprida sob pena de reprovação. Nenhuma das floribélias razões que possam atenuar o cumprimento da missão serão jamais aceites na vida ativa e se tentadas usar serão encaradas como “uma desculpa qualquer”.
O ensino de coisa profissional recebe alunos (formandos) que por um lado trazem um currículo cheio de escolhos e por outro vão encontrar aulas (novidade) de eminente prática.
Salvo casos (poucos) em que não haja praticamente formação teórica para determinada matéria, o aluno só deve entrar em oficina depois de estar bem ciente que terá que cumprir a regulamentação de segurança (incluindo saber da impossibilidade de deambular ou ‘bater papos’) e ter bastante bem assimilada a teoria aplicável. Não é fundamental que a tenha na posta da língua mas deve ter presente, digamos, 50%. Isto trás, por arrasto, a necessidade de encontrar, a qualquer momento de determinado percurso de formação, caminhos alternativos a que o aluno se consiga adaptar, digamos, upgrades ou downgrades de percurso em função do desempenho de cada aluno. É fundamental que ele saiba que essa hipótese está permanentemente em cima da mesa porque sem coação não há persuasão. É sabido que esta máxima vai ao arrepio de quase toda a “pedagogia” reinante, mas sendo a formação profissional a derradeira antecâmara da profissão convém que o aluno esteja ciente que a coação é também a derradeira chamada de atenção porque, no mundo empresarial, a coação é mínima e o despedimento surpreende ao virar a esquina. Contrariamente ao afirmado pela “pedagogia” em social-porreirismo, a maior ameaça a um estagiário (aspirante a um posto de trabalho mais estável) vem dos colegas e surge no momento em que eles se apercebem que o estagiário poderá pôr em causa toda a equipe e, consequentemente, o trabalho de cada um. Raramente é a entidade patronal quem directamente resolve por em causa o trabalho de um estagiário. Estabelecido um estado de coisas mais ou menos inquinadas, e para evitar que cada qual veja o seu posto de trabalho em risco e com ele a alimentação dos filhos, o habitual é que o estagiário se veja fora da carroça a pedido implícito ou explícito dos colegas e perante quem de direito.
A formação profissional não pode ser o continuar do status quo do ensino regular que, aliás, também por si, e à exceção dos primeiros anos, não se devia pautar por esta pedagogia de que tende a resultar gente com extrema dificuldade em adaptar-se ao mundo real.
Em Portugal, infelizmente, a esmagadora maioria das empresas não tem dimensão nem conhecimentos para abraçar a formação profissional restando, quando existam, associações profissionais ou patronais que tomem conta da tarefa.
Num ou noutro caso deve haver fiscalização mas essa tarefa tem que ser redesenhada para evitar que (presente estado de coisas) se ofereçam canudos em vez de se distribuírem certificados em função de provas significativamente prestadas.
Já foi longamente abordado o binómio conhecimentos reais versus conhecimentos fictícios, os conhecimentos de que um aluno não pode prescindir para avançar na aprendizagem versus conhecimentos que um documento garante que ele tem. Nada, mas nada de significativamente positivo poderá ter lugar se uma coisa não bater certa com a outra e hoje nada bate certo.
O envio de alunos que praticamente nada sabem a uma instituição (seja de que tipo for), para que de lá saiam com um certificado numa matéria algo complexa é, por um lado, de uma total inutilidade, por outro, deixa a instituição de formação perante a honesta necessidade de reprovar sistematicamente muito próximo da totalidade da turma. Mais vale apontar abaixo e corrigir o tiro se o aluno demonstrar que vale do que encravar todo o processo instalando numa sala de aula quem se espera venha a subir mas que, honestamente, necessite, mais que ninguém, de descer para adquirir o que lhe falta em demasia.
A formação profissional não pode ser um local para onde se vai aprender a brincar com maquinaria “gira”. Maquinaria custa dinheiro e espera-se dela o retorno que permita adquirir a seguinte, mais avançada. Maquinaria mal aproveitada é dinheiro deitado à rua e que não será redistribuído na massa salarial da empresa podendo chegar-se ao ponto de se instalarem salários em atraso e o fecho da empresa com respetivos despedimentos.
A formação profissional não pode ser o caixote de lixo para onde se atiram alunos sem qualquer tipo de critério. A formação profissional é a seiva de uma empresa naturalmente dirigida (espera-se) por quem tenha uma sólida formação teórica e prática avançadas, normalmente oriunda de universidades ou estabelecimentos equivalentes. Também aqui há fortes lacunas, mas é assunto que não cabe aqui exactamente.
