quinta-feira, 17 de maio de 2012

O rendez-vous do troglodita - 3



Matisse, La danse


(...)

A Mulher, tal como o Homem, como se sabe, não existe neste mundo. Quando muito, padrões com uma raiz comum, por sua vez detectáveis em conjuntos de raízes secundárias — todas elas, afinal, individualizáveis. Descontando os casos claramente patológicos, há, nesse plano, diferentes tipos de indivíduos, homens e mulheres: os sexualmente mais activos do que os outros; os mais espontâneos na exteriorização dos seus afectos ou apetites do que os outros; os que diversificam mais a prática com que os concretizam e na utilização do seu corpo do que os outros. E um dos enormes problemas que hoje existe em termos de coesão social, porque aliado à maior liberdade individual e a consequente menor pressão social, é precisamente o facto de a noção de família não acompanhar essa mesma realidade inegável e soberana, continuando a sua constituição a ser regulada e controlada pelo Estado, seja em nome de uma moralidade resultante do preconceito, da ignorância ou do receio, seja por meras questões de fiscalidade. Se é imprescindível que a família constitua o garante de uma sã continuidade da humanidade futura é necessário reinventá-la, sem, no entanto, ao mesmo tempo poder por um momento esquecer os elementos que tornam o “átomo” familiar no local por excelência de um desenvolvimento equilibrado dos membros da espécie. E isso implica a presença imprescindível de membros de sexos diferenciados, sem o que a escolha de modelos não funciona com a necessária normalidade. Porque os padrões existem mesmo, não são apenas de natureza cultural.

Um dos erros dos sixties foi inferir que, como a maioria se encontrava impedida de expor livremente a dimensão da sua sexualidade (subliminarmente identificada com a imagem da sexualidade abrutalhada com que a “ciência” positivista quis indrominar até os animaizinhos) todos estávamos reprimidos sexualmente e que todos desejávamos a mesma medida de actividade sexual. Quem não aceitasse um convite estaria certamente com bloqueios na cabecinha devido à influência da ssciedade. Essa atitude ajudou, de facto, muita gente a assumir melhor a sua vida, mas como nada é perfeito, ajudou também a gerar mais confusão. Nas mulheres como nos homens. É o problema da esquerda, mesmo da mais liberal, o do pronto-a-vestir. Tanto mais desejariam que o mundo fosse e se comportasse à sua medida, tanto mais absolutizam o que não é absolutizável.

Em si mesmo você encontra esses resquícios, quando, por exemplo, ainda recentemente, num comentário que fez já não me lembro de a quê, dizia que há (como, aliás, toda a gente saberá desde o tempo das cavernas, nisso não deu nenhuma novidade) raparigas que se fazem aos homens mais velhos; mas que as que não o fazem  — sugeria — era porque ainda tinham macaquinhos no sótão. Meu caro, se há mulheres, jovens ou menos jovens, que gostam de homens mais velhos, há outras a quem o pezinho não foge para aí — e você tem que o aceitar. Em primeiro lugar, porque não cabem na vertente erótica que lhes agrada e as motiva, preferem o vigor à experiência, que esta logo se ganha; em segundo lugar, porque, ao contrário das outras, o sabor da pele menos fresca ou o ranço que o tabaco e o álcool acrescentaram a essa menor frescura de pele e de hálito, por exemplo, as desmotivam; em terceiro lugar, porque a visão de um par de bochechas, agora flácidas, balouçando por cima do seu rosto, não é propriamente uma visão que ajude ao clímax — e nem sempre lhes apetece estar por cima; em quarto lugar… e por aí fora. O mesmo para os rapazes, é claro. Descontando estas nuances, confesso-lhe que, pelo que me toca, as mulheres abaixo da quarta década, com raras excepções, não me motivam por aí além: faz-lhes falta a experiência necessária a uma dimensão de erotismo que só as vivências de um maior tempo de curtição pela vida proporcionam. Diria quase, como não sei quem que outro não sei quem citava noutro dia: mulheres, só com certificado de menopausa. Mas já cá volto, à questão do erotismo.

