sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A LONGA SOMBRA DAS TORRES – E DE TEERÃ (1)

Hyeronimus Bosch, Os sete pecados capitais

A propósito dos 10 anos decorridos após o atentado às Torres Gémeas, inicio hoje a transcrição deste novo texto enviado por Luís Dolhnikoff, que dividi em três partes. Publicarei as outras duas, amanhã e depois de amanhã.


1. O 2997º cadáver

Na madrugada de 10 para 11 de setembro de 2001, eu discutia com um artista plástico os planos para uma nova revista cultural. Ela era pretensiosa, no bom sentido, baseada em editoriais independentes e numa abordagem densa de cada tema, envolvendo arte, política e meio ambiente. Eu pretendia começar por localizar e traduzir indiretamente a poesia curda contemporânea. Não que eu tivesse a mais pálida ideia sobre ela. Mas acreditava que devia haver uma poesia curda contemporânea, enquanto a maioria das pessoas ao meu redor ignorava a mera existência do povo e da língua curdos. Por que a poesia curda? Por essa mesma ignorância. Os curdos eram o maior povo sem Estado do mundo, mas o mundo só parecia ser capaz de se preocupar com os palestinos. Tal preocupação com a questão palestina, se era inteiramente legítima, era perfeitamente seletiva. Havia dois pesos e duas medidas entre as “pessoas de bem” em relação aos palestinos e aos curdos: preocupação máxima com os palestinos, preocupação nenhuma com aos curdos. Eu não buscava a resposta na poesia curda, porque ela não estaria ali, e porque já a conhecia. Pretendia apenas demonstrar de forma direta, palpável, tanto a existência do povo curdo quanto a inexistência de qualquer preocupação das “pessoas de bem” por seu destino de grande pária entre os povos. Pode o verdadeiro humanismo ser assim seletivo? A preocupação com os palestinos, ao lado da despreocupação com os curdos, um povo maior e que sofria mais intensamente nas mãos de regimes cruéis como o de Saddam Hussein, não era de fato uma preocupação com os palestinos, mas uma forma de se mostrar contra Israel sendo a favor dos palestinos, o que, por sua vez, era um modo de ser contra os EUA. Não por acaso, havia dois grandes centros ou focos desse apoio particular ou especial para um povo sem Estado em particular, em detrimento de todos os demais (como ocorrera entre 1975 e 2000 com a luta “silenciosa” do Timor Leste contra a Indonésia): a esquerda internacional e o mundo árabe. Na noite de 11 de setembro de 2001, sentei-me com o mesmo artista plástico para pensar no que acabara de acontecer.

Não haveria mais a nova revista, nem interesse particular em traduzir a poesia curda (de fato, uma das consequências indiretas do 11 de Setembro foi o mundo “descobrir” os curdos). O mundo mudara de repente. Além disso, eu sentia uma enorme tristeza.

Em parte, porque o pós-Guerra Fria acabara de terminar. Se a própria Guerra Fria durara longos quarenta anos, entre 1949 e 1989, quando da queda do Muro de Berlim, o período pós-Guerra Fria, que prometia ser de distensão progressiva, da qual o governo Clinton fora uma pálida amostra inicial, mal durara, afinal, uma década, espremido e esmagado entre a queda do muro e a queda das torres. A alegria fora curta. E seria, agora, pouca.

Pois agora começava outra coisa. Uma coisa muito diferente desse curto e promissor interregno. Pois enquanto a queda do muro, que lhe dera início, além de marcar o fim da cinzenta e asfixiante Guerra Fria, fora um evento sem sangue marcado pela alegre libertação de países inteiros da ditadura stalinista, a queda das torres era um evento sanguinário que levaria a uma necessária reação militar dos EUA. Uma grande potência simplesmente não se deixa atacar assim sem reagir. A guerra voltara.

Ao mesmo tempo, minha tristeza era pela derradeira morte da esquerda.

A esquerda vinha morrendo há muito tempo, e morrera várias vezes. Morrera quando Lênin adoeceu antes de impedir que Stálin assumisse a liderança do Partido Bolchevique, ou quando, antes de adoecer, decidira silenciosamente não impedir que Stálin assumisse a liderança, ou antes ainda, quando recusou as teses de Rosa Luxemburgo sobre a necessidade da democracia interna, ou quando criou a primeira polícia política de esquerda, a Tcheka, ou quando Trótsky atacou militarmente os marinheiros revolucionários de Kronstadt em nome da unidade revolucionária, ou quando Bukharin foi morto por Stálin, ou quando Stálin fez um pacto de não-agressão com Hitler, ou talvez já em outubro de 1917, quando o Partido Bolchevique deu um golpe dentro da Revolução Russa de fevereiro, que depusera o czar e derrubara o czarismo num amplo movimento popular. A esquerda ainda morreria outras vezes em Budapeste, em 1956, em Pequim, em 1966, com o fascismo de esquerda da Revolução Cultural, em Praga, em 1968, e em 1975, nos arredores de Phnom Pen, quando Pol Pot abriu o primeiro campo de extermínio do Camboja. Mas a esquerda era um cadáver resistente. Desta vez, porém, eu tinha certeza de que chegara o fim final.

