domingo, 25 de setembro de 2011

UMA LUZ SOBRE O ESTADO PALESTINO – OU A SOMBRA DE 1967 (1)



Um novo artigo enviado por Luís Dolhnikoff:

1. Guerra de aniquilação

“Soldados! 300 mil combatentes do Exército do Povo estão com vocês na batalha, e atrás deles 100 milhões de árabes. A nata de nossas tropas está à frente. Ataquem os assentamentos do inimigo, transformem-nos em poeira, pavimentem as estradas árabes com os crânios dos judeus. Ataquem sem piedade” [ministro da Defesa sírio em exortação às suas tropas].

“A guerra só terminará com a destruição de Israel” [governo sírio].

“Já é tempo [...] de tomar a iniciativa de destruir a presença sionista na terra árabe” (Hafez al-Assad, ditador sírio).

“Quando as hostilidades começarem”, calculava [o coronel Mustafá] Tlas [comandante da frente central], “a Síria e o Egito poderão destruir Israel em, no máximo, quatro dias”.

“Eu acreditava que [...] atacaríamos primeiro e destruiríamos Israel em questão de horas. Eu tinha muitas ideias sobre o que fazer com Israel depois de conquistado e eliminado” [general Amin Tantawi, comandante da 4ª Divisão egípcia].

[O marechal Amer, chefe das forças armadas egípcias] expressou numa conversa telefônica com Ahmad Shuqayri [líder da OLP] a esperança de que “logo poderemos tomar a iniciativa e nos livrarmos para sempre de Israel”.

“Destruiremos Israel e seus habitantes, e quanto aos sobreviventes – se houver algum – os navios estarão prontos para deportá-los” [Ahmad Shuqayri].

O primeiro-ministro argelino, Houari Boumedienne, declarou: “A liberdade da pátria será completada com a destruição da entidade sionista”.

O ministro do Exterior do Iêmen, Salam: “Queremos a guerra. A guerra é a única forma de resolver o problema de Israel”.

As forças jordanianas devem “destruir todos os edifícios e matar todas as pessoas que estiverem” nessas áreas, incluindo civis [israelenses].

Todas essas declarações de altas autoridades árabes (e palestinas), feitas nas semanas que antecederam o início da Guerra dos Seis Dias, estão obviamente documentadas (Michael B. Oren, Seis dias de guerra junho de 1967 e a formação do moderno Oriente Médio, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001, pp. 92, 108, 129, 169, 202, 203, 205, 349, idem, ibidem). Mas a obviedade para por aí. Pois não se imagina que altas autoridades políticas e militares, e de vários países, possam pretender, planejar e tentar empreender, na segunda metade do século XX, a aniquilação de um país e o extermínio de sua população. Outra coisa não óbvia: não é possível compreender a presente situação do conflito israelense-palestino, incluindo a atual tentativa de se fazer reconhecer um Estado palestino pela ONU, sem compreender a guerra de 1967.

2. Reconhecendo o Estado palestino na ONU

A Autoridade Palestina (AP), que é na prática a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), que é na prática o Fatah (seu grupo dominante), decidiu submeter à ONU um pedido para que o Estado palestino seja reconhecido pela entidade (hoje, apenas a própria OLP tem ali status de observador). As esquerdas apóiam, Hugo Chávez apóia, a África apóia, metade da Europa apóia, o Brasil apóia. Os EUA, Israel e eu não apoiamos.

Não porque um Estado palestino não deva existir. É necessário, além de inevitável, que ele exista. E Israel tem todo interesse nisso. Pois sem um Estado palestino, Israel não apenas não terá paz como ainda corre o risco de no futuro ver a população da Cisjordânia pleitear a cidadania – israelense. Israel teria, então, uma maioria árabe.

Se Israel tem todo interesse na criação de um Estado palestino, a ONU foi a primeira a saber da necessidade de decretar sua existência: ela o sabe há mais de meio século, quando, em 29 de novembro de 1947, votou pela divisão da então colônia da Palestina Britânica em dois estados, “um judeu e um árabe” (Resolução 181).

O “Estado judeu” seria declarado no local já em maio de 1948, chamando-se desde então Israel. Mas o “Estado árabe” não o seria.