A exigência tem que estar permanentemente em cima da mesa e o vencer das respetivas dificuldades deve ser a coluna vertebral de quem frequenta qualquer tipo de ensino. Presentemente o desafio parece ser o de encontrar uma brecha para furar sem se aprender, ou encontrar um centro de formação onde, pelas circunstâncias que lhe norteiam ditatorialmente as linhas com que se coze, se vai passando porque ... tem que ser.
O caminho tem ainda que ser aberto e depois trilhado. Hoje habitamos, professores e alunos, um lamaçal.
Imaginemos uma sala de aula em que metade da turma veste as calças abaixo do traseiro, 30% insiste em mater o capuz na cabeça (escondendo o auricular onde a música está a “bombar”), 20% mantém o chapéu, 20% (alunas) traz calças rotas especialmente nas virilhas e um decote que se avizinha do umbigo, 30% faz-se acompanhar um jornal desportivo que tenta ler na aula ou, no mínimo, usar como referência para milhentas vezes tentar entabular “troca de opinião” com um ou mais colegas. Que fazer?
Avisar, avisar, e, finalmente, expulsar da sala de aula. Os que lá ficam podem aprender algo, mas os que saíram, em não pequeno número (a escolha entre não poder conversar na sala e poder conversar lá fora não lhes deixa dúvida quanto à mais vantajosa) apresentar-se-ão, na próxima aula, como “vítimas” de não terem podido aprender a matéria da última aula.
Com o passar do tempo vêm as péssimas notas e a necessidade de planos de “recuperação” que o professor tem que aturar enquanto o aluno lhe apetecer. Que se pretende com isto? Por que tem o prevaricador de ser bafejado com milhentas oportunidades que, sistematicamente, substituem a anterior que ele desprezou? Porque se premeia a incompetência? Que sinal se transmite, explicita ou implicitamente, ao resto da turma? Porque limita o Estado a formação de turmas muito grandes que permitam a filtragem expedita, e em poucos meses, do trigo do joio e a continuação, em turma, de um mínimo de reais alunos que permitam a sustentabilidade económica da turma? Dir-se-á que 40 alunos é impossível tanto mais que “até” podem ser todos bons! Muito bem. Se forem todos bons haverá lugar à posterior formação de duas turmas. Mas, entretanto, alguém se convence que o cenário em que um grupo de 40 promitentes alunos resulta em, de facto, alunos? No presente estado de coisas duvido que num grupo de 50 se aproveitem mais de 15. A não ser, evidentemente, que já esteja sedimentada a noção de que a formação é para valer e saltará fora, sem apelo nem agravo, quem resolver usar a aula para assuntos de bola, moda, cueca, virilha, disk-jockey, gansteria, etc, etc.
Há que afixar em todas as salas de formação profissional normas equivalentes àquelas que eles têm que cumprir quando, por exemplo, entram numa empresa e em estágio. Se na obra ou na fábrica não entra ninguém de capuz, de virilha ventilada, de chinelos de enfiar no dedo, de auriculares, em cuecas, etc, etc, porque há de a antecâmara da empresa aturar todo o tipo de variantes daquilo a que se tem chamado “afirmações de cultura própria”? Mas, qual cultura?
Texto escrito por Rio D`Oiro e Ramiro Marques
Nota prévia
A reforma do ensino profissional de jovens tem de ser gradualista, apostar no aumento da qualidade e do rigor e aprofundar a ligação às empresas. Há-de ter o contributo das escolas secundárias, públicas e privadas, e das empresas e associações empresariais.
Essa articulação deve fazer-se pela partilha de conhecimentos, recursos e equipamentos. As escolas fornecem os recursos humanos para assegurarem o ensino da literacia, numeracia, inglês e informática. As empresas oferecem o ambiente de trabalho, o contexto onde se faz o estágio e se ensina a dimensão tecnológica do currículo. É também a empresa, através de um centro de aprendizagem de preferência, que oferece o currículo informal centrado na aquisição das virtudes que potenciam a realização profissional e a integração no mercado de trabalho: empreendedorismo, resiliência, pontualidade, assiduidade, respeito pelas chefias e gosto pelo trabalho bem feito.
A reorganização deve fazer-se criando incentivos para as escolas e cursos com elevada empregabilidade, rigor e exigência. O apoio financeiro deve seguir os alunos. As escolas e as empresas devem ser estimuladas a concorrer entre si para atrair os alunos. As escolas e cursos com baixa empregabilidade e pouco rigor e exigência devem perder os financiamentos.
As nossas empresas são coisas muito frágeis, geralmente ligadas a clientes frágeis ou, se sólidos, ligadas por corrupção, em particular no caso do estado.
Há experiências interessantes, por exemplo, com alunos noturnos (excelentes) da Auto Europa mas, regra geral, as empresas pautam-se pela regra do mínimo indispensável. O sistema de formação profissional em uso na Auto Europa merece estudo para futura generalização.
