quarta-feira, 29 de maio de 2013

Vou comentar esta notícia em Outubro



Verão deste ano poderá ser mais frio em Portugal
(in Público)

«Em França, há quem fale que o próximo Verão na Europa será o mais frio dos últimos 200 anos.»

«[...]os cenários existentes estão carregados de incertezas insolúveis»

«um canal francês de informação meteorológica– La Chaine Météo – que tem especulado que 2013 pode vir a ser um “ano sem Verão” na Europa»

« France Météo, não reconhece este cenário[...] diz que não é possível chegar a nenhuma conclusão, dado que diversos modelos de simulação das condições meteorológicas chegam a resultados muito díspares para o território francês.»

«A previsão sazonal mais recente do Instituto Português do Mar e Atmosfera [...] fala em valores que podem estar entre 0,2 e 0,5 graus Celsius abaixo da média em todo o território continental, entre Junho e Agosto.»

«No Verão de 1816, os termómetros chegaram a baixar em média dois a três graus Celsius nalguns pontos da Europa, inclusive na Península Ibérica. “Dois ou três graus a menos é uma anomalia gigantesca”»

(sublinhados meus)


Para já o meu comentário é: o título da notícia (e que a resume) não devia ser "Ai este Verão vai ser frio!" mas sim "Os modelos de previsão climática a mais de 1 mês são uma merda."





terça-feira, 28 de maio de 2013

Do tonto da eterna razão

A desvalorização não é solução mas se a regulamentação asfixiante não for travada e demolida, o mercado encarregar-se-á de desvalorizar a bem ou a mal, o euro ou o emprego.

Evidentemente que, a Seguro e relativamente a desregulamentação, não passa pela cabeça prescindir de tal 'valiosa' ferramenta marxista.

Sobre Seguro pode ainda afirmar-se que figura mais tonta não há. O 'rapaz' insiste, sempre insistiu (acha ele que lhe fica bem) em reclamar pela revisão do acordo com a troika. A 'ideia' sempre foi tão disparatada quanto pedir-se revisão de provas antes de se fazer o exame.

Dos especialistas em demolições

Comentário de Tina, neste artigo, com chapelada:
Krugman é um economista tipicamente de esquerda, ou seja, aproveita-se do trabalho sério dos outros para implementar as suas “engenharias” económicas. Neste caso, aproveitou-se de um dólar forte para tentar mostrar que o Estado pode salvar a economia, ou seja, basta pedir dinheiro emprestado e gastar, gastar, gastar… No entanto, se o dólar não fosse tão forte, teria que pagar juros – como de resto quase todos os outros países – e as suas teorias iriam completamente por água abaixo. O que Krugman está a fazer, como qualquer político de esquerda, é destruir a obra dos outros, ou seja, neste caso o dólar.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Dou, de novo, a palavra a Alberto Gonçalves...





... que escreve aqui:


O elogio da desconfiança

A pretexto da circum-navegação do Governo em redor do novo imposto sobre os pensionistas, dos cómicos apelos de Cavaco Silva aos santinhos tradicionais e aos do Conselho de Estado e da demagogia alucinada em que a oposição perpetuamente vive, os portugueses, povo de descobridores, descobriram pela enésima vez uma extraordinária coisa: os políticos não são de fiar. Ou, para usar o léxico em voga, os políticos não têm credibilidade. Ai, quanta saudade do tempo em que os políticos eram credíveis.

Lembro-me como se fosse hoje de quando elegíamos gente cumpridora, unicamente preocupada com os célebres interesses do País e alheia quer a interesses partidários quer pessoais. Gente altruísta que sacrificava a popularidade a fim de servir o bem-comum. Gente ponderada, que nunca criaria as condições para entregar a nação ao FMI. Gente lúcida, que jamais permitiria a destruição, paga em cheque, do sector primário. Gente esclarecida, que sabia aplicar com rigor e parcimónia os "fundos" europeus. Gente determinada, que não cedia à atracção dos sindicatos pelo caos. Gente precavida, que se negou a autorizar o crescimento incessante da máquina estatal. Gente racional, que preferiu perder votos a alimentar a ficção de um assistencialismo desaconselhável e inviável. Gente insubmissa, que não sossegou enquanto não desmantelou uma Constituição devotada ao socialismo e acarinhada pelos comunistas. Gente avisada, que sempre preservou o equilíbrio das contas públicas. Gente decente, que combateu por dentro os naturais apetites do Estado para controlar a ralé desde o bolso até ao hábito. Gente democrática, que acautelou a probidade do sistema judicial. Gente visionária, que garantiu a exigência e a qualidade do ensino. Etc.

Agora a sério: alguma vez Portugal teve políticos honrados, fiáveis, escapatórios, vá lá? Lamento, mas não. E é da natureza da política que assim seja. Da natureza de Portugal é a propensão para ambicionar o contrário. É escusado referir o brilhantismo das duas primeiras repúblicas: se o pai da terceira é um indivíduo da estatura moral de Mário Soares, não teria custado adivinhar o nível dos filhos, netos e enteados. A todos, o bom povo deu sucessivamente o aval nas urnas para em seguida perceber com pasmo que se enganou, esquecendo os enganos e os pasmos anteriores.

Infelizmente, notar tamanha evidência passa por "populismo". Não é. O entendimento corrente do populismo consiste em substituir os políticos habituais por políticos que fingem não o ser. Sobretudo porque não temos outra, o ponto aqui implica aceitar a classe política que temos - sem aceitar a ilusão de que esses senhores, que de resto não caíram do céu, concorrem para resolver os nossos problemas. Mudar de regime é uma aventura menos recomendável do que mudar os cidadãos. Dito de maneira diferente, discutir a credibilidade dos políticos é conversa fiada: o problema nacional é a credulidade dos portugueses.


Cem anos de mitificação

O centenário de Álvaro Cunhal, em Novembro, levou a TVI a antecipar festividades e a realizar uma daquelas reportagens que tentam revelar o homem por detrás da figura pública. O que conseguiu foi revelar as baixezas a que o jornalismo (?) hagiográfico pode descer. O trabalho recorreu a depoimentos da irmã, de camaradas de partido, que falam sempre com o tom e a cadência "do Álvaro", o modo pelo qual ainda tratam o eterno chefe, e de interlocutores avulsos, desde o médico Joshua Ruah ao distinto historiador Fernando Rosas, passando por Miguel Sousa Tavares. Não fora o prazer de assistir ao célebre romancista de Equador referir a "áurea" (sic) do "doutor Álvaro Cunhal", qualquer texto evocativo do Avante! teria alcançado idêntico efeito.

Ficámos então a saber que Cunhal era sensível, bem-disposto, atencioso, inteligente, criativo, culto, poliglota e óptimo dançarino. Ou seja, de tanto extrair o "político" da "pessoa", a reportagem deixou apenas um esqueleto enganador e etéreo, que fez o favor de passear, ou dançar, entre os mortais. Do conspirador manhoso que, antes de 1974, perseguia e destruía adversários internos e lutava contra a ditadura em prol de outra ditadura pior, nem uma palavra. Do esboço de tiranete que, depois de 1974, lutou contra a democracia em prol da ditadura do costume, pouquíssimas e, em geral, compreensivas palavras.

Em suma, mitificação em abundância. É natural. Por cá, o fascínio que uma criatura medíocre como Cunhal desperta só encontra paralelo em Salazar. Não vale a pena mencionar os devotos: mesmo os que odeiam o beato de Santa Comba e o estalinista de Seia atribuem--lhes propriedades quase sobrenaturais. Sem tradição de liberdade, os portugueses adoram quem segura a trela e promete mantê-la curta, e não é à toa que, há uns anos, colocaram essas duas recomendáveis peças nos primeiros lugares de um concurso destinado a "decidir" os melhores da nossa história. Nem é à toa que a nossa história deu nisto.





A palavra interdita

Ler na imprensa portuguesa as notícias sobre os motins em Estocolmo levará um leigo a imaginar centenas de protestantes loiros a incendiar automóveis noite após noite. Já os iniciados nos códigos da correcção política percebem que não se trata de protestantes nem de católicos, budistas, hindus, judeus, xintoístas, animistas, membros da IURD ou agnósticos: à semelhança dos psicopatas que esta semana degolaram um soldado britânico numa rua de Londres, os criminosos da Suécia agem em nome do Islão, termo que as boas consciências preferem esconder em favor de "sentimentos de exclusão social" ou delícia do género. A própria ministra sueca da Justiça usou o eufemismo sem se rir. Um dia, os que como ela defendem a abdicação perante cultos da morte não rirão por razões de peso.


