quarta-feira, 27 de maio de 2009

A PISCINA DE ALPEDRINHA

Um casal amigo, ela, nascida e criada (até à primária) na bela aldeia beirã de Alpedrinha, ele, um filho de Amesterdão dotado de uma pena cintilante, costumam passar férias de verão na Alpedrinha, a aldeia que ela há muito tempo trocou por Amesterdão, mas onde os pais ainda vivem.

Alpedrinha é uma aldeia bonita, mas, como todas as aldeias, passados dois dias e cumpridos os rituais familiares do costume, não há assim muito mais onde passar o tempo. Na realidade, a Alpedrinha, e muito ao contrário das outras aldeias, até era dotada de algo mais para passar o tempo. Uma piscina, que era bastante utilizada pelo casal e respectiva criança durante a permanência na aldeia.

Mas no verão de 2008, depois de terem visitado todos os familiares e amigos, de ter dado duas voltas à praça com um calor de rachar, o casal teve uma desagradável surpresa: a piscina estava ao abandono e sem uma gota de água!!!


Hans, ‘exilado’ nos confins da Beira a 2200 km de Amesterdão, sem saber o que fazer e sem piscina, não é de modas e escreve uma carta aberta, um ‘j’accuse’, ao (falecido) Dr. Sá Pereira, o mecenas que ofereceu a piscina à aldeia.

Seguidamente, mal pôs os pés em Amesterdão, o Hans pediu-me, a troco de um jantar em restaurante à escolha, para eu traduzir a sua carta-aberta para a língua do Dr. Sá Pereira. Ele próprio se encarregou que a mesma fosse publicada no Jornal do Fundão a 21 de Agosto de 2008.

Ex. Mo Senhor doutor Sá Pereira,

Não me acontece frequentemente dirigir-me aos mortos, mas a necessidade a isso me obriga, e nem sequer me passaria pela cabeça escrever esta carta e perturbar a paz da sua alma não estivessem as coisas num estado tão lamentável.

A piscina está fechada. Pronto, está dito. Não tem qualquer sentido abordar os mortos com mil cautelas, disse-me a minha mulher quando lhe dei parte da minha intenção. Se temos mesmo que apoquentar os mortos, o melhor é ser breve e ir direito ao assunto. Porque, apesar de eles terem a vida eterna pela frente, pode, precisamente no âmbito da eternidade, uma pequena perturbação ter enorme consequências - que sabemos nós destas coisas? Eu creio que a minha mulher nisso tem razão.

A piscina está fechada e degradada. A piscina que o Senhor na sua imensa bondade mandou construir na periferia de Alpedrinha, nesta linda aldeia aos pés da Serra da Gardunha, que no seu tempo era conhecida pela Sintra da Beira, tão altos eram os plátanos que enfeitavam a estrada de acesso à aldeia, tão formosamente verde era a paisagem que a circundava.


Já lá vai o tempo em que Dom Mourão, depois de um atribulado dia na cidade, se sentava no terraço da piscina quase na hora de encerrar para admirar o pôr do sol lá ao longe, além da aldeia de Monsanto, onde vivia gente escondida debaixo de penedos pré-históricos, como se o céu a cada momento lhes fosse cair em cima. Já lá vai o tempo em que bandos de andorinhas em abafadas noites de verão matavam a sede em voos rasantes sobre a água fresca da serra.

Peço desculpa se as minhas palavras aqui e ali se perdem em desajeitado lirismo. Para um estrangeiro, como eu, a poesia continua a ser algo difícil de dosear. Apesar de já visitar a sua aldeia há vinte anos - nunca nos encontrámos, por isso não perca tempo a tentar lembrar-se do meu rosto, o Senhor já se encontrava onde está agora na altura em que eu me casei com a filha do padeiro - continuo a ser um forasteiro, um turista, mas do tipo persistente.

Mas será uma razão para me calar? Para fechar os olhos? Porque, por todo o lado vemos ervas daninhas a crescer. A tinta a descascar-se. As rãs chafurdam na água agora choca da piscina. O Senhor devia vir cá abaixo (caso isto esteja dentro das suas capacidades claro) ver em que estado é que a SUA piscina se encontra. Escuso de lhe lembrar que o povo antigamente era aqui que vinha atenuar o impiedoso calor dos dias de verão, em seu nome!