Continuando: há poucos dias, fazendo zapping, apanhei num telejornal qualquer, creio que o da TVI, uma peça sobre a crescente expansão do modo de vida swinger em Portugal e os problemas psicológicos que algumas mulheres apresentavam devido a ele. A sexóloga de serviço da comunicação social cá do jardim, Marta Crawford, a quem o jornalista perguntou o que sabia do assunto, respondeu: “Eu acho que sim, que traz problemas, pelo menos esses são os casos que me chegam. Mas o facto é que está em expansão, portanto parece que as pessoas não se sentirão tão mal, senão…”. Por outro lado, tempos atrás, novamente fazendo zapping, desta vez na SIC Radical, uma habitante do Bunny Ranch, respondeu à pergunta do entrevistador sobre se as raparigas que ali estavam se mantinham lá a contra-gosto, respondeu: “Sabes, isto é como em todas as profissões: quem não se sente bem com o que faz, anda contrariado, acaba por ir-se embora, mais tarde ou mais cedo…”. A enfermagem não é vocação de toda a gente, mas só de alguns, que o diga a enfermeira-chefe Nightingale. Por mim, nada tenho contra a diversidade desde que ela não seja resultante do arbítrio de alguém sobre outrem.

A propósito, já reparou que uma das fantasias mais populares entre os clientes das prostitutas é vê-las vestidas de enfermeiras? Pelo menos, sugerem-no muitos dos anúncios “eróticos” dos nossos jornais diários. Não é apenas a Grande Mãe da espécie, é a mulher que cura, pelo carinho, aquilo que está subjacente na fantasia. E é mais: é algo que Georges Bataille muito bem ressalta num dos contos que li numa edição em livro de bolso, que juntava Madame Ewarda e Histoire de l’oeil a um outro, de cujo título não me recordo. Como se o doente no seu leito parecesse ter um efeito desinibidor e catalisador da pulsão sexual, como se o instinto de sobrevivência, de “persistência no ser”, como diria Espinosa, se levantasse contra a morte não só da parte dele como dos que dele estão próximos. É verdade. Soube-o, ainda criança, quando estive perto de morrer. E isso leva-me à questão — vital! — do erotismo.

Não foi arbitrariamente que os historiadores relacionaram o início da História da humanidade com a presença de monumentos funerários. O animal assusta-se com a morte, não se espanta porque não tem instrumentos mentais para reflectir sobre ela. Um primata, como o chimpanzé, é capaz de operar sobre os dados fornecidos com um nível de eficácia igual à de uma criança entre os seis e os dez anos, mas é incapaz de um da auto-reflexão a que se liga a linguagem humana desde o ano e meio de idade. Apesar de ter um aparelho vocal que lhe permitiria falar, o animal não fala, sinaliza situações, tal como um trovão é um aviso de que estamos em presença de uma trovoada. A noção de tempo é-lhe estranha: um cão é capaz de se aperceber do ritmo e, por isso, continuará a ir mecanicamente esperar o dono à mesma hora durante anos, após a sua morte; mas não se conseguirá fazê-lo compreender ordens do tipo “daqui a dois dias, vais buscar-me os sapatos” ou “amanhã, levas as ovelhas para ali”. A noção abstracta do tempo — do ontem, do hoje e do amanhã —, isto é, a capacidade de nos projectarmos no futuro, de nos planearmos, apenas se nos desenvolve, aliás, a partir dos sete anos. E a capacidade de nos pormos no lugar do outro, de imaginarmos o que sentiríamos se nos encontrássemos na pele de outrem, isso só a partir dos onze. A capacidade de avaliarmos o prazer e a dor do outro, de nos identificarmos com ele, ainda mais inacessível é ao animal, porque incapaz da operação que o poria ao nível de se distanciar de si mesmo, de se pôr em causa a si próprio.

A necessidade que o ser humano tem de mudar sem, para isso, ser forçado pelas circunstâncias, é resultante dessa capacidade de autoconstrução. Fazemos vários tipos de casas, de diversíssimos padrões estéticos, independentemente das necessidades específicas que todas elas, no seu conjunto, procuram satisfazer. Da mesma maneira que não existe apenas um ritual de acasalamento para toda a humanidade ou sequer para cada cultura, não existem dois de nós com os mesmos exactos gostos e desgostos amorosos. Mas é esta mesma diversidade que acaba por construir uma outra unidade, intrínseca à espécie humana. Espécie, note-se, que tem a particularidade, rara no reino animal, de os atributos de chamariz sexual estarem concentrados predominantemente na fêmea e não no macho. Uma coisa, porém, é o ritual de acasalamento, mais padronizado enquanto, até certo ponto, biologicamente condicionado; outra, o erotismo, que é algo muito mais simultaneamente lato e individualizado e que permeia o acasalamento humano.

