segunda-feira, 25 de julho de 2011

Da mitologia do multiculturalismo - I


Inicio aqui a publicação, em três partes, de um artigo sobre este tema que me foi enviado por Luís Dolhnikoff.

OS MULTIMITOS DO MULTICULTURALISMO[1]

1.

O multiculturalismo, como fato histórico, existe desde sempre. De certa forma, ele é a própria história.

À exceção da escrita, de origem fenícia, todas as primeiras inovações importantes que depois se espalharam pelo Ocidente têm origem asiática (como as carroças sobre rodas, de origem suméria). Do mesmo modo, as grandes invenções que permitiram o desenvolvimento econômico e tecnológico da modernidade ocidental têm origem chinesa (bússola, leme, vela triangular, papel, prensa, pólvora, alto-forno) ou indiana (notação do número zero).

A religião por excelência do Ocidente, o cristianismo, tem origem semita, o judaísmo. Além disso, o cristianismo é na verdade a fusão dessa religião semita a elementos greco-romanos, como a adoração de ídolos e a divinização de antepassados (os santos) – para não falar de sua língua litúrgica e de inúmeras convenções rituais e legais de origem romana.

A própria civilização romana se tornara culturalmente grandiosa ao também se helenizar, depois da conquista da Grécia.

A Roma de agora, os EUA, deve parte de sua melhor arte popular, como o jazz, a uma fusão da cultura europeia com a africana.

Africana também foi uma das referências estéticas que afinal indicaram o caminho da revolução cubista na arte moderna, através das máscaras tribais vistas, entre outros, por Picasso.

O tradicional esporte da nobreza inglesa, o polo a cavalo, não só não é inglês como não é europeu. Trata-se de um esporte mongol – aprendido pelos ingleses na Índia, cujo território, em sua maior parte, no início do século XIX, era ainda um grande reino desse povo de conquistadores (na verdade, o último dos grandes reinos mongóis, que chegaram a incluir a Rússia e a China).

Elemento histórico difuso, profundo, abrangente e determinante, o multiculturalismo é desnecessário como ideologia – além de falseador como militância. Falseador porque, ao deixar de ser um fenômeno reconhecível para se tornar uma ideologia, afasta-se dos fatos, assim não facilitando, mas dificultando o conhecimento – logo, também o verdadeiro reconhecimento.

O multiculturalismo é, enfim, uma pequena ideologia – filha da pior contracultura e da melhor antropologia.

Segundo a contracultura, todas as culturas são superiores, menos a ocidental. Segundo a antropologia, não se deve julgar uma cultura.

Não se deve julgar uma cultura porque não se pode julgar uma cultura. E não se pode porque qualquer referência de valor usada para o julgamento será um valor da cultura que julga. Logo, duas culturas distintas sempre terão dois julgamentos distintos sobre uma terceira, e mutuamente excludentes, pela falta de qualquer parâmetro extracultural de referência de valores.

A falta de parâmetros pertinentes é insuficiente, porém, para impedir que o multiculturalismo, sendo uma pequena ideologia, “ideologize” e apequene esse preceito antropológico segundo suas teses. O resultado é, simplesmente, um julgamento cultural – segundo o qual todas as culturas são superiores, menos a ocidental.

O multiculturalismo é, assim, um irracionalismo. E tanto mais deletério quanto bem-intencionado.

2.

Bem-intencionado porque pretende “fazer justiça” à arrogância ocidental que tantos povos tiveram de suportar desde o século XVI (além de assim também poder livrar os próprios ocidentais de seu decadente racionalismo). O problema é que, de boas intenções, se pavimenta o caminho para o inferno, segundo o velho provérbio.

As ideologias bem-intencionadas não se dão conta, ideologias e irracionalismos que são, do fato de terem sido as boas intenções uma das causas da arrogância ocidental. Pois os europeus, julgando-se os detentores da civilidade, o que pretendiam era, além da exploração econômica, civilizar os bárbaros, cristianizando-os.

Tampouco podem se dar conta, ao julgar de modo compensatório qualquer outra cultura de modo positivo, além da própria arrogância desse julgamento (pois não importa o sinal que tenha), do fato bastante constrangedor de que muitas das culturas assim julgadas, no seu devido tempo e lugar, foram igualmente arrogantes.

O multiculturalismo é uma forma de miopia militante.

Chineses e japoneses nada ficam a dever aos europeus em arrogância (e, no devido tempo e lugar, em brutalidade). Pois tradicionalmente ambas as culturas se julgam – cada qual separadamente – as detentoras da verdadeira civilização, sendo todos os demais povos bandos de bárbaros (a palavra que, na língua japonesa, em uma acepção significa estrangeiro, também significa, igualmente, selvagem).

A cultura árabe é outro exemplo. A partir do século VII, milhões de pessoas, em relativamente pouco tempo, da Malásia a Espanha (antes da Reconquista), se converteram ao islamismo, e, depreende-se, não meramente pelos bons argumentos do Corão, mas pelos igualmente bons argumentos da cimitarra (a espada curva árabe).