Clichês na própria baliza

O futebol é um espelho do País? Parece que sim e, infelizmente, parece também que vice-versa. Não falo das falências. Nem do aborrecimento. Nem da corrupção. Falo das ideias feitas e do poder destas em subjugar a realidade: quando enfiamos um disparate na cabeça, não o conseguimos retirar nem com o auxílio de uma rebarbadora. Vejamos primeiro um exemplo da bola.

Graças à intervenção dos media e dos "especialistas" do ramo, ao longo dos últimos anos convencionou-se que o treinador do Benfica é um génio e o do Porto um monumento à incompetência. Não importa que a equipa do sr. Jesus perca quase todas as competições em que participa, nem que saia regularmente humilhado dos jogos com o Porto, nem que o génio em causa tenha dificuldade em fazer--se entender pelo cidadão (e, suponho, pelo jogador) médio, nem que revele uma arrogância altamente desproporcionada face ao seu currículo. E não importa que o sr. Pereira seja campeão duas vezes seguidas, ao que li com uma derrota em 60 partidas. Acima dos factos, o que importa é a força do clichê difundido, a qual é responsável pela vontade dos adeptos benfiquistas em ver a permanência do sr. Jesus no clube e pela vontade dos adeptos do Porto em ver o sr. Pereira à distância.

Absurdo? Não mais do que os clichês que tomam conta da actualidade nacional, ou do pedacinho da actualidade que escapa ao futebol. Para os media e os "especialistas" da política e da economia, logo para a vasta maioria da opinião pública, a austeridade em que caímos é opcional. O Governo desatou a empobrecer os portugueses só porque retira farto gozo do exercício e não porque uma dívida descontrolada nos deixara próximos do colapso e em plena dependência da caridade (a juros) do exterior. Poucos se dão ao trabalho de notar que sem os apertos vigentes (e os que faltam) a troika não nos atura, que sem a troika os apertos serão imensamente maiores e que no mundo real não há descontos: os golos sofrem-se muito antes dos 92 minutos.



Socialismo pandémico ou saída de cena em grande frete?

No Porto, está instalada uma borrasca por causa de uma daquelas coisas esquisitas 'assim tipo' recuperação de zona história 'e coiso' ....

Diz Rui Rio, aparentemente atacado de uma pandemia de socialismo, que  estado deve ...pátátí pátátá ... porque o sucesso da coisa é monumental ... e a piramidal aceleração da economia local ... e a atracção de turistas ... e o dinheiro captado ... e, finalmente, (last but not least) o Estado tem que entrar.

Porra!! Com tanto sucesso Rui Rio defende que os louros fiquem no estado, ou será que as vantagens localmente certificadas não são suficientes para cobrir as despesas havendo necessidade de se 'voluntariar' o contribuinte?

domingo, 26 de maio de 2013

E, mesmo a iniciar a semana

The Lamia (Genesis)


Quanto a marxismo pode, com segurança, continuar a afirmar-se o que continua ... sendo verdade



O esquerdalho move-se por um sucedâneo de religião. O esquerdalho é, hoje, um especialista do NÃO. Nada sabe sobre coisa alguma excepto como não é. Reagan tinha razão.

A 'fé' que os move e a maximização do não (niilismo) leva-os, frequentemente, a apostar tudo em quem esteja contra a sociedade capitalista "burguesa" independente do cheiro nauseabundo desses aliados.

Todo o esquerdalho acredita hoje que, nesse amanhã, um posto na estrutura dos animais de 4 patas lhe está reservado como posto merecido (paga seria um desvio burguês e compensação uma falha de neo-capitalismo) pelo "trabalho" como indefectível e iluminado apoiante, mesmo que essa fase tenha que passar pelo ano zero. Esse posto é merecido nunca como uma troca de alguma espécie mas como incentivo à continuação da construção (nessa altura já não pode ser "luta") pela causa.

domingo, 19 de maio de 2013

E aqui ficam mais duas crónicas de Alberto Gonçalves




Eminem (foto obtida aqui)



Sonha mas não ressones

A televisão por cabo é uma maravilha. Em momento de ócio, uma pessoa começa a praticar a ancestral arte do zapping e, num daqueles canais esquisitos que irrompem quase todos os dias, depara com uma entrevista ao maior humorista português, Boaventura Sousa Santos. A parte má é que o programa estava a chegar ao fim. A parte boa é que mesmo poucos minutos de Boaventura, sempre mordaz, prometem galhofa farta. E cumprem.

Perante um entrevistador dissolvido em natural veneração, Boaventura, sempre trocista, lançou pérolas sucessivas, desde a crítica ao "neoliberalismo" (a mera expressão já é hilariante) que domina (?) a Europa até à receita para uma revolução como deve ser. Na opinião de Boaventura, sempre pândego, o nível de degradação social ainda não atingiu o ponto que ele, cito, acha necessário: "As pessoas estão na rua mas depois voltam para casa", frase que aos néscios parecerá um apelo a serões nas esplanadas ou ao campismo. Nada disso: para Boaventura, sempre zombeteiro, é preciso empobrecer mais as massas para que estas se enervem a sério e desatem a partir tudo. E se ele não parte tudo sozinho é apenas porque o dinheiro ganho a servir o "sistema" que se contesta permite uma vida confortável.

O conforto, porém, não impede que Boaventura, sempre sardónico, sinta "indignação", "raiva" e, de quinze em quinze dias, certo "desespero". Felizmente para a comédia, não se alivia a incendiar automóveis mas a escrever letras de rap, o derradeiro assunto da entrevista e, para mim, uma novidade. A acreditar em Boaventura, sempre sarcástico, o rap é a canção de protesto do nosso tempo e uma reacção à mediocridade. Sempre irónico, Boaventura finge ignorar que as reais canções de protesto nunca se deixariam vender no iTunes e que a reacção musical à mediocridade da época consiste em compor concertos para oboé.

Em consulta posterior na internet, apurei que os modelos de Boaventura, sempre satírico, são Kanye West e Eminem. Numa segunda consulta, descobri quem são Kanye West e Eminem. Numa terceira, encontrei uns versinhos rap assinados pelo alegado académico. Deleitem-se: "sonha/mas não ressones/que a polícia está atenta/que a polícia tudo tenta/até te inventa/a atenção é detenção/o governo/são os governados/em posição/de distração//direitos humanos/reinserções anuais/celas resort/donde sais por sorte/donde sais por morte/tudo pago/um dia te farão a operação/à salvação/evangelho segundo/santa sinistra/hall of shame/hall of fame/hall [sic] the same."

Quem ler isto sem rir até às cólicas não é humano. Países desprovidos de sentido de humor, género Portugal, Brasil ou Paraguai, tomam Boaventura por intelectual. Nos países restantes, ninguém o conhece. Azar o deles.


(foto obtida aqui)




Os bárbaros do "photoshop"

No Porto, um casal decidiu produzir descendência. A novidade é que passou ao lado da fecundação, da gravidez e das choradeiras e foi directamente à conservatória local, onde registou o rebento fictício a fim de beneficiar de isenções fiscais e dos apoios ditos sociais, os quais incluíam habitação gratuita de maiores dimensões. O caso acabará no tribunal. São questões culturais: pelo menos por cá, inventar o nascimento dos filhos dá chatices.

Noutras paragens, inventar a morte dos filhos dá prémio - a fotógrafos. Foi o que aconteceu a Paul Hansen, o sueco que venceu o World Press Photo (WPP) do corrente ano graças à imagem de uma multidão a carregar os cadáveres de duas crianças em Gaza. Segundo especialistas, a fotografia sofreu manipulações diversas a fim de melhorar a tonalidade e agravar o drama. O WPP garante que não. Conclusão? Nenhuma em especial.

Independentemente da autenticidade do retrato em causa, o facto é que o currículo do Hamas e a credulidade da imprensa ocidental em matéria de falsificação fotográfica das vítimas de Israel são assunto antigo e recorrente. Tivemos crianças "assassinadas" por Israel que já haviam sido "assassinadas" por Israel em ocasiões anteriores. Tivemos crianças "assassinadas" por Israel que morreram na Síria. Tivemos crianças "assassinadas" por Israel que morreram de morte natural. E, na maioria das vezes, tivemos crianças "assassinadas" por Israel que na verdade faleceram devido às mãos do próprio Hamas, visto que esta prestimosa organização é muito chorosa em frente às câmaras mas não se coíbe de lançar mísseis a partir de áreas civis.

