quinta-feira, 10 de março de 2011

OPTIMISTAS VERSUS PESSIMISTAS...

Acerca das revoltas no Norte de África há várias opiniões sobre o futuro incerto da região em termos de governação. Vão de muito cautelosas, ver mesmo receosas, passando por mais prudentes até francamente optimistas. Entre os optimistas há aqueles que dão como exemplo de estabilidade e democracia muçulmana a Turquia e a Indonésia. Sobre a Turquia falarei mais tarde, mas sobre a Indonésia deixo aqui um vídeo sobre um recente ataque de fundamentalistas muçulmanos a uma aldeia de Ahmadias (minoria muçulmana não reconhecida pelos integristas). Repare-se na presença cúmplice mas supérflua das autoridades policiais da Indonésia.

(Aviso que as imagens são terrivelmente chocantes e não aconselhadas a pessoas mais sensíveis ou a crianças)






Olivier Roy

O famoso especialista francês sobre o Islão, Olivier Roy, deu há dias uma entrevista na Holanda (jornal diário NRC) onde evidencia um enorme optimismo em relação às revoltas no norte de África. Vou transcrever aqui algumas partes. Nesta entrevista Roy não se serviu da Turquia ou da Indonésia como o exemplo democrático a seguir - não sei se alguma o fez anteriormente...

Porque razão a Irmandade Muçulmana se mantém tão reservada em relação a estes acontecimentos?

Porque é um movimento de oposição que não está em estado de tomar a responsabilidade da liderança. Eles sabem que não têm resposta para os problemas sociais e económicos da população. Trata-se de um movimento burguês que não conhece as necessidades da classe operária. (…)

Nos seus livros você fala de uma massa secularizada! Eles não deixaram de ser muçulmanos de um dia para o outro?

Não. São seculares no sentido que não dão muita importância à religião. Eles são maioritariamente crentes, mas não vêm o Islão como uma ideologia política que tudo determina. O processo de islamização no Médio-Oriente avançou. E isso nota-se em todo o lado. Já há moda islâmica, ‘fastfood’ islâmico, transacções bancárias islâmicas. E precisamente porque tudo é islâmico, nada é islâmico. É cada vez menos político, digamos que o islamismo político está trivializado.

Respeito, dignidade, poder escolher é, segundo você, o que eles querem? E não um Islão politizado?

Veja-se o exemplo do jovem tunisino que em sinal de protesto se imolou. Ele era provavelmente um muçulmano, mas a sua acção não foi um acto de protesto religioso. Foi um grito por direitos humanos, não foi um atentado suicida islâmico. (…)

O que é que isto significa para Israel ou para os EUA?

A grande surpresa é que pela primeira vez em 60 anos não se ouviram slogans contra os Estados Unidos ou Israel. Um indicador de maturidade política. Os americanos estão satisfeitos, mas Israel sente-se pouco à vontade. Existia uma paz fria que dava a possibilidade a Israel de se manifestar como sendo a única democracia da região. Isso agora mudou. Israel será no futuro confrontado a democracias árabes e a uma opinião pública árabe com outras formas de nacionalismo.

Al-Qaida disse na Internet que apoia a revolta. Temos então os EUA, a Europa e a Al-Qaida a apoiar a revolta! Confuso?

A Al-Qaida não apoia de maneira nenhuma a revolta. Só diz ser a favor da resistência contra os ditadores. Mas acusa os manifestantes de não se guiarem pelo Islão, partindo na direcção errada. Também o Irão apoia as manifestações, mas não a essência destas manifestações.

Esta revolução vai alterar o papel da Al-Qaida no Médio-Oriente?

A Al-Qaida é um fenómeno marginal no Médio-Oriente. Luta no Paquistão, Afeganistão, Somália e Iémen…. e também no Ocidente. Mas não na Palestina, no Iraque desapareceu, no Egipto não existe e no Norte de África só no deserto. Para ter alguma importância tem que fazer alguma coisa, por exemplo cometer um atentado terrorista algures…

Qual é a sua mensagem para políticos como Wilders que são contra o Islão e alimentam o medo contra o fundamentalismo?

O que está a acontecer no Norte de África demonstra que democracia e Islão não são antagónicos. Esta nova geração de muçulmanos informatizados que apoiam a democracia também existe na Europa. A minha mensagem é que o processo no Egipto e na Tunísia demonstra que os muçulmanos estão-se a adaptar a uma sociedade democrática e secular.

