sexta-feira, 27 de abril de 2012

Família, sexo e marxismo cultural


Tem havido aqui uma interessante troca de ideias sobre a família, sexo, marxismo e afins.
O Gonçalo tem-se esmerado e o CdR tem brincado que nem um índio.


Por falta de tempo vou dando a minha opinião, desgarrada como é típico das caixas de comentários.
Mas este é um assunto interessante, que lança gavinhas para a questão do marxismo cultural.

Começo por dizer que não subscrevo a ideia (feminista e protomarxista) de que as relações entre sexos são basicamente relações de poder. Eu sou daqueles que acham que os  homens devem ser cavalheiros e tratar as mulheres com cortesia e sensibilidade, mesmo aquelas mulheres de tal modo feministas que se eriçam com a ideia de serem consideradas senhoras. 
Porquê? 
Porque as mulheres são o tesouro mais precioso da espécie e  é por isso, racionalizado ou não, que elas devem ter precedência, em situações de perigo e não só.


Mas adiante.
Um dos dogmas do missal politicamente correcto e  hoje considerado "moderno", é a ideia do sexo como algo de natural, que não deve ser sujeito a ritualizações e constrangimentos culturais.  
Esta ideia de "libertação sexual", nascida nos idos de 60, foi, e é, essencialmente uma boa táctica masculina, já que o sexo "fácil" é sobretudo agradável aos homens. 
A biologia explica isto muito bem. Os homens são impelidos a espalhar ao máximo os seus genes, ao passo que, às mulheres, as limitadas possibilidade de procriação, exigem muito mais selectividade e investimento num único parceiro. 
Os homens são (todos, em menor ou maior grau), basicamente predadores sexuais e quem  acha que assim não é, ou tem uma sexualidade anormal, ou ainda não se olhou a  si mesmo.
As feministas, evidentemente, viram nesta ideia do sexo livre, um passo em direcção à igualdade. Pois se os homens são promíscuos, as mulheres não o podem ser também?
De algum modo é compreensível, se projectarmos estas ideias sobre o pano de fundo da repressão do tipo vitoriano e sobre a irrealista idealização feminina que a antecedeu.
Acontece que não é uma questão de  poder. Em a "Insustentável Leveza do Ser", Kundera dá-nos conta de uma personagem feminina que tenta agir como um homem, tendo sexo de forma mecânica, e acaba debulhada em lágrimas, porque aquilo não  só não lhe agrada, como a deprime.
Mas estas reacções, bem como as desconfianças da generalidade das mulheres relativamente a balneários mistos, dormitórios mistos, etc, sempre foram encaradas como retrógrado condicionamento cultural.
O resultado disto foi um mundo bem mais agradável para os homens do que para as mulheres.
Não é por isso estranho que hoje se assista a um feminismo reactivo em relação à chamada "libertação sexual". Como emblemas desta reacção, temos o  movimento lésbico, a hostilidade feminina à pornografia masculina, o conceito de assédio sexual, a vontade das mulheres em realçarem a sua feminilidade, etc.


A chamada família nuclear, que sobrevivou a várias décadas de escárnio, por parte das pessoas empenhadas na "libertação sexual", vem ganhando nova respeitabilidade.
E são, muitas vezes, aqueles que a ridicularizavam, que surgem agora a incensá-la, embora segundo um novo Evangelho que apenas fala de  amor.  E segundo esse vademecum, deverão formar uma famíla nuclear, todos aqueles que o queiram, desde que haja "amor". Independentemente do género, por exemplo.


 Ora a família tem algo a ver com amor, sim, mas sobretudo com responsabilidade. As crianças  não querem ser beijadas a toda a hora, antes desejam essencialmente segurança, entremeada com ocasionais demonstrações de afecto. Os rapazes, por exemplo, a partir de determinada idade, detestam ser apaparicados pelas mães.
E,  na realidade, não é pelo numero de beijocas e manifestações alambicadas de amor, que nós apreciamos os nossos pais, mas essencialmente por estarem lá, quando precisamos deles. Responsabilidade, segurança e, claro, também afecto.


