quinta-feira, 9 de junho de 2011

Envelhecendo


Dizia Caetano Veloso, tempos atrás, ele que já está muito perto dos setenta anos: “Envelhecer me interessa e me aborrece”. Não será muito difícil descortinar porque o aborrece ser velho; mas uma das razões pelas quais o envelhecimento é do interesse, não apenas dele, mas de todos nós, é por só nessa altura da vida nos apercebermos de que aquilo que, quando jovens, julgávamos real e radicalmente novo, não o ser verdadeiramente. E entender mais a fundo aqueles versos finais do poema de Brecht, a propósito do avanço do nazismo na sua Alemanha: “As novas antenas continuam a difundir as velhas asneiras / A sabedoria continua a passar de boca em boca”. O que é também, em certa medida, motivo de aborrecimento.

Há, assim, histórias que, ao som das agitações do presente, se agitam, por sua vez, no fundo da memória, ajudando-nos a ter uma ideia da corrente que as entrelaça. E o distanciamento que tal provoca na nossa mente, permitindo-nos perspectivar tudo como se estivéssemos num plano que se estende para lá do tempo, é o que se encontra na origem do humor e da bonomia característicos de muitos daqueles em quem a vitalidade entrou em fase de abrandamento. Mas também em muitos outros, que ainda não a iniciaram.

Foi uma dessas histórias que, noutro dia, me acenou à tona de um consciente criação Primavera-Verão 2011, de Herr Freud, reforçando o chamamento com um sorriso prazenteiro e uma piscadela de olho, por mim retribuídos com uma pequena gargalhada que levou o vizinho da mesa do café do lado a inquirir-me discretamente, pelo canto do olho, tentando localizar no meu ouvido algum auricular que a justificasse. Não tendo detectado nada, mas, com certeza, lhe parecesse que, apesar do sucedido, eu seria perfeitamente inofensivo, voltou a fixar-se, tranquilamente, nas leves ondulações da folhagem das árvores em frente ou naquilo que elas, por sua vez, lhe fariam brotar de um sub-consciente de igual proveniência, deixando-me à vontade para desfrutar - porém, agora de modo mais cautelosamente subtil - de uma companhia há tanto tempo ausente. E, porque hoje nada tenho para fazer, decidi trazê-la para o meio do mundo, que ele não há coisa mais aborrecida e sem graça do que o prazer solitário.

Passou-se há exactamente trinta anos, no Verão de 1981. Juntei-me a um grupo de amigos que decidira percorrer a área de Coimbra e de parte da Beira Baixa do Portugal pré-autoestradas, durante duas semanas. Fomos de parque de campismo em parque de campismo, recordo-me de ter pernoitado em Coja e em Penacova. A dada altura, um deles recordou-se de que, por aquelas bandas, vivia um amigo, numa quinta comunal. Dava para acampar por lá e sempre se poupava umas c’roas.

O movimento do “regresso à natureza” vicejara em tons e formas psicadélicas entre os hippies dos EUA de extracção urbana, década e meia antes, alastrara à restante América e à Europa, e o Portugal filho de Abril não fora excepção. Comunas formadas por cabeças em que os ideais da beat generation se mesclavam com os da esquerda libertária e umas quantas ideias colhidas na rama do misticismo oriental, praticavam agricultura biológica em terrenos comprados por tuta-e-meia a proprietários falidos, ou herdados por algum ou alguns dos seus membros.

Muitas dessas quintas eram visitadas e apoiadas pelo “auxílio internacional”, quer sob a forma de grupos que vinham ajudar na faina agrícola quer de dinheiro recolhido entre os militantes dos países ricos, que, por sua vez, o exigiam aos pais, servos alienados de uma sociedade desumanizada. Embora esses militantes não possuíssem os conhecimentos necessários para levar a cabo as tarefas a que se propunham e, na maioria vezes, acabassem por danificar ou, até, arruinar as poucas e incipientes culturas ou os produtos delas resultantes, em todo o caso, dessa militância ressaltava sempre, glorioso, o objectivo principal dos seus esforços: a confirmação e a consagração do espírito revolucionário e a promessa, para breve, de uma nova aurora do mundo.

A quinta, onde chegámos finalmente ao fim de quase um dia de errância pelas serras (telemóveis e GPS ainda não haviam sido sequer inventados), e onde C., o amigo do nosso amigo, estava sozinho (os “camaradas” mantinham arreigadamente o desprezível vício burguês de passar Agosto em cama de areia à beira-mar, mesmo com prejuízo da Revolução biológica) era um dó-d’alma para qualquer agricultor que se preze. Contudo, olhando para ele, perante como que um halo que, envolvendo-o, envolvia também tudo em volta, era-se de imediato dissuadido de qualquer possível alusão a essa evidência. O C. era bom tipo e fiquei convencido de que, de facto, ele não vivia ali, mas noutro sítio qualquer para onde a sua imaginação o transportava diariamente. Bebi - bebemos - uns copos com ele e, com isso, a coisa foi para baixo. Afinal, havia pílulas ainda mais difíceis de engolir.