Neste momento, as empresas estão todas com a corda na garganta. Só aceitam estagiários se cada formando levar atrás de si algum apoio financeiro. A criação de uma rede de centros de aprendizagem localizados em empresas depende muito do envelope financeiro agarrado ao formando. Mas o montante do envelope financeiro deve depender da empregabilidade dos formandos. Maior para as escolas e centros de aprendizagem com formandos que, no final do processo de aprendizagem, conseguirem ocupar um posto de trabalho; menor para os que não conseguirem.
A importância do Inglês
Começamos por chamar a atenção que muitos professores ligados a áreas tecnológicas não são capazes de ler um manual técnico em inglês. O problema básico é o vocabulário não técnico (o inglês corrente).
Os formadores com mais de 50 anos de idade andaram na escola no tempo em que o francês era dominante e o inglês coisa secundária. Não poucas vezes os vemos com livros franceses debaixo do braço. Os mais novos nem francês nem inglês.
Todos sabemos que o mundo da tecnologia é dominado pelo inglês e quando precisamos desembrulhar um problema numa aplicação qualquer a única hipótese viável é participar nos forae em inglês deixando perguntas, trocando notas e impressões e usando a gramática do software tal como ela se nos depara: em inglês.
O inglês (a falta dele) é uma barreira gigantesca para o técnico português.
Nos Estados Unidos tem-se a 'mania' de pespegar com tudo na Internet. Não há assunto que não seja lá discutido e bem discutido. As universidades publicam programas inteiros (vídeo) sobre todas as matérias. Todos os assuntos são publicados e escalpelizados na internet com conhecimento de causa.
O português resume-se a Portugal, aos PALOPS e o Brasil. Portugal está, a esse respeito, no tempo da pedra lascada, nos PALOPS não há nem pedra quanto mais lascada e no Brasil ... é o caos. O Brasil tem muita coisa de tecnologia na Internet, mas a asneira campeia. Nada é fiável.
Se o técnico português não romper proficientemente a barreira do inglês não conseguirá sair da cepa torta. Será sempre o último a saber e só saberá quando essa informação estiver caduca. Já agora, e os professores também.
Se os formandos não aprenderem Inglês de pouco lhes serve a ferramenta da Internet. É por isso que qualquer programa de formação, quer para jovens quer para adultos, deve incluir uma forte presença de Inglês.
Algumas empresas cientes da dificuldade em encontrar trabalhadores que prestem pagam cursos de largas centenas de horas para que os formandos aprendam alguma coisa. Mas costuma ser um desastre. Aprender dá trabalho, é uma chatice, estão de corpo presente e alma distante. O resultado médio é duvidoso (havendo casos bons e mesmo muito bons). Habitualmente fazem com os alunos um contrato de permanência ao serviço (quem investe pretende retorno) ... mas os jovens, caso se vejam com o canudo, abandalham militantemente o trabalho.
Nas empresas médias a coisa é mais interessante. Os trabalhadores têm mais interesse e flexibilidade. Tal não significa que aprendam como deviam mas é melhor que nas grandes.
Nas pequenas predomina a empresa familiar que, por vezes tem também funcionários. É talvez o caso em que há mais variação entre gente muito boa e muito má. Por exemplo, neste grupo, encontram-se engenheiros que sabem, trabalham com máquinas e orientam o resto da família e funcionários. São casos muito interessantes.
Nas empresas pequenas, há ainda gente que começou a trabalhar com a maquinaria mas que a abandonou para se remeter à "gestão". É a empresa que tem uns quantos trabalhadores a trabalhar sem vínculo significativo que convém, por vezes, às duas partes.
É nesta confusão de contextos que se tenta encontrar empresas para os jovens estagiarem. Em geral aquelas onde há gente mais competente não aceitam estes jovens (não estão para os aturar ou asseguram-se previamente que o estagiário se parece como tal).
Entretanto, em estágio, há de tudo: bom e mau. Alguns faltam porque não estão habituados ao esforço.
Outros ficam com problemas "psicológicos" quando em obra lhes mandam um berro. Outros perdem todos os dias o autocarro porque não "conseguem" acordar (por atalhos ficamos a saber que vão diariamente para a farra). Outros perdem o passe que, às vezes, custa uma fortuna. Outros perdem o capacete e as botas e queixam-se que os não deixam entrar na obra. O estágio vai correndo, mas todos os dias os telefones tocam e as cenas são múltiplas.
Depois de tudo isto o que se aprende? Para os alunos adultos, os que aturam os jovens, pouco. Os jovens, praticamente nada.
