domingo, 19 de maio de 2013

E aqui ficam mais duas crónicas de Alberto Gonçalves




Eminem (foto obtida aqui)



Sonha mas não ressones

A televisão por cabo é uma maravilha. Em momento de ócio, uma pessoa começa a praticar a ancestral arte do zapping e, num daqueles canais esquisitos que irrompem quase todos os dias, depara com uma entrevista ao maior humorista português, Boaventura Sousa Santos. A parte má é que o programa estava a chegar ao fim. A parte boa é que mesmo poucos minutos de Boaventura, sempre mordaz, prometem galhofa farta. E cumprem.

Perante um entrevistador dissolvido em natural veneração, Boaventura, sempre trocista, lançou pérolas sucessivas, desde a crítica ao "neoliberalismo" (a mera expressão já é hilariante) que domina (?) a Europa até à receita para uma revolução como deve ser. Na opinião de Boaventura, sempre pândego, o nível de degradação social ainda não atingiu o ponto que ele, cito, acha necessário: "As pessoas estão na rua mas depois voltam para casa", frase que aos néscios parecerá um apelo a serões nas esplanadas ou ao campismo. Nada disso: para Boaventura, sempre zombeteiro, é preciso empobrecer mais as massas para que estas se enervem a sério e desatem a partir tudo. E se ele não parte tudo sozinho é apenas porque o dinheiro ganho a servir o "sistema" que se contesta permite uma vida confortável.

O conforto, porém, não impede que Boaventura, sempre sardónico, sinta "indignação", "raiva" e, de quinze em quinze dias, certo "desespero". Felizmente para a comédia, não se alivia a incendiar automóveis mas a escrever letras de rap, o derradeiro assunto da entrevista e, para mim, uma novidade. A acreditar em Boaventura, sempre sarcástico, o rap é a canção de protesto do nosso tempo e uma reacção à mediocridade. Sempre irónico, Boaventura finge ignorar que as reais canções de protesto nunca se deixariam vender no iTunes e que a reacção musical à mediocridade da época consiste em compor concertos para oboé.

Em consulta posterior na internet, apurei que os modelos de Boaventura, sempre satírico, são Kanye West e Eminem. Numa segunda consulta, descobri quem são Kanye West e Eminem. Numa terceira, encontrei uns versinhos rap assinados pelo alegado académico. Deleitem-se: "sonha/mas não ressones/que a polícia está atenta/que a polícia tudo tenta/até te inventa/a atenção é detenção/o governo/são os governados/em posição/de distração//direitos humanos/reinserções anuais/celas resort/donde sais por sorte/donde sais por morte/tudo pago/um dia te farão a operação/à salvação/evangelho segundo/santa sinistra/hall of shame/hall of fame/hall [sic] the same."

Quem ler isto sem rir até às cólicas não é humano. Países desprovidos de sentido de humor, género Portugal, Brasil ou Paraguai, tomam Boaventura por intelectual. Nos países restantes, ninguém o conhece. Azar o deles.


(foto obtida aqui)




Os bárbaros do "photoshop"

No Porto, um casal decidiu produzir descendência. A novidade é que passou ao lado da fecundação, da gravidez e das choradeiras e foi directamente à conservatória local, onde registou o rebento fictício a fim de beneficiar de isenções fiscais e dos apoios ditos sociais, os quais incluíam habitação gratuita de maiores dimensões. O caso acabará no tribunal. São questões culturais: pelo menos por cá, inventar o nascimento dos filhos dá chatices.

Noutras paragens, inventar a morte dos filhos dá prémio - a fotógrafos. Foi o que aconteceu a Paul Hansen, o sueco que venceu o World Press Photo (WPP) do corrente ano graças à imagem de uma multidão a carregar os cadáveres de duas crianças em Gaza. Segundo especialistas, a fotografia sofreu manipulações diversas a fim de melhorar a tonalidade e agravar o drama. O WPP garante que não. Conclusão? Nenhuma em especial.

Independentemente da autenticidade do retrato em causa, o facto é que o currículo do Hamas e a credulidade da imprensa ocidental em matéria de falsificação fotográfica das vítimas de Israel são assunto antigo e recorrente. Tivemos crianças "assassinadas" por Israel que já haviam sido "assassinadas" por Israel em ocasiões anteriores. Tivemos crianças "assassinadas" por Israel que morreram na Síria. Tivemos crianças "assassinadas" por Israel que morreram de morte natural. E, na maioria das vezes, tivemos crianças "assassinadas" por Israel que na verdade faleceram devido às mãos do próprio Hamas, visto que esta prestimosa organização é muito chorosa em frente às câmaras mas não se coíbe de lançar mísseis a partir de áreas civis.

Vale a pena notar as fraudes? Nem por isso, já que o seu destinatário é a vasta parcela da opinião pública internacional convicta de que tudo o que de mau sucede no Médio Oriente é culpa de Israel. Mais do que artimanha propagandística, as fraudes constituem uma reivindicação de audiências empenhadas em confirmar delírios em detrimento dos factos. Percebe-se: os factos, leia-se as circunstâncias de um conflito que opõe uma democracia livre a uma cultura de barbárie, são desagradáveis. Para os partidários da barbárie, claro.

(foto obtida aqui)

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