terça-feira, 22 de março de 2011

O MODELO TURCO É UMA FARSA


Bram Vermeulen, correspondente na Turquia do jornal holandês NRC: Aos olhos dos estrangeiros a Turquia serve de modelo para o Médio-Oriente, mas os comentadores turcos insurgem-se furiosamente contra esta imagem.

Nestas últimas semanas a Turquia estava constantemente na boca dos analistas políticos como modelo para o mundo muçulmano: democrática, secular, próspera. Convencido do exemplo turco para o agitado Médio Oriente, o presidente da Turquia, Gül, foi ao Egipto veicular a experiência turca junto dos novos dirigentes no Cairo. Mas na mesma semana o famoso jornalista turco Nedim Sener recebeu uma série de ameaças através de mail e sms: "Chegou a tua vez, meu filho. Já tens a mala feita? Tens um pijama quente para levar?” Remetente desconhecido…

Mausoléu de Ataturk em Ancara - cdr.

Sener é um dos sete eminentes jornalistas actualmente presos depois de várias razias e buscas ao domicílio levadas a cabo pela polícia a semana passada. Acusação: fazem parte de uma organização terrorista com intenção de derrubar o governo. A investigação dura desde 2007 e já foram encarceradas 200 pessoas: catedráticos, militares e publicistas. Até hoje ninguém foi condenado.

A pergunta que imerge espontaneamente com estas prisões e razias é: se a Turquia é um modelo ou exemplo para o Médio-Oriente, qual é o modelo ou exemplo que a Turquia adoptou? Um jornalista do jornal Milliyet, colega de Sener, não tem dúvidas: “há três anos atrás acreditava realmente que éramos um exemplo de democracia. Hoje estou convencido que estamos a seguir as passadas da Rússia de Putin. O que está a acontecer aqui não é digno de um país-candidato a membro da União Europeia.”

O primeiro-ministro Erdogan fez nos últimos meses discursos inflamados sobre direitos humanos no Médio Oriente. Pediu ao dirigente egípcio Mubarak para que este, nos seus últimos dias, seja um bom muçulmano e ouça o seu povo. Faz destes discursos sobre direitos humanos no estrangeiro enquanto que no seu país os curdos, os alevitas e os cristãos clamam por esses direitos. Há neste momento 58 jornalistas presos na Turquia, o dobro da quantidade que havia depois do golpe de estado de 1980. Erdogan processa pessoalmente todo e qualquer jornalista que o afronta.

A comentadora Asli Aydintasbas está bastante preocupada com a intimidação que a imprensa sofre e a crescente influência do Governo na Justiça. Segundo ela, ambos os desvios tornaram-se agora visíveis com a prisão de Sener, que se tornou sobretudo conhecido depois da sua investigação sobre o assassinato do jornalista arménio Hrant Dink. Em dois livros demonstrou que a polícia e os serviços secretos não fizeram absolutamente nada para evitar a morte de Hrant Dink. Duas semanas antes de ter sido preso, Sener escrevia que os agentes que ele acusa de negligência no seu livro, são os mesmos que agora conduzem as investigações contra uma série de intelectuais críticos em relação ao governo.

Bairro residencial em Antalya - cdr

Quando em 2007 se deu início às investigações acerca da rede ultranacionalista Ergenekon, [Ver aqui excelente artigo sobre este assunto do especialista português Fernando Gabriel: “mudar o carácter político turco, da estatização do Islão para a islamização do Estado”] que pelos vistos queria derrubar o governo, a opinião pública estava do lado da acusação. Não é a primeira vez que ultranacionalistas juntamente com generais fazem planos para destituir governos democraticamente escolhidos. Mas os nacionalistas e o exército perderam bastante poder nos últimos 9 anos. A época dos golpes de estado acabou-se.

Em Setembro deste ano a maioria dos turcos votou a favor de reformas jurídicas que permitem processar militares. No seguimento desta remodelação, foi também possível nomear juízes próximos do governo, e estes mesmos juízes estiveram de acordo em mandar prender jornalistas como Sener. “A independência da justiça está sob pressão”, afirma a colunista do jornal Milliyet Aydintasbas. Aponta como exemplo uma descomunal tributação de impostos à Editora Dogan. Ultimamente os periódicos da Dogan escrevem artigos críticos sobre a corrupção no seio do governo de Erdogan.

“Aqueles que vêm na Turquia um exemplo para o Médio-Oriente irritam-me”, exclama o comentador de política internacional Kadri Gursel. “Esta ideia serve perfeitamente os desígnios daqueles que durante décadas apoiaram as ditaduras no Médio-Oriente e que agora esperam que seja a Turquia a arrumar os cacos.” Receia que esta crença signifique um apoio à islamização da política. Com as últimas prisões criaram-se novos tabus: não abordar a islamização do estado nem a influência do islamólogo Fethullah Gülen. Um dos jornalistas ia publicar um livro sobre este assunto.

“Antigamente só era tabu escrever sobre as forças armadas ou acerca do genocídio dos arménios”, diz Gursel. “Actualmente temos que ter cuidado com temas como a corrupção no seio do governo e a islamização da via pública. Estamos perante um combate pela alma da Turquia. A diferença entre a Turquia e o Médio-Oriente é precisamente a aceitação de leis europeias e a ocidentalização das suas instituições. Temos que evitar que a nossa revolução não seja sacrificada.”