Geert Wilders

Acerca de tanto optimismo, Geert Wilders diz que “acharia fantástico se os Egípcios fundassem um estado secular e democrático," mas avisa que "a coisa pode facilmente ter um rumo completamente diferente. É melhor esperar antes de gritar vitória antes do tempo.” Acrescentou ainda que “há estudos recentes que indicam que 90% da população egípcia acha que mulheres adúlteras devem ser lapidadas e apóstatas enforcados.”

A prudência de Wilders e de outros que pensam da mesma maneira, foi ontem de certo modo confirmada pelas agressões às mulheres que comemoravam o Dia Internacional da Mulher na praça Tahrir (liberdade). Quando não eram agredidas por homens, eram fortemente aconselhadas a ir para casa fazer o tacho e limpar.

Ao mesmo tempo, uma igreja copta era destruída no sul da cidade do Cairo, e as manifestações que se seguiram resultaram em graves confrontos resultando na morte de 13 cristãos coptas e muitos feridos. Um jornalista holandês que se encontrava perto, comentava que não se tratava de confrontos entre cristãos e muçulmanos por uma ou outra razão, mas de um deliberado ataque por parte da população muçulmana que acha que a presença de cristãos coptas (10% da população) no Egipto é um sinal de uma islamização defeituosa.

5 comentários:

EJSantos disse...

Olá CArmo da Rosa. Mais um excelente texto seu.
Sem querer ser optimista tonto (não confundo desejos com realidade) nem pessimista (não confundo receio com realidade), gostaria muito que as coisas no Norte de Africa seguissem um bom rumo.
Mas muita coisa pode acontecer...

O-Lidador disse...

As opiniões de Olivier Roy são já conhecidas. Tem passado o tempo a defender uma tese que a realidade contraria todos os dias, a de que o Islão político está a morrer.

Basicamente o que diz é paradoxal: reconhece uma crescente islamização dos países muçulmanos, mas diz que isso tira poder aos activistas islâmicos.

É como dizer que se todos forem comunistas, o Partido Comunista tem menos poder, pelo que um bom Partido Comunista não teria nenhum interesse em instaurar o comunismo.
No sense!

AC disse...

"E precisamente porque tudo é islâmico, nada é islâmico." Então, por essa via, devo concluir que não havia nazismo na Alemanha... nazista?

Carmo da Rosa disse...

O-Lidador disse: ”… tese que a realidade contraria todos os dias, a de que o Islão político está a morrer.”

A mim parece-me que na Europa ocidental, particularmente em França, o Islão está cada vez mais vivo e de boa saúde! A não ser que ele use a conhecida metáfora da besta ferida de morte, que num espasmo ainda capaz de desferir uma última patada mortal… Muito bem, mas quem leva com a patada –- Theo van Gogh, Atocha (Madrid), Bali (indonésia), Londres, Mumbai, Nova Iorque, etc. -– está-se nas tintas para a teoria. Preferia certamente que a besta estivesse numa jaula ou bem morta…

O-Lidador disse: ”É como dizer que se todos forem comunistas, o Partido Comunista tem menos poder.”

A mim esta parte não me parece assim tão estranha. Em Portugal, como pressupostamente somos todos católicos, somos menos católicos (não há necessidade de afirmação) do que por exemplo os católicos holandeses, que tiveram que defender a sua religião contra o protestantismo. Somos também menos católicos que os Polacos, que tiveram que preservar a sua religião contra outra religião: o marxismo-leninismo. Menos também que os Coptas, pelas mesmas razões…

Assim como os comunistas portugueses, sobretudo os do tempo da outra senhora, eram bem mais comunistas que os habitantes da Europa de leste (desejosos de se porem na alheta). O famoso dissidente russo, Alexander Zinoviev, dizia que “na Rússia não viviam comunistas, só pessoas normais”.

Também os muçulmanos que vivem na Europa são mais radicais (por oposição à cultura vigente, ou por afirmação pessoal, ou por frustração, ou por busca de uma identidade, ou por retorno às raízes, ou simplesmente porque são parvos) do que os outros, os que ficaram na terrinha.

AC disse: ”Então, por essa via, devo concluir que não havia nazismo na Alemanha”

A Alemanha não foi Nacional-Socialista durante muito tempo, por isso a sua comparação não é válida, não tiveram tempo para banalizar a coisa, para a coisa se tornar uma rotina…

EJSantos disse: ”Mais um excelente texto seu.”

SEU? Qual é a razão desta distância formal? Quando nós, em miúdos, andamos praticamente juntos à pedrada no Vilanovense contra os gajos do Candal…

Joaquim Simões disse...

http://aperoladanet.blogspot.com/2011/03/ainda.html