Como é que as coisas puderam chegar a este estado!?

Depois do seu falecimento a piscina ficou nas mãos de um filho que se estabeleceu em Lisboa e que só muito raramente punha os pés na aldeia - é evidente que isto não é um bom presságio, assim como o infeliz investimento nos apartamentos de férias, desabitados e tristes como gaiolas de pássaros vazias e perdidas no descampado perto da piscina. Admitamos, é também verdade que o simpático zelador da piscina, que desempenhava o seu papel de anfitrião com exagerado entusiasmo e até com rigor, nunca chegou a uma solução para o problema dos pára-sóis, que à mais pequena brisa voavam pelos ares.

O Senhor tem certamente razão quando diz que a Piscina não é um caso único e que a degradação é geral, e que o progresso é por vezes cruel. Só para citar um exemplo, hoje em dia há cães por todo o lado, e do pior tipo, e toda a gente tem um cão de guarda, tal é actualmente o medo das gentes da província provocado por uma máquina de fabricar terror chamada televisão. Quem se atrever a dar um passeio pelas quintas, o melhor é precaver-se com um valente bastão, pelo menos.

O Senhor tem razão, claro. Quem é que se atreve a discordar de si? Assim como também tem indiscutivelmente razão quando afirma que toda a gente sabe que a aldeia murchou com a passagem da auto-estrada. E que o comércio ficou reduzido a dois ou três gatos pingados, porque as pessoas preferem ir às compras nos seus automóveis adquiridos à força de muito crédito ao `hypermarché' da cidade mais próxima, onde há já muito tempo não se vendem laranjas da região, mas sim laranjas conservadas em azoto líquido e vindas de outros continentes.

Mas há limites. Que a degradação e o efémero sejam tão irreversíveis como o progresso (o seu meio-irmão mais esperto) isso não significa de maneira nenhuma que não possamos fazer algo e que nos safemos com um resignado É A VIDA. O Senhor, como médico aposentado, sabe melhor que ninguém que por vezes temos que fazer pela vida, navegar contra a maré, combater ou precisamente defender algo, mesmo sem ter a mínima ideia como fazê-lo e, mais importante ainda, sabendo de antemão que os nossos esforços com toda a certeza vão ser em vão. (Por exemplo, eu sei que o Senhor uma vez aplicou um aparelho de ortodontia na minha mulher, apenas para seu bel-prazer, e sei também que aconselhou vivamente o pai dela, no momento em que ele se preparava para emigrar para a Holanda, a apertar com uma chave de parafusos de seis em seis meses o aparelho que o Senhor próprio fabricou, conselho que ele seguiu à risca, mesmo até com um certo entusiasmo. O resultado foi ela ainda usar um aparelho de ortodontia, apesar de já não ser o mesmo, quando eu, vinte anos mais tarde, a conheci. Aliás, com os dentes dela tudo bem, o Senhor está perdoado). Mas qual é a alternativa? Resignarmo-nos? Esperar que o céu nos caia encima da cabeça (passe a infeliz metáfora)?

Fique disto ciente, não é assim sem mais nem menos que eu me dirijo a si. Dos vivos não podemos esperar grande coisa, é também a opinião da minha mulher, e olhe que ela é cá da terra. Há pouco dinheiro e ainda menos vontade. E aquele que sente alguma, será travado por um apatia que faz parte do folclore, e por uma tristeza que se tornou uma marca de controlo de qualidade turística que neste país parece ser de todos os tempos. Assim como o queijo e os tamancos estão intimamente ligados à Holanda, assim está a saudade - uma melancolia letárgica, para não dizer deprimente - pelos vistos, para sempre pegada a Portugal.

Ex. Mo Senhor Dr. Sá Pereira, são para si as minhas mais sinceras súplicas, por favor, faça tudo o que estiver ao seu alcance para que a piscina volte aos seus tempos de glória. Ponha todos os escrúpulos de lado e utilize todas as possibilidades ao seu alcance para levantar hoje de novo o esplendor da sua aldeia (se há realmente alguém em condições de o fazer é o Senhor). Imagine a vergonha que não será, se a Piscina de Alpedrinha, a piscina mais conhecida da região, a pérola reluzente da Gardunha se transformar para sempre numa deprimente, mas sobretudo numa amarga recordação.