De onde veio esta ideia, tão presente na cultura pop, de que é o amor que deve determinar a família?
Da desconstrução marxista.
Esta cultura popular, originada no pensamento marxista e recauchutada pelo marxismo cultural produzido na Escola de Frankfurt, passou anos a tentar desmembrar a família como instituição social e tenta agora reconstrui-la como uma associação puramente voluntária alicerçada em sentimentos pessoais.
Ora, na vida real, a família assenta sobre sentimentos impessoais. Não respeitamos pai e mãe por aquilo que são como pessoas, mas porque são o nosso pai e a nossa mãe. A sua autoridade primordial não surge porque a merecem, mas porque ela deriva naturalmente do seu papel.
Ora estas noções de papéis culturais e autoridade natural são blasfêmias  segundo o pensamento politicamente correcto. Elas apontam para a tradição, e indicam uma predisposição conservadora. 
Deus nos livre de tal anátema!
E é por isso que o marxismo cultural rejeita a "família burguesa", assente na responsabilidade e na autoridade, e procura recriar a familia exclusivamente como ligada pelos afectos. 
Só pode dar asneira, porque os "afectos" têm uma característica que torna os casamentos muito voláteis: a sua eternidade dura geralmente pouco tempo.

7 comentários:

Ladrilhador de cedofeita disse...

Sempr'abrir e mai´nada!
Assim é que se fala.
De carneirada está o mundo cheio e de gente que não quer assumir-se, também.

O-Lidador disse...

Ladrilhador, ouvi dizer que andas a ladrilhar em pleno Atlântico....

Ladrilhador de cedofeita disse...

Viva!
É verdade, há seis meses, em Angra. Podes "ver-nos" no site oficial.
Boa oportunidade para uma visita cultural a Angra ou Horta, pagas o voo e pouco mais.Aparece!

Carmo da Rosa disse...

Lidador disse: ”Eu sou daqueles que acham que os homens devem ser cavalheiros e tratar as mulheres com cortesia e sensibilidade.”

Um excelente princípio mas trata-se de um sentimento muito perto da compaixão do liberal rico em relação ao pobre, ou do esquerdista em relação ao bom selvagem… Em relação às mulheres, a cortesia e o cavalheirismo partem consciente ou inconscientemente do princípio que elas SÃO MAIS FRACAS (relação de poder!), de que precisam imperativamente do nosso auxílio para abrir a porta ou saltar do cavalo…

Gostaria, mas tenho uma enorme dificuldade em sentir-me mais forte do que um ser (e elas já atingiram este nível) que corre 100 metros em menos de 11 segundos, ou a maratona em 2 horas e 18 minutos (quando eu não consigo percorrer 42,195 km mais depressa, de bicicleta!). Ultimamente já fico todo contente quando consigo abrir um frasco de compota que uma mulher me estende, mas é cada vez menos frequente!

De qualquer forma, estou igualmente de acordo com uma atitude cavalheiresca em relação às mulheres, mesmo sentindo que implicitamente, mas inconscientemente, há discriminação positiva da minha parte. Mas a ideia de igualdade dos sexos é mais forte e impede-me de ver a mulher como “o tesouro mais precioso da espécie”, apenas um ser igual a mim.

Bom, abro uma excepção para esta anedota: A cena passa-se no Templo de Shaolin nos Himalaias.

Discípulo: Sábio Mestre, poderia ensinar-me a diferença entre uma pérola e uma mulher?

Mestre: A diferença, humilde discípulo, é que numa pérola pode-se enfiar por dois lados, enquanto que numa mulher somente por um lado.

Discípulo: (um tanto confuso) : Mas Mestre, com o devido respeito que vossa
Himalaiana sabedoria me obriga, ouvi dizer que certas mulheres permitem ser enfiadas pelos dois lados!