Articular escola com as empresas
Onde fazer o ensino profissional de jovens? Na escola? Em algumas, não em todas. Apenas nas que têm recursos humanos e equipamentos adequados. Uma forte ligação ao tecido empresarial local ajuda. Na empresa e associações empresariais? Sim, sobretudo nas empresas que estejam dispostas a criar centros de aprendizagem para jovens. E o currículo? Faz sentido oferecer um currículo com duas componentes formais: geral e vocacional. Na primeira, a oferta deve centrar-se no inglês, literacia e numeracia. Na segunda, a oferta deve centrar-se na aprendizagem das tecnologias. O centro de aprendizagem de empresa deve oferecer um currículo informal que enfatize valores como a pontualidade, assiduidade, resiliência, respeito pela hierarquia e gosto pelo trabalho bem feito. E, claro, o estágio.
A dimensão informal da aprendizagem em empresa
Há uma dimensão do currículo que não se deve negligenciar. Essa dimensão é informal, depende da cultura do centro de aprendizagem, e inclui os valores básicos necessários a uma vida profissional bem conseguida: pontualidade, assiduidade, respeito pela hierarquia, gosto pelo trabalho bem feito e resiliência.
Em algumas escolas públicas, dificilmente é possível assegurar a presença dessa dimensão. Os cursos de educação e formação e os cursos profissionais estão, muitas vezes, contaminados por uma cultura de desresponsabilização que é hostil à aquisição de valores básicos. É por isso também que defendemos a criação de centros de aprendizagem em empresas, em associações empresariais e nas escolas que tenham um ethos e uma cultura favoráveis à articulação com as empresas locais e, claro, recursos humanos e materiais adequados.
Obviamente, esses centros de aprendizagem podem e devem estabelecer parcerias com escolas secundárias que assegurem a oferta da dimensão curricular geral: matemática, português e inglês.
Há cursos profissionais que funcionam bem. Esses devem ser acarinhados. Não defendemos a eliminação pura e simples de todos os cursos profissionais. Os bons devem manter-se. Sobretudo os que funcionam em escolas profissionais com uma boa articulação às empresas e com ofertas formativas para nichos de mercado com saída: indústria, hotelaria, turismo, agricultura e pescas. Os cursos que não têm qualidade devem ser eliminados e os recursos financeiros aplicados neles transferidos para centros de aprendizagem com uma estreita articulação com as empresas e associações empresariais.
É fácil identificar os cursos com qualidade: basta ver as taxas de empregabilidade.
Em ambientes sem ordem nem tranquilidade, os alunos não adquirem as virtudes consideradas imprescindíveis para a entrada no mercado de trabalho: pontualidade, assiduidade, respeito pela autoridade e resiliência. Ao invés, aprendem a ser erráticos, caprichosos, desobedientes, malcriados, arrogantes e indolentes.
Há escolas que não são o local certo para fazer ensino profissional de jovens que acumulam insucesso atrás de insucesso e que não têm hábitos de trabalho nem respeitam os padrões mínimos de civilidade. Os alunos viciam-se numa cultura de direitos, centrada na gratificação imediata, e não dão valor nem à escola nem aos professores. Não são capazes de traçar a fronteira entre o lúdico e o trabalho, entre a brincadeira e o esforço. Tudo lhes é dado - pequeno-almoço, almoço, livros e transportes - sem lhes ser exigido nada em troca.
Os diretores habituaram-se à ideia de que a criação de cursos profissionais, Cef e Efa, ainda que não haja na escola equipamentos e recursos humanos adequados, é uma exigência que resulta das políticas educativas inclusivas. O objetivo é tirar os jovens da rua. A avaliação externa, tal como hoje é feita, reforça essa exigência.
As escolas secundárias públicas foram empurradas, entre 2006 e 2010, para criarem cursos profissionais com o objetivo de permitir ao Governo o cumprimento de metas estatísticas. Criaram-se cursos a eito sem atender à cultura e características das escolas nem às necessidades do mercado de trabalho. Deu-se demasiada ênfase à oferta de cursos para o setor terciário em desfavor da agricultura, indústria e pescas.
As empresas querem profissionais que gostem de aprender, que saibam cumprir regras, respeitem a hierarquia, sejam pontuais, sejam assíduos e resilientes. As escolas onde os cursos profissionais são ministrados ensinam, em alguns casos, o contrário de tudo isto.
Obviamente, as empresas só estarão dispostas a alinhar na reconstrução de um ensino profissional deste tipo se ganharem alguma coisa com isso. O valor do envelope financeiro deve ser proporcional à taxa de empregabilidade conseguida.
Pouco rigor e tecido empresarial fraco
O panorama do ensino (chamemos-lhe genericamente) de oportunidade é de filme de horror com cenas dantescas provocadas pela aguda perda de soberania económica que Portugal enfrenta e de que é principal responsável (independentemente de pormenores de índole política).