Texto e fotos de Hans van de Wetering, Julho de 2008.

Chegou-nos há dias uma boa e, diga-se de passagem, inesperada notícia: a piscina vai ser restaurada, limpa e de novo aberta ao público! Bem tinha razão a Tina, a mulher do Hans, “o melhor é escrever aos mortos, dos vivos não podemos esperar grande coisa...”

7 comentários:

Anónimo disse...

Ó Carmo. Diz ao Hans para escrever uma cartita destas, ao já mais que falecido "Geraldo sem pavor". Desta
vez não tem que cortar cabeça a nenhum "Mouro", era só derrubar as muralhas que circundam a cidade de Évora, não dá muito trabalho e o pessoal deixava de andar com um ar asfixiado. Faz lá esse jeitinho.

PS. Hans. Bom artigo.

ÉVORÁVISTA

o holandês voador disse...

Ainda bem que a piscina vai abrir. Nada como um ano de eleições para os autarcas fazerem obras...
Moral da história: devia haver eleições todos os anos.

Carmo da Rosa disse...

Achas que a carta-aberta publicada no Jornal do Fundão, seguida de uma palavrinha do assento eterno do Dr. Sá Pereira não ajudaram?

m@tix disse...

Bom Dia, como Alpetreniense é com muito agrado que vejo estas preocupações e discussões na Blogosfera sobre Alpedrinha!
Para informar que a piscina vai Abrir este Verão, finalmente ao fin de 3 anos. ;)

Carmo da Rosa disse...

Caro m@tix,

Aqui há uns anos atrás dormi uma noite na Alpedrinha num lindíssimo palácio brasonado do século dezoito com um interior em que notava um gosto requintadíssimo pertencente a uma senhora viúva que alugava quartos a turistas. Além disso tinha um belo jardim.

Aconteceram-me aqui duas situações caricatas. Estava eu e a minha mulher ainda no palácio a tomar o pequeno almoço numa sala-varanda-coberta em que se via o dito cujo jardim em pleno esplendor – para a minha mulher só este pormenor é o suficiente para pagar seja o que for – quando a ‘cabra’ da empregada que nos servia, se aproxima de nós muito discretamente e, assegurando-se que a dona da casa não estivesse nas imediações, nos propõe ficarmos alojados em sua casa por um preço sensivelmente mais baixo!!! (A lealdade, mesmo no Portugal profundo, já não é o que era!)

Por curiosidade, não porque tivesse-mos realmente intenção de trocar de poiso, até porque no dia seguinte seguiríamos para Lisboa, pedi-lhe o endereço. Passei pela casa da senhora, e é evidente que por ‘patriotismo’ nunca iria trocar um velho solar nacional por uma cópia mal-amanhada de ‘maison’ francesa – fora o detalhe da sala virada para o Jardim...

Mais tarde, estando a descansar de um longo passeio numa esplanada de um café da aldeia e, curioso de saber como se chama um habitante de (da) Alpedrinha, perguntei a um castiço local que se encontrava na mesa ao lado: O senhor podia-me dizer como é que se chama um habitante da Alpedrinha? O castiço surpreendido com a pergunta, responde “Ah, eu já não sei o nome deles todos, tem vindo para aí nos últimos tanta gente nova viver...”

Depois de tantos anos obtive agora a resposta – ALPETRINIENSES – obrigado m@tix...

Anónimo disse...

Boa noite a todos.
Por mero acaso vim aqui ter.
Tal como por mero acaso vim ter a Alpedrinha, de facto a piscina abriu, mas sem qualquer ajuda do poder politico. Nem sequer da junta de freguesia.E a piscina abriu, porque apesar de ter sido por mero acaso que vim parar a Alpedrinha, gosto muito de Alpedrinha.E aceitei um desafio.
Estou farto de ver coisas a fechar em Alpedrinha e ninguem faz nada para inverter esta situação.
A piscina abriu porque penso que esta terra merece que não feche nunca mais.
A piscina abriu porque vamos lutar para que as gerações vindouras continuem a ter uma referencia na terra deles.
A piscina abriu porque tenho tres filhos e gostava que viessem a gostar tanto de Alpedrinha como eu gosto.
A piscina abriu para que todos voces tenham um sitio agradavel aonde passar os vossos tempos livres.

日月神教-向左使 disse...
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