domingo, 27 de novembro de 2011

Desequilíbrio entre rendimentos e despesas...

O enviado especial para Espanha e Portugal do jornal que assino na Holanda,  NRC, tem um estilo muito peculiar que me agrada bastante. Descreve a crise económica e outras grandes atribulações da moda de forma diferente da maioria dos seus colegas. Não perde tempo com ódios ideológicos, nem com teorias da conspiração, e utiliza perfeitamente a técnica do funil virado ao avesso. Parte sempre de uma situação comezinha, trivial, que toda a gente reconhece, extrapolando lentamente para um nível mais amplo: da nação, do mundo, mas de maneira que toda a gente acaba por perceber o complexo. Até eu…. 

Merijn de Waal aborda a crise económica espanhola, mas podia muito bem ser a portuguesa, ficando os problemas da península Ibérica reduzidos a esta simples frase que muitos não querem ouvir: “desequilíbrio entre rendimentos e despesas”.

Com contrato temporário não pode fazer greve

Enquanto os 12.000 habitantes de Valverde del Camino dormem, já Júlio Ortiz às 5 da manhã está a pé e pronto para ir trabalhar. Com um uniforme fluorescente vai empurrando um carro para recolha de lixo pelas ruas da vila andaluza. Vai pela madrugada apanhando as laranjas que caíram das árvores e vidros e garrafas espalhadas nos locais onde param os jovens. É um trabalho pesado para uma pessoa de 53 anos de idade.

Mas quando estiver pronto, por volta do meio-dia, então é que começa verdadeiramente o seu dia de trabalho: uns biscates a negro na economia paralela. Mas é com este trabalho que realmente ganha algum: toma conta de vizinhos com idade avançada. Júlio Ortiz é funcionário da câmara mas a câmara está falida. A câmara está endividada até ao pescoço e desde a crise da imobiliária em Espanha, seguida pela crise do euro, ninguém mais lhe quer emprestar dinheiro. O orçamento para este ano esgotou-se em Junho. Mais de uma centena de habitantes que figuram nas folhas de pagamento da vila, têm cinco meses de salário em atraso.

Mas enquanto outros funcionários da câmara ficam em casa como forma de protesto, Ortiz continua a fazer o seu trabalho. É que ele, ao contrário dos funcionários efectivos, tem um contrato temporário e pode ser despedido a qualquer momento. “Não me posso permitir perder este emprego. Quando a câmara conseguir um empréstimo junto do governo regional ou do estado paga-me tudo de uma vez”, diz ele. “Além disso onde é que 
vou arranjar outro emprego?”.

 O Ortega diz: Espanha é o problema, e o Gasset responde: e a Europa a solução

Mas não é só a câmara que está falida, as pequenas empresas locais que trabalhavam para ela esperam um ou mais anos pelo pagamento das suas facturas. Esta situação causou uma reacção em cadeia de calotes e falências e sugou o último crédito em Valverde del Camino.

Na Grécia e na Itália a crise do euro originou mudanças caóticas de poder. Sob a pressão dos mercados e da Europa os governos eleitos tiveram que ceder o lugar a tecnocratas nomeados. Também em Espanha a crise do euro deu origem a um câmbio político, mas aqui a mudança deu-se através das urnas.

Depois da morte de Franco, em 1975, e do retorno à democracia três anos depois, Espanha encontra-se numa encruzilhada. Ao ingressar na Europa, para sair do seu isolamento e pobreza, o país correspondia desta forma à tese de 1910 do filósofo espanhol Ortega y Gasset: Espanha é o problema e a Europa a solução. A cada eleição a jovem democracia saía fortalecida, a prosperidade triplicou e o país modernizou-se rapidamente. No entanto, a participação no mais importante projecto europeu, o euro, deixou o país financeiramente de rastos. Graças à entrada na união monetária europeia, Espanha podia obter nos anos noventa crédito muito barato, e o resultado foi a explosão da enorme bolha de sabão imobiliária que durante muitos anos era o motor da economia. A partir de fins de 2007 que a economia espanhola se encontra em queda livre: o país tem uma enorme dívida externa, altas taxas de desemprego e poucas perspectivas de crescimento económico.

piscinas cobertas…. com crédito

A seguir à crise da dívida grega, os mercados internacionais de capital ficaram bastante agitados e começaram a fechar a torneira do crédito. Agora, para que Espanha continue a fazer parte da família europeia, vai ter que ganhar de novo a confiança dos mercados internacionais. Para isso o novo governo vai ter que tomar medidas tão rigorosas como os seus colegas em Atenas e Roma, que já estão sob curatela.

