sábado, 9 de fevereiro de 2008

A terceira via

A esquerda bem pensante, que nos dias que correm já não sabe para onde se há-de virar, adoptou há já algum tempo o Modelo Sueco como o novo ursinho de peluche a que se agarra para, durante a noite, sonhar com os amanhãs que cantam. “Vêem como o dirigismo estatal proporciona altos níveis de desenvolvimento?”, proclamam, deslumbrados. Junte-se ao elevadíssimo nível de vida a beleza natural do país e das miúdas (todas modelos de capa de revista) e temos concretizado o há muito prometido paraíso do proletariado. O socialismo funciona!

A realidade sueca fica, no entanto, bem aquém dos tons de rosa da paleta colectivista. A beleza natural do país é sem dúvida arrebatadora. As gajas, bem... há melhores, há piores, e há outras mais ou menos. Como em toda a parte, convenhamos. O socialismo, esse, já deu tudo o que tinha a dar. Este bólide socialista está farto de ir à box.

O barco começou a meter água nos anos 70 e 80, os supostos “anos dourados” do modelo. O PIB per capita sueco, de quarto mais alto da OCDE em 1970, deu um trambolhão tão grande que em 1995 era já o décimo quarto – o igualitarismo preconizado pelo modelo sueco foi conseguido à custa do empobrecimento geral da população. Nada de espantar, apenas a receita habitual, não obstante a perplexidade e mortificação de alguns. As políticas keynesianas que durante tanto tempo tinham garantido o almejado pleno emprego, fugiram completamente de controlo no princípo dos anos 90, tendo uma recessão sem precedentes atingido o país. Em apenas três anos os desempregados ultrapassaram o milhão.

A compressão dos salários já tinha entretanto atingido as raias do absurdo, reduzindo tanto as diferenças de vencimento entre os possuidores de educação superior e o resto da população, que o número de estudantes a concluir cursos universitários baixou para metade. Em meados dos anos oitenta, os dias de baixa por doença atingiram o espectacular recorde de 26 dias por ano, em média, por trabalhador. Ou seja, mais um mês de férias pagas todos os anos à conta do bom do Estado. A Suécia tornou-se numa “nação de batoteiros”, como assumiu um deputado do parlamento. Num inquérito recente, 95% dos respondentes reconheceram já ter em alguma altura enganado o sistema, obtendo benefícios a que não tinham direito. Afinal parece que também na Suécia os indivíduos respondem a incentivos, e não a patacoadas politicamente correctas sobre “justiça” e “equidade”.

No seguimento desta crise cataclísmica e da eleição do governo Bildt de centro-direita em 1991, a tralha socialista começou a ir borda fora. Deu-se finalmente início à privatização dos sistemas de saúde e de educação, criaram-se os vouchers escolares, o sistema fiscal foi revisto. As reformas foram confirmadas e incrementadas pelos governos sociais-democratas seguintes, o que atesta bem da sua necessidade e urgência.

Nos dias de hoje a Suécia é um país a tender para a normalidade europeia de uma Holanda, fruto das grandes reformas introduzidas e da adesão à UE. Os impostos têm baixado (o IRC foi reduzido para metade, neste momento está fixado nos 28%), apesar da carga fiscal continuar elevada. No Index of Economic Freedom a Suécia está neste momento em 13º lugar entre 41 países europeus, bem à frente de Portugal. Na realidade, a Suécia sempre foi estruturalmente uma democracia capitalista, e já era riquíssima antes da engenharia social do modelo sueco.

A taxa de suícídio finalmente baixou para a média europeia (isto é brincadeira, a elevada taxa de suicído na Escandinávia nunca passou de um mito). Até o Systembolaget, que agora tem uma selecção fantástica de cerveja importada, já não é o que era. A loucura do PC sueco, essa, continua a rivalizar com a dos mais lunáticos do planeta.

O que vai sobrando da experiência colectivista? O projecto Um Milhão de Casas, os formigueiros que deveriam parir o homem novo sueco, são agora bairros degradados ocupados por emigrantes, abrilhantados com a obrigatória mesquita. Devido às restritivas leis laborais e à “concertação social” não se consegue arranjar empregos para estes desgraçados, que além disso, de tão apaparicados pelo protector estado, pouco incentivo têm para se mexer. O conformismo e pensamento único continuam a dominar, fruto de décadas de formatação ideológica, e a suspeição em relação à economia de mercado, incentivos económicos e iniciativa individual mantém-se também, ateada pela retórica de políticos e jornalistas. Tudo isto vai sendo contrabalançado pelo reconhecido pragmatismo dos suecos, que podem ser muito “socialistas”, mas não são parvos. Nem formigas.