O motivo foi, simplesmente, que os árabes da Palestina Britânica, com o apoio dos demais árabes da região, não aceitaram a partilha, pretendendo que toda a Palestina Britânica se tornasse um Estado árabe, contra a vontade expressa da expressiva minoria judaica (30% da população). Como essa minoria possuía organizações protoestatais, como a Agência Judaica e a milícia Haganá, entre outras, a criação de uma Grande Palestina árabe na ex-colônia britânica teria resultado no início imediato de uma selvagem guerra civil. Em vez disso, houve uma guerra iniciada na manhã seguinte (15 de maio de 1948) à declaração de independência de Israel (14 de maio), opondo o Haganá ao avanço da Legião Árabe (integrada por árabes locais reforçados por egípcios, sírios, libaneses e jordanianos, entre outros). O Haganá venceu, a Legião Árabe perdeu, Israel sobreviveu à primeira tentativa de sua destruição e os árabes locais começaram a se preparar para a segunda tentativa (que afinal aconteceria em 1967, sob a liderança do Egito de Nasser), em vez de começar a construir seu Estado. Eis o resumo da ópera.

Eis também o motivo de os mesmos palestinos terem de, em setembro de 2011, voltar à ONU, depois de tardiamente decidirem criar seu Estado, desistindo portanto de tentar antes destruir o Estado de Israel (e inda que isso não valha para todos os palestinos: o grupo terrorista Hamas, que governa a Faixa de Gaza, segue se recusando a aceitar sua existência).

O problema, agora, é que desde a primeira intervenção da ONU nesse sentido, em 1947, aconteceram certas coisas.

As principais foram as guerras de 1948, 1967 e 1973 – esta, a terceira e derradeira tentativa árabe de destruir belicamente Israel, com sua invasão simultânea a partir do Egito (sudeste) e da Síria (noroeste).

Se a guerra de 1948 foi a primeira e a de 1973, a última (depois da terceira derrota militar seguida, os palestinos passaram a usar o terror como arma principal), a de 1967 foi a mais determinante.

Em 1967, Israel conquistou a Faixa de Gaza – sob domínio egípcio entre 1948 e 1967 –, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental – sob domínio jordaniano no mesmo período (daí não ter sido Israel que impediu a criação do Estado palestino entre 1948 e 1967).

3. Guerra dos Seis Dias: a batalha pela história

A história não é jamais unívoca e transparente, mas, ainda assim, há fatos inequívocos. A Alemanha agrediu a Polônia em 1939 – a afirmação de que a Polônia tenha agredido a Alemanha seria simplesmente uma mentira. Também é simplesmente mentira, depois transformada em mito, a afirmação de que Israel foi responsável pela guerra de 1967 – por ter maquiavélicos planos expansionistas-sionistas envolvendo Gaza, Jerusalém Oriental e Cisjordânia. Nem Israel foi minimamente responsável pela guerra, nem havia quaisquer planos para esses territórios.

A guerra foi provocada primariamente pelo Egito – segundo as próprias autoridades egípcias:

Afirmo que a liderança política do Egito convocou Israel à guerra. Ela claramente provocou Israel, obrigando-o a um confronto (Salah al-Hadidi, presidente do tribunal, no julgamento dos oficiais tidos como responsáveis pela derrota egípcia) (opus cit., p. 368).

Em maio de 1967, o Egito, agindo unilateralmente e sem outro motivo além de seu próprio desejo de aniquilar Israel, expulsou as forças de paz da ONU do Sinai (UNEF), remilitarizou a península e fechou o Estreito de Tiran, cercando a cidade portuária israelense de Eilat. Ao mesmo tempo, convocava os demais países árabes para um pacto militar visando uma guerra com Israel. Uma guerra – as declarações acima não deixam qualquer margem para dúvida – de aniquilação.