Mestre: (com um leve sorriso): Discípulo, nesse caso curioso não se trata de uma mulher, mas sim de uma pérola…

Meditemos.

PS. O seu texto tem mais que se lhe diga e merece mais atenção mas, como irrecuperável macho, está na hora de ir ver a Santa Bolinha…

O-Lidador disse...

"s trata-se de um sentimento muito perto da compaixão do liberal rico em relação ao pobre"

Não, não é condescendência. Se o primo considera que tratar alguém com cortesia só pode ser "compaixão", então presumo que quando se relaciona com alguém que admira, ou gosta, ou respeita, faz questão de o tratar à bruta.

Eu, por exemplo, sou cortês com os amigos e bruto com os inimigos.

Como eu acredito que o primo tb faz assim, o seu argumento fica respondido.

"a cortesia e o cavalheirismo partem consciente ou inconscientemente do princípio que elas SÃO MAIS FRACAS"

Erro.
Trata-se de ganhar a sua simpatia. Na verdade é exactamente o contrário do que diz. Se o CdR for, digamos, a uma recepção com a Rainha da Holanda, é óbvio que fará tudo para ser cortês, bem educado, refinado, simpático.
Pelo seu argumento, isso quererá dizer que considera ter mais poder que ela.
O que é mentira, pelo que o seu argumento se desfaz a si mesmo.


" a ideia de igualdade dos sexos é mais forte e impede-me de ver a mulher como “o tesouro mais precioso da espécie”, apenas um ser igual a mim."

Eu sei. A contaminação do marxismo cultural impede as pessoas de verem a realidade tal como é.

Uma coisa é a igualdade de direitos, outra coisa é o igualitarismo que pretende fazer crer que homens e mulheres são iguais quando está na cara que (felizmente) não são. Nem na biologia, nem na química, nem na psique.

E a realidade, meu caro, é que, quer queira quer não, as mulheres são mais importantes, para a espécie, do que os homens. A razão pela qual os homens morrem a lutam para as defender, em todos os tempos e lugares, está na biologia, não é nenhuma moda cultural nem sinónimo de atraso. (basta saber que homens bastam alguns, ao contrário das mulheres)
Pelo contrário, os grupos humanos que, por moda, não lhe deram o devido valor, foram varridos do mapa e do tempo.


Mas, mesmo que desdenhe da biologia, há um argumento prático para, em situações de emergência, por exemplo, se cultivar a precedência feminina e das crianças: é que são, em média, fisicamente mais fracas. Têm menos força muscular. Uma luta do tipo, "salve-se que puder" seria injusta, como muito bem entende.

Carmo da Rosa disse...

Lidador disse: ”….tratar alguém com cortesia só pode ser "compaixão", então presumo que quando se relaciona com alguém que admira, ou gosta, ou respeita, faz questão de o tratar à bruta.”

Primo, está a saltar etapas, entre tratar com cortesia e tratar à bruta há n possibilidades.

Lidador disse: ”Eu, por exemplo, sou cortês com os amigos e bruto com os inimigos.”

Eu COSTUMO ser formal com pessoas que não conheço e aberto e franco com os amigos. E digo costumo porque estas coisas não são precisas. Não se trata de uma ciência. Mesmo com amigos o tratamento difere consideravelmente de amigo para amigo. Tenho amigos a quem posso perguntar nas calmas se a mulher ainda está boa e outros com quem nem sequer posso abordar o tema sexo. As pessoas não são autómatos, adaptam-se às circunstâncias.

Lidador disse: ”Erro. Trata-se de ganhar a sua [da mulher] simpatia. Na verdade é exactamente o contrário do que diz.”

Ai sim? Conhece muitas mulheres que tentaram ganhar a sua simpatia jogando o casaco na poça para você passar por cima sem sujar os sapatos? Ou que o ajudaram a subir (ou a descer) de um cavalo? Ou – esta não há dúvida, quer mesmo engatá-lo! – uma mulher que lhe diz “Lidador, eh pá, dá cá a garrafa e o saca rolhas que tu com essas mãozinhas não dás conta do recado”.