Vale a pena notar as fraudes? Nem por isso, já que o seu destinatário é a vasta parcela da opinião pública internacional convicta de que tudo o que de mau sucede no Médio Oriente é culpa de Israel. Mais do que artimanha propagandística, as fraudes constituem uma reivindicação de audiências empenhadas em confirmar delírios em detrimento dos factos. Percebe-se: os factos, leia-se as circunstâncias de um conflito que opõe uma democracia livre a uma cultura de barbárie, são desagradáveis. Para os partidários da barbárie, claro.

(foto obtida aqui)

(para ler todas as crónicas de Alberto Gonçalves desta semana, clicar aqui) )

Cuba e as ...

... "anemias".

.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A "europa" do ouroboros

Relativamente à "europa" considerações minhas deixadas no Facebook de Ramiro Marques:

"provando que não somos todos iguais, nem as pessoas nem os países."

Pois. A "europa" é uma 'construção' ideológica absolutamente artificial e contra-natura. É uma 'construção' equivalente à URSS sem utilização explícita de força mas com implícita utilização, por via legal, da mesma força, pela mesmo tipo de gente em posição fundamentalmente anti-democrática.

A história resulta das 'gentes' serem diferentes. O que daqui e da "europa" resulta, é o seringamento dos mais incipientes e/ou menos numerosos pelo pensar dos mais significativos. A "integração" é uma falácia para assimilação.

Estas coisas nunca foram discutidas porque o politicamente correcto tornou este assunto absoluto tabu. A livralhada da escola está cheia desta seringada. A "europa" pretende não apenas sem implantada 'de facto' mas implantada 'in cerebrum'.

A hegemonia deste "pensamento" deixou a direita sem massa crítica para, sequer, respingar. Era o "desígnio de todos os povos da europa".

Internamente a esquerda via um filão de dinheiro sem fim .... A direita (parte dela) ia-se, aqui e ali, mostrando céptica, a restante ia alinhando pensando poder pôr água na fervura!! A "europa" comprava as consciências alimentando a teta que a esquerda reclamava. Entretanto, regulava, sufocava, regulamentava, sufocava, legislava, provocava a debandava de postos de trabalho e investimento. Lançava alcatrão sobre o que ainda mexia "defendendo o ambiente" com eólicas e disparates afins.

Tudo foi parando começando pelos elos mais fracos. Todos devem a todos e todos devem muito, muitíssimo a gente que está fora da "europa", os pobres devem muito mais a toda a gente.

A esquerda, suspira em, e, por convulsões pelo "é agora!". Querem a revolução proletária! Nutrem os descontentes com mais descontentamento amestrando-os em técnicas de lamentação, pedinchice, vitimização, ... por culpa dos que já não estão dispostos a alimentar a teta-canal de manutenção de dependentes para os quais ela se auto-institui de guardiã, salvadora, orientadora .... enfim, neo-escravatura.

Estas coisas foram sendo paulatinamente implementadas da maneira como se cozem sapos: devagarinho até estejam cozidos sem disso se aperceberem. Com graveto a escorrer, não há travão que funcione nem realismo que se afirme. O social é irresistível para o que recebe e para o que se mantém no canal ... que vai tentando segurar eternamente.

O corte do crédito faz a esquerda ver periclitar o sonho eterno e ela estrebucha como uma barata tonta tentando manter as rédeas já não do canal mas de um virtual canal, em jeito de esperança eterna, ressuscitável mal chegue ao poder.

As pessoas, aturdidas pela marreta da realidade e pelo divórcio entre a anunciada expectativa e o dinheiro que lhes sobra, .... bom, aqui temos duas importantes nuances: o partido do estado e quem o alimenta. O estado tem muito mais dependentes que contribuintes líquidos. É a receita pata o ouroboros.

A democracia só se aguenta caso possa ser paga. À excepção dos regimes de esquerda, muito regime não democrático permitiu aumento bem-estar social e de riqueza ao ponto de acabar em democracia (Chile de Pinochet - o Chile de Allende era equivalente à Venezuela de Chavez, apesar das rosnadelas da esquerdalha). A mesma coisa por regime esquerdalho nunca aconteceu. Acaba sempre tudo à porrada e com muitas valas comuns quer de fome quer de porradaria generalizada.

"A banca hipervalorizou o imobiliário (avalia agora por 25 aquilo que avaliava por 100 há 5 anos)."

A banca valorizou, porque a procura era monumental e o dinheiro 'aparecia'...!!! É a receita para o desastre. Não 'aparecesse' o dinheiro e a banca não valorizaria. Essa aparição de graveto fazia parte da "construção europeia".

Os tentáculos de Cuba na América do Sul

Na Venezuela a todo o gás e, na calha, o Brasil.







O Reino Unido pretende saír da "europa"?

Parece que sim, ontem, e o debate é já um tumulto:



segunda-feira, 13 de maio de 2013

Este país é um colosso: tá tudo janado, tá tudo janado!







A liberdade sob Cavaco

Não me interpretem mal: acho que o grau de liberdade experimentado numa dada sociedade é directamente proporcional à dimensão do enxovalho infligido em público aos respectivos líderes. Dito de outra maneira, quanto mais achincalharmos quem manda em nós, mais livres somos. Não falo de tecer reparos, criticar construtivamente, satirizar com bom gosto, opormo-nos através do fatídico sentido de Estado. Falo de insultar com à-vontade e baixeza, à semelhança do programa televisivo americano que mostrava George W. Bush como um símio (as tentativas de mostrar Barack Obama de igual forma mereceram o epíteto de "racistas" e a condenação quase geral) e do papel higiénico britânico que ostentava o rosto de Isabel II.

Durante anos, e anos teoricamente democráticos, gozámos dessa liberdade a propósito de quase todas as personagens do poder. Quase. A excepção era o presidente da República (PR), ao qual se reservava no máximo uma discordância respeitosa. Salvo nas mesas dos cafés e nas paragens de autocarro, beliscar o PR constituía uma actividade praticada com moderação, ainda que o titular do cargo inventasse um partido para anexar o regime, fizesse campanha declarada contra o Governo em funções ou congeminasse uma estratégia tortuosa para favorecer activamente os seus camaradas.

Sob Cavaco, soltaram-se as amarras. De repente, comentadores, humoristas e diletantes habitualmente comedidos desataram a atacar com inusitada violência o alegado mais alto magistrado da nação. Alguns até transformaram os ataques numa rotina semanal, tenham ou não razão, tenham ou não pretexto. E embora talvez também não tenham consciência, a verdade é que abriram o caminho para que, de futuro, nenhum PR volte a suscitar as mesuras de antigamente. Mesmo, note-se, que seja apoiado pelo exacto PS que nunca deixou de achar um usurpador o actual inquilino de Belém, por acaso duplamente eleito por decisão popular. Cavaco é um PR fraquinho? Com certeza, mas pelo menos muitos constroem uma carreira a gritar que é péssimo, enquanto de outros, que eram de facto péssimos, insinuava-se em receosa surdina que eram fraquinhos


Sinais de fumo

O Bloco de Esquerda (BE) é um acérrimo opositor da iniciativa privada em quase tudo, excepto no que lhe cheirar a "transgressão". Ou a haxixe. Num momento em que o País está mais para lá do que para cá, o BE fez o que se impõe a um partido responsável e apresentou no Parlamento uma proposta que visava legalizar o cultivo doméstico da canábis e a sua venda em clubes da especialidade.

Por mim, acho óptimo que cada cidadão tenha o direito a plantar e a vender o que quiser e acho encantador que o BE tome, enfim, uma posição amiga do livre-arbítrio. Mas também acho tontinho que o faça motivado por um desejo pueril de confrontar um imaginário "sistema". Que idade tem o dr. Semedo? Se a resposta for dezassete anos, tudo bem. Acima disso, a coisa começa a resvalar para o ridículo.

Em qualquer dos casos, tudo isto poderia ser uma iniciação do BE e do eleitorado do BE às agruras do ramo empresarial. Em circunstâncias ideais, esses hippies requentados saltariam da exploração da canábis para a produção têxtil ou o sector dos transitários e, num ápice, estariam a rebelar-se contra o que importa, leia-se o peso do Estado. Infelizmente, da canábis não se salta para nada, excepto para o sofá entre risinhos. Aliás, a proposta parlamentar acabou rejeitada e os interessados provavelmente nem notaram...

sábado, 11 de maio de 2013

Após a derrocada na Venezuela ...

... que obrigou o cubano Maduro a mendigar comida e combustível ao Brasil ...

