sábado, 10 de setembro de 2011

A LONGA SOMBRA DAS TORRES – E DE TEERÃ (2)

Pieter Brueghel, O Triunfo da Morte

(...)

3. Pródromos

O mundo, na verdade, não mudou em 11 de setembro de 2001: ao menos, não tanto quanto em 1º de fevereiro de 1979, dia em que o aiatolá Khomeini desembarcou em Teerã, voltando de seu longo exílio em Paris. Duas semanas antes, o xá Reza Pahlevi deixara o poder e o país, expulso por uma revolta popular nos moldes das atuais revoltas árabes.

Duas grandes questões geopolíticas e ideológicas marcariam, assim, o final do século XX: uma, o “fim do comunismo”, com a queda de URSS em 1989; outra, o surgimento do islã político, com a Revolução Iraniana de 1979. Se a queda da URSS não é difícil de entender, a ascensão do islã político é quase impossível de explicar.

No final dos anos 1970, em plena Guerra Fria, a URSS parecia ter a vantagem no presente e o domínio do futuro. A década fora de derrotas para os EUA. Em 1973, a grande crise do petróleo, com os países produtores impondo uma majoração geral dos preços; em 1974, a renúncia de Nixon no rastro do escândalo de Watergate; em 1975, a queda de Saigon e a saída desesperada das últimas forças americanas do Vietnã; em seguida, guerrilhas na África e na América Central. E em 1979, por fim, a queda do xá do Irã, então o mais importante aliado dos EUA na região.

No contexto de um mundo dividido em duas “esferas de influência”, com os EUA apoiando grupos anticomunistas onde pudessem, e a URSS apoiando os grupos opostos nos mesmo lugares, a revolução que derrubou o xá deveria ter, necessariamente, se não um verdadeiro caráter de esquerda, ao menos uma postura pró-soviética. De fato, em todos os casos semelhantes ao redor do mundo, como em Cuba em 1959, onde outro ditador aliado dos EUA foi derrubado por uma revolução popular, quem assumiu o poder foram comunistas, socialistas, nacionalistas de esquerda etc. Jamais padres ou sacerdotes de qualquer tipo. Não se imaginava, nem havia por que se imaginar, uma revolução de padres. Ou de rabinos. Ou de mulás. Mas essa revolução aconteceu, apesar de inimaginada. E de ser inimaginável. Afinal, não fazia qualquer sentido.

As explicações posteriores para essa completa excentricidade se basearam, em grande parte, em duas hipóteses: primeiro, a ideia da modernização teria ficado associada ao xá e portanto ao Ocidente, tornando uma modernização democrática e laica à ocidental não palatável; segundo, a alternativa à esquerda não existia, porque o xá fora eficiente em destruir a oposição de esquerda. Mas isto não é verdade. A repressão do xá era menos intensa e eficaz, por exemplo, do que seria em seguida a de Khomeini.

A senhora foi perseguida pelo regime do xá Reza Pahlevi por suas atividades como líder estudantil. Com a Revolução Islâmica, tornou-se alvo dos aiatolás ao liderar um movimento contra o uso obrigatório do véu...

Sim, mas não há comparação. Como líder estudantil em Tabriz, tive problemas durante o regime do xá: não podia ler alguns livros, dizer algumas coisas, tinha de me apresentar de tempos em tempos à polícia, mas era, por assim dizer, um jogo com regras claras. Com Khomeini, no entanto, tudo ficou muito mais brutal (Mina Ahadi, “Eu renunciei ao islã”, entrevista à Veja, 2 de fevereiro de 2011, p. 15).

Na verdade, o Partido Comunista Iraniano era relativamente forte entre os grupos clandestinos de oposição ao xá, e tinha um importante braço armado, os Mujahedin Khalq. Eles não foram destruídos pelo xá: afinal, participaram da Revolução Iraniana de 1979 (para ser depois destruídos por Khomeini). Mas se havia uma oposição de esquerda no Irã em 1979, além de uma importante classe média urbana, que liderou os protestos na moderna capital do xá, Teerã – Khomeini só voltaria ao país depois da vitória da revolução e da queda e saída do xá –, como e por que a Revolução Iraniana pôde ser sequestrada pelo clero xiita e se transformar nessa inteiramente excêntrica, nos dois sentidos (de fora de centro e fora da normalidade) retrovolução teocrática em pleno final do século XX?

