segunda-feira, 30 de abril de 2012

Da surdez no clítoris - 5




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Louçãs e Fazendas já não são adolescentes, já perderam esse trunfo eleitoral da rebeldia juvenil incitadora das “massas”. E o que propõem, por mais que alteiem a voz, esbracejem e se contorçam histrionicamente na Assembleia ou se multipliquem em exemplos de propaganda política criativa e anticonvencional, cada vez menos encontra audiência e receptividade. Passados os primeiros anos de fulgor e crescimento, começam lentamente a declinar e afundar-se na inocuidade. Mas há uma parte dessa “plêiade” da intelectualidade revolucionária (por força dos tempos, cada vez menos atacada pelo quadradismo mental do “revisionista” PC) cuja influência — embora quase invisível, na medida em que se confunde com a luta pela observação dos três princípios enformadores da civilização ocidental que referi e, por tal, permeia e se insinua naquilo que a ela própria se opõe — é maior e mais representativa, ao mesmo tempo, do que resta da esquerda e daquilo em que ela se tornou: falo do movimento Política XXI.

Desfeita a sovietização no Leste europeu; desmembrada a URSS; extinto o Pacto de Varsóvia; a crista cubana à banda; desvendada a miséria dos territórios em que se aquartelava o socialismo; Pequim a todo vapor, mas agora graças à sua efectiva rendição ideológica disfarçada de admissão de um “segundo sistema”… A esquerda da mentira disfarçada com a farronca, acossada, pouco mais pôde fazer, até hoje, do que defender o vão de escada político e ideológico a que ficou reduzida. Com isso, porém, fez avançar num movimento — só na aparência — paradoxal a esquerda que sempre procurara menosprezar e aviltar: a esquerda dos direitos e liberdades das minorias culturais, do universalismo humanista, do multiculturalismo como tarefa, etc., etc., gerada pelos sixties. Ser a favor da revolução sexual e da liberalização de costumes, ser respeitador das restantes culturas, costumes e religiões e questionar ou contestar, a partir delas o que fosse ocidental, ser militantemente (na rua ou no café, no sofá ou na cama) pelo amor e pela paz no mundo era, nessa época”, para quase todos, ser “de esquerda” ou, pelo menos, “progressista”. Uma “outra esquerda”, entenda-se, expressão que se mantém por deformação das vias do pensamento consequentes ao domínio da vulgata conceptual marxista.

Essa esquerda, contudo, institucionalizara-se já, note-se, nos países nórdicos e anglo-saxónicos e, em geral, na Europa ocidental e nos USA, sobretudo no plano da educação. Foi nesta que os seus teóricos estabeleceram os seus quartéis-generais e criaram os seus ninhos; educar para o Homem Novo, minar o “sistema” pondo a escola ao serviço da contestação foi a estratégia seguida. Do mesmo modo que Marx e Engels, numa época em que lhes era impossível utilizar a imprensa, tanto por falta de meios financeiros e de distribuição como de oportunidades, escolheram as associações populares para disseminar a “fé comunista”, os socialistas de horizontes alargados viraram-se para o ensino, onde mais facilmente pregaram e impuseram a educação “humanista”, virada para os amarfanhados “aprendentes”, alvos de contínua agressão opressiva na sua aprendizagem e desejo de saber. As preocupações democráticas do Ocidente constituíram assim o terreno onde, insinuando questões sofisticamente ligadas à liberdade individual, essa mesma democracia tem vindo a ser atacada a pretexto de melhor a consolidar e alargar por meios pedagógicos. E, o que é pior, frequentemente com as melhores intenções por parte dos eternos “idiotas úteis” de serviço.

