segunda-feira, 31 de março de 2008

Mentalidades


Regressei hoje do paraíso fiscal: volumes de tabaco a 17 euros, garrafas de vodka a 3 euros. Esta ausência de impostos foi o motivo pelo qual eu encontrei, pelas paragens de Pas de La Casa, os mais variados espécimes humanos, que de humanos têm pouco. Bebedeiras, mocas, e outros acontecimentos marcaram esta viagem de finalistas, na qual participaram alunos de todo o país. Em Lloret del Mar, onde os preços são idênticos aos de Portugal, passou-se o mesmo. O paraíso fiscal não foi, portanto, o responsável pelo panorama encontrado.

Confesso que já estava à espera de encontrar o que encontrei. As viagens de finalistas promovem a emancipação daqueles que por cá estão mais sossegados e a confirmação dos que por cá estão mais activos. Em Andorra, em Lloret del Mar, ou em outro qualquer paraíso idílico para o comum estudante Português, acaba sempre por vir ao de cima a irreverência normal da idade e a insolência, a irresponsabilidade e a ignorância típica do grosso dos jovens que um dia serão adultos neste país.

Raras são as excepções à regra e eu próprio não sou um exemplo puro. Ninguém é exemplo. No entanto, existem limites que não transponho. E existem outros tipos que, tal como eu, também não transpõem. Estes tipos são as tais excepções à regra.

Alguma coisa anda mal quando acontecem casos como a da Carolina Michaelis. Alguma coisa anda mal quando encontramos índices de criminalidade altíssimos nas escolas. Alguma coisa anda mal quando encontramos elevadíssimos índices de deliquência juvenil. Alguma coisa anda mal quando se faz aquilo que se quer dos professores. Alguma coisa anda mal quando se desrespeita todas as normas de civismo.

A culpa? Cada caso é um caso, e um cada vez mais bicudo que o outro. Pode-se atribuir culpas ao governo e às suas políticas, mas isto é o típico "sacudir água do capote". A maioria das culpas está na educação dada pelos pais, nas mentalidades e na capacidade de reagir às adversidades que o mundo actual tece.

Não existe homogeneidade nos grupos/escalões afectados. Encontra-se de tudo um pouco nesta malha: ricos, pobres, inteligentes, ignorantes, brancos, amarelos ou negros. Uns com índices maiores, é certo, mas nada de muito abismal.

Quando me desloquei a Rio de Mouro para o encontro nacional de associação de estudantes (ENAEESB), tive a oportunidade de dialogar e trocar impressões com outros colegas de diferentes pontos do país. Qual não foi o meu espanto quando me deparei com uma retórica inflamada, ao estilo festa do Avante. O encontro nacional parecia um comício do Partido Comunista Português, com alunos a pedir mundos e fundos, a reclamarem com aquilo que não tem reclamação possível e a defender o que nunca pode ser defendido. Estes alunos irão representar os alunos do Secundário junto da ministra da Educação e, salvo erro, a minha delegação foi a única que votou contra a moção apresentada, que possuía enormes parecenças com o Manifesto do PC.

Convém referir o porquê destas parecenças: as escolas de Setúbal e de Lisboa estavam em plena maioria (alunos com menos possibilidades, maior criminalidade e maiores dificuldades); o pessoal que anda no secundário gosta muito de fumar uns charros e de beber uns copos. Esperava, quando me desloquei a Rio de Mouro, que alguém tivesse uma posição semelhante àquela que defendíamos. Porém, não encontrei ninguém e, quando me retirei juntamente com os meus dois colegas, ouviram-se apupos.

Isto
porque eu próprio tenho retórica inflamada...

Deixo-vos algumas das pérolas da moção:

"os exames nacionais são um filtro ao acesso ao ensino superior" - esta malta queria que existissem 1000 advogados, mas o pior é que não há mil crimes por resolver...