Não é de espantar que os espanhóis tenham acolhido com entusiasmo a nova prosperidade vinda da Europa, sobretudo numa vila andaluza como Valverde del Campino. A Andaluzia foi precisamente a parte do país mais abandonada no tempo de Franco. “Nos finais dos anos setenta ainda não havia estradas alcatroadas. Vivia-se ainda numa época feudal”, diz-nos Miguel Marquez, que até Junho deste ano era vereador de obras públicas. “Veja agora a diferença. Veja agora os serviços de que dispomos”. Marquez é um político do PSOE que até às últimas eleições municipais, em Maio, esteve no poder em Valverde durante mais de trinta anos. No fim dos anos noventa a vila sofreu enormes melhoramentos: dois pavilhões desportivos, uma piscina coberta, uma casa da cultura, um centro de jovens, vários projectos de habitação social, um parque de estacionamento subterrâneo e um novo parque industrial. O conservatório, o teatro e a praça principal foram também completamente restaurados.

A verdade é que a vila não tinha dinheiro para estas coisas. Para a construção e manutenção de todas estas facilidades, a administração da câmara foi obrigada a contrair enormes empréstimos. No auge da construção imobiliária isso era bastante fácil: o crédito barato jorrava do interior dos bancos. A população em massa comprava casas em bairros novos e a administração local ganhava bastante com isso, outorgando autorizações de construção e cobrando impostos. Além disso, a câmara de Valverde criou a sua empresa imobiliária, a semi-estatal GIVSA, e apostou forte no jogo da pirâmide em que o sector entretanto se tinha transformado. Em ligação com construtores e promotores locais, comprava-se e vendia-se terreno. O dinheiro fácil vinha do banco de poupança local, CAJASOL, que, como todas as ‘cajas’ em Espanha, estão sob o directo controlo de políticos locais e regionais.

descomunal desequilíbrio entre rendimentos e despesas

Esta prática deu origem a um aumento artificial do valor dos imóveis, corrupção e um crescimento selvagem de bairros novos. E encobriu durante muitos anos o descomunal desequilíbrio existente entre rendimentos e despesas em municípios como Valverde. Só quando a bolha de sabão imobiliária rebentou, é que se notou que a vila vivia muito acima das suas possibilidades. Os 12.000 habitantes têm agora que arcar com uma dívida de 54 milhões de euros. Quase metade desta quantia é da responsabilidade da empresa imobiliária GIVSA, que entretanto faliu porque se encontrava a braços com uma enorme parcela para construção num momento em que se duvida que ainda tenha algum valor.

Durante as eleições municipais de Maio passado, a população de Valverde votou em massa no candidato do centro-direita (Partido Popular). Nas últimas eleições parlamentares verificou-se o mesmo escrutínio: o PP teve 60% dos votos e o dobro dos socialistas, que foram mais uma vez severamente punidos nas urnas pela população. O governo socialista de Zapatero não teve em 2004 a coragem política para fazer vazar controladamente a bolha de sabão imobiliária.

“Nós elevamos o nível do povo, mas eles não se sentem agradecidos”, afirma o ex-vereador de Valverde, Miguel Marquez, enquanto dobra propaganda eleitoral juntamente com voluntários na sede do PSOE. “Nós tínhamos um atraso de 20, trinta anos em relação ao resto da Europa e fomos demasiadamente sôfregos na tentativa de recuperação”, é a análise de um voluntário. “Agora vamos ter que retroceder. Mas até que ponto? Isso é a grande inquietação das pessoas.” A vereadora Mari Carmen acrescenta: “Nós pensávamos que éramos ricos. Mas agora que a ilusão se tornou visível, as pessoas deixaram de votar em nós, votam na direita, na esperança que eles façam voltar o tempo das vacas gordas.”

