sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Pequena contribuição para uma biografia


Quem ouviu Fidel desde os anos 90, isto é, depois de a URSS ruir, sabe que ele se referiu, de facto, à necessidade de reformas. Inclusive ao nível da agricultura, num país onde, devido ao clima, nem é preciso muito para até as pedras darem alimento, mas onde, apesar da colectivização das terras, desde há meio século a população andou sempre mal alimentada.

Disse-o, porém, ao mesmo tempo que continuava a fazer o tipo de afirmações a que o Rio d'Oiro se refere por sua vez: Cuba era, em tudo, o melhor sistema do Universo e Deus teria muito a aprender com Fidel quanto à noção de justiça. É evidente que as contradições passavam incólumes no crivo do bom-senso dos militantes e simpatizantes da esquerda, em pânico ao verem as ilusões e as esperanças com que haviam dado um sentido às suas vidas subitamente desfeitas e o monstro cujo combate fora a sua principal preocupação no dia a dia, esse monstro a quem pagavam as contas ao fim do mês, cada vez mais ameaçador, prestes a devorá-los definitivamente. A Humanidade, aquela cuja História absolveria Fidel, segundo a messiânica frase que proferiu e se tornou na autojustificação dogmática da acção das esquerdas dos anos 60, estava definitivamente perdida.

Havia, contudo, que continuar a luta: dois passos para a frente, um para trás, ensinara Lenine. Para isso, as divergências quanto à pureza de uma teoria sobre o caminho da realidade humana escrita nas condições sociais e, sobretudo, técnico-científicas (cujo desenvolvimento posterior alterou as estruturas das sociedades, planetariamente e de forma nunca vista) da segunda metade do século XIX, divergências que resultaram nas maiores fricções entre as duas grandes tendências comunistas, a Oriental e a Ocidental (nesta incluído o Vietname, por talvez por razões estratégicas), teriam que ser esquecidas. Os camaradas deixariam, por isso, de dizer mal uns dos outros, para não enfraquecer a revolução proletária mundial, e ajudar-se-iam tanto quanto os velhos ódios, ressentimentos e preconceitos lho permitissem. E chegámos ao século XXI.

Fidel não é estúpido. É vaidoso e teimoso como uma mula, um macho ibero-americano de ascendência galega. Mas não é estúpido, ao contrário das tristes figuras que pululam pelo resto da esquerda mundial, Portugal incluído e no PC que, nos bastidores, não dizia muito bem dele, mas sempre o apoiou da boca para fora, antes da queda do Muro por conivência estratégica com a Grande Mãe russa e, depois, pelos motivos já apontados. Desde sempre teve a consciência e a prática de ser um mero peão do jogo soviético. A única maneira de Cuba e - entenda-se - ele sobreviverem era a fuga para a frente, colocarem-se no papel do pequeno herói de alma grande, ganharem notoriedade e importância internacionais. Coisa, aliás, que tanto lhe afagava - afagou - o ego.

Fidel, porém, repita-se, não é estúpido. Mais: foi educado no rigor e exigência dos Jesuítas, aqueles que, desde a sua entrada na América Ibérica, nela procuraram dar corpo ao V Império profetizado pelo Padre António Vieira. Aqueles que apoiaram e se integraram em tantos movimentos revolucionários de pendor esquerdista sul e centro-americanos, que chegaram mesmo a fazer parte de governos como o da Nicarágua, quando Ortega chegou ao poder por via armada. Essa Ordem religiosa cristã, tida como eminência parda e verdadeiro mandador do baile do Vaticano até ser preterida, há bem pouco tempo, pela Opus Dei. A Ordem que não se coibia, nos anos oitenta, de apoiar publicamente a URSS. Misteriosos são os caminhos do Senhor…

Repito uma terceira vez: Fidel não é estúpido. Mas foi sempre capaz de mentir com os dentes todos para justificar a sua vaidade obsessiva. Envelhecido e enfraquecido, a realidade do mundo, nela incluída a realidade - cada vez mais próxima - da morte, tê-lo-ão obrigado a abrir-se à realidade em geral. É que já não vale a pena disfarçar o que as coisas são deveras, não nos livramos delas, é melhor sermos mais verdadeiros. Aliás, não ganhamos nada, nunca ganhámos nada em não o sermos, só os imbecis o podem supor. E, como não está no feitio dos Jesuítas dar diplomas por fax, a soma de conhecimentos e a formação de carácter da infância e da juventude venceram finalmente a batalha. Há que redimir-se daquilo que a vaidade murcha já lhe permite, há que preparar a transição para que o povo que o justificou não sofra mais. E outros, como os judeus, face ao islamo-fascismo. Os mentirosos de carreira da esquerda? Só têm que ouvir. Os outros, que fiquem a pensar, que só lhes faz bem.