Isso quanto à causa e à natureza da guerra de 1967. Quanto aos territórios palestinos conquistados no seu transcorrer, o que os documentos políticos e militares israelenses demonstram de forma não-ambígua é que não somente não havia plano expansionista algum, como sequer havia a disposição de entrar nesses territórios, então sob domínio egípcio – Gaza – e jordaniano – Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

Especificamente quanto aos dois últimos, depois de responder ao fogo de artilharia iniciado pela Jordânia contra alvos civis em Jerusalém Ocidental, e antes de tentar qualquer avanço terrestre contra as posições jordanianas em Jerusalém Oriental, o governo israelense propôs um cessar-fogo imediato à Jordânia. O cessar-fogo foi prontamente rejeitado, e Israel, então, começou a se preparar para avançar rumo ao leste – o que não queria (daí a oferta de cessar-fogo) porque já lutava no oeste contra o Egito (pp. 233-4). Com o indesejado avanço para o leste afinal surge, entre outras, a questão de Jerusalém Oriental. Ou seja: deve-se cercá-la, tomá-la, entregá-la ao Vaticano...?

O general Moshe Dayan, então ministro da Defesa, defende a ideia de cercar a cidade, sem tomá-la (outros levantariam questões semelhantes sobre as cidades da Cisjordânia). O ministério e o comando militar israelenses não sabem a princípio o que fazer, o que se deve fazer, o que se pode fazer, o que se quer fazer.

No final [de longas e infrutíferas discussões], os ministros concordaram que não concordavam, aceitando a fórmula de compromisso proposta [por Levi] Eshkol [o primeiro-ministro]: “Em vista da situação criada em Jerusalém pelo bombardeio jordaniano, e depois do envio de advertências a[o rei] Hussein, talvez tenha sido criada a oportunidade de capturar a Cidade Velha”. A tarefa imediata, no entanto, era silenciar os canhões jordanianos (p. 255).

O caso mais espetacular, no entanto, é o das colinas de Golan. Como em relação a Jerusalém Oriental, Moshe Dayan a princípio nega, repetidamente, o pedido do comandante da frente norte para invadir as colinas, apesar dos ataques da artilharia síria, argumentando que a guerra é com o Egito. Apenas no último dia de hostilidades, sob pressão direta da população da Galileia (norte de Israel), cujos representantes invadem uma reunião do gabinete questionando se não fazem jus, como os demais cidadãos de Israel, à proteção das Forças de Defesa, é que Dayan ordena o avanço sobre Golan, sem que, porém, qualquer decisão tenha sido tomada sobre o objetivo desse avanço, além da destruição da artilharia síria (pp. 350-61).

Outro mito que não resiste de pé diz respeito ao sionismo em si, acusado de ter um viés racista quando, neste caso, o racismo está documentada e francamente do lado árabe.

A cidade [do Cairo] estava enfeitada com cartazes sinistros que representavam soldados árabes atirando, esmagando, estrangulando e trucidando judeus barbados e de nariz adunco (p. 123).

[Houve então a] revelação de que a Jordânia [nos anos anteriores a 1967, quando dominou a área] destruíra as sinagogas da Cidade Velha, e pavimentara ruas, e até latrinas, com lápides judias do [cemitério do] Monte das Oliveiras (p. 364).

Tal infâmia, tal ignomínia, tal negação de toda dignidade humana aos judeus como um todo, ao não poupar sequer seus mortos, em primeiro lugar, não encontra justificativa racional em nenhum ato do Estado ou dos governos de Israel, e em segundo lugar, só tem paralelo, na história recente, na Alemanha nazista.

A verdade é que as questões geopolíticas envolvendo Israel e os palestinos há muito degeneraram, do lado palestino, árabe e muçulmano, em aberto e profundo racismo, em que as “massas” alimentam os governos, os governos alimentam as “massas”, e o clero muçulmano alimenta ambos (“Destruiremos Israel e seus habitantes”; “Pavimentem as estradas árabes com os crânios dos judeus, ataquem sem piedade”). Os que inculpam Israel por todos os males do mundo, e de uma forma ou de outra questionam o direito do país de existir (mito maior e razão de ser dos demais), são cúmplices voluntários ou involuntários desse racismo.