O horror é composto pela insistência em políticas de sucessivo abaixamento de fasquia baseadas em disparatadas e aberrantes visões do mundo. De tudo isto o ensino regular também padece embora em menor grau, apesar de preocupante (é aliás do ensino regular que os alunos que procuram a via profissional brotam sem a real preparação que a documentação atesta).
Favorece-se a progressão dos alunos sempre alimentada numa infundada esperança de que as criaturas posteriormente recuperarão o tempo e as matérias perdidas. Esta política não passa, porém, de um premiar da incompetência. Alavancada no “sucesso anterior”, será insistentemente mais e mais exercitada levando os alunos a um beco constituído pela impossibilidade de perceber matérias para as quais não estão nem preparados nem a milhas de estarem. Esta política pretende ainda estar na vanguarda, pasme-se, de um Portugal de mão-de-obra qualificada, resguardado do trabalho mal pago, repetitivo e monótono, jamais se encarando o treino de alunos em habilidades básicas não carentes de preparação teórica. Não fica por aqui como mais tarde se verá.
No que respeita aos agentes directamente envolvidos no processo, temos as empresas, os estabelecimentos do ensino regular e os centros de formação profissional (estatais e privados).
As empresas que temos são as que nos restam num sistema que só vê nelas uma fonte de impostos. Os melhores empresários foram-se afastando (saindo do país ou remetendo-se a uma qualquer atividade que lhes permita sobreviver sem dores de cabeça) e ficando apenas os que se adaptam ao sistema.
Tendo em atenção que historicamente o tecido empresarial português é composto por minúsculas empresas, o empresário que conhece bem aquilo que faz vê a vida dificultada por uma imensidão de imposições burocráticas que o levam ou a afastar-se da exata coisa pela qual se interessa ou a sobrecarregar a minúscula empresa contratando quem o liberte do fardo pelo qual terá sempre e invariavelmente que responder e ser derradeiro responsável. Neste padrão surge, por um lado, a economia paralela, por outro o crony capitalism. Uma e outro espalham suficiente mau ambiente para tornar estes os dois tipos de entidades crescentemente dominantes, afugentando empresários pouco dados a truques.
A generalidade das subsistentes empresas opera hoje em modo de sobrevivência. Faz o que pode, aceita fazer o que sobra, aceita sobreviver. Os trabalhadores, perante o espetro do desemprego, aceitam fazer o que resta para fazer.
Os estabelecimentos de ensino regular são dominados por docentes que desconfiam das empresas vendo nelas uma coisa tenebrosa que “apenas” procura o lucro. Tendem a militar num mundo alternativo que evite que os alunos possam pretender ter uma profissão concreta numa qualquer empresa, sempre insistindo em caminhos tangenciais a um mal definido enriquecimento do aluno “enquanto cidadão”, pasme-se, para ficarem “fora do jugo da exploração”.
Os centros de formação encontram-se a meio caminho entre um ensino avesso a empresas e as empresas maioritariamente geridas por empresários cada vez mais especialistas em adaptação a todo o tipo de interceção subversiva ao aparelho do estado ou, alternativamente, vivendo à revelia de … tudo.
A formação profissional por via direta do estado tem a maioria dos tiques do ensino regular porque a maioria dos docentes são dali oriundos (mesmo que pouco claramente). A formação profissional privada é um pouco mais ligada aos problemas e ao interior das empresas muito embora com as limitações decorrentes, embora atenuadas, do ensino profissional estatal e do presente estado de coisas nas próprias empresas.
Rigor e exigência
É voz corrente que quem chega ao ensino profissional chega já com determinado grau académico que não corresponde, nem de longe, à realidade. Este aspecto tem que ser resolvido ou, pelo menos, começar a ser resolvido porque nenhuma decisão poderá ser aplicada racionalmente sem que os factos de que o aluno é portador correspondam ao certificado que lhe foi passado.
Supondo que numa fase inicial há que dar destino a alunos que irremediavelmente se apresentam com um grau académico deturpado não parece haver outra solução que aplicar a estes alunos exames apropriados que confiram um razoável grau de confiança de ponto de partida. Chame-se a esse exame o que se quiser, mas não vale a pena tentar ensinar trigonometria a quem não sabe o que é uma régua ou porque começa a respectiva escala em 0 e não em 1 (para não falar num ângulo). Esses alunos devem ser colocados em pontos de partida de percurso de ensino profissional por forma potenciar-se a possibilidade de se ensinar a partir daí.
Naturalmente que, paralelamente, há que perguntar como se consegue ter o 9º ano (ou qualquer outro) sem saber ler ou escrever, ou nunca mais sairemos deste torpor em que se tenta ensinar quem não tem bases para o que se pretende ensinar.