Este fim se semana bem podia ser um bom momento para que as pessoas de esquerda repensassem as razões porque escolhem as suas referências tendo presente o que sempre resulta da respectiva acção no terreno. Mas, estou em crer que, quanto muito, repensarão apenas as referências. Mudarão o nome ao Padre-Nosso. Ao fim e ao cabo, será apenas mais uma versão da mesma tragédia. Quem prosseguiu apesar das anteriores não terá dificuldade em virar a agulha para o mesmo Norte.

São Boaventura dos Alçapões

Boaventura Sousa Santos faz parte do mundo dos reinventores de mundos e que pensam nesse mundo mantendo, infelizmente, os pés neste (não me estou a referir à morte).

Se houvesse um mundo real alternativo que ele coincidentemente pensasse ser o dele, das duas uma: ou nunca lá poria os pés como nunca ninguém optou viver nos paraísos socialistas, ou seria devolvido por manifesta falta de pachorra para o aturarem.

Sousa Santos é um alçapão para um embuste.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

«A "europa", refugiada no bunker, manobra exércitos imaginários»

Godfrey Bloom: The European Union will go the same way as the Soviet Union



UKIP Economy spokesman Godfrey Bloom MEP is guest on the Alex Jones Show - Infowars - PrisonPlanetTV, 9 May 2013

• Godfrey Bloom MEP, UKIP (Yorkshire & Lincolnshire), Europe of Freedom and Democracy (EFD) group
http://www.godfreybloommep.co.uk
http://www.ukipmeps.org

Porque viraram à direita - e para qual direita (Parte III)







 Nota introdutória


Nesta terceira e última parte de minha análise do livro Por que virei à direita, afasto-me da discussão de seu tema central, a defesa do liberalismo e da sociedade aberta contra as utopias rousseaunianas de esquerda e seu “liberticídio”, para esboçar por que esta discussão, apesar de sua importância e persistente atualidade (infelizmente), pede hoje uma ampliação de foco ou de abrangência, incluindo a hipótese radical do "decrescimento econômico".

1. O conservadorismo é um humanismo – logo, não basta

Capitalismo é produtivismo e consumismo. Dadas a inelasticidade física do meio ambiente terrestre e a elasticidade histórica da população humana e da produção capitalista, que na verdade é consumo, nas duas pontas (consumo dos produtos gerados, mas também da energia e dos insumos geradores), o capitalismo é, no limite, insustentável. Como a esquerda fracassou em sua crítica e a direita é inapetente a ela, resta, ou restaria, o ambientalismo. Este, porém, é incapaz, se não de fazer a crítica radical do capitalismo, ou seja, do consumismo, de levar tal crítica à sua consequência lógica, a concepção de um sistema socioeconômico alternativo. Porque isto implicaria em um sistema político que o implementasse. Aqui a diferença fundamental entre esquerdismo e ambientalismo se explicita: o esquerdismo, a partir do rousseaunismo, tem o homem, a história humana, a sociedade como foco e razão de ser. Já o ambientalismo tem um foco e uma razão diferentes, além de maiores ou mais abrangentes: a humanidade mais o meio ambiente terrestre. O esquerdismo é um humanismo. O conservadorismo, outro. Face aos conhecimentos contemporâneos, todo humanismo é insuficiente.

Se o esquerdismo é mudancista, ou seja, pretende mudar a sociedade para se adequar a certo ideal da condição humana, o ambientalismo é mudancista porque antimudancista, ou conservador. É surpreendente como não se costuma notar serem os termos conservador e conservacionista, originalmente, sinônimos. A diferença nos usos dos dois termos se dá em função dos objetos de conservação: os conservadores se preocupam em conservar a sociedade, os conservacionistas se ocupam em preservar o meio ambiente. Enquanto a história determinou o fracasso do pensamento de esquerda, essa diferença de foco entre os conservadores e os conservacionistas evidencia certa insuficiência do pensamento de direita. “After such knowledge, what forgiveness?”, como diria Eliot.

O conservadorismo político é hoje insuficiente porque, à semelhança do esquerdismo, mantém certa obsessão “humanista” que é, na verdade, uma forma de antropocentrismo. Luiz Felipe Pondé é, neste sentido, um caso limite e exemplar (daí a possível pertinência de se deter sobre ele): seu pensamento navega e naufraga numa insistência monótona, cansativa e algo fanática em “pensar sobre o homem”. Na prática, em denunciar como a modernidade é enganosa ao haver pretendido “solucionar o humano”: “O que caracteriza a modernidade é a utopia de que a gente vai organizar a agonia. Não resolve. O ser humano é agonia. O ser humano não é alguma coisa que tenha solução”.[i] De fato, não tem. Não, porém, como acredita Pondé, porque “a natureza humana [...] sempre subentende um certo mistério” (a “natureza humana” e apenas ela, obviamente...).[ii] Mas sim porque se trata de um falso problema, ou de um falseamento do problema.

Sendo apenas uma espécie, ou seja, um ponto em duas redes imensuráveis, uma estendida no tempo, ocontinuum da história da vida, outra estendida no espaço, o continuum da biosfera, o ser humano pouco importa, no sentido de que importa pouco, ou seja, não detém informação importante, isto é, suficiente, que dirá determinante. Frise-se que não quero com isso dizer que se trata de falta de informação por parte do ser humano, mas sim que toda informação possível sobre o ser humano é insuficiente para sequer começar a compreender ou descrever o ser humano (que dirá uma realidade maior ou mais abrangente), na medida em que este não apenas não existe no vácuo como não existe por si – ou em si. E aqui não me refiro a qualquer “dimensão espiritual” ou “transcendência”, mas à biologia (apenas para citar um exemplo, nosso DNA incorpora vírus antigos que já tinham sido incorporados por espécies de que descendemos, para não falar do fato de que há mais bactérias mutualistas em nosso corpos do que células humanas; a lista poderia se estender enormemente).

O atraso de certo pensamento conservador, de que Pondé é hoje o representante brasileiro mais notório, revela-se, afinal, profundo. Pois além de pretender “pensar o ser humano”, como se ainda suficiente, insiste em que o caminho para fazê-lo passa pela religião, pela crença em Deus ou coisa parecida, como se ainda nos tempos da escolástica. Se ao lado dessa velha “espiritualidade”, que não passa da forma mais radical de narcisismo humanista (apenas humanos têm alma; Adão foi criado à imagem e semelhança de Deus; etc.), ainda houvesse espaço para um pensamento ambientalmente informado, abrangente ou includente, ela seria apenas ociosa, e afinal irrelevante. Em um conservador obscurantista como Pondé, porém, a crença em Deus serve como importante reforço do narcisismo humanista, do tardoantropocentrismo, ou seja, da ignorância orgulhosa.

2. Uma oligarquia catastrófica [iii]

Com o colapso da URSS e o fim do “socialismo real”, o refluxo perplexo da crítica ao sistema capitalista foi seguido pela desorientação generalizada da esquerda mundial. A crítica ao sistema tomaria então, a partir dos anos 1990, dois rumos principais: o primeiro, que atacava não mais o sistema em si, porém sua face mais evidente, a globalização, expresso no movimento conhecido como altermundialismo e centrado nos Fóruns Sociais, com seu slogan “Outro mundo é possível” – sem que tenha sido possível descrever esse mundo; o segundo, mais pragmático e pontual, centrado na questão ambiental, denunciando extinções, desmatamentos e poluições, sugerindo dimuição de emissões, reciclagem e o uso de energia limpa, e afinal ganhando densidade na questão do aquecimento global – porém na situação paradoxal de ver tudo encampado pelos governos, o que afinal resultou em cúpulas internacionais e impasses idem. O que fazer, afinal, se o sistema alternativo morreu (felizmente), e se o sistema sobrevivente pode levar diretamente à catástrofe?

A maior parte da superfície do globo será transformada em deserto. Os sobreviventes se agruparão em torno do Ártico. Mas não haverá lugar para todo mundo, o que gerará guerras, populações enfurecidas, senhores da guerra. Não é a Terra que está ameaçada, mas a civilização.

Quem o diz é James Lovelock, criador da conhecida hipótese Gaia. Lovelock é um cientista sério, e como tal é reconhecido por seus pares. Não é, portanto, culpa sua se a metáfora da Terra como um organismo, formulada décadas atrás, visando transmitir uma visão da clara interdependência dos sistemas biológicos quando isto ainda era uma novidade, foi depois transformada pelos “miolos moles” de plantão em “Terra viva”, versão new age da mais antiga das divindades, a Mãe Terra – que, na verdade, está mais para madrasta. Uma madrasta totalmente indiferente, incapaz de lançar uma lágrima pela morte provável de milhões de seus filhos mais ousados. Mesmo porque, estará seca.