A explicação passa, em parte, pela pessoa do próprio Khomeini, que soube, a partir do exílio, transformar-se numa espécie de “pai da pátria”, reserva moral, histórica e cultural do “verdadeiro” Irã contra o entreguismo modernizante do xá e os confusos antagonismos da dividida oposição, que congregava todo o espectro político iraniano com exceção do grupo no poder, da extrema esquerda aos liberais ocidentalizantes. Essa imagem, naturalmente, era falsa. Khomeini não era nenhum “pai da pátria”, mas seu padrasto, cujo verdadeiro filho dileto era o regime teocrático islâmico, que ele introduziu na geografia político-ideológica contemporânea. Khomeini está para a teocracia islâmica como Lênin esteve para os governos revolucionários de esquerda. Mas se a Revolução Russa tem por contexto histórico e ideológico o marxismo e as jornadas revolucionárias europeias da segunda metade do século XIX, a teocracia islâmica não tem contexto algum. Parece, de fato, ter caído do céu. Alá é grande.

Naturalmente, isso não é verdade. A Revolução Iraniana foi uma revolução xiita. E uma das diferenças entre o xiismo e o sunismo é que no sunismo pode ou não haver separação entre clero e Estado, enquanto no xiismo pode, mas não deveria. O xiismo nasceu de uma querela sobre a sucessão de Maomé, em que os futuros xiitas defendiam que o poder no Califado, o império muçulmano criado pelo Profeta (que além de líder religioso foi governante de fato), deveria ficar com seus descendentes diretos, numa espécie de monarquia, enquanto o sunismo defendia os companheiros do Profeta. O xiismo considera seus principais sacerdotes herdeiros diretos de Maomé. Portanto, devem governar.

A perda do Irã foi tão mais surpreendente quanto era enorme a importância do país, por sua posição geográfica, entre o Oriente Médio, a URSS e a China, sua relevância econômica, pela produção petrolífera, e sua situação estratégica, dominando o Golfo Pérsico ao lado (literalmente) da Arábia Saudita. A URSS tentaria conter a desagradável surpresa ideológica em seu flanco sul invadindo o vizinho Afeganistão para sustentar o governo esquerdista de Cabul. Os EUA tentariam reverter a desagradável surpresa geopolítica em sua região petrolífera apoiando o Iraque numa guerra contra o Irã.

4. Saddam, our guy

Saddam Hussein, porém, não atacou o Irã, em 1980, como garoto de recados dos EUA, mas como aliado. Pois se isso era do interesse dos EUA, também era do interesse do Iraque. A região sudeste do país, fronteira com o Irã, abriga uma enorme minoria xiita. Saddam Hussein temia, com razão, a exportação da revolução teocrática para seu próprio quintal. Um ano depois da revolução iraniana, com o país ainda instável e o governo de Khomeini não consolidado, eram grandes as chances de ainda se conseguir fortalecer as forças antagônicas, e também grandes as chances de, se nada fosse feito, o aiatolá querer exportar sua revolução para fortalecer a si próprio. Fazia sentido o Iraque atacar o Irã. O que não fez sentido foi o Irã resistir ao forte exército iraquiano.

Saddam Hussein lutou contra Khomeini por oito anos, armado e financiado pelos EUA. Se não foi derrotado, não saiu vitorioso, e acabou exaurido. Em 1988, depois de mais de 1 milhão de mortos, a guerra Irã-Iraque terminou em empate. O governo de Khomeini se manteve, assim como se mantiveram as fronteiras. Saíram destruídas a economia iraquiana e a oposição iraniana, pois Khomeini aproveitou a situação de guerra externa para vencer a luta interna definitivamente. Restou, ainda, uma dívida do Ocidente com Saddam Hussein. Ao menos segundo o próprio, que acreditava dever o Ocidente lhe compensar por seus grandes gastos na guerra, além da enorme devastação que ela causou ao país. Então, em 1990, depois de esperar por dois anos, Saddam “foi às compras”: anexou o Kuwait como compensação de guerra, acreditando que os EUA tolerariam o fato em função do empenho de quase uma década para tentar destruir o regime iraniano. Mas Saddam errou o cálculo.

