sábado, 12 de maio de 2012

BORGEN

 



 
Lidador: Tanto Hollywood como as séries televisivas incorporam quase obrigatoriamente, os ícones da correcção política.

Talvez, mas temos que reconhecer que por muito más que as produções de Hollywood sejam, conseguem ser bem melhores do que as séries televisivas e filmes feitos na Índia, no Cairo ou na América Latina: uma reaccionarisse pegada, infantil, intragável. Isto para os nossos requintados gostos de gente emancipada e moderna (uns mais do que outros!). Abro uma grande excepção para várias telenovelas – e para alguns filmes também - brasileiras que têm um nível Norte Europeu, como MALU MULHER por exemplo.

Mas o melhorzinho, o último grito em qualidade, são as novas séries dinamarquesas e suecas como MILLENIUM, THE KILLING, THE BRIDGE mas sobretudo BORGEN...

Quero realçar e aconselhar esta última série dinamarquesa como um ‘must’ para quem quer perceber como funciona realmente a política parlamentar num país moderno. A série é baseada em factos reais, só que os nomes das pessoas e dos países foram inventados. Mas toda a gente reconhece os intervenientes políticos e percebe imediatamente que Kharun do Norte e Kharun do Sul se trata do conflito no Sudão.

Não há cá teorias da conspiração nem grandes combates ideológicos (isso é só nos países do terceiro-mundo), a política é feita e influenciada por banalidades, vagos interesses de casta e é muito mais humana do que se pensa...

A carismática e lindíssima dirigente de um partido centrista, Birgitte Nyborg, está em vias de aceitar o cargo de Primeiro-Ministro. Mas antes de tomar uma decisão que vai transtornar completamente a vida da família, pede a opinião do marido e dos filhos. O marido, professor universitário, sente inicialmente orgulho pelo facto da mulher ter conseguido o cargo mais alto da nação, e com um sorriso malicioso exclama: - vamos realmente verte menos vezes, mas por outro lado, a ideia de que o Primeiro-Ministro me vai fazer um bóbó é irresistível...

ISTO É PROGRESSO, CARALHO...

P.S. Para confirmar o que acabo de dizer, o meu corrector de texto, o FLIPMac 4, não reconhece a palavra “caralho”! Será isto possível? Vejo nisto a mão puritana e reaccionária de programadores de Cascais, em todo o caso Mouros…

9 comentários:

O-Lidador disse...

Por acaso li a trilogia Millenium, do Stieg Larsson, bem antes de ter sido adaptada ao cinema.

Uma leitura excelente, que até recomendei a amigos mas, lá está, sem perder de vista que o autor era (já morreu), um activista de esquerda e isso transparece na obra.

Como de resto, os guiões da maioria das séries da Fox (excelentes séries, by the way), revelam a inspiração anti-esquerdista.

E só para o CdR, que parece acreditar que não ser de esquerda é ser inevitavelmente puritano (mais um preconceito caricatural que transparece sempre em quem aprendeu a ler o mundo pela cartilha marxista), terá visto por exemplo, Californication?
American Dad?
Family Guy?
Desconhecidos?
Dexter?

Pois é, é tudo da Fox, esses broncos ultra-direitistas....

Carmo da Rosa disse...

Lidador,

A serie televisiva Millenium transparece realmente algo de esquerda, na figura de Lisbeth Salander, que pode ser vista como uma esquerdista moderna, mas nada de muito doutrinário.

E como é que posso acreditar que não ser de esquerda é ser inevitavelmente puritano (sobretudo com a palavra esquerda ligada a marxismo), quando não me canso de dizer que a Festa do Avante, e coisas do género, são uma pieguice puritana? Quando há bem pouco tempo fiz aqui:

http://fiel-inimigo.blogspot.com/2012/04/abolir-familia.html

uma ligação entre a China (mas não só) marxista e a concepção burguesa e puritana da família?

O-Lidador disse...

Lá está.

É por isso que é importante entender as ideias que subjazem aos factos.