Aparentemente há um fenómeno do campo da falácia que explica a razão porque são encaminhados alunos que quase nada sabem para os mais avançados percursos. Há umas múltiplas entrevistas em variadas instituições de “seleção” que apuram os alunos que mais vêm ao encontro do que se espera ouvir: “esforço”, “disciplina”, “método”, “assiduidade”, “educação” ... palavras soltas que os alunos bem conhecem e sabem usar como forma de afagar o coração da outra parte que, entretanto, acha razoável remeter quem “demonstra tanta vontade” a caminho sofisticado que “ele, coitado, merece”. Para o aluno é fundamental entrar para o mais impossível caminho porque sabe que aquele erro inicial vai, direta ou indiretamente, dificultar em extremo a sua reprovação. Para quem o seleciona, uma espécie de paz celestial parece instalar-se no coração de quem se autoconvence que, finalmente, vai permitir “justiça” à vida de um aluno cuja vida fora da escola se assemelha às cenas do filme Gangues de Nova Iorque.
Nada do anteriormente dito tem qualquer relação prática positiva para quem quer que seja. Os professores ficam com turmas afogadas em ignorantes, os ignorantes ficam afogados em matéria que nunca perceberão sem repetirem o ensino 3 ou 4 anos atrás (e daí para a frente), o estado eterniza encargos múltiplos e acaba caindo na necessidade de sustentar uma qualquer “estatística” supondo que “sendo assim este ano, para o próximo já se resolve”.
Irresponsabilidade e desperdício
As turmas de ensino profissional são turmas bizarras no que respeita à relação aluno professor porque alunos cuja idade anda pelos 18 anos não só se comportam como catraios como tratam o professor por “stor”. O habitual, no ensino profissional de adultos, é que os alunos (rebatizados de “formandos”) tratem o professor por aquilo que ele é: professor. Por vezes, tratam por engenheiro, etc, mas dificilmente por doutor. A verdade é que de adultos, este tipo de alunos têm apenas o corpo. O restante desenvolvimento ficou entalado no passado por entre políticas de eterna criancice.
Na sala de aula sentam-se ou em postura passiva ou em postura ativa mas, neste caso, com a missão de estabelecerem a hierarquia do gang local. Estabelecida essa hierarquia, nunca mais qualquer dos restantes alunos tentará sobressair sem a douta autorização e supervisão do chefe de claque. É notória a instabilidade que se instala quando o “chefe” e os mais próximos vassalos faltam a uma aula. Todos começam a olhar em todas as direções, como que perdidos, enquanto vão assumindo um protagonismo potencialmente positivo embora quase sempre e infelizmente inútil. Se o “chefe” desaparecer de vez (for preso, por exemplo), recomeça a luta pelo estabelecimento de uma nova hierarquia ...
A tudo isto o sistema de ensino assiste impávida e serenamente como se espetador fosse do filme Gangs de Nova Iorque. Não poucas vezes se ouviu de quem de direito (!) que são “formas informais de inter-relacionamento” e que a escola “deve negociar” (implicitamente pactuando) com semelhantes e sinistras instituições e figurões para que seja possível que algo se ensine.
Chama-se a isto pactuar com aquilo que na vida real e numa empresa será liminarmente escorraçado pelos próprios operários que já lá trabalham. Os “chefes” do gangue ver-se-ão cuspidos sem sequer perceberem porquê. Os restantes, por incompetência-militante irão parar, quanto muito, ao pátio onde se lavam os carros da empresa. “Ninguém está para aturar semelhante fauna” – ouve-se com frequência. Com o passar do tempo talvez venham a fazer algo de mais-valia, mas o pouco que em formação aprenderam já terá sido quase completamente esquecido.
Na sala de aula há dois tipos de pessoas: os que ensinam e os que têm que aprender, e há que afirmar, alto e bom som, que a parte mais complicada está do lado de quem aprende. Por muito trabalho a que o professor se dê, não são questões de dificuldade relativamente à matéria que o atormentam mas trabalho de repetição, de correcção, de procura de explicação alternativa, etc, que o carregam. A dificuldade relativamente à matéria está do lado do aluno.
Quando às dificuldades com que o professor se depara nada têm a ver com o ensino mas com a falta de pontualidade, falta de cadernos, livros, canetas, réguas, etc, falta de educação, uso e abuso do telemóvel, conversa da treta entre colegas e a todo o momento, apartes firmadoras de capacidade de achincalhar e de escavacar um qualquer raciocínio, etc. tudo o que parece relacionar-se com uma tal “nova forma de estar na sala de aula”.