Existe uma ingênua crença popular segundo a qual países têm ou deveriam ter compromissos eternos, como num casamento religioso. Mas todo casamento político é civil: dura enquanto vale a pena. Os EUA foram de fato aliados de Saddam Hussein por muitos anos. Mas isso não impede que se tenham transformado em seus mais sinceros inimigos. Pois se Estados não têm amigos, mas apenas aliados, porque se movem não por amor, mas por interesses, podem ter e têm verdadeiros inimigos. Além disso, os mesmos aliados de hoje podem se tornar os inimigos de amanhã (e vice-versa). Como o Iraque ao invadir o Kuwait, ameaçando desestabilizar geopoliticamente todo o Golfo Pérsico e se tornando uma das causas do 11 de Setembro.

Depois de invadir o Kuwait, ante a reação dos EUA e de seu principal aliado na região, a Arábia Saudita, que levou tropas para a fronteira enquanto os EUA se preparavam para atacá-lo, Saddam ameaçou tomar a dianteira contra essa reação e invadir também a Arábia Saudita, levando suas próprias tropas para a fronteira.

Osama Bin Laden, um guerrilheiro islâmico saudita recém-desempregado, que há pouco lutara no Afeganistão contra a URSS (enquanto o Iraque atacava o Irã em 1980, a URRS invadia o Afeganistão, e as duas guerras durariam quase o mesmo tempo), ofereceu seus serviços militares ao rei saudita. Não foi difícil: a família Bin Laden é a mais rica, poderosa e influente do país depois da própria família real. Sua ideia era defender o país da possível invasão iraquiana com seus mujahedin, ex-companheiros na guerrilha afegã. O rei agradeceu e disse a Bin Laden que não precisava telefonar: ele mesmo ligaria depois para dar a resposta... Em vez disso, o rei ligou para Bush-pai, autorizando a entrada das forças armadas americanas no país. Não se pode dizer que não foi sensato. Saddam Hussein tinha um exército enorme, dimensionado e treinado pela guerra de quase uma década contra o Irã.

Bin Laden julgou-se duplamente traído pelo rei. Por lhe negar a possibilidade de defender seu próprio país, ele que já ajudara a defender outro país islâmico, o Afeganistão, contra um exército muito maior que o do Iraque, o da URSS, e por permitir a entrada de milhares de “infiéis” norte-americanos no “sagrado solo” saudita, pátria de Maomé e lugar de Meca e Medina. Bin Laden jurou o rei saudita de morte – além de jurar de morte os Estados Unidos da América.

Posto nesses termos, parece mera loucura. Mas como disse Polônio sobre Hamlet, é de fato loucura, porém há método nessa loucura. Bin Laden acreditava que assim como os jihadistas haviam derrotado militarmente e ajudado a destruir politicamente uma das duas superpotências da época, a URSS, poderiam e portanto deveriam fazer o mesmo com a outra, os EUA. Isso abriria caminho para uma terceira força mundial, o Califado. Destruir os EUA tornou-se, a partir de 1991, a missão de Bin Laden.

Mas agora persona non grata na Arábia Saudita, ele precisava primeiro sobreviver, e encontrou refúgio no teocrático Sudão, onde se pôs a planejar os primeiros atentados contra os EUA. Em 1996, com a subida do Taleban ao poder no Afeganistão, ele retornaria ao país, de repente um lugar mais promissor do que o Sudão. E bem mais produtivo. Cinco anos depois, ele derrubaria o WTC, atacaria o Pentágono e ameaçaria a Casa Branca.

(cont.)

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