Pela última vez: Fidel não é estúpido. É assim como o Paulo Bento: bom aluno, honesto e aplicado, mas a quem falta a imaginação para perceber a realidade do campeonato e, frequentemente, a das outras equipas e para conceber mais do que duas tácticas. A quem sobra, no entanto, a vaidade e, face aos desaires, castiga toda a gente e se mostra duro com a arbitragem. Alguém que é capaz, por teimosia, de levar quem comanda ao descalabro material e psicológico, pondo em risco ou mesmo condenando o seu futuro. De quem já se fala para substituir Queiroz e que, pelo andar do país, ainda corremos o risco de vir a ser convidado para primeiro-ministro. É que ele não é estúpido, mas apenas o homem orgulhoso e forte que Portugal adora e a quem deu a alcunha de Sebastião.

Tornei a não rever o texto. Volto na terça e, nessa altura, responderei aos comentários ao post anterior bem como aos que eventualmente sejam feitos a este.

13 comentários:

LGF Lizard disse...

Fidel irá passar à História como um ditador.

Se tivesse abandonado o poder após o derrube de Batista e permitido que o povo cubano vivesse em liberdade (parecido com o que Salgueiro Maia fez), Fidel seria lembrado como um libertador.

Devido ao seu ego, preferiu escravizar o seu povo.

Anónimo disse...

Fantástico! O gajo até se dá ares de quem percebe de futebol. Xau, até terça e manda mais cagadas.

RioD'oiro disse...

"Xau, até terça e manda mais cagadas."

A propósito de cagadas, depois conte-nos como correu a coisa com o sapo.

Adolfo disse...

Deveis agradecer ao camarada comandante Fidel o facto dle ter repudiado o negacionismo professado pelo Presidente do Irão.

Quem é amigo, quem é?

RioD'oiro disse...

"Quem é amigo, quem é? "

Isto aqui não vai por amigos. Você ainda não percebeu mas não vale a pena preocupar-se porque nunca irá perceber.

Anónimo disse...

Caro anónimo, sabe que o problema de discutir com idiotas como os que são capazes de produzir textos destes é que depois de ter de baixar os seus argumentos até ao nível deles, acaba por levar uma coça pela experiência de anos que eles já têm nesse campo.
Não se canse, homem, divirta-se.

RioD'oiro disse...

"baixar os seus argumentos até ao nível deles,"

Há quem lhe chame ser encurralado face aos factos.

Especializei-me em não alinhar em balões de vento que mais cedo que tarde se avariam.

António Silva disse...

Texto bem escrito e análise bem feita que, com algumas modificações de pormenor, poderia ser aplicado a muitos homens fortes da política e da história, que a "direita" admira.
Mais uma vez esta página reflecte um sectarismo bacoco.

Carmo da Rosa disse...

António Silva, e porque há gente de direita que suporta a custo o Berlusconi e o Sarkozy (à falta de melhor), a esquerda acha-se no direito de admirar o Fidel Castro ou mesmo Estaline e Ahmadinejad…

É este o sectarismo bacoco?

António Silva disse...

Carmo:
Ninguém nega o direito à critica, mas quando, por norma, se aponta a peça para um só sector corre-se o risco de ser atacado por trás. Bom, há quem goste...

Carmo da Rosa disse...

@ António Silva: ”Ninguém nega o direito à critica”

Silva, nos países ditos socialistas e nas suas filiais ocidentais (PCP e quejandos) o espírito crítico é pura e simplesmente inexistente e só se aponta para um sector. Nos países islâmicos idem dito, só se critica no sentido contrário da Meca e de cu para o ar - para mais facilmente serem atacados por trás..

Por falar em sectarismo.

Eu não tenho nenhum problema em publicar aqui textos críticos em relação a tudo o que você quiser, e até já propus ao blogueiro muito de esquerda do 5Dias, Renato Teixeira, (já agora, o convite pode ser para si também) ele publicar aqui as suas críticas ao terrível capitalismo. Mas é claro que depois ele teria de ter o fair-play suficiente para me dar a palavra no 5Dias. A resposta dele foi imediata e previsível: ‘não não e não Carmo da Rosa, cada um mija com a sua! (não foi bem esta a expressão que ele utilizou mas vai dar ao mesmo).

Silva, não espere de mim que diga bem do Islão e mal do capitalismo, quando eu nasci num país islâmico e vivo num país capitalista. Mas estou sempre disposto a dar a palavra a outros, que nasceram num país capitalista e emigraram para terras de mafoma…

António Silva disse...

Carmo:
Estive aqui a rever as poucas palavras que escrevi, tentando descobrir onde se pode ler uma defesa dos regimes totalitários de esquerda ou direita, de cariz religiosa ou laica, mas não consegui.
Devo pois deduzir que a resposta não era para mim.Islão, terrível capitalismo (??). Talvez fosse uma manifestação de auto critica, já que evoca uma experiência pessoal que decerto o marcou... sei lá...
É como lhe disse; a peça encravou e só atira para sul. Ainda vai sentir um bafo quente no pescoço...
mas será tarde demais. É o chamado aquecimento global...

Carmo da Rosa disse...

Silva, por favor não se arme tanto em vítima!

Eu também revi as palavras que escrevi e nada! Em nenhum comentário disse que você defende regimes totalitários - não faço a mínima ideia! Mas se o fizer com qualidade, argumentos e lógica é sempre muito bem vindo. Apenas tentei responder ao seu comentário - de forma demasiada longa confesso - onde acusa José Gonsalo de ‘sectarismo bacoco’.