Para piorar, tal islamização, além de não ter sido indolor para as pessoas, não foi indolor para as culturas originais dessas pessoas. Como afirma o prêmio Nobel indo-britânico V. S. Naipaul: “O islã é uma força devastadora em relação a todo passado cultural dos povos por ele dominados”. A cultura bizantina que o diga: ela foi simplesmente varrida da face da Terra quando os turcos conquistaram Constantinopla, a “segunda Roma”, e a transformaram em Istambul.

Se as mulheres, sob a lei islâmica, podem ser mortas por “adultério”, e os homossexuais por existirem, a lei islâmica é uma forma de barbárie.

A brutalidade arrogante não é exclusividade histórica do Ocidente.

O comandante árabe que no ano de 642, depois de ter entrado em Alexandria [até então uma cidade cristã], mandou que todos os livros da grande biblioteca fossem queimados, teria então afirmado: “O que está nela e também no Corão, não precisa ser conservado; o que está nela e não está no Corão, não serve para nada”.[2]

O que talvez seja exclusividade histórica do Ocidente, que irracionalistas não podem perceber, é a tolerância elevada ao status de lei fundamental.

3.

Não que outros povos, como os próprios árabes, não tenham dado mostras, ainda que muito eventuais, de tolerância. Não sendo irracionalista, pode-se perceber as nuances que a história costuma oferecer em abundância quase equivalente à da agressividade e da arrogância.

Mas foi o Ocidente, a cultura europeia, que instituiu, pela primeira vez na história, a igualdade perante a lei em ordenamento metajurídico básico, ou seja, constitucional na denotação da palavra, logo, anterior e relativizador de quaisquer outras leis.

Não importa. Porque o multiculturalismo é um irracionalismo.

Assim, para “fazer justiça”, sempre que a cultura ocidental insiste em exibir, a despeito de toda sua arrogância e de toda sua agressividade, qualidades positivas, corre-se para buscar as mesmas qualidades em toda e qualquer cultura. Mesmo que tais qualidades não existam.

Os povos nativos da América depois portuguesa não tinham uma matemática digna desse nome. Suas próprias línguas, como o tupi, costumam ter nomes apenas para os numerais de 1 a 10, usando para qualquer grandeza além dessa ordem a palavra correspondente a “muitos”. Isso não quer dizer que suas culturas não sejam respeitáveis. Mas sem dúvida quer dizer que não tinham matemática.

Não importa. Porque o multiculturalismo é um irracionalismo. Possivelmente insuficiente para afirmar que os tupis tivessem uma grande matemática. Porém mais do que suficiente para afirmar que tiveram uma grande “medicina”.

4.

Uma das manifestações mais extremas do multiculturalismo talvez seja o mito, criado e mantido por acadêmicos negros norte-americanos (ou melhor, “afro-americanos”), de que o Antigo Egito foi uma civilização negra (fundamentalmente, porque o país fica no continente africano). A impostura apenas explicita uma inconsciente autodepreciação – que os faz ter de apelar para a adulteração da história alheia (com a consequência adicional de tornar seu trabalho intelectual confiável apenas para seus seguidores ideológicos).

Outro efeito é diminuir os próprios egípcios, artisticamente: como os traços de suas esculturas não são africanos, nem escuras as peles das pinturas que restam em seus murais, é inevitável concluir que os egípcios eram, ou profundamente envergonhados de suas feições raciais, ou simplesmente incapazes de uma representação minimamente realista.

Pouco importa: baseando-se no fato de que são extremamente escassas suas representações, pude ver, em um documentário norte-americano, uma professora negra de um ginásio idem ensinando seus alunos que a própria Cleópatra era negra. Pois para essa multiculturalista em particular, não são todos os egípcios que tinham a pele escura, mas somente Cleópatra – motivo pelo qual, aliás, não haveria muitas representações suas. Muito lógico: os egípcios, agora brancos, não eram racistas para ter uma rainha negra, mas o eram para representá-la.

Talvez Cleópatra fosse de fato negra: desde que sofresse de um caso grave de vitiligo, tão grave a ponto de tornar toda sua pele branca. Afinal, sequer era egípcia. Pois apesar de rainha do Egito, era grega – herdeira da dinastia dos Ptolomeus, tornados casa reinante depois da conquista do país pelo grego Alexandre. Nem a via da miscigenação é aqui possível: a corte dos Ptolomeus é famosa, entre outras coisas, por sua extremada endogamia – mesmo para os padrões das cortes antigas –, na qual mesmo o incesto era habitual.

Vai ver, então, que os gregos também eram negros. Vai ver todo o mundo seja, no fundo, negro – sendo os brancos apenas albinos. Então, por que reivindicar somente o Egito? Por que não uma Atenas negra?