8 comentários:

EJSantos disse...

Ás coisas estão a tomar um rumo muito mau.
Felizmente já vejo pessoas em Portugal a criticar o fundamentalismo islâmico e a má vontade de algumas minorias em integrar-se na sociedade. Felizmente a sanha politicamente correcta é posta em causa.
Mas ainda há muito caminha a percorrer.

Carmo da Rosa disse...

RioD’oiro disse: ”Felizmente já vejo pessoas em Portugal a criticar o fundamentalismo islâmico.”

E em Portugal, segundo as notícias que me chegam, os muçulmanos não fazem muitas ondas… Por isso até compreendo que seja difícil explicar a portugueses os problemas diários que surgem na Europa do Norte em relação ao Islão. É pena não haver aqui ninguém a escrever sobre este assunto detalhadamente: o Islão em Portugal. O que tenho lido em jornais portugueses é muito politicamente correcto, muito só a dizer bem…

Carmo da Rosa disse...

Peço imensa desculpa:

Não é RioD'oiro disse, mas EJSantos disse:

RioD'oiro disse...

"Não é RioD'oiro"

Problema nenhum ou "no problemo".

Carmo da Rosa disse...

Já agora em turco: "yok sorun"

marcelo barros disse...

A turquia é uma Fraude é só olhar para a Igreja de Santa sofia transformada em um museu, a perseguição das minorias etcnicas e religiosas, o ódio para com os cristãos, o genocídio, a hipocrisia dos políticos, a mordaça e perseguição da imprensa e dos Jornalistas. os europeus deveriam usar e mesma "Democracia" esdrúxula para com os islâmicos radicados aí,principalmente se for turco. A turquia tem que mudar, ela tem que ser realmente Democrática, se isso não acontecer nem a Alemanha vão mais querer saber dos turcos. turquia não é um país sério,é uma Fraude de democracia, quanto mais conheço os turcos mais eu amo o Brasil, pelo menos aqui respeitamos todas as religiões e a Imprensa é livre.

O-Lidador disse...

Recip Erdogan: " A democracia é como um autocarro. Quando chegas ao teu destino, sais"


O tema não podia ser mais actual. A Turquia está numa imparável deriva islamista e os fumos do Califado Otomano parecem ter subido à cabeça da elite islamista que dirige o país.
Está a fazer bullying sobre todos os vizinhos e em breve as coisas podem descarrilar, a propósito do gás, na zona de Chipre, Líbano e Israel. A Turquia tem um exército grande e bem armado, mas parece, mais uma vez, não ter ideia clara de que os israelitas têm um enorme hedge tecnológico e que as ameaças são brincar com o fogo.
A gente que manda em Ankara é perigosa, como o são todos aqueles que, confiados na sua própria basófia, são incapazes de avaliar a força dos outros.

marcelo barros disse...

A Turquia avançou muito no aperfeiçoamento e modernização de sua sociedade e alcançou níveis louváveis de civilidade e de caráter Democrático. Está na vanguarda dos Países de maioria Muçulmana quando se refere às leis que vislumbram à Liberdade, o Direito e a Democracia. O Povo Turco na sua essência indepentente da origem e credo é um povo maravilhoso,belo na fé(fé islãmica ,cristã...),belo nas tradições, que não tolera perseguições ou injustiças, vindo do jugo religioso ou político.O problema encontra-se: no excesso religioso que é fundamentalista; na falta de memória histórica, do que era, do que foi e do que é o País; de grupos na política que parecem megalomaníacos islâmicos, e querem vender uma imagem do País para exterior que ainda não existe.O mundo quando volta o olhar para Turquia vê um País surpreendente e único,mas o que marca o País e o que o mundo admira é a Herança clássica helênica e Bizantina(tróia,bizâncio,éfesios, constantinopla, Igreja de Santa Sofia etc.., Herança Cristã(antióquia onde pela primeira vez os seguidores de Cristo foram chamados de Cristãos, cidade de Tarso,capadócia,de muitos santos,Martíres e onde a tradição diz que foi refúgio da virgem maria,Igreja de Santa Sofia e muito mais). E mais recente o Império Otomano com seu expansionismo,seus monumentos, suas Mesquitas e Fé. Alguns megalomaníacos do governo e da religião predominande esquece a História dessa região que é a Turquia e aprissionados num cequeira nacionalista absurda,desvirtuada e fundamentalista vão levar o País para o precipício - para um futuro incerto e obscuro. Onde a antiguidade clássica é menosprezada, Igrejas de centenas de anos tranformadas em museus ou em ruínas,cristãos locais subjugados,discriminados e oprimidos,o não reconhecimento e reparações pelos erros do passado(Genocídio Armênio), a invasão da Iha de Chipre, a opressão sobre os Curdos, a falta de liberdade de culto, expressão e consciência no País. Perseguição de jornalista e intelectuais turcos que criticam o Governo chauvinista. Quem sabe meu bom Deus daqui a duas décadas a Turquia saia desse precipício e se torne uma nação em exercício pleno da Liberdade e da democracia, e que também entre na união Européia. Quero um dia visitar As Igrejas e Mesquitas da Turquia e não meros museus.