aeroportos onde aterra apenas um voo por semana

A derrota do PSOE num baluarte vermelho como a Andaluzia tem um grande significado histórico. “Valverde sempre foi uma vila de esquerda, com muita indústria mineira e um movimento sindical bem organizado.” explica Juan Castillo, bibliotecário que se ocupa do arquivo municipal. “A vila sofreu muito durante a Guerra-Civil e mais tarde teve a repressão franquista que se seguiu”. No seio das famílias de esquerda isto deu origem a uma aversão quase genética em relação à direita. Principalmente nas gerações mais velhas. O facto de Valverde em Maio ter virado completamente a casaca, é considerado pelo bibliotecário como positivo. “Para as gerações mais novas o passado sangrento tem menos importância. Viraram a página da história. O mais importante agora é pão em cima da mesa.”

Juan Castillo, que se considera de esquerda, é bastante crítico em relação ao governo dos socialistas dos últimos trinta anos. Ele não acredita que as recentes construções de novos bairros tenham sido feitas para melhorar a situação dos habitantes. “Sobretudo nos últimos anos, tratava-se apenas de manter o poder. Todos os anos a administração surgia com um novo projecto faraónico para mostrar que a vila ia de vento em popa”. Mas isto era um padrão que ocorria em toda a Espanha, e não apenas em municípios socialistas. Em localidades onde a direita governava, também as câmaras se endividavam na construção de projectos de prestígio. Em regiões onde o turismo é quase inexistente foram inaugurados aeroportos onde agora aterra apenas um voo por semana. Pequenas cidades construíram museus e salas de concerto que custaram milhões de euros. Cada aldeia tinha que ter o seu pavilhão desportivo ou piscina. Construiu-se uma linha de comboio de alta velocidade entre duas capitais de província que passados alguns meses teve que ser desmantelada, porque viajavam apenas nove pessoas por dia.

mudar de telefone portátil cada meio ano

Não há dúvida os espanhóis abraçaram com entusiasmo o consumismo. Milhões mudaram-se para habitações mais amplas nos arredores das cidades. Adquirir uma casa de praia ou de campo tornou-se comum na classe média. Assim como passar os sábados à tarde em centros comerciais munidos de cartão de crédito, ou mudar de telefone portátil cada meio ano. Comer fora em dias de semana tornou-se normal. Os alemães, que desde o início da crise do euro se queixam do esbanjamento nos países do sul da Europa, encontraram em Espanha um excelente mercado para os seus Mercedes e BMW’s. Agora que a crise já dura há três anos, os espanhóis começam a sentir as dívidas como um pesado fardo que vão ter que suportar. Os problemas relacionados com incumprimento de pagamento aumentam: Por dia a banca confisca 300 casas. Há 1,4 milhões de famílias em que todos os membros estão desempregados.

“É compreensível que tenhamos caído nesta armadilha”, diz-nos o bibliotecário Juan Castillo. “Vínhamos de um período negro, sem qualquer tipo de luxo. De repente podíamos comprar tudo o que desejávamos - é muito difícil de resistir. Imaginávamos que esta situação nunca mais acabaria. Mas na realidade estávamos a caminhar em direcção ao abismo sem nos darmos conta, porque a paisagem era lindíssima.”

medidas necessárias para que haja crescimento económico

Para evitar o abismo Espanha está perante um enorme desafio. Vai ter que reduzir a enorme dívida pública, e a das empresas, e a dos bancos. Mas cuidado, a política de rigor não pode empurrar demasiadamente a economia para uma recessão. Um exercício de equilíbrio que só pode ter sucesso se o país tomar as medidas necessárias para que haja crescimento económico. Mas nem todos os eleitores percebem isso. José Manuel Gonzalez, agente da polícia, diz que votou no PP porque tem esperanças que com um governo de direita em Madrid, “o nosso presidente da câmara vai ter mais portas abertas.” Este polícia e dezasseis colegas, assim como todos os funcionários de Valverde, têm cinco meses de salário em atraso. No mês de Setembro o corpo inteiro da polícia deu baixa por motivo de doença. Como a polícia não pode fazer greve, esta foi a única maneira de protestar.