Os marxistas tradicionais não entendem a mulher como uma classe em luta contra o capitalismo. E, especialmente quando no poder, não há razão nenhuma para lutar.
A mulher passa a ser um burro de carga, obviamente. E estas sociedades são o mais conservadoras que é possível, já que a mudança deixa de ser desejável, ou até necessária. Pois se o capitalismo já foi derrotado, chegámos ao paraíso e os amanhãs já cantam.

Outra coisa é a luta NAS sociedades capitalistas. Aí é necessário derrotar o capitalismo e qualquer grupo de indignados serve para explorar contradições.

É aí que entra a NEW LEFT, o tal marxismo cultural que você, porque se calhar ainda não fez um esforçozinho para compreender, tenta caricaturar com salsichas etc.
Mas essas ideias, que você acha pouco importantes, são exactamente aquelas que balizam a sua visão do mundo.
E a de muita gente.

Compreender a sua origem e as suas consequências, é um pequeno esforço que ajuda.

Hà dias, a minha filha, que estuda engenharia e está a milhas da ideologia e da política, ao ler umas coisas, baralhou-se com o conceito de "liberal".
E baralhada ficaria, se não aprofundasse a questão, até perceber que a palavra significa uma coisa no léxico ideológico americano e outra no europeu.

É apenas um exemplo da necessidade que temos, por vezes, de perceber as ideias que movem o nosso mundo.

Tal como você nunca perceberá o que move os muçulmanos se não entender a ideologia que está implicita nos seus textos sagrados.

Carmo da Rosa disse...

Lidador: ”Os marxistas tradicionais não entendem a mulher como uma classe em luta contra o capitalismo. E, especialmente quando no poder, não há razão nenhuma para lutar..”

Quer você dizer: quando os marxistas estão no poder a questão da emancipação da mulher deixa de existir.

Absolutamente de acordo. Os marxistas tradicionais, são sobretudo tradicionais. Ouvi uns zunzuns que o doutor Cunhal era bem mais tradicional e puritano (muito perto do Nivaldo Cordeiro) do que o doutor Salazar em questões de seixozinho.

Lidador: ” Outra coisa é a luta NAS sociedades capitalistas. Aí é necessário derrotar o capitalismo e qualquer grupo de indignados serve para explorar contradições...”

Precisamente. Mas é por isso que considero um erro estratégico a direita tratar todo e qualquer grupo de indignados com desprezo (vide Fiel Inimigo), deixando o campo completamente livre à esquerda anti-democrática, que imediatamente trata de canalizar a indignação – por vezes sincera, outras vezes imaginária – contra a democracia parlamentar, por eles designada de burguesa, a fins ideológicos que acabam sempre em ditaduras. Pior a emenda que o soneto.

Lidador: ” Mas essas ideias, que você acha pouco importantes, são exactamente aquelas que balizam a sua visão do mundo. E a de muita gente...”

Eu acho que não convém exagerar, que é para não causar a mesma inflação que a palavra fascista já sofreu. A esquerda passou a santa vida a chamar fascista a torto e a direito, e agora lixa-se porque a palavra perdeu completamente o sentido. A direita vai pelo mesmo caminho com o marxismo cultural…

Lidador: ”E baralhada ficaria [a minha filha], se não aprofundasse a questão, até perceber que a palavra [liberal] significa uma coisa no léxico ideológico americano e outra no europeu.”

Culpa do pai. Que em vez de dizer a rapariga muito simplesmente que se trata apenas de uma diferença semântica, a mandou – só para evitar que a filha tivesse mais tempo livre para ir ao café com rapazes da idade dela – APROFUNDAR a questão e lhe aconselhou vivamente a ler dois ou três calhamaços……..em inglês! Coitadinha da moça, não há-de a juventude indignar-se e acampar no largo de Camões…

ml disse...

A Salander de esquerda? O Blomkvist ainda formula alguns conceitos, agora a Salander é essencialmente uma justiceira, uma superwoman sem qq preocupação política. Move-se essencialmente por motivações pessoais: contra criminosos abusadores de mulheres, contra o tutor, contra o pai - tudo o que pessoalmente lhe toca. Mesmo na aventura aparentemente social - como a do empresário que explora mão-de-obra infantil - o que a faz mexer é o paralelismo com o abuso a que esteve sujeita enquanto criança sob tutela. E por fim até lhe fica com a fortuna, que deu um jeitão para levar para a frente o plano.
Eu diria o contrário, apesar de o Stieg Larssen ter sido um jornalista de esquerda, há na trilogia uma fortíssima crítica aos abusos do estado social e ao funcionamento e corrupção nas polícias. É que ser de esquerda tb é isto, manter os olhos abertinhos...