[Em] Black Athena (1987), o professor inglês Martin Bernal defende a tese de que a cultura grega teria raízes afro-asiáticas: viria do Egito (então com população predominantemente negra) e do Oriente Médio semita.[3]

Só não vejo a vantagem de tal reivindicação. Afinal, os gregos eram uns idiotas. Por exemplo: fazem referências, em vários textos, aos núbios, e os descrevem como negros. No entanto, não há uma só referência nos textos gregos ao fato de os egípcios, com quem os gregos tinham bastante contato, serem negros. Portanto, ou os gregos eram umas bestas, ou os egípcios não eram negros. Não obstante, assim têm aparecido nos documentários politicamente corretos made in Europe, que a BBC espalha pelo mundo através dos canais a cabo. Nos quais não apenas os egípcios estão cada dia mais escuros, como Cleópatra é cada vez mais morena. Não obstante, quase certamente era loira. Loira ou ruiva, como a maioria dos gregos antigos. Ao menos a se acreditar em idiotas como Homero, que se referem constantemente, em suas obras, às “longas melenas amarelas” desse e daquele herói, ou aos olhos azuis dessa ou daquela deusa.

Por falar em Homero, há ainda o fato, talvez desimportante, de que a língua grega é muita próxima do sânscrito, a antiga língua indiana. Pois os indianos, com seus olhos redondos, narizes afilados, lábios finos, corpo esguio, não são da família mongol, como os demais povos asiáticos, mas, ora, do grupo indo-europeu. Se os gregos eram loiros, viviam na Europa e falavam uma língua indo-europeia, o que têm mesmo a ver com a África e o Oriente Médio? Ah sim, o fato de todos sermos albinos.

O Egito, ao menos, fica na África (verdade que, apesar disso, não é habitado mesmo hoje por negros, mas quem se importa com fatos?). África em que também ficava Cartago, que, no entanto, era fenícia. Os fenícios também eram negros? Digo, afro-africanos. Pois negro, nos EUA, pátria do multiculturalismo como ideologia, é uma ofensa, sendo o correto “afro-americano”. No entanto, os brancos não são “euro-americanos” – mas simplesmente “americanos”. Nem os sul e centro-americanos que ali vivem – ditos “latinos” – são “sul-americano-americanos” e “centro-americano-americanos”, o que deveriam ser, para manter a justiça toponímica. Enquanto os nativos, ex-índios, não são “americano-americanos”.

Em todo caso, nunca houve escrita na África. Todos seus povos eram ágrafos. Assim também a América (com uma única exceção, os maias). A escrita é um conquista da Europa (gregos, a partir de fenícios e sumérios) e da Ásia (sumérios, fenícios, indianos e chineses). Todas as demais escritas são daí derivadas. Além disso, em grande parte do mundo sequer houve escrita por incorporação: ela só chegaria com os colonialistas europeus.

Mas resta a possibilidade, criada pelo camarada Stálin, de se adulterar os fatos históricos, mesmo os mais documentados. Dou então uma sugestão: afirmar que sempre houve escrita na África, tendo sido todos os seus registros minuciosa e sistematicamente destruídos por missionários brancos (“euro-europeus”). Claro que, assim, como no caso do mito do Egito negro, apenas se consegue o efeito contrário: a conclusão subliminar de que os próprios negros acusam certa inferioridade em sua história, daí resultando a necessidade desesperada de apelar para a impostura.

Mais sensato seria perceber, primeiro, que culturas não são hierarquizáveis – como o fazem tais militantes, ao colocar o Egito numa categoria superior, a ponto de torná-lo objeto de impostura; segundo, que as culturas, assim como os indivíduos, não se medem pela cor da pele – como fazem os racistas e os racistas às avessas que são os multiculturalistas.

(...)


[1] Este texto é parte do livro inédito O código da homeopatia.

[2] D. J. Struik, “Por que estudar a história da matemática”, in Ruy Gama (org.), História da técnica e da tecnologia, São Paulo, Edusp, 1985, p. 191. No capítulo 18 da segunda parte, “Interregno árabe”, dissemos que, mais de dois séculos antes, em 391, a Biblioteca de Alexandria fora queimada pelo patriarca Teófilo. Não há incoerência. A biblioteca não era, na verdade, um prédio, mas vários, constituindo algo mais parecido a um campus universitário – que afinal foi incendiado não duas, porém quatro vezes. A primeira vez, em 48 a. C., quando Júlio César mandou queimar o porto de Alexandria, atingindo partes da biblioteca. A segunda vez, em 274 d. C., quando o imperador Aureliano invadiu a cidade a fim de combater uma revolta local. O ato do conquistador muçulmano do Egito, califa Omar, o sucessor de Maomé, foi somente o último e definitivo.

[3] Moacyr Scliar, opus cit., p. 130.

2 comentários:

José Damião disse...

O multiculturalismo, como fato histórico, existe desde sempre. “

Ah!!!! O que conta são os factos. O que quer dizer que tudo o resto é “minha interpretação”. Ok.

RioD'oiro disse...

Excelente texto. De referência.