Todos estes desvios têm sido mais ou menos viabilizados porque se deixam entrar os problemas pessoais na sala de aula. Percebe-se que muitos dos alunos têm uma vida complicada mas não se pode também deixar de perceber que a aceitação dessas dificuldades na sala de aula não só não resolve qualquer problema como potencia mirabolantes histórias que cada vez mais vão tolhendo o normal decorrer das aulas. Não sendo possível evitar, por variadas razões, que problemas pessoais entrem no centro de formação, deve ser cultivada uma barreira para que na sala de aula não entrem e em especial em reuniões de avaliação. Uma coisa é providenciarem-se aos alunos os meios para que eles cumpram a sua missão, outra coisa é propiciar-lhes ferramentas (truques) para que passem ao lado dela.
O aluno tem uma missão a cumprir e essa missão deve ser cumprida sob pena de reprovação. Nenhuma das floribélias razões que possam atenuar o cumprimento da missão serão jamais aceites na vida ativa e se tentadas usar serão encaradas como “uma desculpa qualquer”.
O ensino de coisa profissional recebe alunos (formandos) que por um lado trazem um currículo cheio de escolhos e por outro vão encontrar aulas (novidade) de eminente prática.
Salvo casos (poucos) em que não haja praticamente formação teórica para determinada matéria, o aluno só deve entrar em oficina depois de estar bem ciente que terá que cumprir a regulamentação de segurança (incluindo saber da impossibilidade de deambular ou ‘bater papos’) e ter bastante bem assimilada a teoria aplicável. Não é fundamental que a tenha na posta da língua mas deve ter presente, digamos, 50%. Isto trás, por arrasto, a necessidade de encontrar, a qualquer momento de determinado percurso de formação, caminhos alternativos a que o aluno se consiga adaptar, digamos, upgrades ou downgrades de percurso em função do desempenho de cada aluno. É fundamental que ele saiba que essa hipótese está permanentemente em cima da mesa porque sem coação não há persuasão. É sabido que esta máxima vai ao arrepio de quase toda a “pedagogia” reinante, mas sendo a formação profissional a derradeira antecâmara da profissão convém que o aluno esteja ciente que a coação é também a derradeira chamada de atenção porque, no mundo empresarial, a coação é mínima e o despedimento surpreende ao virar a esquina. Contrariamente ao afirmado pela “pedagogia” em social-porreirismo, a maior ameaça a um estagiário (aspirante a um posto de trabalho mais estável) vem dos colegas e surge no momento em que eles se apercebem que o estagiário poderá pôr em causa toda a equipe e, consequentemente, o trabalho de cada um. Raramente é a entidade patronal quem directamente resolve por em causa o trabalho de um estagiário. Estabelecido um estado de coisas mais ou menos inquinadas, e para evitar que cada qual veja o seu posto de trabalho em risco e com ele a alimentação dos filhos, o habitual é que o estagiário se veja fora da carroça a pedido implícito ou explícito dos colegas e perante quem de direito.
A formação profissional não pode ser o continuar do status quo do ensino regular que, aliás, também por si, e à exceção dos primeiros anos, não se devia pautar por esta pedagogia de que tende a resultar gente com extrema dificuldade em adaptar-se ao mundo real.
Em Portugal, infelizmente, a esmagadora maioria das empresas não tem dimensão nem conhecimentos para abraçar a formação profissional restando, quando existam, associações profissionais ou patronais que tomem conta da tarefa.
Num ou noutro caso deve haver fiscalização mas essa tarefa tem que ser redesenhada para evitar que (presente estado de coisas) se ofereçam canudos em vez de se distribuírem certificados em função de provas significativamente prestadas.
Já foi longamente abordado o binómio conhecimentos reais versus conhecimentos fictícios, os conhecimentos de que um aluno não pode prescindir para avançar na aprendizagem versus conhecimentos que um documento garante que ele tem. Nada, mas nada de significativamente positivo poderá ter lugar se uma coisa não bater certa com a outra e hoje nada bate certo.
O envio de alunos que praticamente nada sabem a uma instituição (seja de que tipo for), para que de lá saiam com um certificado numa matéria algo complexa é, por um lado, de uma total inutilidade, por outro, deixa a instituição de formação perante a honesta necessidade de reprovar sistematicamente muito próximo da totalidade da turma. Mais vale apontar abaixo e corrigir o tiro se o aluno demonstrar que vale do que encravar todo o processo instalando numa sala de aula quem se espera venha a subir mas que, honestamente, necessite, mais que ninguém, de descer para adquirir o que lhe falta em demasia.