Os filhos e os netos do Dr. Benjamin Spock (o tal que hoje se sabe, por portas travessas, arrear nos alunos à surrelfa, de vez em quando) tornaram-se assim a intelectualidade arauta dos três princípios de fé da cultura ocidental que procurei evidenciar, oficiada por um aparelho conceptual de raiz marxista aplicado às questões trazidas ao Ocidente por um desenvolvimento técnico-científico vertiginoso, sem paralelo na História humana, e respectivas mutações económicas e de dinâmica social. Chegara a hora da entrada em cena e do protagonismo da nova esquerda, redentora dos pobres e dos oprimidos, humanista, tolerante: chegara a hora do “politicamente correcto”. O seu mimetismo com a cultura ocidental é de tal maneira eficaz que nem os comunistas de antanho conseguiram furtar-se a vergar-se e obedecer à sua influência.

Louçãs e Fazendas podem desaparecer, portanto, que Política XXI se dissemina por todo o lado, mesmo sem nome mas com nomes, pelo PS, pelo PSD e até pelo CDS. Não precisa mesmo de designação para se manter e sobreviver — sempre, é claro, em eternas guerras de poder e de prestígio como é típico de qualquer organização que, como o marxismo, tenha o modelo de seita. Mantém-se e sobrevive porque venceu a democracia, envenenando-a com as suas próprias armas, garantiu audiência e militância porque lhe formatou a mentalidade e os instrumentos do pensar através da escola, da comunicação social, da cultura. A esquerda já não se acoita agora nas pretensas conquistas económicas, no incomparável desenvolvimento e na fuga dos proletários ao jugo capitalista. A esquerda caminha agora na própria origem com que justifica a sua existência: a da abertura de novas vias que levem ao aparecimento do Homem Novo sem necessidade de qualquer golpe armado — embora, em última instância, não o rejeite. Já não premedita, acaba por ser quase sincera. Tornou-se "natural" porque é cultural.

E, para isso, basta-lhe — para além do não abrandamento do seu discurso tradicional sobre os crimes da burguesia, é claro — passar a defender cada vez mais os direitos das minorias reveladas ou formadas no âmbito das transformações do Ocidente, tratando a excepção no mesmo nível da regra e, no seu discurso, transformando esta numa quase excepção (sem esquecer, o resto do mundo, quase todo ele transformado, da China ao Médio Oriente, passando pela África e pela América Central e do Sul, numa espécie de enorme minoria étnica). Por exemplo, fazendo perspectivar a individualidade sexual como um papel induzido socialmente ou, de outra maneira: eliminando a noção de indivíduo dotado de estrutura e vontade construtora de si e substituindo-a pela do ser humano enquanto mero produto e joguete de forças colectivas a quem, com as melhores intenções, é preciso desbloquear a mente para outros horizontes. Lembro-me sempre, a este propósito, dos costumes de uma tribo da Papuásia, Nova Guiné, referidos pelo Professor José Gabriel Pereira Bastos, do curso de Antropologia da Universidade Nova de Lisboa, para grande choque dos alunos (alguns saíam da sala). Nessa tribo, os homens vivem à parte das mulheres; e raptam os rapazes à medida que eles atingem uma determinada idade, para os levarem para junto de si, justificando-o com a crença de que, para se tornarem adultos fortes e saudáveis, terão que beber bastante esperma.

Mas não só. Na sua ânsia de reinar, a pretexto da libertação de tudo o que possa cheirar ou ser apresentado como opressão com base no preconceito cultural ou outro, aceita discutir, com ar sério e quase sempre composto, coisas como a existência de uma cultura própria de cegos, de surdos ou de coxos, mistificando e relativizando, desse modo, a noção de cultura e dando azo a que possa vir a serem cometidos crimes como o que este casal de lésbicas pretende fazer. Ultrapassa o querer transformar em normalidade o que é excepção, por apelo à dignidade desta: chega a querer dar estatuto de honestidade à discussão sobre se um acto hediondo é, afinal, um acto belo; se um egoísmo criminoso é, antes do mais, um benfeitoria (sem esquecer no que tem resultado a justiça “humanista” e de quanta injustiça, violência e criminosos impunes dela têm resultado). O “humanismo” desta nova esquerda traduz-se num banditismo ideológico instaurador da maior ditadura que a Humanidade poderá vir a conhecer, imensamente superior à que os nazis chegaram a instaurar na Alemanha.