O problema principal sempre foi e continua a ser o balofo sector público, o mais ineficiente da OCDE. Os USA recebem o dobro do bang for the buck nos serviços fornecidos pelo sector estatal. O que os tontos do costume parolamente elogiam constitui a principal fraqueza sueca.

Com os sociais-democratas fora do governo em todos os países escandinavos, talvez agora registe na cabecinha dos idiotas úteis o ridículo que é continuar a chamar socialistas a estes países. Camaradas! O Chavismo é agora oficialmente o Verdadeiro Socialismo (TM), prostrem-se em adoração perante esse novo pai dos povos e deixem os pobres dos suecos em paz!


Para saber mais:

The Swedish Experiment – Assar Lindbeck

Sweden after the Swedish Model – Mauricio Rojas

Economic Performance and Work Activity in Sweden after the Crisis of the Early 1990s - Steven J. Davis and Magnus Henrekson

Sweden Has Learned From Its Own Lesson - Johnny Munkhammar

The Local – notícias da Suécia em inglês




Bonus

As (magras) vantagens de um welfare sate generoso – excelente música pop.

Peter, Bjorn & John - Young Folks

Jose Gonzalez - Heartbeats

8 comentários:

RioDoiro disse...

"Este bólide socialista está farto de ir à box."

Heresia!

'Bólide' e 'box' são coisas de capitalismo sulfuroso.

Se tivessem pegado num Trabant e levado a delicada peça de reengenharia social à neve (não necessariamente siberiana) veriam que a febre lhe passaria.

.

Luís Oliveira disse...

[Se tivessem pegado num Trabant]


Lá está, do Trabant ao Volvo vai uma diferença abissal.

Unknown disse...

Excelente post.
É de facto espantoso como o mito da social-democracia nórdica continua a perdurar, cerca de 3o anos depois de uma dramática mudança de paradigma.
O que o LO escreve é História, mas esta, na cabeça de muitos tontos, continua a não valer nada quando confrontada com a ideologia.

A Suécia esteve quase a ir à bancarrota, as pessoas já não faziam horas extraordinárias, porque a taxação sobre elas as tornava desinteressantes, a malta que fazia dinheiro, como o tenista Bjorn Borg, etc, sediavam-se noutros países e a troca directa, impensável numa economia moderna, estabeleceu-se em pleno, como médicos a pagar com consultas os serviços do canalizador, etc, tudo para evitar que metade da transacção entrasse no cofre do Leviathan.
Hoje tudo mudou, como explica o LO.
Ali ao lado a Dinamarca, país que o impagável Daniel Oliveira classificou como um exemplo de "políticas de esquerda", é governada por um liberal da velha cepa que até ganhou um prémio Adam Smith por ter escrito uma obra escandalosamente intitulada " Do Estado Social ao Estado Minimo".

Nós por cá estamos atrasados 30 anos e até temos como alternativas de poder, dois partidos social-democratas.

Por lá há Carl Bildt e Rasmusson.
Por cá.....

Paulo Porto disse...

Pois é, LO, mais um mito que cai sem sequer ser preciso mexer-lhe muito.

Mais do que a queda de alguns mitos, impressiona o silêncio politicamente correto que encobre e dissimula a queda.

Anónimo disse...

esperamos então uma demonstração das virtudes do sistema liberal, sendo que o mais proximo disso (sem intervenção estatal em nada) é o caso africano.

Tiago Moreira Ramalho disse...

Só hoje li o post (ao contrário do meu era um bocadinho grande) e está excelente! Dá-nos uma óptima panorâmica sobre os últimos anos. Eu pessoalmente não tinha conhecimento de alguns factos aqui apresentados.

Já passou pelo Clube de Pensadores? Por lá eles andam a fazer o contrário de nós, a apresentar a grandes feitos escandinavos. A serem verdadeiros os factos, também por lá há muita coisa boa.

abraço

Luís Oliveira disse...

Há muita coisa boa na Suécia, mas não é por causa do socialismo.

Vou investigar o que dizem no clube dos pensadores.

Obrigado pelas palavras de apreço.

Um abraço

日月神教-向左使 disse...
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