O que fazer, então, como diria Lênin? Recomeçar do começo: pelo diagnóstico. Eis o objetivo do francês Hervé Kempf em Como os ricos destroem o planeta (São Paulo, Globo, 2010), no qual aparece a declaração de Lovelock (p. 10). Kempf era um jornalista especializado em ciência quando houve o desastre radioativo de Chernobyl, em 1986, o que o fez se tornar um ecologista radical, mas não um idiota.

A hipótese de partida de Kempf pode ser expressa em poucas palavras: a crise ambiental é ainda mais grave e, portanto, ainda mais urgente, do que se costuma reconhecer; ela não pode ser equacionada, ou seja, compreendida e muito menos resolvida, sem levar em conta sua causa central: o consumismo como ideologia, e a oligarquia mundial (sic) que o impõe, defende e sustenta.

Daí o livro denunciar, inclusive, o próprio “desenvolvimento sustentável”: “A única função real do ‘desenvolvimento sustentável’ é manter os lucros e evitar mudanças de hábito, apenas alterando um pouco o curso. Mas são justamente os lucros e os hábitos que nos impedem de mudar o curso” (p. 44).

Kempf, portanto, articula de forma direta e sintética a questão ambiental à questão sociopolíticoeconômica, apontando para a saída do impasse tanto das insuficiências ingênuas do ambientalismo como do tardoesquerdismo vazio do altermundialismo. Como o ambientalismo é manco e o altermundialismo é cego, a tarefa revela-se ainda mais difícil.

Kempf chega então à sua colocação central. E no que o livro tem de melhor. Revisitando o clássico esquecido do final do século XIX, a Teoria da classe ociosa, de Thorstein Veblen, propõe uma interpretação e uma mudança do “capitalismo de consumo” contemporâneo que faz Marx parecer quase moderado (e o “socialismo real” ser tão questionável em seu produtivismo de Estado quanto o próprio capitalismo com seu produtivismo privado). Há uma oligarquia mundial (ou “nomenklatura capitalista”) isolada socialmente e hiperconsumista materialmente, mas principalmente criadora do modelo seguido pela longa cadeia de emulações que move as classes sociais a partir do momento em que suas necessidades fundamentais estão satisfeitas (se a miséria, a falta do necessário, não se relativiza, a pobreza, a falta do desejável, é sempre relativa a algum modelo do que seja a não-pobreza; de fato, seus parâmetros mudam de país para país). Como sintetiza o título de um dos capítulos, “A classe superior define o modo de vida de sua época”. Daí seu corolário: “A oligarquia incrementa a crise ambiental”. Pois esta é, fundamental e diretamente, resultado da produção, ou seja, do uso e da transformação dos recursos naturais. Kempf advoga então uma mudança brutal de paradigma, sintetizada em outro título: “Não é preciso aumentar a produção”.

A existência de uma casta de oligarcas, de uma camada social de hiper-ricos, não é, teoricamente, um problema. Pudemos observar, no passado, que a detenção do poder caminhava junto com a apropriação de grandes riquezas. [Porém] estamos em um momento muito específico da história, o século xxi, que coloca um desafio radicalmente novo para a espécie humana: pela primeira vez desde o início de sua expansão, há mais de 1 milhão de anos, ela se defronta com os limites biosféricos de seu prodigioso dinamismo. Viver este momento significa que devemos encontrar, coletivamente, os caminhos pelos quais guiar toda essa energia de forma diferente. Trata-se de um desafio magnífico, mas difícil. Ora, essa classe dirigente predadora e ávida, desperdiçando suas sinecuras, fazendo mau uso do poder, ergue-se como um obstáculo nesses caminhos. Ela não traz consigo nenhum projeto, não é levada por nenhum ideal, não emite nenhum discurso. A aristocracia da Idade Média era uma casta exploradora, mas não apenas isso: ela sonhava em construir uma ordem transcendente, de que são testemunhas as esplendorosas catedrais góticas. A burguesia do século xix, que Marx qualificava de classe revolucionária, explorava o proletariado, mas tinha também o sentimento de estar difundindo o progresso e os ideais humanistas. As classes dirigentes da Guerra Fria eram levadas pela vontade de defender as liberdades democráticas diante de um contramodelo totalitarista. Mas hoje, depois de triunfar sobre o comunismo soviético, a ideologia capitalista não sabe fazer outra coisa que não festejar a si mesma. Todos os círculos de poder e de formação de opinião estão engolidos pelo seu pseudorrealismo, que considera impossível haver alternativas e que a única meta a ser perseguida para interferir na fatalidade da injustiça é aumentar cada vez mais a riqueza. Esse suposto realismo não é só sinistro, mas também cego. Cego diante do potencial explosivo da injustiça exposta. E cego diante do envenenamento da biosfera provocado pelo crescimento da riqueza material, envenenamento que significa a deterioração das condições da vida humana e a dilapidação das oportunidades que estarão à disposição das próximas gerações (pp. 97-8).

O desenvolvimentismo e o produtivismo são postos em cheque: pois se o título do último capítulo afirma não ser preciso aumentar a produção, seu texto argumenta que é imperativo diminuí-la. Taxas de crescimento devem ser lidas como aproximações à catástrofe, e substituídas por taxas de decrescimento.

3. Decrescimento econômico

Parece absurdo, à primeira vista. Mas apenas porque os paradigmas dominantes se transformam em ideologia, no sentido de crença política “naturalizada”. Neste caso, o crescimento indefinido da produção, sintetizado no crescimento do PIB, parece natural, entre outras coisas, porque a própria população não para de crescer. E também porque parece associado ao desenvolvimento qualitativo da civilização, evidente, por exemplo, nas conquistas tecnocientíficas, incluindo as médicas.

Começando pelo fim, tais conquistas nada têm a ver com a produção industrial. São o resultado de esforços pontuais de grupos de especialistas. Enquanto o aumento da população pode ser controlado. Isto já é verdade para a maior parte dos países ricos, em alguns dos quais a população na verdade diminui. E mesmo no Terceiro Mundo, o fim do crescimento só não é hoje maior por questões culturais. Por exemplo, entre a população muçulmana, que chega a um quinto da população mundial, com mais de 1 bilhão de indivíduos, a contracepção vai contra os princípios religiosos e as tradições sociais de grandes famílias patriarcais.

Mas talvez o maior obstáculo à aceitabilidade, antes ainda da aceitação, do contraparadigma decrescionista seja o fato de parecer apontar para a pobreza. Pois se a produção decresce, no limite, chegará a zero. Isto, porém, tampouco é verdade. Porque a parada do crescimento da produção e do consumo, e sua subsequente diminuição, devem ser acompanhadas de medidas de contenção de desperdício e de melhoria geral dos padrões de consumo, ou seja, de sua racionalização. Um artigo da presidenciável brasileira Marina Silva coloca a questão de forma clara e pontual, tratando objetivamente da problemática hidrelétrica de Belo Monte:

Estão mais do que evidentes a complexidade e os riscos envolvidos na construção da usina hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, no Pará. [...] Vê-se o direcionamento de todos os instrumentos de políticas públicas para viabilizar um projeto estrategicamente ruim, caro e de altíssimo risco socioambiental. Enquanto isso, pouco se faz para reduzir perdas da ordem de 15% em energia no país, o equivalente a três vezes a capacidade média de Belo Monte. E o processo em curso aponta mais desperdício: Belo Monte terá uma produção energética efetiva bem menor do que sua capacidade total -4.428 mw, em função do regime hídrico do rio e da configuração do projeto, e não os 11.223 mw anunciados. Surpreendem também as condições à disposição dos interessados em comercializar a energia gerada pelo rio Xingu. Tem-se R$ 13,5 bilhões em crédito subsidiado pelo bndes, com prazo de 30 anos para pagamento, a juros de 4% ao ano. Isenção de impostos sobre os lucros, o comprometimento do capital de empresas estatais e de fundos de pensão e, de quebra, o absurdo comprometimento de licenciamento ambiental com prazo preestabelecido para a obra começar já em setembro. [...] Imaginem se todas essas condições excepcionais fossem para melhorias da eficiência do sistema elétrico e para a redução da demanda por energia.[iv] [grifos nossos].