Foi então que, no meio da conversa à lareira, surgiu um outro “camarada”, um rapaz dos seus vinte e alguns anos (o C. andava na casa dos quarenta), vivaço, com um ar um bocado esgrouviado e o olhar de quem, se não a pregou, está para a pregar - o C. tinha um ar mais sério, mais militante, embora não lhe faltasse sentido de humor. O rapaz, cujo nome esqueci e que, por isso, passarei a referir como R., ficara para o ajudar, embora com intermitências, porque, caramba!, estávamos no Verão. Feitas as apresentações, sentou-se ao pé de nós e acrescentou o convívio.

Passado algum tempo, esvoaçavam as palavras, nem sempre em voo escorreito devido a qualquer grãozinho que se colara a uma ou outra asa, quando o C., apontando o gargalo da garrafa para o R., disse (reproduzo de memória):

- Este tipo - e abanava a cabeça, a rir - este tipo é doido…!

Ficámos todos à espera do seguimento.

- É doido, é! - E continuava a rir e a abanar a cabeça - Conta-lhes lá, conta…! - dizia, dirigindo-se ao R..

- Oh pá, conta tu… Já que começaste… - retorquiu o R., meio embaraçado pelos nossos olhares expectantes, mas não o suficiente para esconder que, no fundo, se sentia deliciado consigo próprio.

- Este gajo - continuou então o C. - anda metido nisto há muito tempo, desde puto. - E não parava de rir.

- Eu p’r’aí desde os vinte anos que ando a fazer agricultura em todo o lado onde posso - começou, afinal, o R.. - Porque é preciso voltar à vida natural, pá! As pessoas devem voltar a cultivar a terra, comer aquilo que eles próprios produzem! Mas tudo natural, pá!

- Este gajo vivia em Lisboa, com a mãe - acrescentava o C., sem conseguir travar o riso.

- Pois… Eu vivia em Lisboa, com a minha mãe e o meu padrasto, num andar. Não tinha terreno. Eles não percebem nada disto, estavam-se a cagar…

- E então… - gargalhou o C..

- Pá…! - desfechou ele, com o sorriso de quem não teria podido fazer outra coisa - Uma vez, em que eles foram de férias, arranquei o soalho todo da casa, levei para lá terra e transformei o andar numa horta.

Só o riso casquinado do C. se ouvia no silêncio atónito que se fez de repente.

Já não me lembro quem foi que perguntou, hesitante, quase a medo:

- E a tua mãe…?

- A mãe dele… - disse o C.. E não disse mais nada porque redobrara o riso.

- Pá… a minha mãe… ia-lhe dando uma coisinha má - respondeu ele, com um sorriso orgulhosamente maroto, o sorriso de quem cumprira o seu dever, mesmo contra tudo e contra todos. - ‘Tava a ver que ainda ia para o hospital. Mas olha… Depois, vim-me embora. É preciso dar a volta a esta coisa toda, pá!


Agora digam lá a que propósito é que eu haveria de me lembrar disto…! Por me sentir velho, seguramente. Não sei é se foi por interesse ou se por aborrecimento.

6 comentários:

Calhordas disse...

Admiráveis comentários.
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Será da censura?

Carmo da Rosa disse...

Jose Gonsalo disse: ”O movimento do “regresso à natureza” vicejara em tons e formas psicadélicas entre os hippies dos EUA de extracção urbana, década e meia antes, alastrou à restante América e à Europa, e o Portugal filho de Abril não foi excepção.”

Precisamente, mas o mais engraçado é que a maioria dos psicadélicos não compreendem que ser hippie (fingir de pobre) numa sociedade extremamente rica, como era na altura os EUA e a Europa do Norte, era um acto revolucionário. Mas quem fingisse (e alguns ainda o fazem actualmente) de pobre num país pobre como Portugal, era apenas um ‘looser’. Por isso é que a moda no nosso jardim nunca pegou…

Fantástica história caro Gonsalo, você é que é ganda. Fartei-me de rir. Adoro estas revelações pessoais contadas com tanto humor, que ao mesmo tempo aliviam de tanta ideologia…

PS. Não se espante tanto com o R. O artista plástico e arquitecto austríaco Friedensreich Hunderdwasser, que já nos anos 50 se insurgia contra o racionalismo na arquitectura, criou uma corrente própria: arquitectura ecológica, lembra o catalão Gaudi. Em que não se vê uma linha recta e o chão das casas – visitei uma em Viena –, tal como na natureza, não é plano, mas aos altos e baixos! Vale a pena uma visita, ou uma voltinha pela Wikipédia (a britânica, porque a portuguesa não tem nada sobre o assunto).

O-Lidador disse...

Soberbo!

José Gonsalo disse...

Carmo da Rosa:

Pois, o R. foi protagonista de um dos momentos memoráveis produzidos pelos R.'s deste mundo.
Quanto ao Hunderdwasser, creio que já vi na tv algo sobre ele e que lhe achei muita piada do ponto de vista estático, fora o lado pouco funcional. Mas não tenho a certeza. Vou ver a Wikipedia britânica. Obrigado pela sugestão.
Abraço.

José Gonsalo disse...

Lidador:

Obrigado pelo apreço por algo que me surgiu "num dia em que me achei mais pachorrento", como diria o Bocage.
Abraço.

José Gonsalo disse...

Carmo da Rosa:

Queria eu dizer "do ponto de vista estético" e não "do ponto de vista estático", obviamente. Não foi ironia. :)