segunda-feira, 26 de setembro de 2011

UMA LUZ SOBRE O ESTADO PALESTINO – OU A SOMBRA DE 1967 (2)



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4. O legado da guerra

O objetivo de Israel, depois da guerra de 1967, era trocar as terras imprevistamente conquistadas numa guerra imprevista e indesejada pelo reconhecimento político-diplomático e por tratados definitivos de paz.

Apenas Jerusalém Oriental não seria negociada – por uma rara decisão unânime de todo o espectro político israelense, da esquerda aos religiosos.

Gaza e Cisjordânia, e ainda o Golan e o Sinai (conquistado ao Egito), já a partir de agosto de 1967, estavam sobre a mesa de negociações. A mesa, porém, ficou vazia do lado árabe e palestino.

Somente doze anos depois, em 1979, e apenas após mais uma tentativa fracassada de aniquilar Israel – Guerra do Yom Kippur, 1973 –, o Egito aceitaria receber de volta o Sinai ao preço “terrível” de assinar um acordo de paz e de reconhecer diplomaticamente Israel.

No sentido inverso ao que afirma mais um mito, a responsabilidade primária pelo fracasso da implementação da paz na região a partir de 1967 cabe, portanto, aos árabes, incluindo os palestinos.[1]

Enquanto a co-responsabilidade palestina, árabe e muçulmana pelo longo fracasso histórico do processo de paz não for verdadeiramente reconhecida, as atitudes palestina, árabe e muçulmana não mudarão radicalmente.[2] E enquanto não mudarem radicalmente, não haverá paz.

Prova disso é, atualmente, o papel do Hamas e do Hizbolah como agentes da agressão a Israel, patrocinados pelo Irã dos aiatolás e pela Síria do Partido Baath – que pregam ou almejam o fim de Israel –, assim como, nos anos 1960, fazia a OLP patrocinada pelo Egito de Nasser e pela Síria do Partido Baath – que pregavam e almejavam o fim de Israel.

O que tudo isso tem a ver com a atual ida da Autoridade Palestina à ONU? Tudo.

5. A ida à ONU ou à mesa de negociações

Israel não agiu em 1967 como Hitler na Polônia. A ocupação da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, hoje o grande pomo da enorme discórdia, com Gaza em segundo plano (pois lá não há colônias israelenses nem ocupação militar), assim como a subsequente presença israelense, incluindo a construção de colônias, são consequência direta de decisões e ações árabes e palestinas, tanto quanto israelenses. Portanto, os palestinos têm de negociar com Israel, ainda que não gostem das condições, porque têm culpa no cartório da história.

Agir como puras vítimas inocentes, e pretender, como última tentativa de impor fatos consumados a Israel, ir à ONU, não por uma questão moral, mas por uma questão política, em função dos acontecimentos e das responsabilidades históricos compartilhados, que levaram à presente situação, não poderá resolver nada, porque Israel não o aceitará. E não o aceitará porque se julga no direito de fazê-lo. Afinal, Israel deseja negociar os territórios ocupados em junho de 1967 desde... agosto de 1967. Enquanto os palestinos decidiram sentar à mesa somente em 1993 (Acordos de Oslo).

Em primeiro lugar, isso determinou a criação de fatos consumados entre 1967 e 1993, que de repente os palestinos descobriram querer reverter. Em segundo lugar, os palestinos não se mantiveram à mesa a partir de 1993, mas se levantaram em várias ocasiões.

A saída mais espetacular da mesa de negociações foi a de Arafat em 2000, às vésperas da assinatura dos Acordos de Camp David, patrocinados por Clinton, e que abririam as portas para a resolução definitiva do conflito. Em vez disso, sua saída escancarou os portões da primeira intifada – apoiada e estimulada por Arafat, para num grotesco erro de cálculo, tentar conseguir mais algumas concessões israelenses. Além disso, como o próprio Arafat declarou, ele seria morto antes de seu avião pousar de volta, se assinasse os acordos – o “estadista” palestino optou, portanto, pela própria sobrevivência.

O Estado palestino tem de existir e existirá. Mas apenas se e quando os palestinos negociarem desabridamente, a partir de certa honestidade histórica, ou seja, do reconhecimento, na prática de sua atitude política, de que são incontornavelmente co-responsáveis pela situação atual. Situação atual que é o ponto de partida para um possível acordo, não seu ponto de chegada. Tampouco podem ser um ponto de chegada as fronteiras anteriores à guerra de 1967, como os palestinos hoje almejam, tentando, mais uma vez, reverter o relógio da história, da qual foram participantes muito mais ativos do que gostariam de reconhecer.