Atribuir um significado à vida e, em geral, ao que nos acontece e fazemos, discutindo-o e partilhando-o com os nossos semelhantes, é o que essa mesma capacidade de viver para lá do momento e da circunstância imediatas nos permite. Fora do tratar do preço das bananas na mercearia e do comê-las em maior ou menor quantidade, é isso que nos transforma em homens e nos distingue dos macacos. O erotismo assenta nisto mesmo, na capacidade de conferir significado e, logo, de reinventar e estimular o acto amoroso numa gama quase infinita de modos. Nesse sentido, acrescentaria eu ainda, da mesma forma que a criança humana se prepara para a vida brincando ao faz-de-conta e, assim, ao desenvolver a imaginação, multiplicando as soluções e as possibilidades de sucesso de vir a ter mais prazer na vida do que dor, também o sexo se muda, no adulto, na brincadeira em que a autoconsciência, a consciência da finitude da existência (o amor e a morte desde sempre se ligaram estreitamente nas nossas mentes, conforme o testemunha abundantemente a arte em geral), a necessidade de atribuição de sentido às coisas e a capacidade de nos imaginarmos na pele alheia constituem um aspecto fundamental do salto qualitativo (e não de mera quantidade) que a nossa inteligência constitui em relação à restante inteligência animal. O erotismo é o que nos torna humanos.

Podemos encontrar erotismo em todo o lado. Matisse, um dos pintores por excelência do erótico, confessava-se apaixonado por uma cadeira que encontrara nos mares do Sul. E, quando nos esquecemos da moca positivista, achamos risível e amacacado o tipo que firma o pé na parede a fim de melhor ganhar balanço para “lhes saltar para a cueca” — lembro-me, a este propósito, de um empregado de mesa “engatatão” e que “não perdia uma”, mas que, quando eu, em conversa, brincava com ele por causa de um dos seus “engates” mais recentes, me dizia, entre o irónico e o quase melindrado, que não iria “levar uma mulher para a casa de banho, há um mínimo que se deve a uma mulher”. Até ele, meio analfabeto e, por isso, supostamente por muitos meio-bruto, tinha essa noção do que às mulheres se deve, de um “significado” por mais tosco que seja. F…, f… todos, mais ou menos, homens, animais e plantas. Mas eróticos, só nós, mais nenhuns, porque só nós saltámos da cueca para o significado — da cueca inclusive.
(...)

3 comentários:

O-Lidador disse...

Muito bom!

No fundo, o que nos move, como animais, são as poderosas forças do sexo e da morte, Eros e Tanatos, a estratégia não racionalizada, de escapar à morte e ao tempo, espalhando ao máximo os genes que assegurarão a continuidade.
Mas sobre isso paira a cultura, que suaviza, estiliza, enfeita, humaniza, embeleza.

Colocar apenas o ênfase na primeira, é apenas encarar-nos como mais uma "besta sadia, cadáver adiado que procria".
E nós somos bastante mais do que isso.
Para começar, como diz o Gonsalo, cada um de nós é um indivíduo...

RioD'oiro disse...

Bem explicado.

Boa.

Carmo da Rosa disse...

José Gonsalo: ” Em si mesmo você encontra esses resquícios…”

Este ”você” do início do terceiro parágrafo refere-se à minha pessoa? E em caso positivo e no seguimento do seu raciocínio eu teria dito que: (como, aliás, toda a gente saberá desde o tempo das cavernas, nisso não deu nenhuma novidade) raparigas que se fazem aos homens mais velhos; mas que as que não o fazem — sugeria — era porque ainda tinham macaquinhos no sótão.

HUUUUUUUUUMMMM, não foi por acaso o meu irmão?

José Gonsalo: ”A propósito, já reparou que uma das fantasias mais populares entre os clientes das prostitutas é vê-las vestidas de enfermeiras? (..)Não é apenas a Grande Mãe da espécie, é a mulher que cura, pelo carinho, aquilo que está subjacente na fantasia.”

O que está mais subjacente na fantasia não será o servilismo? O mesmo se passa em relação à criada (para todo o serviço!), à rapariga que nos serve à mesa, à hospedeira de bordo, à mulher que aspira o quarto do hotel.

José Gonsalo: ” F…, f… todos, mais ou menos, homens, animais e plantas. Mas eróticos, só nós, mais nenhuns, porque só nós saltámos da cueca para o significado — da cueca inclusive.”

Sim, tudo bem, mas fora o macaco, quem precisamente f…… sem erotismo, mecanicamente?