Fui uma parte da vida o que se chama ou chamava de “um homem de esquerda”, apesar de carecer da vocação para a cegueira voluntária que se espera e se exige dos fiéis. Mas porque, como diz o adágio, “Quem não foi comunista antes dos trinta, não tem coração; quem é comunista depois dos trinta, não tem cérebro”, queria acreditar e por isso acreditava na vitória final e inexorável do socialismo redentor da história e dos povos – mas tinha de me esforçar. Naturalmente, sempre fui um cético. Devia, por isso mesmo, ser um cético na mente, mas um crente no coração, porque o pesadelo da história, se podia ter um fim, devia ter um fim. E não havia outro fim além do socialismo. O socialismo, porém, era mentira e miragem. De um lado, revelou-se miserável politicamente, nada mais do que o fascismo vermelho do stalinismo; de outro, era miserável economicamente, pois a economia centralizada jamais gerou riqueza comparável ao capitalismo, mesmo porque jamais gerou riqueza, como a implosão de podre da URSS demonstrou de modo espetacular, e o lento, patético e interminável crepúsculo da ilha de Cuba demonstra de modo farsesco, com a miséria nojenta da Coreia do Norte correndo por fora, e a opulência da China depois de adotar o capitalismo correndo mais por fora ainda. Por fim, a esquerda também se demonstrou miserável culturalmente. A grande arte do século XX veio do mundo capitalista ocidental, a começar de todos os ismos de sua primeira metade, do cubismo ao abstracionismo, passando pelo surrealismo, o expressionismo etc., para não falar da arte pop e popular, do jazz ao rap. O mesmo vale para a ciência, da física à biologia, para a filosofia e para a tecnologia, incluindo celular, internet e cia. O socialismo foi afinal pródigo e prodigioso apenas em produzir cadáveres. Um deles, o seu próprio, que se recusava a ser enterrado. Porque os mitos são difíceis de matar e de morrer – ainda que facilmente façam matar e morrer por eles.

Em 11 de setembro de 2001 descobri, para minha surpresa, que minha rejeição racional do mito que eu mesmo acalentara por tantos anos no passado não fora tão completa quanto acreditava. Minha tristeza por sua morte derradeira o demonstrava. Mas por que a esquerda iria agora morrer derradeiramente? Porque ficaria do lado errado da história, que pegara um atalho imprevisto naquela manhã em Nova York.

Porque o fascismo islâmico atacou de modo furioso os EUA, o inimigo histórico, a maior parte da esquerda desconfiaria da vítima. “Ninguém é atacado assim sem motivo”, seria de fato um mote muito repetido. Principalmente uma superpotência imperialista e capitalista. Os EUA foram realmente atacados por bons motivos. Isto é, pelo que têm de bom, de melhor, ou seja, pelos motivos errados. Mas a miopia histórica da esquerda a impediria de ver o óbvio.

Ante a impossibilidade de apoiar de forma clara o fascismo islâmico, optaria por tampouco atacá-lo de forma consistente, deixando afinal o repúdio franco a esse novo fascismo para a direita. Assim, enquanto a direita se tornaria antifascista, a esquerda tornar-se-ia mal disfarçadamente filofascista – pronta para sacar a alcunha de islamofóbico contra todos os que são, de fato, fóbicos em relação ao fascismo, incluindo o islâmico. A esquerda tornou-se, enfim, ainda mais confusa, e ainda menos convincente.

2. Fogo, fúria e infâmia, versão I

Ao meio-dia de 23 de novembro de 1993, uma caminhonete explodiu num dos estacionamentos subterrâneos da torre norte do World Trade Center, matando seis pessoas e ferindo e asfixiando outras tantas, mas falhando em seu propósito homicida de derrubar a torre norte sobre a torre sul, ao abalar suas fundações, causando a morte de milhares de inocentes. Bill Clinton era o presidente dos EUA (e não Bush-filho, tampouco Bush-pai, recém-derrotado pelo mesmo Clinton). O 11 de Setembro de 2001 seria assim a repetição de um atentado anterior, pelos mesmos autores e pelos mesmos motivos, com a diferença de que, desta vez, em lugar de tentar derrubar as torres por baixo, eles decidiram fazê-lo por cima.

Portanto, todas as afirmações que relacionam o 11 de Setembro com qualquer característica do governo Bush-filho são falsas ou idiotas ou ignorantes, pelo simples fato de que os atentados contra o WTC foram concebidos, planejados e tiveram sua execução iniciada muito antes de Bush-filho sequer imaginar ser um dia candidato a presidente dos EUA. Os atentados contra o WTC (e contra o Pentágono e a Casa Branca – este evitado pela queda na Pensilvânia do avião a ela destinada) foram concebidos contra os EUA. Os EUA em si mesmos. Até porque, Bush-filho, recém-eleito, nada tinha de intervencionista no início de seu primeiro mandato.

A grande acusação contra ele, tornada depois irônica pela história, e esquecida pelos idiotas desmemoriados de plantão, era a de ser um autista, que só tinha preocupações e interesses quanto à política doméstica, além de surfar na onda da prosperidade deixada por Clinton e na tranquila e incontrastada hegemonia mundial depois da autoimplosão da URSS. Bush tornou-se um intervencionista depois do 11 de Setembro. E em função dele. Logo, não pode ter sido sua causa. A invasão do Iraque, não custa lembrar, dada a capacidade de desmemoria dos idiotas de plantão, também aconteceu depois do 11 de Setembro. Portanto, tampouco pode ser uma de suas causas.

(cont.)

2 comentários:

LGF Lizard disse...

Era uma boa ideia publicar as ideias do Lidador sobre o 11/9 e a brilhante desmontagem que ele faz das teorias da conspiração.

José Gonsalo disse...

De acordo.