A formação profissional não pode ser um local para onde se vai aprender a brincar com maquinaria “gira”. Maquinaria custa dinheiro e espera-se dela o retorno que permita adquirir a seguinte, mais avançada. Maquinaria mal aproveitada é dinheiro deitado à rua e que não será redistribuído na massa salarial da empresa podendo chegar-se ao ponto de se instalarem salários em atraso e o fecho da empresa com respetivos despedimentos.
A formação profissional não pode ser o caixote de lixo para onde se atiram alunos sem qualquer tipo de critério. A formação profissional é a seiva de uma empresa naturalmente dirigida (espera-se) por quem tenha uma sólida formação teórica e prática avançadas, normalmente oriunda de universidades ou estabelecimentos equivalentes. Também aqui há fortes lacunas, mas é assunto que não cabe aqui exactamente.
A exigência tem que estar permanentemente em cima da mesa e o vencer das respetivas dificuldades deve ser a coluna vertebral de quem frequenta qualquer tipo de ensino. Presentemente o desafio parece ser o de encontrar uma brecha para furar sem se aprender, ou encontrar um centro de formação onde, pelas circunstâncias que lhe norteiam ditatorialmente as linhas com que se coze, se vai passando porque ... tem que ser.
O caminho tem ainda que ser aberto e depois trilhado. Hoje habitamos, professores e alunos, um lamaçal.
Imaginemos uma sala de aula em que metade da turma veste as calças abaixo do traseiro, 30% insiste em mater o capuz na cabeça (escondendo o auricular onde a música está a “bombar”), 20% mantém o chapéu, 20% (alunas) traz calças rotas especialmente nas virilhas e um decote que se avizinha do umbigo, 30% faz-se acompanhar um jornal desportivo que tenta ler na aula ou, no mínimo, usar como referência para milhentas vezes tentar entabular “troca de opinião” com um ou mais colegas. Que fazer?
Avisar, avisar, e, finalmente, expulsar da sala de aula. Os que lá ficam podem aprender algo, mas os que saíram, em não pequeno número (a escolha entre não poder conversar na sala e poder conversar lá fora não lhes deixa dúvida quanto à mais vantajosa) apresentar-se-ão, na próxima aula, como “vítimas” de não terem podido aprender a matéria da última aula.
Com o passar do tempo vêm as péssimas notas e a necessidade de planos de “recuperação” que o professor tem que aturar enquanto o aluno lhe apetecer. Que se pretende com isto? Por que tem o prevaricador de ser bafejado com milhentas oportunidades que, sistematicamente, substituem a anterior que ele desprezou? Porque se premeia a incompetência? Que sinal se transmite, explicita ou implicitamente, ao resto da turma? Porque limita o Estado a formação de turmas muito grandes que permitam a filtragem expedita, e em poucos meses, do trigo do joio e a continuação, em turma, de um mínimo de reais alunos que permitam a sustentabilidade económica da turma? Dir-se-á que 40 alunos é impossível tanto mais que “até” podem ser todos bons! Muito bem. Se forem todos bons haverá lugar à posterior formação de duas turmas. Mas, entretanto, alguém se convence que o cenário em que um grupo de 40 promitentes alunos resulta em, de facto, alunos? No presente estado de coisas duvido que num grupo de 50 se aproveitem mais de 15. A não ser, evidentemente, que já esteja sedimentada a noção de que a formação é para valer e saltará fora, sem apelo nem agravo, quem resolver usar a aula para assuntos de bola, moda, cueca, virilha, disk-jockey, gansteria, etc, etc.
Há que afixar em todas as salas de formação profissional normas equivalentes àquelas que eles têm que cumprir quando, por exemplo, entram numa empresa e em estágio. Se na obra ou na fábrica não entra ninguém de capuz, de virilha ventilada, de chinelos de enfiar no dedo, de auriculares, em cuecas, etc, etc, porque há de a antecâmara da empresa aturar todo o tipo de variantes daquilo a que se tem chamado “afirmações de cultura própria”? Mas, qual cultura?
Texto escrito por Rio D`Oiro e Ramiro Marques
domingo, 18 de março de 2012
Do mais significativo retracto de Portugal: o ensino
Ramiro Marques no ProfBlog:
[excerto]:Comentário do leitor Rantanplan Sem Pieguices [no Facebook - não consigo determinar o link]:
Esperar-se-ia que fossem os engenheiros a liderar o ensino dentro das empresas mas eles preferem manter uma barreira entre eles e a coisa concreta. Não gostam de sujar as mãos.
Ainda ontem um meu ex-professor na universidade me dizia que todo o ensino precisa de ser refundado. Até já na universidade têm que passar alunos e levá-los ao colo. Têm que fazer relatórios quando existem percentagem de reprovação superior a 50%, mesmo que os alunos simplesmente não compareçam aos exames. Esta é a miséria em que chegou Portugal..
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
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