Para terminar, Carmo da Rosa, um apontamento. Que outrem haverá mais paradigmático dessa “nova esquerda” e da sua vitória do que o dirigente máximo do país onde Spock pontificou, do país do “politicamente correcto” instituído até à náusea? Que exemplo maior de hipocrisia e arrogância assente em contradições demagógicas do que o sr. Barack Obama? Obama é a típica esquerda moderna, a esquerda “de sucesso” que ascende ao poder melifluamente como desejo de justiça e liberdade para as minorias (não interessa quais) e que se apoia, não somente nas existentes mas ainda descobrindo outras, novas, nem que para isso, tenha que incentivar a convicção da sua existência. A esquerda que é permissiva para melhor dividir, a pretexto de unir, e assim reinar.

Certamente que Obama não conhecerá este casal de lésbicas surdas (ou já teremos que lhes chamar “inauditivas”?) nem muitas outras existências minoritárias. Ele é, porém, o “progressista” à sombra do qual a esquerda — a“esquerda esclarecida”, entenda-se — cria e consolida o seu domínio. E que, tal como todos os colectivistas da História, tem agido pragmaticamente “à direita”, sempre que a realidade o faz engolir, sem pestanejar, as convicções ideológicas e as medidas a tomar que propagandeou para chegar ao poder — por cá, houve quem, anos atrás, metesse “o socialismo na gaveta”. Porque Obama não é apenas um agente dessa esquerda: isso é, uma vez mais, engolir o messianismo marxista, na sua afirmação de que as condições sociais hão-de gerar sempre alguém que as represente e efective, de que a vontade do indivíduo não é mais do que expressão camuflada do inconsciente colectivo. Não. Obama é um alguém, possuidor de uma vontade e de um interesse próprios; como qualquer de nós, não é um agente meramente passivo, é também activo, pretendeu alcançar o estatuto a que chegou. Obama é, como todo o ser humano, dotado de livre arbítrio e, portanto, responsável.

Ora um dos pontos de conflito que tem havido entre si e o Rio d’Oiro é precisamente o grau de envolvimento de Obama em desmandos vários, permissividade incluída. E argumenta com exemplos de políticos de direita que sancionam e, por vezes, até dão respeitabilidade a essa permissividade. E isso, Carmo da Rosa, é não perceber o que está em jogo.

É claro que se quebraram tabus disparatados e inaceitáveis e que as pessoas que vivem nas sociedades ocidentais onde isso sucedeu passaram a viver já livres deles. Mas por isso mesmo é que a direita de hoje também não é já a direita anteriormente dominante, os seus horizontes alargaram-se à medida das transformações sociais. A direita puritana é folclore, a direita de hoje já se “debocha” com naturalidade e descontracção, tem uma concepção de vida muitíssimo mais aberta. Não usa essa autolibertação insidiosamente como arma política, não manipula as pessoas no que lhes é mais essencial e lhes tempera intimamente a vida para cimentar o seu domínio “teológico”. Argumentar com a existência de líderes liberais ou de direita que, a esse nível (e não só), têm o mesmo comportamento de Obama ou da esquerda “moderna” para afirmar que tal tipo de coisas nada significa é cair no engodo que a esquerda e Obama estenderam ao Ocidente crédulo e incauto, é, como dizia o meu paizinho, “o mesmo que comparar uma vaca com um molho de salsa”.

É a diferença entre assumir novas formas de viver e utilizá-las como arma, transformando-as na teologia de novos salvadores, que mudam a sua adopção lenta, natural e espontânea em versículos jurídico-legais moldadores dos Amanhãs por eles visionados como ninguém e de que serão eternos oficiadores. Em Portugal, Obama não está no poder, mas temos na universidade Boaventura de Sousa Santos, do alto de cuja fronte nos contemplam os séculos vindouros.