APROFUNDAR a questão e lhe aconselhou vivamente a ler dois ou três calhamaços

eheheheh... Muito ao jeito do camarada-geral. Citar a torto e a direito, mesmo que os autores estejam a milhas do que ele quer provar. Isso e as tais mentirolas e mudanças repentinas de assunto para evitar respostas. E censurar o que não lhe convém, claro, 'na minha casa'... Se o ridículo matasse...

ml disse...

'Borgen' ainda cá não chegou, pelo menos que eu me tenha apercebido, mas já passou 'Killing', uma série dinamarquesa. O espírito é o mesmo, o século XX já lá vai, e então a Renascença...

Carmo da Rosa disse...

ML: ”Move-se essencialmente por motivações pessoais:…”

Tem razão, é isso mesmo, tirando o uniforme punk, em que se pode ver nela uma anti-globalista, as motivações são realmente pessoais. Disse o que disse muito depressa, e também não quero ser sempre do contra…

The Killing é uma excelente série policial. Muitos actores do THE KILLING reaparecem em BORGEN: O mau da fita no The Killing II, o inspector que gostava da inspectora Sarah Lund, é o marido da P.M.; o pai, que tem uma empresa de mudanças e perdeu a filha, é um político social-democrata; o inspector bom rapaz que é assassinado (pelo mau, depois marido no Borgen), faz de redactor em chefe de um programa influente da TV sobre política.

THE BRIDGE é também um policial e muito parecido com The Killing. Mas tem um contraste de caracteres fantástico entre um inspector dinamarquês bonacheirão, simpático e pragmático e uma inspectora sueca terrivelmente rígida de princípios, incapaz de socializar, quase autista. Uma figura extraordinária (fiquei imediatamente apaixonado por ela)…

Os dois estão condenados a trabalhar juntos porque se trata da PONTE que liga a Dinamarca à Suécia, e o local do crime (mulher cortada ao meio dentro de um carro) encontra-se precisamente a meio da ponte.

PS A série BORGEN também ainda não chegou à Holanda - ouvi vagamente de amigos que já passou na BBC -, vi em DVD porque foi oferecida à minha mulher.

O-Lidador disse...

Como vê, CdR, não posso vir a sua casa sem levar com caroços.

Por isso, esta é mesmo a última vez que cá venho.
Lamento!

ml disse...

A Salander é mais gótica, mas esses uniformes são muitas vezes uma moda como qq outra. Há os punks, os góticos, os metaleiros, os emos, todos com fatiotas próprias. Embora haja uma ligação estética a certos movimentos e filosofias, em muitos casos os trapinhos começam por corresponder mais a gostos musicais. Depois podem saltitar e uma coisa acaba por arrastar a outra. Se eu tivesse que definir a Salander diria que é niilista, mas acho que nem ela sabe o que isso é. É uma heroína que é enterrada viva e consegue sair da cova, essa é que é essa...

'The Killing' aqui vai na repetição mas não deve tardar uma nova série. Ou então fui eu que pensei tratar-se de revisão da matéria e já perdi o 1º episódio da 2ª série.
Também existe uma ligação à Suécia, a Lund está sempre em vias de viajar mas o crimezinho retém-na em Copenhaga. Aliás penso que há uma corrente forte entre todos os países escandinavos que vem frequentemente ao cimo, só a Finlândia foge um pouco pela história e língua.

'The Bridge' também ainda não chegou ao burgo. É a ponte que liga a Malmö, então. Eu fui de ferry para Göteborg a partir de uma localidadezinha dinamarquesa com um nome parecido mas de que já não me lembro bem. Pareceram-me o mesmo nome em duas línguas diferentes. A cidade dos Godos! E lembrei-me logo da madame Merkel mas essa é mais teutónica.