Não é certo e seguro que a alternância política em Madrid faça com que o dinheiro volte a jorrar em Valverde. O líder do PP,  Mariano Rajoy, promete restabelecer a confiança na economia, mas isso vai demorar o seu tempo. E o novo líder espanhol, é primeiro-ministro de um país em que os municípios, regiões e províncias são já em grande parte governados por militantes do seu partido. O que certamente pode facilitar a implementação de reformas, mas o presidente da câmara de Valverde não vai ser o único a bater à porta de Mariano Rajoy com pedidos de apoio financeiro.

“Já não há mais dinheiro em Espanha. As pessoas que julgam que com Rajoy na Moncloa a torneira financeira vai novamente abrir-se, enganam-se”, afirma Manuel Becerro em sua casa, no centro de Valverde. Ele é filho do primeiro presidente da câmara socialista que a vila conheceu no final dos anos setenta. Como correspondente do diário nacional de direita El Mundo está bem informado sobre a política local. “Nas vésperas das eleições municipais o anterior presidente da câmara socialista tentou arranjar dinheiro junto da administração regional, que estava totalmente nas mãos dos socialistas. O facto de nada ter conseguido prova que não há mais nada para ninguém.”

a câmara municipal não pode voltar a ser a maior fonte de emprego da vila

Assim como Rajoy, a nova presidente da câmara de Valverde, Loles Lopez, promete restabelecer a confiança com reformas e poupança: “Esta vila sempre foi muito empreendedora com a sua indústria de calçado e de móveis.” Mas vai já avisando que “a câmara municipal não pode voltar a ser a maior fonte de emprego da vila.” Entretanto os comerciantes e industriais da vila sobrevivem com grandes dificuldades. Também porque há anos que esperam que a câmara pague as suas facturas. E para pagar as suas dívidas a câmara ainda não sabe de quanto é que vai aumentar os impostos camarários. Loles Lopez diz-nos que os seus funcionários e economistas estão a estudar o problema. Por seu lado ela encontra-se em negociações com a banca para encontrar a melhor forma de pagar as dívidas da câmara. Sim sim, a opção quitação parcial da dívida já foi abordada. Uma quinta parte dos 9 milhões de euros do orçamento são para pagar os juros de empréstimos.

Loles Lopez acredita que é possível manter o mesmo nível de serviços com menos gente. Mas nos últimos seis meses muitos serviços sociais tornaram-se mais sóbrios, ou mais caros. A contribuição dos pais para o pagamento da creche duplicou. O museu sobre a indústria mineira só abre a pedido. As obras nos esgotos de uma das principais ruas da vila não puderam ser concluídas, a calle de la Calleja está há um ano sem alcatrão. É muito provável que a câmara não possa pagar à empresa que explora a piscina coberta, diz um funcionário que prefere ficar anónimo.
















3 comentários:

Amilcar Fernandes disse...

Mota Soares substitui Vespa por carro de 86 mil

(O mota é o nosso ministro da “solidariedade”)

http://www.cmjornal.xl.pt/
detalhe/noticias/exclusivo-cm/
mota-soares-substitui-vespa-por-carro-de-86-mil

Ministro garante que a compra de viatura de luxo foi ‘herança’ do Governo anterior.

As heranças nunca se recusam, mesmo se forem deste calibre e o estado estiver nas lonas, os bons vicios adquirem-se logo. Renegociar contratos ruinosos nem pensar, vamos la aproveitar e mudar de frota que se lixe a vespa, ja andava farto de ser picado.

Desiquilibrio entre rendimentos e despesas sim é verdade, curiosa a venda de condominios de luxo, mansões e carros luxuosos nestas alturas. Mas sim claro o vicio de trocar de telemovel frequentemente esse sim é um problema para o estado.

Sabem la bem estas pessoas quem "apanha" os desiquilibrios de rendimentos. Provavelmente um varredor de lixo de uma calçada qualquer.

Ah fadistas.

EJSantos disse...

Ola Carmo da Rosa.

Excelente texto. Lucido, simples, lógico.
Um abraço

Carmo da Rosa disse...

Sim, mas para quando é vamos comer cá uma sardinhada com broa de Avintes?