Na realidade, a parada do crescimento e sua diminuição ameaçam apenas a lógica do lucro atual. Sem voltar às velhas estigmatizações religioso-medievais da usura, é impossível, hoje, equacionar a questão ambiental sem chegar aos fundamentos do problema, que não é mais tão somente a poluição desse ou daquele tipo de produção ou de produto, mas a produção em si, cujo móvel primeiro é o lucro como hoje buscado e realizado. Mais exatamente, o crescimento indefinido do lucro – que não pode ser obtido sem um aumento da produção (mais ainda que o da produtividade), pois é esse aumento que gera mais produtos a partir do capital investido, ou imobilizado, produtos cuja comercialização aumentará então o retorno desse capital. Os produtos novos, impondo sua substituição, completam o quadro.

Um dos problemas centrais é o fato de que toda a atual contabilidade capitalista é falseada. Ela é falseada porque não incorpora entre seus custos os custos ambientais. Se estes são computados, e também computadas todas as ações públicas relacionadas diretamente ao consumismo, como a coleta de lixo e sua destinação, além de outras incontáveis iniciativas, como a oferta crescente de água etc., o que se constata é, de um lado, um involuntário “subsídio” pelo meio ambiente natural, e de outro, um subsídio estatal generalizado indireto de toda a atividade econômica. E como o meio ambiente natural é patrimônio comum, e como o dinheiro do Estado é dinheiro da população concentrado via impostos, a própria população subsidia parte importante dos lucros como hoje realizados. E se parte dos lucros é por ela subsidiada, essa mesma população tem o direito de questionar tal subsídio, logo, tal tipo de lucratividade.

Em termos práticos, o decrescionismo econômico, um novo pararadigma por enquanto teórico, mas que começa a emergir neste debate, propõe e pressupõe uma verdadeira “revolução cultural”, em que uma reforma radical do “capitalismo de consumo” seria criada principalmente a partir da demanda. Porém a mudança da demanda só viria da mudança de hábitos, que dependem da referida “revolução cultural”. Ao mesmo tempo, há vários exemplos de medidas práticas. Seguindo e estendendo o modelo da indústria tabagista, proibir-se-ia a publicidade e a propaganda como um todo, a partir de leis apoiadas pela população. As atividades hoje bancadas pela publicidade, como TVs abertas e jornais, seriam bancadas por assinaturas do público interessado, ou fracassariam ao não se adaptar. Reverter-se-ia a tendência da obsolescência programada dos produtos, por exemplo, taxando mais os produtos menos duráveis, e menos os mais duráveis. A taxação progressiva da renda seguiria o modelo puro e duro dos países escandinavos, com a concomitante extinção, através das instituições internacionais, de todos os paraísos fiscais. Por fim, a cultura econômica “fordista”, de produzir em massa e de massificar o consumo como ideal econômico mas também sociocultural e no limite existencial, seria revista em função do mote de Franklin Lloyd Wright: “Less is only more where more is no good”. “Menos é mais apenas onde mais não é bom”. Esse “onde” é hoje o mundo. Enfim, produzir menos, mas melhor. Consumir menos, porém mais cada produto.

Desde o século XVI, o capitalismo sofreu várias mutações, passando do modelo mercantil para o industrial, depois para o pós-industrial etc., e, por outro lado, mudando do capitalismo “dickensiano” para o do welfare. É essa capacidade de mutação, adaptação e evolução que tornam o capitalismo resiliente, enquanto mantém seu aspecto fundamental de ser o único sistema historicamente capaz de tirar a humanidade da miséria e da pobreza e, por consequência, do atraso e da servidão. Não há nada mais “capitalistamente correto” do que reformar o capitalismo, para que se mantenha como a base da modernidade, em que, como dizia o velho Marx, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Isso também vale para o “capitalismo de consumo” atual.


[i] "A modernidade quis organizar a agonia", entrevista à Folha de S. Paulohttp://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2701200709.htm.
[ii] Idem.
[iii] Algumas passagens desta seção do texto parecem ter sido diretamente plagiadas do release do livro de Kempf acessável no sítio da editora Globo (http://globolivros.globo.com/busca_detalhesprodutos.asp?pgTipo=CATALOGO&idProduto=1413). De fato, são idênticas, porque eu sou o autor do referido release.
[iv] “Represa de erros”, Folha de S. Paulo, 29/04/2010.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Provedor de Justiça demonstra extrema incompetência

O provedor de Justiça, Alfredo José de Sousa, deveria demitir-se de imediato por manifesta incompetência em perceber a sua função.

O Provedor de Justiça existe para defender as pessoas das arbitrariedades do estado. O país está a sofrer horrores em resultado do enorme elefante branco que o estado se tornou. A economia não aguenta o estado que tem porque este gasta tanto que arrasa qualquer hipótese da economia de desenvolver.

O iluminado Provedor de Justiça, incapaz de compreender qual sua relação com a função e com o país que, de rastos, o sustenta, deve apresentar, de imediato, a sua demissão.

E ninguém lhe dá com um pano encharcado nas trombas?

O presidente do sindicato do trabalhadores dos impostos acaba de declarar que os se os contribuintes falharem às suas obrigações fiscais eles "compreenderão".

Ganhando menos que os trabalhadores dos impostos como ganha a generalidade dos trabalhadores contribuintes líquidos, maioria de razão têm para deixar de cumprir a sua obrigação "corrompendo-se" com ainda  mais naturalidade.

E aquela luminária, amanhã, ainda estará em funções?


quarta-feira, 8 de maio de 2013

O alfinete e os encalacrados

A Comissão Europeia resolveu anunciar que pretende integrar e uniformizar o sistema de energia da "europa".

A "europa" caracteriza-se hoje pela bizarra bitola em que ninguém pode ter qualquer espécie de vantagem endógena relativamente aos restantes membros. Se o país A é bom produtor de trigo, há que o regulamentar para que a sua vantagem desapareça face ao país B, onde o trigo não cresce tão bem. Se o país B tem uma qualquer vantagem do ponto de vista dos recursos energéticos há que lha retirar para garantir igualdade de patamar em relação a um outro país A.

O resultado é que todos se vêm encalacrados no voluntarismo de aproveitar decentemente as vantagens próprias, e o que se torna prevalecente são as desvantagens comuns. O resto do mundo, em particular o oriental, ri-se a bom rir com a pacovice dos iluminados do 'comum' e, pouco a pouco, a "europa" vai-se tornando uma coisa esquisita, inviável, cheia de gente com a mania que o resto do mundo lhe deve loas.

Nigel Farage é um dos pouquíssimos deputados que tem o discernimento que se esperaria da generalidade. Este discurso é de referência.

Porque viraram à direita - e para qual direita (Parte II)








Nota introdutória

Nesta segunda parte da minha análise do livro Por que virei à direita, de João Pereira Coutinho e dos ensaístas brasileiros Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield, concentro-me nas posições de Pondé, por este representar, ao contrário dos outros dois autores, não um verdadeiro liberal, mas o que eu chamo de conservador obscurantista – que acredito dever ser separado dos verdadeiros liberais, para o bem destes.

1. Ponderações sobre um obscurantista contemporâneo I

A defesa do conservadorismo político – ao menos, de certo conservadorismo –, apesar de toda a crítica de que a esquerda seja merecedora, guarda suas próprias armadilhas. Desmascarar certo obscurantismo antirracionalista e antimodernista que macula parte do pensamento conservador – representada por Luiz Felipe Pondé neste livro – é afinal não apenas pertinente a ele, como tão importante quanto sua análise.

Mesmo porque, a possível relevância do pensamento obscurantista de Pondé está em sua falta de originalidade. Estender-se sobre seus argumentos tem, portanto, o possível valor da exemplaridade.

O senhor acredita em Deus?

Pondé: Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do universo. Não é que eu rejeite o acaso ou a violência implícitos no darwinismo – pelo contrário. Mas considero que o conceito de Deus na tradição ocidental é, em termos filosóficos, muito sofisticado. Lembro-me sempre de algo que o escritor inglês Chesterton dizia: não há problema em não acreditar em Deus; o problema é que quem deixa de acreditar em Deus começa a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência ou em si mesmo.[i]




Sim, acredito em Deus. Mas... 1) Já fui ateu. 2) Porque sou elegante: “Acho Deus uma das hipóteses mais elegantes em relação à origem do universo”. Bobagem. A narrativa mítica para a origem do Universo é, na verdade, banal, arcaica e popular. Vamos a ela...

As cinco maiores religiões têm algo de fundamental em comum. Judaísmo, cristianismo, islamismo, hinduísmo e budismo possuem, no centro de suas concepções teológicas, a ideia, algo óbvia, da necessidade de uma causa das causas. Parece complicado, mas é, na verdade, simples. E não necessariamente elegante.