"cerca de 50% dos alunos recorrem às famosas explicações, sendo que a estas só podem recorrer aqueles que possuem melhores condições económicas" Propõem que se elimine as explicações, pois nem todos têm acesso a elas.

"(acerca da educação sexual) fica demonstrada a falta de informação"

"O actual governo PS" - esta frase é repetida 4 ou 5 vezes durante toda a moção.

"(acerca das aulas de substituição) os alunos fechados numa sala de aulas, onde nem sequer estão a desenvolver trabalho produtivo para a formação pessoal" - não estão porque não querem!

"a passagem da gestão das escolas para uma empresa nunca vai resolver o problema das escolas degradadas"

"Em termos de números referentes aos exames nacionais de 12º ano, estavam inscritos 176794 estudantes, e destes apenas 113148 tiveram oportunidade de se candidatar ao ensino Superior, pois os restantes tinham menos de 9,5 valores" - Será que não percebem que nem toda a gente pode entrar na universidade? Será que os alunos que não tiram positiva num exame directamente ligado ao curso que vão tirar, podem entrar nesse curso? Será que devemos permitir a entrada de quem não "merece" nas universidades?

"e saída para o mercado de mão-de-obra pouco qualificado sendo, portanto, facilmente explorados" - a 2ª pérola das pérolas.

"O objectivo do governo é afastar do sistema de ensino os filhos das classes mais baixas" a 1ª pérola das pérolas.

"(alguém da plateia) Em Cuba a educação é grátis!"

Tudo isto para quem está de fora ter noção da malta com que estão a lidar. Este pessoal só quer regalias, não quer obrigações nem tão pouco quer mexer uma palha para mudar aquilo que está errado. A revolta anarquizante enraízada dentro das escolas é algo bem patente nos estabelecimentos de ensino nacionais. Sempre que ocorre algo do qual não gostam, a culpa nunca é deles, é sempre do professor.

As negativas são culpa do professor. Os atrasos são culpa da rigidez do professor. Os preços da cantina são culpa da escola.

Gosto muito das escolas que frequento mas também concordo que poderiam e deveriam ser melhoradas. No entanto, não entendo nem partilho da opinião do grosso dos alunos que atribuem as culpas dos maus resultados e de tudo o que lhes acontece na escola aos professores, à escola, ou à ministra.

O problema está nas mentalidades. Os alunos não sabem lidar com a liberdade e a democracia que muitos no passado não usufruíram. Muitas vezes, quando usufruem destas, é para os caminhos errados.

Como diria DLM, foi a educação que o 25 de Abril nos legou.

4 comentários:

Range-o-Dente disse...

Rio de Mouro onde, à sombra de um dos poucos pinheiros ainda sobrantes da marabunta aramada, me dizia um falecido amigo: se não queres ter a vir que fazer o que ninguém quer fazer, estuda.

Luís Oliveira disse...

Em que filme de terror você se foi meter!

Luís Oliveira disse...

Ricardo, qualquer dia há-de explicar aqui no FI como é que escapou à formatação ideológica.

O-Lidador disse...

Excelente post, RB.
Mas não se admire. Nestas estruturas as visões de esquerda estão quase sempre em maioria, porque é malta que acredita estar em missão e, na sua ignorância, é facilmente manipulada pela demagogia pueril de quem apenas reclama do que não está bem.
Como de resto faz qualquer criança.

Poucos escapam ao marxismo cultural que domina o sistema de ensino.

Recordo-me de em 76 e 77, período em que a UEC dominava o liceu onde eu estudava, ter lançado, com mais alguns amigos uma Lista para a AE, a parodiar o assunto. Em vez de palavras de ordem distribuíamos rebuçados e contávamos anedotas.

A coisa chegou a dar para o torto e os activistas da UEC tentaram mesmo agredir alguns de nós.

E lá acabaram por ganhar....num liceu com quase 2000 alunos, votaram menos de 300.

O que é grave, é que muita dessa gente, que agora é naturalmente obtusa, irá estagnar na estupidez pela vida fora.
Esse é que é o drama...