O mesmo não pode ser dito de alguns analistas sensatos, que não se furtam a reconhecer alguns fatos fundamentais, como este forte defensor da iniciativa palestina:

A única coisa que poderia justificar a defesa das colônias [israelenses], inclusive retrospectivamente, seria sua utilização como arma de negociação, e assim foram concebidas nos anos posteriores à conquista militar de 1967 pelos governos trabalhistas (Lluís Bassets,Proposta de Abbas na ONU é multilateral e legitimadora”, El País, http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2011/09/23/analise.jhtm).

Hoje está praticamente esquecido que, nessa guerra, Israel também conquistou ao Egito toda a enorme Península do Sinai, até as margens do canal de Suez. E que construiu no Sinai várias colônias, entre 1967 e 1979. Neste ano, porém, as colônias no Sinai foram não apenas interrompidas, mas desmanteladas. E o Sinai foi devolvido ao Egito. O motivo: a assinatura de um acordo de paz e o mútuo reconhecimento diplomático. As colônias eram uma forma de dizer ao Egito que o tempo estava contra ele: Israel não queria apenas negociar, mas tinha pressa em fazê-lo. Quanto mais demorasse, mais difícil seria. Entre outras coisas, porque fatos criam fatos. Assim, as colônias de negociação dos trabalhistas na Cisjordânia acabariam transformadas pela direita religiosa israelense em colônias de ocupação. Se isso contraria a ideia inicial, por outro lado reforça essa mesma ideia: quanto mais demorasse, mais difícil seria. Obviamente, os trabalhistas de 1967 cometeram um trágico erro de cálculo: não contavam com o trágico erro de cálculo das lideranças palestinas, que ainda levariam décadas para decidir negociar. Tudo se tornou dolorosamente difícil. E não houve um Mandela palestino para, a certa altura (depois de 1993), dizer ao seu povo que era preciso aceitar certos fatos.

No caso da África do Sul, Mandela queimou todo o capital político de uma vida para impor internamente ao Congresso Nacional Africano (CNA) a ideia de que não haveria retaliações, de que os brancos não seriam expropriados e muito menos expulsos, e mesmo, que continuariam ricos. A alternativa era o destruição da economia sul-africana, e provavelmente do país, pela guerra civil. No caso palestino, é preciso aceitar que não haverá a volta às fronteiras de 1967. Que não haverá a volta dos “refugiados de 1948” (a maioria já nascida no exílio) para o território israelense. Que o novo Estado palestino não poderá ser militarizado. Que o controle do Vale do Jordão será compartilhado. Que as principais colônias não serão desmontadas (mas haverá compensações com terras da Galileia, ao norte). Etc. Nada que o desvio pela ONU trará. Portanto, dificilmente trará uma solução negociada, mas aumentará as expectativas dos palestinos sem lhes dar nada em troca. Haverá, portanto, mais frustração e rancor, e menos chances de paz.


[1] O último grande mito envolvendo a Guerra dos Seis Dias é, talvez, o mais surpreendente. Em 1964, sob auspícios da Liga Árabe, foi criada, no Cairo, a Organização para a Libertação da Palestina, vulgo OLP. Mas qual “Palestina” se queria “libertar”, se nem Gaza nem Jerusalém Oriental nem a Cisjordânia tinham então um só soldado ou colono israelense? Resposta: Israel. A OLP foi criada como um braço guerrilheiro e terrorista da luta estratégica dos países árabes visando a aniquilação do Estado israelense (deveria, portanto, chamar-se ODI – Organização para a Destruição de Israel). A criação da OLP (1964) não foi, assim, como o demonstram inquestionavelmente as datas, reação ao “expansionismo agressivo israelense” (1967). Muito ao contrário, a criação da OLP foi uma das causas da guerra de 1967.

[2] Mesmo a existência de refugiados palestinos é, ao fim e ao cabo, responsabilidade dos países árabes: em 1948, enquanto cerca de 750 mil palestinos fugiram do nascente Estado de Israel, cerca de 750 mil judeus fugiram de vários estados árabes tornados hostis; esses refugiados judeus prontamente deixaram de sê-lo para se tornarem cidadãos de Israel, porém medida equivalente foi desde o princípio negada aos palestinos nos diversos países árabes (com exceção da Jordânia).

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