Se tudo tem uma causa, uma regressão na longa cadeia de causas e efeitos levaria, ou a uma causa primeira, autogerada, ou ao infinito. É evidente que a ideia de uma cadeia infinita de causas e efeitos é mais difícil de ser concebida e transmitida do que a de uma cadeia de causas e efeitos com um ponto de origem identificável – e, além disso, parecido com o homem. Não surpreende, portanto, que esta tenha sido a hipótese “elegante” escolhida por todas as grandes religiões.

Há, claro, diferenças fundamentais, antes que os adeptos dos “inconscientes coletivos” e similares se alegrem. Porém a estrutura conceitual básica dos mitos de origem de todas as grandes religiões é bastante semelhante: uma causa das causas original, não causada e parecida com o homem. Na verdade, se as grandes religiões são cinco, os grandes mitos da criação são apenas dois. O judaico, adotado também pelo cristianismo e pelo islã, e o hindu, adotado pelo budismo.

O mito judaico é conhecido: o Universo existe porque existe um Deus, que não se sabe bem por que, resolve um belo dia criar o mundo. Sua semelhança com o homem está explicitada na Bíblia, ainda que às avessas, pela afirmação de o homem ser a imagem d´Ele. No caso do hinduísmo, a semelhança mais sutil de Brahma, a causa das causas, o Uno pleno etc., com o mesmo homem está no motivo pelo qual Ele decide, um dia, se dividir, deixando de ser Neutro para se tornar Macho e Fêmea, e daí gerar as Formas, isto é, a matéria, o mundo. O motivo é a solidão de Brahma, e o fato de que Ele “não tinha nenhum prazer”.

[ii] Ingênuo, por um lado, e contraditório, por outro: pois se insiste na Plenitude de Brahma, e é de se imaginar que o Pleno não conheça, por definição, nem a solidão nem a falta de prazer. Mas estas são concepções anônimas, populares, frutos de especulações não movidas nem pela experimentação nem pelo rigor. Numa palavra, mitos. E mitos podem muito bem ser ingênuos e contraditórios, ainda que não se deva explicitar poderem ser contraditórios e ingênuos. “Eu era um tesouro oculto e desejava ser conhecido, por isso criei as criaturas”: o “eu” desejante (mais uma vez...) é aqui o próprio Alá, que assim teria se expressado a Maomé sobre a origem do mundo, segundo o misticismo islâmico.[iii]

Depois de afirmar a elegância superior contida em tudo isso (deixando desta vez implícito seu desdém obscurantista pela explicação científica), Pondé acrescenta que “o conceito de Deus na tradição ocidental é, em termos filosóficos, muito sofisticado”. Imaginei, ao ler isto, que sairíamos dos mitos de origem para, por exemplo, alguma referência a Tomás de Aquino. Não me pegaria desprevenido, nem de todo despreparado, pois li Aquino o suficiente para saber que muito do que se diz sobre ele, ou a partir dele, não resiste a uma ida à fonte (por exemplo, que ele elabora a separação entre fé e razão; isto só é verdade se se acrescenta que o faz para subordinar a razão à fé). Mas não: depois de um golpe en passant e mal disfarçado no darwinismo (outra marca do obscurantista), Pondé se sai com uma velha referência a Chesterton, tão usada e surrada quanto a de Fiódor “Se não há Deus tudo se permite” Dostoiévski: “Não há problema em não acreditar em Deus; o problema é que quem deixa de acreditar em Deus começa a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência ou sem si mesmo”. Sempre achei esta afirmação de Chesterton um dos exemplos mais acabados, ora, de obscurantismo. Além de se tratar de um sofisma, como de hábito nesse tipo de argumento (incluindo o de Dostoiévski). O sofisma está na redução implícita do conhecimento a outra forma de opinião. Refiro-me aos conceitos gregos de episteme e doxa.

A religião, a fé, o mito, não é conhecimento, no sentido de não ser conhecimento demonstrável ou testável de qualquer maneira, mas, então, apenas discurso, opinião – no limite, literatura. A ciência não é, por seu lado, nem mera opinião nem um tipo de crença nem, muito menos, “outra bobagem”. Stephen Hawking: “Há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na autoridade, e a ciência, que se baseia na observação e na razão”. A frase de Hawking não tem valor por ele ser um dos maiores físicos da história (não se trata, portanto, de um argumento “de autoridade”), mas porque ela é robusta em si. Para demonstrá-lo, basta inverter os termos e constatar o absurdo do resultado: “Há uma diferença fundamental entre a religião, que se baseia na observação e na razão, e a ciência, que se baseia na autoridade”.

Aqui se evidencia a radical dicotomia contemporânea entre religião e ciência, entre fé e lucidez, entre mito e comprovação, entre opinião e conhecimento, contra a qual os obscurantistas de vários matizes (incluindo relativistas e construtivistas) tanto se batem. Frisei contemporânea porque o debate, neste caso, é viciado por uma permanente retomada de suas condições passadas, a partir, principalmente, dos problemas causados pela Igreja para a pesquisa de Galileu. Não que essas questões passadas estejam ultrapassadas, no sentido de não serem mais verdadeiras ou pertinentes: tudo o que foi dito nos últimos séculos sobre os antagonismos fundamentais da religião em relação à ciência (nesta ordem) continua tão verdadeiro e tão pertinente quanto quando dito a primeira vez.

A religião se baseia em crenças, isto é, em certezas, daí afinal se basear em respostas e em dogmas, enquanto a ciência se baseia em questionamentos, ou seja, em dúvidas, daí afinal se basear em perguntas e em pesquisas. Isto deveria ser evidente, e, na verdade, apenas não o é por conta da insistência multissecular dos obscurantistas em pôr a ciência em questão. Noutras palavras, a religião não é, na verdade, sequer uma preocupação para a ciência, enquanto a ciência é uma verdadeira obsessão para a religião. Isto é, para os crentes, como Pondé.

2. Ponderações sobre um obscurantista contemporâneo II

Há, portanto, outra razão para citar aqui Hawking: o golpe en passant de Pondé no darwinismo, comum nos obscurantistas. Coutinho e Rosenfield, obviamente, não rejeitam o darwinismo. Já Pondé, não surpreendentemente, é um defensor da “alternativa” do criacionismo, ainda que, como de hábito, às vezes o assuma, outros vezes pareça negá-lo, como aqui: “Não é que eu rejeite o acaso ou a violência implícitos no darwinismo – pelo contrário”. Atente-se, porém, para a formulação ambígua e condescendente, além de pretensiosa: “Não é que eu rejeite o darwinismo...”. Tanto o rejeita que é incapaz de compreendê-lo minimamente: qualquer estudante de primeiro ano de biologia sabe que o acaso e a violência são, na verdade, explícitos no darwinismo. Compare-se, em todo caso, com outra passagem do mesmo autor:

 A controvérsia que opõe o darwinismo ao criacionismo [...] – ou teoria do “design inteligente”, herdeira direta da união entre o “primeiro motor” aristotélico e o Deus de Abraão – não é apenas uma querela sobre como a poeira cósmica começou a pensar, mas uma discussão acerca do sentido profundo da vida.[iv]




Não há nenhuma controvérsia opondo o darwinismo ao criacionismo, mas o contrário, o que não é indiferente: o criacionismo se opõe, agressivamente, ao darwinismo. Pondé, sendo um crente, deveria ser, necessariamente, um criacionista, pois como ele mesmo afirma, Deus é uma “hipótese para a origem do Universo”. Acontece que há hipóteses excludentes: no caso do surgimento da vida, ou Deus a criou, ou a matéria inanimada regida pelo acaso. Não há como ser ambos. Pondé, de fato, desconfia do darwinismo: “O darwinismo é a teoria da autossuficiência da matéria”.

[v] Sua inconsistência e sua confusão obscurantistas, porém, fazem com que acredite poder servir a dois amos. Assim, a depender do dia, de seu humor ou do texto seu que se consulte, ele defenderá, ora o darwinismo, como no livro em questão (em que concede sentir “simpatia pela teoria de Charles Darwin” [p. 61]), ora o criacionismo, como na passagem acima, em que manifesta mais do que simpatia, mas faz dele verdadeira justificativa.