Esteja, portanto, descansado. Quando o Rio d’Oiro, o Lidador ou eu próprio, abardinamos com o Obama ou o apontamos directamente, não é por embirração, para fazermos reinar a injustiça cega de um qualquer sectarismo ou para achincalharmos alarve (deverei pedir desculpa por utilizar uma palavra, que, na sua etimologia, significa “árabe”?) ou gratuitamente. É porque Obama é, de facto, alguém muito perigoso para o Ocidente e para a presente e futura luta mundial pela liberdade. Não apenas pelo que faz nem pelo que diz, mas pelo que diz que faz e porque o faz. Porque, parafraseando Baudelaire, quando dizia que a maior vitória do diabo é ter-nos convencido de que não existe, a maior vitória da “esquerda iluminada”, do “progressismo” é ter-nos convencido de que não é (conscientemente ou inconscientemente) esquerda, mas apenas o ideário do cidadão de uma sociedade “verdadeiramente humana”.

Se eu quisesse sintetizar o essencial do que aqui fui pretendendo esclarecer, diria que os três princípios culturais que apontei são, afinal, como que o horizonte para o qual e pelo qual se moveu e se move a cultura ocidental. E sob esse aspecto, mais do que necessários, são para ela vitais. Mas que quando alguns determinam, por vaidade ou por insegurança sobre o que possa estar mais além do que conseguiram ver — o que constitui esse horizonte —, fixando-o essa sua visão como a Visão, isso torna-o, pelo contrário, letal, porque já nada mais há para descobrir do que o que é sabido, nada para fazer senão ruminar o permitido sob a capa da total ou quase total permissão, sob a guarda do juízo do pastor omnisciente. E isto engloba quer os antigos paraísos socialistas — tanto do ponto de vista da economia como do da cultura — quer as disposições legais introduzidas pela esquerda “moderna”. E também os socialismos rivais dos marxistas, como o nazismo e o fascismo.

Termino esta minha resposta, que se alongou ao tornar-se, afinal, já menos para si do que a-pretexto-de-si. Não sei se a ml voltará como o fez — inesperada, mas atenta e oportunamente — ao fim de tanto tempo, a ressurgir das sombras, num momento de aparente maior crispação entre alguns de nós, para falar de um blogue ridículo com ridículas posições de ridículos colaboradores. Não calculo para que se deu a senhora, de súbito, ao trabalho ou ao desfastio: mas, confesso, também não estou por aí além desejoso de o saber. De qualquer modo, não disporei proximamente de muitas oportunidades para responder seja a quem for. É que não tendo, como o Carmo da Rosa, armários para acabar de pintar, estou, no entanto, metido noutras tarefas que, além de me tomarem bastante tempo, me dão um gozo do caraças. E que nada têm a ver com política. Felizmente.

Até logo.

P.S. - A gravura que encima o post fica como o sinal da minha homenagem às cidadãs lésbicas e bissexuais de todo o mundo.

3 comentários:

O-Lidador disse...

Subscrevo e aplaudo.
Mais um texto de outra galáxia.

Carmo da Rosa disse...

José Gonsalo, um apontamento. O que é que eu tenho a ver com isto tudo? O que é que eu tenho a ver com esta avalanche de calamidades ideológicas muito bem escritas que você parece querer colar-me à pele?

E porque razão não posso votar no Obama nos EUA, na Holanda no Wilders, em França na Marine Le Pen e finalmente em Portugal no senhor Passos Coelho sem correr o risco de ouvir um sermão?

Isso, José Gonsalo, talvez seja perceber muito bem o que está em jogo, mas não significará, ao mesmo tempo, não perceber como funciona a democracia e o direito à dissidência?

José Gonsalo disse...

CdR:

Você, como qualquer de nós, votou, vota e votará como entende.
E leu, lê e lerá o que quer. E como quer. E até onde quer. E com o entendimento que ache suficiente.
Não lhe agradeço o que se refere ao "bem escrito" porque lhe deploro o que diz respeito à compreensão e à intencionalidade do que nele vê.
E, já agora, como sou democrata, o conceito de "dissidência" não faz parte do meu dicionário político.