Racismo tóxico e virulento, que ao lado de questões geopolíticas não redundou em sua consequência lógica, a aniquilação do país e o massacre de sua população, apenas porque Israel, em 1967, depois da expulsão dos observadores da ONU por Nasser, depois de cercado pelo leste, pelo oeste, pelo norte e pelo sul por exércitos árabes, depois de amputado de sua saída para o mar Vermelho pelo fechamento do Estreito de Tiran (um ato de guerra em si), depois de ver o “moderado” Hussein voar da Jordânia ao Cairo e formalizar um pacto militar com Nasser, depois de esperar durante semanas alguma ação internacional que interrompesse o deslocamento e a preparação das tropas árabes e o bombardeio verbal pedindo a aniquilação do país, contando apenas com seus próprios meios, atacou para rechaçar a ameaça funesta, e felizmente venceu. A história não precisava de um segundo Holocausto.

Mais um mito a ser destruído, ligado ao mesmo tempo ao anterior e ao seguinte, diz então respeito à simbiose histórica entre o sionismo e o “imperialismo” americano. Israel não contou com uma só bala de fabricação norte-americana em 1967, pelo simples fato de que, até então, os EUA, para não melindrar os árabes e seu farto petróleo, sistematicamente se recusavam a fornecer qualquer armamento para Israel – que lutou com armas francesas, incluindo os aviões, compradas no início da década. Israel, além disso, foi submetido a um completo embargo armamentista durante a guerra e logo depois – enquanto os russos armavam os exércitos árabes avidamente. Nas últimas ações israelenses, no Golan, parte das tropas usava armamento russo capturado aos egípcios no Sinai (os EUA começariam a mudar sua postura em função dos próprios fatos da guerra de 1967).

O próximo mito a cair por terra afirma que o conflito do Oriente Médio sempre foi assimétrico por contrapor a força agressiva israelense à fraqueza agredida árabe. Um marciano teria imensa dificuldade de compreender que um país que possuía, à época, 15 km (quinze quilômetros) de largura em sua parte mais estreita, e uma população de 2 milhões de habitantes, fosse o lado forte num confronto com inúmeros países árabes, envolvendo uma vastíssima região entre o Atlântico (Marrocos) e a Ásia (Iraque), e centenas de milhões de habitantes. Inúmeros países árabes, porque se os exércitos do Egito, da Síria e da Jordânia formaram a linha de frente do cerco a Israel, houve o envio de tropas e/ou de armamentos da Argélia, da Arábia Saudita, do Iêmen, do Iraque etc., para não falar de apoio político e financeiro.

Convergiam para o Sinai contingentes militares de países [como] Marrocos, Líbia, Arábia Saudita [e] Tunísia. [A] Síria [concordou] em enviar uma brigada para lutar ao lado dos iraquianos na Jordânia. Combinados, os exércitos árabes tinham 900 aviões de combate, mais de cinco mil tanques e meio milhão de homens. Acrescente-se a isto um imenso poder político (p. 205).

Israel venceu a guerra principalmente por ter atacado primeiro (e destruído a força aérea egípcia). Houve, porém, tempo suficiente para o Egito fazer o primeiro ataque – o que somente não aconteceu por receio político de Nasser. Este esperava na fronteira – tentando forçar um primeiro tiro israelense para só então lançar maciçamente suas forças (afirmar a posteriori, como muitos fazem, que os árabes não tinham chance de vencer, isto é, que Israel estava “destinado” a vencer a priori, não é um mito, é pura estupidez; mesmo porque, grande parte da vitória se deveu não aos seus méritos, mas aos erros dos árabes).

A Guerra dos Seis Dias deixou um legado ainda hoje irresolvido.

(cont.)

4 comentários:

Fernanda disse...

Excelente texto! Adoraria ler uma explicação detalhada sobre a questão dos refugiados palestinos. Sei que há menção em outros posts, mas acho que seria bom um texto somente sobre esse assunto para os que julgam sem compreender e condenam a postura de Israel.

O-Lidador disse...

Há aqui vários textos sobre esse assunto, do mesmo autor. Até eu já escrevi sobre o assunto em
Refugiados Palestinianos e outros, e noutros postes.

José Gonsalo disse...

Fernanda:
Tal como O Lidador referiu, o tema não só tem sido tratado mais do que uma vez por Luís Dolhnikoff, como o próprio Lidador o fez já aqui - e muito bem.

Fernanda disse...

Obrigada, O-Ligador e José Gonçalo.