Porém não se trata, afinal, do darwinismo, e sim da própria biologia. Porque não existe biologia sem darwinismo. O problema é ser impossível conceber um ataque minimamente consistente ao gigantesco edifício da biologia, que inclui a paleontologia, a genética, a embriologia, a fisiologia, a anatomia comparada, a etologia, a bioquímica e um gigantesco etc. O darwinismo é a base conceitual unificadora de todas as ciências biológicas, que, por um lado, sem ele sequer podem existir, e que, por outro, o corroboram em seus vários campos de pesquisa. Portanto, ao atacar o darwinismo (ou defender o criacionismo), os crentes em geral e os obscurantistas em particular estão, na verdade, atacando o conjunto das ciências biológicas. Não convém, porém, explicitá-lo, primeiro, porque soa, ora, obscurantista; segundo, porque indica a imensa robustez do darwinismo; terceiro, porque demonstra implicitamente a fraqueza e a insensatez do ataque, que não pode sequer nomear seu verdadeiro alvo, o edifício das ciências biológicas, de que o darwinismo é o alicerce e o cimento. Mas por que, afinal, a necessidade de atacar a biologia?

Porque a biologia não distingue o homem dos demais animais. A biologia é a ciência da vida em seu conjunto. E as grandes religiões são antropocêntricas. A controvérsia que opõe o criacionismo ao darwinismo (e não o contrário), não é, portanto, uma discussão acerca do sentido profundo da vida, como pretende Pondé, mas do sentido profundo da vida humana.

Eis, enfim, o antagonismo fundamental entre as grandes religiões e a biologia, que centraliza o antagonismo (real, apesar dos relativistas) entre as religiões e a ciência: a biologia não reconhece nenhum sentido profundo da vida humana, que é apenas parte da vida terrestre, enquanto as religiões existem para afirmar o sentido especial da espécie. Para que as religiões tenham algum sentido, a vida humana deve ter um significado especial. Daí a biologia, na figura do darwinismo, ter de ser atacada. Não que possa ser fácil ou convincentemente atacada. Daí, enfim, a obsessão e a mal disfarçada frustração dos obscurantistas.

3. Saudades da Idade Média

Para mim, a religião é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do Estado moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média – querer se meter na vida moral das pessoas.[vi]




Eu poderia aqui falar em pura e simples ignorância histórica, mas não o farei. Prefiro pensar em obscurantismo, em sofisma, em falseamento. Mesmo porque, são argumentos não originais. A religião não oferece historicamente nenhuma resistência à “tendência do Estado moderno de querer fazer a cura das almas”. Porque não há tal “tendência”, senso lato, no Estado moderno. Este é por demais multiforme, em termos históricos, para poder ser assim reduzido (que semelhança pode haver entre a República de Weimar e a “República Popular” de Pol Pot no Camboja?). Porque se trata de mais um ataque geral e irrestrito à modernidade. E porque a defesa da religião como fonte de “hábitos morais” é o último recurso do obscurantista. Para começar, não há religião no singular. Para intermediar, existem e existiram religiões que defendem e defendiam “hábitos morais” como a poligamia, a morte de adúlteras, o infanticídio, o sacrifício humano e um interminável etc. Para finalizar, porque em termos históricos a religião é, na verdade, uma fonte inesgotável de disputas culturais e de guerras, para não falar de genocídios: o nazismo, por exemplo, não criou o antissemitismo alemão, mas sim teve no antissemitismo alemão uma de suas causas. E o antissemitismo alemão tem como causa profunda, por sua vez, o antissemitismo europeu, que é, na verdade, o antissemitismo cristão – criado e difundido como elemento central da cultura e da história europeias pela Igreja.

Um conhecido especialista em história do cristianismo não poderia ser mais explícito a esse respeito, ao comentar textos fundamentais de importantes autores cristãos dos primeiros séculos:



Estamos no início de uma forma de ódio antijudaico que não havia aparecido no palco da história antes do advento do cristianismo, e que foi construído sobre uma visão [...] de que as Escrituras judaicas [na verdade] testemunham sobre Cristo, que foi [portanto] rejeitado pelo seu próprio povo e cuja morte, por sua vez, leva à condenação desse povo.[vii]




 Ao contrário do que afirmam obscurantistas antirracionalistas como Pondé, a ideia de que todo um povo – incluindo os bebês – possa ser “culpado” de algo, não vem da racionalidade política – ou de qualquer racionalidade –, mas da irracionalidade mítica (a primeira referência conhecida a um genocídio está no Velho Testamento, em que é perpetrado por Deus através do dilúvio). O método do genocídio nazista foi o da moderna racionalidade instrumental, porém o objeto desse genocídio nasceu da irracionalidade mítica. E antes da modernidade.

A famosa mutação do antissemitismo religioso medieval em antissemitismo “racificado” ou “biológico”, ligado a modernos conceitos “científicos” de raça e eugenia, então se relativiza: o antissemitismo moderno não é idêntico ao medieval, mas tampouco lhe é inteiramente estranho; mesmo porque, é dele diretamente originado. Há, portanto, muitos aspectos relevantes da modernidade que não nasceram nela ou dela, mas dos quais ela é, na verdade, herdeira. Um conservador como Pondé deveria saber disso. Entre esses aspectos, está o próprio totalitarismo.

Quando estados religiosos como o Afeganistão sob o Taleban voltam a existir, torna-se mais fácil imaginar a vida na Europa cristã. Por exemplo, episódios de brutal vontade totalitária, como a expulsão de toda a comunidade judaica espanhola pelos “reis católicos” (não por acaso). Se esse episódio, em pleno século XV, já possui algo da nascente ideia moderna de Estado nacional, com sua ideia de "povo", tem muito de protototalitarismo cristão medieval – cujas manifestações incluem da conhecida censura do
Index Prohibitorum às menos conhecidas destruições de comunidades “heréticas”, como a dos cátaros. A “caça às bruxas” (tampouco uma criação original do Estado totalitário moderno) começara, em todo caso, muito antes – mais exatamente, no século IV:

Todos os povos sobre os quais exercemos regência bondosa e moderada devem [...] converter-se à religião comunicada aos romanos pelo divino apóstolo Pedro [...]. Apenas aqueles que obedecem a esta lei poderão [...] chamar-se cristãos católicos. Os demais, que declaramos verdadeiramente tolos e loucos, carregarão a vergonha de uma seita herética. Tampouco poderão ser chamados igrejas seus locais de reunião. Por fim, que os persiga primeiramente o castigo divino, porém depois também a nossa justiça punitiva.





De alguma maneira, a justiça punitiva por sentença celestial vigorará até 1789, pois os reis absolutistas o eram por “direito divino”. Nada, porém, impede que Pondé, isto é, que um obscurantista, ataque desdenhosamente a racionalidade moderna e a modernidade em si:

A modernidade é uma adolescente, uma menina de 14 anos, que chega a um lugar e começa a organizar. Essa é a imagem. Imagine essa menina, que entra na empresa e começa a administrá-la. Joga fora o que foi feito até hoje, começa a inventar todos os procedimentos.

É a modernidade. Perde-se o quê nesse processo? Perde-se o que uma adolescente de 14 anos perderia administrando uma empresa. Quase tudo.


Mas talvez se ganhe algo: de Galileu a Einstein, passando por Newton e Darwin e chegando à descoberta recente do bóson Highs, base do Modelo Padrão da física contemporânea, ao lado do fim da servidão medieval e da própria emergência do capitalismo, que os verdadeiros liberais não desprezam, ao contrário, pois liberou as maiores forças produtivas (e destrutivas) da história, para usar a expressão de Marx (gerando, por exemplo, da medicina à energia atômica, e da Revolução Industrial à arte moderna, entre otras cositas más). A modernidade foi, obviamente, a maior e mais poderosa conquista da história da humanidade. Apenas um cego, um louco ou um obscurantista nega convictamente o óbvio.




[ii] Brihad Aranyaka 1.4.2, apud David L. Haberman, “Hinduísmo upanixádico: a busca do conhecimento último”, in Leslie Stevenson e David L. Haberman, Dez teorias da natureza humana, São Paulo, Martins Fontes, 2005, p. 68.
[iii] Albert Hourani, Uma história dos povos árabes, São Paulo, Cia das Letras, 2007, p. 237.
[iv] “A vida em suspensão”, Mais!, Folha de S. Paulo, 29/10/2006.
[v] Idem.
[vii] Bart D. Ehrman, Evangelhos perdidos, Rio de Janeiro, Record, 2008, p. 221. A arrogância heurística cristã não pode ser exagerada.
[viii] Decreto imperial de Teodósio I (Cunctos populos, a. D. 380), apud Matthias von Hellfeld, “Cristianismo tornou-se religião de Estado do Império Romano em 380 d. C.”, in Os europeushttp://www.dw-world.de/dw/article/0,,4224599,00.html.
[ix] “A modernidade quis organizar a agonia", entrevista à Folha de S. Paulohttp://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2701200709.htm.