Lidador disse: ” Se o CdR for, digamos, a uma recepção com a Rainha da Holanda, é óbvio que fará tudo para ser cortês, bem educado, refinado, simpático. Pelo seu argumento, isso quererá dizer que considera ter mais poder que ela. O que é mentira, pelo que o seu argumento se desfaz a si mesmo..”

Mau exemplo, porque a relação com a Rainha implica uma relação de poder que se sobrepõe largamente à relação de sexos diferentes. A rainha está acima do seu sexo e o meu comportamento vai ser estipulado pelo protocolo.

Lidador disse: ” Eu sei. A contaminação do marxismo cultural impede as pessoas de verem a realidade tal como é.”

Eu também sei que à força de se querer ver marxismo cultural em tudo, as pessoas ficam impedidas de ver a realidade tal como é.

Não é por acaso que a cortesia e o cavalheirismo são quase inexistentes em sociedades mais evoluídas (não tenhamos medo de dizer a palavra!), onde a emancipação da mulher já está praticamente concluída. Mas não há crise, este comportamento, muito em voga no século XVIII, pode ser agora admirado nas fantásticas sérias inglesas baseadas nos livros da Jane Austen - recomendo Sense and Sensibility.

Era a realidade nos tempos em que se pensava ser largamente suficiente as mulheres saberem tocar piano e falar francês. É evidente que ainda há partes do mundo em que uma exigência deste tipo é vista como uma condenável contaminação do marxismo cultural. Mas isso é REALMENTE sinónimo de atraso e significa que ainda há muita coisa a fazer em termos de emancipação.

Lidador disse: ” Uma coisa é a igualdade de direitos, outra coisa é o igualitarismo que pretende fazer crer que homens e mulheres são iguais.”

Absolutamente de acordo. Se há coisa que não suporto são mulheres que querem ser homens. Mas isto foi uma degeneração, felizmente minoritária, do movimento feminista nos anos 70. Hoje em dia as mulheres já compreenderam que são diferentes e que a emancipação da mulher não passa pela imitação dos homens. Mas há sempre aberrações: halterofilismo e boxe feminino.

O-Lidador disse...

CdR, tem de admitir que se está a contradizer.
Lá atrás disse que a cortesia para com as mulheres é um gesto de condescendecia, um tratamento do superior para o inferior, e agora diz que afinal a cortesia é um tratamento do inferior para o superior (foi exactamente o que disse a propósito da rainha da Holanda)

E note que é isso que eu digo. É-se mais cortês com quem nos é superior. Por isso, qed, o meu argumento sustem-se e o seu não.

A própria experiencia nos diz isso. A relação de conquista,quando um homem quer uma mulher, é sempre feita de gestos de de sensibilidade, de cortesia. Quem tem o "poder" é a mulher. É ela que retém, normalmente, a decisão de dizer sim ou não. E eu acredito que o CdR, quando se estava a atirar àquela que é agora a sua mulher, fez tudo com o maior cuidado, tentando captar a sua atenção e simpatia.

O que mostra que aquilo que escreve, neste tópico, está fundamentalmente errado.

Parece-me tb que confunde cortesia, boa educação, e sensibilidade, com tratamento formal.

Como é óbvio, está a confundir os conceitos.

Se leu Jane Austeen, sabe perfeitamente que se pode ser bruto e impecavelmente formal e vice-versa.

Eu posso chamar "bandido" a um amigo e dar-lhe um carolo na testa, e contudo estar a ser cortês e educado.

E posso chamar Vossa Excelência a alguém e estar a ser profundamente agressivo.

Mas enfim, estou em crer que o CdR entende perfeitamente que está a argumentar em terreno movediço e que, no fundo, sabe que não tem razão.